No processo de mapeamento dos casos27, encontramos, sem dúvida, muitos exemplos de destruição de estátuas, mas, em grande parte, tratava-se, por um lado, de casos de processos de Damnatio memoriae28 empreendidos em nome do Imperador, como casos oficiais de apagamento da memória de pessoas concebidas como inimigas do Estado romano e, por outro lado, de casos em que houve um processo de reutilização de material para a confecção de outras estátuas29, ou ainda, alguns casos, nos quais as estátuas podiam ser confiscadas pelo governo imperial e derretidas para cunhagem de moedas30. Nenhum desses casos poderia ser compreendido como casos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) ou foram interpretados pelos antigos como crimes.
No contexto da Antiguidade Tardia, os casos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) relacionados às estátuas parecem terem sido pouco explorados, em nossa opinião, talvez por uma falta de dados e/ou documentos que discorram sobre esse tema, talvez por uma pouca atenção dada a essa temática pela historiografia especializada31 ou ainda, por nossa
27 Esse mapeamento foi feito mediante algumas documentações escritas de que tivemos acesso e possibilidade de
leitura e por intermédio da historiografia contemporânea.
28 Os processos de Damnatio Memoriae, no século IV d.C. também são significativos. Cf.: O capítulo Décimo da
obra Mutilation and Transformation: Damnatio Memoriae and the Roman Imperial Portraiture, de Eric R. Varner (2004:214-24), o qual discorre sobre alguns casos de damnatio memoriae.
29 A reutilização de materiais de estátuas, reciclagem e substituição mediante transformação da imagem inicial
em uma outra imagem como representação de um outro imperador são procedimentos recorrentes dentro da História do Império Romano. Cf., por exemplo, vários casos nas Crônicas de João Malalas. E os trabalhos recentes de Carlos Augusto Machado conjuntamente com o Prof. Bryan Ward-Perkins sobre o projeto das últimas estátuas da Antiguidade Tardia.
30 Cf. L’Empire Romain em mutation de Aline Roussele e Jean-Michel Carrié, p. 245-247.
31 Os casos de crime de lesa-majestade relacionados a estátuas nos contextos da República Romana e do Principado são significativamente mais explorados pela nossa historiografia contemporânea. Embora esses casos
de maiestas específicos sejam pontuais podemos ter mais detalhes dentro desses contextos. Na República Romana, conferir, por exemplo, o caso de Gaio Verro que foi acusado de ser responsável por um mau governo durante seu mandato como praetor na Sicília e, em razão disso, um tribunal foi instaurado para julgar os atos considerados ilegais daquele magistrado e Cícero, nomeado promotor do caso, escreve os discursos que ficaram conhecidos como Verrines (ou In Verrem), nos quais apresenta as acusações e o processo contra o acusado. As acusações contra Verro eram as mais diversas. Dentre essas acusações, consta a acusação de maiestas relacionadas à remoção de algumas estátuas. No Principado, temos notícia, até o momento, de dois casos de acusação de maiestas relacionados a estátuas e que foram citados nas Annales de Tácito. Primeiro, é o caso de Faiano e Rubrio acusados de maiestas porque havia colocado à venda uma estátua de Augusto (Tácito, Annales, 1, 73, 2-3). Segundo, é a acusação de crimen maiestatis contra Grânio Marcelo. Tácito (1, 74, 1-6) nos informa sobre o caso de Grânio Marcelo que na época era Governador da Bitínia e recebeu uma dupla acusação: Cépio Crispino, quaestor de Grânio Marcelo, o acusou de ter caluniado Imperador Tibério e Hispo Romano, acusou esse governador de ter colocado uma estátua dele em posição mais alta do que as dos Césares e ainda de ter removido a cabeça de uma estátua de Augusto e colocado em seu lugar uma cabeça de Tibério. A acusação de maior gravidade e que fez Tibério refletir sobre a seriedade do caso repousará, no entanto, na segunda acusação a qual se referia às ações contra a estátua de Augusto (KATZOFF, 1971:682), o que nos indica que as acusações envolvendo a manipulação desses objetos apresentavam agravantes já neste contexto.
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impossibilidade de explorar tamanho manancial de documentos provenientes deste contexto histórico, o que não significa, em qualquer dos casos, que estes exemplos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) não tenham existido. Pensamos que estes casos existiram juntamente com uma série de outras acusações de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) mais exploradas nesse período, como os casos de acusação ilegal de magia, adultério32.
Assim, embora não possamos contar aqui com um conjunto agregado de casos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) associado à destruição e zombaria de estátuas, de ponto de vistas diferentes provenientes de documentações diversas, nós podemos, pelo menos, dar notícia de dois casos específicos dentro de nossa documentação que poderiam ter sido interpretados sob o caso de maiestas (VxEHLD/ NDTRVfZVLM).
Um fornecido pelo próprio Libânio em As Orações sobre o Levante das Estátuas e outro fornecido pelo próprio João Crisóstomo em As Homilias sobre as Estátuas ao Povo de Antioquia. O exemplo fornecido por Libânio refere-se à destruição de uma estátua de Constâncio na cidade de Edessa. O exemplo fornecido por João Crisóstomo é sobre uma estátua de Constantino. Vejamos.
