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O ciclo populista tem início com a Revolução de 1952 e, em atuação conjunta com os ciclos colonial e liberal, empreendem a eliminação das identidades comunitárias e étnicas dos povos indígenas. Inaugurando um novo espaço político para os setores populares, a Revolução de 1952 resultou de um processo político e social que se desenvolveu, sobretudo após a Guerra do Chaco, com pretensões de desestruturar o Estado oligárquico a partir do confronto e a ação política de amplos setores sociais que incluía operários, camponeses, população indígena e pequena burguesia. Esse período de intensa atuação das forças operárias mineiras promoveu mudanças históricas em direção às demandas da população e à conquista de democracia e direitos, em um contexto no qual desequilíbrios e tensões decorrentes da estrutura capitalista orientada para a exportação coexistiam com uma organização agrícola arcaica e estagnada. Até os anos 1950, a grande maioria da população indígena e camponesa estava sujeita aos grandes proprietários, submetida a uma relação de trabalho servil e, efetivamente, excluída da cidadania. Sustentadas pelos ideais nacionalistas, as propostas revolucionárias englobavam o fim do latifúndio e democratização do acesso a terra através das demandas de reforma agrária; nacionalização das minas e petróleo; voto universal estendidos a mulheres e indígenas; educação gratuita e universal, a imposição do castelhano como idioma nacional, criação de símbolos pátrios e a adoção da cultura mestiça como identidade boliviana.

Segundo a crítica de Zavaleta (1992), a ideia inicial de golpe de Estado por parte do MNR se transformou em um grande movimento de massas com anseios de democratização e nacionalistas, superando a intenção prévia de substituição de um grupo de poder por outro no Estado. Desse modo, em vez de conspiração e golpe de estado por parte do MNR, ocorreu uma insurreição popular vitoriosa que pressionou pela transformação do Estado e substituição do aparato de poder oligárquico. Dito de outra forma, a força dos movimentos populares impulsionou dinâmicas não previstas e redefiniu o caráter do processo político. O novo governo não pretendia uma ação decisiva e de ruptura com a ordem oligárquica anterior, mas tomar o poder e atuar alinhado à legitimidade constitucional existente e afastado das perspectivas radicais.

Segundo Oliveira Andrade (2007, p. 84), com a Revolução de 1952:

(...) duas políticas confrontaram-se desde o princípio da revolução: de um lado, a dinâmica revolucionária e independente das massas e, de outro, a ação mobilizadora e institucional do governo do MNR, voltada a reordenar e conter a ruptura e a radicalização. Esses dois projetos, na verdade perspectivas revolucionárias de classe diferentes, aglutinavam-se de modo vago nas propostas democráticas e nacionalistas. No entanto, as demandas pela nacionalização das minas e a reforma agrária vão se consolidando em confronto com a força dos setores conservadores e a pressão internacional dos Estados Unidos. Em 1952, foi decretada, então, a nacionalização das minas de estanho e a reforma agrária, provocando uma reação imediata dos interesses dos setores dominantes e representantes do capitalismo internacional, que influenciaram imediatamente os rumos do novo governo. Após causar impactos na estrutura política e econômica do país, a Revolução de 1952 se afastou dos setores operários, camponeses e da esquerda e se converteu em um processo de reforma com forte influência dos Estados Unidos. De fato não houve proposta de uma nova constituição, mas a consolidação de posições reformistas e conservadoras.

De forma ambígua, o MNR não apoiava as mobilizações populares e suas demandas, mas tentava negociar e fornecer respostas que garantissem o controle desses movimentos e, ao mesmo tempo, assegurassem ao partido o apoio popular. Assim, a nacionalização das minas e a reforma agrária limitaram-se a medidas contraditórias que não abalavam a estrutura política e econômica. No poder, o MNR pretendia criar uma nação moderna e sem indígenas, que seriam convertidos em camponeses produtores adaptados ao modelo de modernização, e para isso era necessário aniquilar todo o trajeto de lutas e resistências desses povos.

O Estado de 1952 consolidou o Estado nação e, para tanto, incorporou formalmente os setores populares, entre eles o indígena, mas como cidadão e camponês, agora nos moldes da cidadania liberal. Tal imposição, aniquilava a diversidade e identidade étnica do indígena e suas formas comunitárias de organização sociopolítica: nascia índio camponês. Sob a direção do MNR e a força popular, a revolução promoveu o surgimento de distintas maneiras de participação camponesa na arena política, que em um primeiro momento legitimaram o novo governo, trouxeram mudanças democratizantes e abalaram as estruturas de poder anteriores oligárquicas e dos grandes proprietários. Entretanto, passado o período inicial, os órgãos de participação operária e camponesa foram mediados pela ação do Estado.

