Fonte: EUCLYDES, 2011, p. 4395.
Fica claro que, além da renda diferencial 1, a outra renda estudada por Marx - renda diferencial 2 - que se estrutura a partir dos investimentos de capital realizados no terreno pelo proprietário ou outrem, também pode ser extraída no contexto do saneamento básico. Tais
investimentos produzem uma “melhoria” no terreno, cujos frutos poderão ser colhidos no momento de venda ou aluguel do mesmo.
O proprietário fundiário pode, ainda, auferir uma renda diferencial 2 quando, no entorno de sua propriedade, ocorrer implantação de infraestrutura, redes viárias, equipamentos públicos pagos pela coletividade, mas cujo resultado é a elevação do preço deste terreno, permitindo a retenção de uma elevada renda.96 Segundo o geógrafo David Harvey, à luz dos estudos de Marx,
es bastante fácil elaborar uma versión de la RD-2 aislada de la RD-1. Simplemente expresa los efectos de las aplicaciones diferenciales del capital a tierras de igual fertilidade, pero Marx insiste em que la RD-1 se debe ver siempre como la base para la RD-2, mientras que toda la fuerza de sus indagaciones se encamina a
descubrir exactamente cómo las dos formas de renta ‘sirven simultáneamente como limites unas de otras’ [...]. Al final, lo que cuenta es la relación entre las formas de
renta, y estas relaciones no son fáciles de desenredar. Es aquí donde Marx se aparta más radicalmente de Ricardo y hace su contribuición original a la teoria de la renta en general. (HARVEY, 1990, p. 357)97.
Trata-se de uma forma de renda facilmente diferenciada da RD-1 do ponto de vista teórico, mas impossível de ser distinguida pelo proprietário de terras ou pelo capitalista no cotidiano, pois não há como separar a renda advinda dos investimentos de capitais daquela que advém da fertilidade e da situação. Dessa forma, “el terrateniente se apropria la renta diferencial sin conocer su origen, pero la forma exacta en que lo hace tiene implicaciones para los precios del mercado y para la acumulación del capital” (Harvey, 1990, p. 360).
Nesse sentido, fragmentos do espaço espalhados ao sul de Belo Horizonte (e em outras regiões de Minas Gerais) são exemplos emblemáticos das possibilidades de extração da renda diferencial 2. Refiro-me à miríade de Unidades de Conservação no contexto do Quadrilátero Ferrífero (e na APA SUL RMBH) e das Áreas de Proteção Especiais (APEs), derivadas da lei de uso e ocupação do solo de 1979.
Em trabalho realizado anteriormente (FREITAS, 2004), procurei demonstrar que esses fragmentos de espaço, num contexto em que a propriedade da terra é amplamente retida por poucos grupos econômicos, com elevado potencial para exploração de diferentes rendas, não
96Para ampliar a discussão sobre a Renda Diferencial ver OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Renda
Diferencial I. In: Revista Orientação. São Paulo, número 06, novembro de 1985. p. 99-101.
97É muito fácil produzir uma versão da RD-2 isolada da RD-1. A RD-2, simplesmente expressa os efeitos de
aplicações de diferenciais de capital em terras de fertilidade igual, mas, Marx insiste que a RD-1 deve ser vista como a base para a RD-2. A força total da sua pesquisa é destinada a descobrir exatamente como as duas formas de renda servem de limite uma para a outra [...]. No final, o que conta é a relação entre as formas de renda, e essas relações não são fáceis de desvendar. Este é o lugar onde Marx se afasta mais radicalmente de Ricardo e faz a sua contribuição original para a teoria da renda em geral (Harvey, 1990, p. 357).
há dúvidas de que a (re)produção social do espaço deve ser diversificada, com adoção de muitas estratégias que possibilitem o aumento dos ganhos econômicos.
Trata-se de uma (re)produção do espaço, em termos lefebvrianos, completamente diferente da antiga produção no espaço, que significava apenas a produção de elementos edificados, construídos ou erguidos de forma isolada. Já há algum tempo o espaço deve ser produzido como totalidade, com a adoção de todas as técnicas e adequações das legislações, conforme os interesses da reprodução capitalista e de forma que esses fragmentos, ao invés de embotar o crescimento econômico, devem potencializá-lo.
Esses fragmentos são, portanto, no plano discursivo, chamados de Unidades de Conservação (UCs), para a “[...] proteção de mananciais, do solo, da vegetação, do relevo, da fauna, da flora, antes de ser um espaço no qual as possibilidades de deliberação são dadas pelo conjunto da sociedade” (FREITAS, 2004, p. 203). São representações do “espaço instrumental”, que é elemento importante para a conformação do espaço abstrato; um espaço que não é social, que é (re)produzido e manipulado por diversas estratégias, que se fecha, se comprime, que aceita o repetitivo98 , que é fruto do ordenamento do território, que atende aos diversos interesses da reprodução ampliada do capital.
Outro exemplo nesse sentido foi abordado por EUCLYDES (2011). Segundo a pesquisadora, a Indústria Madeira Imunizadas Ltda (IMA/Lagoa Seca) e, posteriormente, a Magnesita Refratários conseguiram, em 2005, licenças para explorar dolomita numa área ao sul de Belo Horizonte, nas cabeceiras do córrego Acaba Mundo. No primeiro caso tratou-se de uma renovação de licença para exploração da mina a céu aberto, e no segundo, de uma licença ambiental para a implantação de um projeto minerário subterrâneo, após a finalização da exploração a céu aberto. Para os dois casos, o Conselho Municipal de Meio Ambiente da prefeitura de Belo Horizonte definiu condicionantes necessárias ao pleno desenvolvimento dos projetos. Assim, a IMA/Lagoa seca deveria elaborar
a apresentação, no prazo de um ano, das diretrizes e do escopo do projeto para destinação de uso coletivo público futuro da citada área; e, a entrega, no prazo de dois anos, do projeto executivo final dessa destinação, a ser implementado imediatamente após o descomissionamento da mina, em 2012. [Por sua vez, a empresa Magnesita] teria um ano para apresentar as diretrizes e os escopos dos projetos de descomissionamento da mina e de destinação do uso público futuro da área, e dois anos para entregar o projeto executivo final dessas atividades. (EUCLYDES, 2012, p. 113).