Libânio menciona a destruição de uma estátua de Constâncio que, segundo ele, é um acontecimento de mesma gravidade que a destruição de estátuas ocorrida no Levante das Estátuas. Segundo Libânio, a diferença repousará na reação imperial, mas, em nossa opinião, outras diferenças podem ser encontradas na comparação dos casos. Vejamos as citações. Libânio (Or. XIX, 48-49) menciona a destruição da estátua de Constâncio, em Edessa:
“Ah, mas o que aconteceu então,” será questionado, “foi o assassinato de Teófilo. E agora nós estamos preocupados com uma ofensa contra as estátuas imperiais.” Agora eu vou ignorar o fato de que aquele incidente foi também uma ofensa contra o imperador e demonstrarei que, precisamente sob circunstâncias similares a estas, Constâncio permaneceu fiel a si mesmo. Na cidade de Edessa, os habitantes, ressentidos por algum tratamento que eles receberam, derrubaram a estátua de bronze dele [de Constâncio], e derrubando-a com a face para baixo, erguendo-a, como fazem com as crianças na escola, desferiram golpes por todos os lados, ainda é preciso se ressaltar que qualquer pessoa que tenha recebido tal surra estava muito longe de ter a dignidade imperial. Quando Constâncio soube disso, ele não se enfureceu, ele não puniu, nem humilhou a cidade de alguma maneira. Ele se recusou a puni-los [...]. Este é um tal comportamento tão nobre e honrado, que as suas faltas em assuntos militares ficavam disfarçadas pela sua moderação.
32 Cf. Penal practice and penal police in Ancient Rome, de O.F. Robinson (2007:135-7). Em Origo Constantini Imperatori, um relato acerca da ascendência familiar, carreira e reinado de Constantino e que também apresenta
dados sobre a disputa política entre Constantino e Licínio (LÓPEZ HERNANDO & LASALA NAVARRO, 2007:271), há um caso de destruição de imagens e estátuas de Constantino na cidade de Emona e Licínio seria o responsável por essas destruições. Embora esse caso, entre outros, mereçam um estudo mais particularizado, o que nos é revelador é, justamente, a persistência da prática de destruição de imagens imperiais indicando que essa ação não desapareceu no século IV d.C. e que poderia ser interpretado como lesa-majestade dependendo do contexto, das circunstâncias e dos interesses envolvidos.
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O exemplo de João Crisóstomo, por sua vez, trata-se da estátua de Constantino. Assim discorre João Crisóstomo (De Statui, Hom. XXI, 11):
Eu narrarei para vocês um antigo pedaço de história para que vocês entendam que nenhum exército, nem armamentos de guerra, nem dinheiro, nem uma multidão de súditos, nem qualquer outra coisa excetuando a sabedoria de alma e a brandura farão os soberanos mais ilustres. A história é relativa ao abençoado Constantino que, em uma ocasião, quando uma estátua dele próprio foi atingida por pedras, e muitos o instigaram a agir contra aqueles que praticaram a ofensa dizendo que estes tinham desfigurado toda a sua face espancando-a com pedras, ele acariciou sua face com sua mão e rindo mansamente, disse: “Eu sou incapaz de perceber qualquer ferida em minha face. A cabeça parece tão perfeita e a face também bastante saudável”. Dessa maneira, aquelas pessoas envergonhadas, desistiram do mau conselho.
Nesses dois acontecimentos, onde as estátuas de Constâncio e Constantino foram atacadas, tanto Libânio quanto João Crisóstomo alegam uma reação imperial menos agressiva se compararmos a expectativa e os rumores da resposta do imperador Teodósio no caso do levante que estudamos.
Aqueles dois casos evocados podem, portanto, ser interpretados como exemplos sobre como deveria ser a maneira como o imperador Teodósio deveria agir no caso do Levante das Estátuas. Mas o que esses dois casos não revelam é a multiplicidade de possibilidades de uma reação imperial em casos como estes.
Na verdade, as reações imperiais poderiam ser as mais variadas possíveis dependendo do imperador alvo da ofensa, das circunstâncias e da própria ofensa em si33. Mas mesmo assim, todas as reações poderiam estar dentro da legalidade e ter legitimidade de reação. Libânio (Or. XX, 13), por exemplo, argumenta que a popularidade do exercício do poder imperial depende das cidades, da multidão de seus soldados, da legislação, da sabedoria e da administração escrupulosa da justiça bem como depende da habilidade de se perdoar os delitos das cidades. Não obstante, em outros excertos, o sofista aponta que havia legalidade para agir de qualquer maneira que o imperador achasse justo. Sob o ponto de vista do sofista, Teodósio teria conhecimento disso tudo, mas mesmo assim, argumenta que o imperador tem bases legais para executar aqueles que cometeram os delitos mais sérios (Libânio, Or. XX, 13-14; Or. XXIII, 14) Nesse sentido, a particularidade desse levante também estaria relacionada ao posicionamento imperial e à maneira como Teodósio, em particular, gerenciaria e responderia a esse tipo de conflito dentro do padrão de ação desse imperador em situações similares.