O processo de fortalecimento do movimento camponês se deu localizado em algumas regiões do país, próximo aos setores urbanos e sindicatos operários, como em Cochabamba, enquanto em algumas regiões rurais, onde havia maior força de comunidades

indígenas vinculada à economia de subsistência, se mantiveram fora desse movimento, como nas terras baixas. A reforma agrária se concentrou em algumas regiões do país, como o altiplano e vales centrais, mas manteve a estrutura fundiária na parte oriental (TAPIA, 2008)

A nacionalização das minas e a reforma agrária se deram através de negociações e acordos parciais de concessões. De caráter independente politicamente, as organizações sindicais camponesas superaram o próprio caráter sindical e se tornaram “expressão de uma retomada das tradições comunais indígenas e de recriação de formas ancestrais de decisão coletiva mescladas às tradições do sindicalismo urbano, assumindo assim a forma de poderes locais soberanos” (OLIVEIRA ANDRADE, 2007, p. 113).

Esse é um segundo momento de construção do Estado nacional, o “Estado de 1952”, ampliando as bases sociais do Estado, na medida em que reconhecia a cidadania e incorporava povos até então excluídos da esfera estatal, mesmo que ainda sob um horizonte de dominação. Desse modo:

(...) os processos de democratização e homogeneização cultural, iniciados como consequência da Revolução de 1952, em parte transformaram o regime de exclusão étnica e cultural do Estado oligárquico. O voto universal amplo e o direito de cidadania política a milhões de indígenas anteriormente marginalizados de qualquer consulta na tomada de decisões estatais. Igualmente, a educação estatal e gratuita que começou a se expandir pelas áreas rurais permitiu que indígenas, os quais constituíam a imensa maioria de analfabetos marginalizados de um conjunto de saberes estatais, agora pudessem estar mais perto dela, abriam-se assim certas possibilidades de ascensão social, por meio da acumulação de capitais culturais escolares. Todas essas medidas, juntamente com a criação de um mercado interno, a individualização da propriedade agrária e a estatização dos principais centros produtores de excedente econômico, inscreviam-se claramente num programa de national-bulding, cujo protagonista era o Estado” (GARCIA LINERA, 2010a, p. 170, grifo do autor).

Entretanto todas as possibilidades de igualdade formal de acesso por parte dos povos indígenas aos benefícios sociais e políticos, passavam por vários filtros que os excluíam e, mais uma vez, reforçavam o sistema de dominação e discriminação, reafirmando a submissão desses povos através do aniquilamento de suas línguas, seus saberes culturais e outras formas de organização política em prol do castelhano como língua oficial, da cultura legítima e do modelo político regulado pelo Estado. A esses povos restavam os lugares mais baixos na hierarquia social.

Submetidos ao processo de burocratização, os sindicatos camponeses foram se afastando das bases sociais e, gradualmente, incorporados ao Estado, que assumiu o papel de agente intermediário dos grandes produtores de minério, configurando uma estrutura econômica dependente do capitalismo imperialista e agravando a desigualdade social e

econômica interna. A reforma agrária se desdobrou mediante mecanismos burocráticos e clientelistas, que logo se tornaram manipuláveis politicamente de tal modo a impedir os objetivos estabelecidos. Mais uma vez, a legislação ignorou a forma de propriedade coletiva e comunitária dos povos indígenas, promovendo a concentração de terras em mãos de um pequeno grupo de poder político (ALBÓ, 2008).

Segundo Mesa Gisbert (2007), apesar de suas limitações políticas, as mudanças decorrentes da Revolução de 1952 são fundamentais para compreender a Bolívia contemporânea, pois a estrutura econômica dependente e controlada pelo capital privado da mineração e fortemente agrária se transformou em uma economia com maior intervenção do Estado, em direção à produção econômica mais diversificada. Outras medidas relevantes foram a reforma agrária, que buscou promoveu a integração do camponês/indígena à vida nacional; o voto universal, que permitiu uma maior participação eleitoral e mudança na representação política; o acesso à educação; a legislação do trabalho e, principalmente, a emergência de anseio pela construção do Estado nacional, sob as bases de uma corrente nacionalista com diferentes matizes. Esses fatores contribuíram para o surgimento da corrente indianista nas décadas seguintes, observa o autor.