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Na versão de Libânio (Or. XX, 24) e, particularmente, sobre o caso de Constantino, as estátuas deste imperador parece não ter tido histórico de destruição, o que contradiz a versão de João Crisóstomo. E mesmo com referência à versão de Libânio sobre a estátua de Constâncio, há outra versão, contada pelo próprio sofista na Oração XX, 27, fornecendo outras circunstâncias de acontecimentos que talvez poderiam mudar a interpretação desse incidente. Comparemos as duas versões propostas pelo sofista:
A destruição da estátua de Constâncio em Edessa
Libânio de Antioquia (Or. XIX, 48) (1) Libânio de Antioquia (Or. XX, 27) (2) 48. “Ah, mas o que aconteceu então,” será
questionado, “foi o assassinato de Teófilo. E agora nós estamos preocupados com uma ofensa contra as estátuas imperiais.” Agora eu vou ignorar o fato de que aquele incidente foi também uma ofensa contra o imperador, e demonstrarei que, precisamente sob circunstâncias similares a estas, Constâncio permaneceu fiel a si mesmo. Na cidade de Edessa, os habitantes, ressentidos por algum tratamento que eles receberam, derrubaram a estátua de bronze dele [de Constâncio], e derrubando-a com a face para baixo, erguendo-a, como fazem com as crianças na escola, desferiram golpes por todos os lados, ainda é preciso se ressaltar que qualquer pessoa que tenha recebido tal surra estava muito longe de ter a dignidade imperial. 49. Quando Constâncio soube disso, ele não se enfureceu, ele não puniu, nem humilhou a cidade de alguma maneira. Ele se recusou a puni-los [...]. Este é um tal comportamento tão nobre e honrado, que as suas faltas em assuntos militares ficavam disfarçadas pela sua moderação.
27. O único que resta para realizar a comparação é Constâncio, que sofreu insulto pessoal por meio de sua estátua localizada na área limítrofe da Síria. Ainda se lembrarmos de Edessa, os seus festivais, a tradição dos festivais, e o fato de que isso é um procedimento antigo estabelecido, pelos quais todos os imperadores já passaram, e por causa de sua antiguidade produz mais prazer do que dor, alguém pode achar que existe uma grande diferença entre os dois incidentes que se referem às estátuas, na verdade, toda diferença entre insolência e diversão. 28. Eles dizem que essa prática se desenvolveu por meio da ciência dos sábios, mesmo até quando eles procuravam satisfazer alguns dos deuses dessa maneira e festejavam-nos com abuso jocoso, para que eles ficassem satisfeitos com isso e não fizesse qualquer demanda futura à população. Certamente, isso não pode ser duvidado, quando você os vê zombando de si mesmos e os notáveis entre eles fornecendo a ocasião para corridas de cavalos. Eles realizam essas corridas todos os anos, e tem a imunidade pela ocasião e pelo número de participantes não apenas pelo que eles dizem, mas por absolutamente tudo que possa fazer o festival mais divertido. E se uma autoridade se torna injustificadamente irritado e inicia uma campanha de punição, então, imediatamente ele é considerado um pequeno de alma, não familiarizado com os costumes religiosos.
A inclusão desses exemplos de reação menos agressiva proposta por Libânio e João Crisóstomo podem ser interpretadas como recursos retóricos desde que sejam compreendidos aqui que os recursos retóricos implicam em elementos que os compõe [digo, os
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procedimentos de ataques às estátuas, o direcionamento a estátuas imperiais, a reação imperial, a interpretação de ofensa], e que todo esse conjunto tem equivalência com acontecimentos recorrentes na realidade do século IV d.C. e também neste acontecimento em particular, no Levante das Estátuas.
Em outras palavras, se esses exemplos de ofensas por destruição de estátuas evocados por ambos os autores foram aqui forjados ou não, não temos dados suficientes, até o momento, para interpretá-los. Mas é interessante observar que, forjados ou não, estes exemplos mostram um sinal de compartilhamento cultural comum, dada a semelhança de procedimento entre ambos os autores e que podem ter correspondido a casos e exemplos da própria realidade tardo-imperial.
Apesar de suas particularidades, o que esses exemplos também nos mostram é como a estrutura física da cidade, em termos gerais [se posso aqui generalizar, com fundamento em trabalhos de vários professores e especialistas no assunto], ou, de maneira mais específica, as imagens imperiais foram alvos recorrentes de ataques individuais, mas predominantemente dos ataques coletivos, no contexto da Antiguidade Tardia. Esses casos também revelam a dimensão desses tipos de acontecimentos que se constituem ainda representativos e importantes [seja na escolha de se evocar um exemplo na retórica de um discurso, seja na ação efetiva dentro de um conflito social]. Os alvos de ataque não são escolhas fortuitas. As imagens imperiais permanecem como símbolos representativos de uma ordem de coisas que implica também numa forma determinada de gerenciamento de conflitos e sedições.