Com a reforma agrária, a Revolução de 1952 adotou uma política de integração dos camponeses e dos indígenas ao projeto nacional, negando as tradições, os valores e a vida comunitária: o indígena deveria se transformar em camponês e assim dissolver o universo comunitário e seus valores culturais. Segundo, Cusicanqui (2010b, p.149):

(…) si antes el indio estaba excluido de facto del sistema democrático formal porque se lo situaba en un nivel inferior en la escalera positivista de la evolución humana; ahora, con el voto universal, se le ha otorgado una ciudadanía de segunda clase, según la cual no es capaz aún de ejercer por sí mismo los derechos civiles, y debe ser “conducido” y “orientado” por protectores y dirigentes mestizos, hasta que adquiera la mayoría de edad: e.d., hasta que sepa comportarse de acuerdo con los cánones de la propiedad privada, el libre albedrío y la racionalidad de la cultura dominante.

Mesa Gisbert, (2007, p. 498) lembra que, nos anos 1950, “la ideia de reconocer territorios indígenas en el oriente simplemente no existía. Las etnias de los llanos estaban olvidadas y no formaban parte real de la sociedad activa del país”. Cabe mencionar que a Reforma Agrária de 1953 não levou em conta a realidade local indígena fundamentada na relação comunitária e em formas específicas de trabalho coletivo das populações indígenas, e estabeleceu a base de propriedade privada e individual do minifúndio.

O Estado republicano se constituiu sob uma legitimidade restrita aos criollos e mestiços, proprietários privados e fazendeiros e excluiu indígenas e mulheres. Isso foi

possível porque se mantiveram as relações de poder coloniais de discriminação e subordinação sobre povos indígenas. Tapia (2010a) afirma que a dominação colonial pressupôs a negação do indígena, enquanto a dominação capitalista reafirmou o poder mediante a desarticulação das formas de organizações social e econômica pré-capitalista comunitárias.

Contudo, é importante registrar que, antecipadamente aos outros países latino- americanos, a Revolução de 1952 promoveu o reconhecimento dos direitos da cidadania, o voto universal, a educação generalizada, a reforma agrária e participação política, embora tais mudanças representassem uma perspectiva civilizadora que visavam converter o indígena em camponês e dissolver o aspecto multiétnico da população na mestiçagem, sobretudo na região andina, onde havia um maior impacto dos processos coloniais e neocoloniais. As ambiguidades desse processo são esclarecidas por Albó (1994, p. 54):

(…) estos ex-indígenas seguían sintiéndose marginados y empezaron a quejarse públicamente de que se les trataba como a "ciudadanos de segunda" o incluso como a "extranjeros en su propia tierra". Por una parte, el proyecto uniformador del nacionalista MNR originaba estas quejas al haberse quedado a medio camino. Pero, por otra, era esa integración siquiera parcial lograda por el gobierno del MNR, la que había abierto los ojos de esos nuevos ciudadanos. Por eso podían ya hacer sus propios reclamos. Estaba empezando una nueva fase.

Nesse sentido, apesar de todas as críticas às políticas do governo revolucionário, Zavaleta (1992, p. 82) considera que a partir da Revolução de 1952, os indígenas “se vuelven, por primera vez y para siempre, en hombres interiores al marco humano del estado, hecho que implica una vasta democratización de la sociedad boliviana”, pois passaram a ter direitos de cidadania, como o direito ao voto e à educação universal. No entanto, tais mudanças não significaram a inclusão destes povos ao projeto nacional e mestiço do governo revolucionário. Eles foram pela primeira vez levados em conta pelo Estado desde que fosse ignorada sua identidade étnica, o que significou convertê-los em camponeses ou cidadãos, ainda sob uma perspectiva de sujeição.

No nível legal, o Estado de 1952 garantiu os direitos políticos individuais, mas ao mesmo tempo manteve e construiu e representação naturalizada das diferenças e habilidades entre dominantes e dominados, que agora se desloca da esfera do Estado para se consolidar nas práticas sociais racistas e discriminatórias. Retomando a noção de ciclos históricos, as transformações decorrentes da Revolução de 1952 se amalgamaram às reformas coloniais e liberais e, de forma agressiva e violenta, imprimiram a exclusão e oprimiram os povos nativos, tanto da região andina como das terras baixas.

Benzer Belgeler