98Uma expressão disso é a atualização que ocorre com as UCs, pois num momento é uma Reserva do Particular
do Patrimônio Natural – RPPN – em outro momento é uma Área de Proteção Ambiental, para em outro momento, se tornar um Parque Nacional ou similar
Conforme análises de Ana Euclydes, esses procedimentos visavam conectar, após a exploração minerária, os parques existentes ao longo da serra do Curral, com a implantação, inclusive, de um importante centro de tecnologia ambiental na região. Em 2006, no entanto, as empresas solicitaram revisão das condicionantes, e a Magnesita conseguiu uma alteração que passou a prever apenas que o uso da área, após o período de exploração mineral, fosse “preferencialmente” de uso coletivo – não mais obrigatoriamente, como previa a proposta de condicionante anterior. No caso do pedido da IMA/Lagoa Seca não houve deliberação, pois havia uma proposta de implantação de condomínio residencial que gerou controvérsias entre os moradores da região, com intervenção da ONG Ecologia e Observação de Pássaros (ECOAVIS), em conjunto com associações de bairros, em prol da criação do Parque Lagoa Seca.
A partir de então, ocorreram embates entre as associações de bairro, entidades ambientalistas e a empresa IMA/Lagoa Seca, que estava interessada na construção do “empreendimento-parque” (denominado Park Burle Marx), que seria, na verdade, um empreendimento imobiliário destinado aos consumidores de classe A de Belo Horizonte, tendo em seu interior um parque de 72 hectares.
Como fruto desses embates, foram elaborados os projetos de Lei nº 1.711/2011 (em âmbito municipal) e nº 1.858/2011 (em âmbito estadual), para a criação do Parque Municipal Lagoa Seca, com uma área de 500 hectares, destinado a atender às demandas da população por áreas de lazer em Belo Horizonte, conforme discurso recorrente das entidades e pessoas envolvidas na proposição.
Figura 5: Croqui sem escala do Parque Lagoa Seca99
Na esfera municipal, foi possível verificar que no primeiro trimestre de 2012 o PL ainda tramitava na Câmara dos Vereadores, a partir da proposição do vereador Iran Barbosa que, juntamente com entidades ecológicas e associações de bairro, defendia a criação da UC para
proporcionar a toda população melhoria da qualidade de vida, do clima, e aumento das opções de lazer da cidade. [...] Há também ideia de implantar trilhas ecológicas, campo de pouso para parapentes e até plataforma de salto [ em uma área que] abriga diversas espécies de aves, como a campainha-azul.100
No que tange à proposta encaminhada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o Projeto autoriza o Poder Executivo a criar o Parque, ficando este subordinado ao Instituto Estadual de Florestas, que deve
99
Área proposta para criação do Parque Municipal Lagoa Seca, entre os bairros Belvedere e Mangabeiras. A utilização da criação de Unidades de Conservação, para extração de rendas diferenciais, alhures.
Fonte: http://www.jornaldobelvedere.com.br/portal/index.php/meioambiente/933-moradores-querem-a- implantacao-do-parque-lagoa-seca Acesso em 12/08/2012.
I - viabilizar a manutenção e a proteção de áreas vegetadas contínuas e integradas à Serra do Curral; II - promover a recuperação ambiental das áreas de preservação, incluindo revegetação, contenção de erosão, despoluição e conservação de encostas havidas com a exploração mineral ocorrida na região; III - promover a transformação das grandes áreas vegetadas em um parque público de caráter perpétuo e aberto ao público, que contribua para a melhoria das condições de lazer da população, em especial dos moradores da região Centro-Sul do Município de Belo Horizonte; IV - assegurar que não ocorram novas expansões urbanas na região101.
A proposta de criação do parque, ainda em debate, expressa a vitória das entidades ecológicas e suas posturas de “corporativismo territorial” pois muitos moradores da metrópole, através de entidades ambientalistas, têm adotado o discurso de defesa do patrimônio natural (geológico, espeleológico e aquífero), cultural e paisagístico, enquanto na verdade pretendem garantir que suas propriedades não percam as possibilidades de extração das rendas diferenciais.
Em outros termos, é possível afirmar que muitos moradores da metrópole têm reproduzido um discurso de defesa do meio ambiente para a melhoria da qualidade de vida de toda a população, propondo a criação de UCs diversas, trazendo, embutida nesse discurso, a tentativa de evitar a desvalorização de suas respectivas propriedades, que poderia ocorrer caso determinados usos fossem aprovados.
Ao mesmo tempo, esse caso revela uma importante faceta da atual reprodução do espaço na região, pois, juntamente com a criação do parque, foi proposta, em âmbito municipal, a concessão aos proprietários da área afetada pelo mesmo “transferência do direito de construir”, conforme prevê o Plano Diretor de Belo Horizonte.
Em uma breve análise, pode-se afirmar que o bem da coletividade suplantou os interesses de uma determinada empresa ao sul de Belo Horizonte, uma vez que predominou a produção de um espaço de interesse social e ambiental (Parque Lagoa Seca) no lugar da produção de um espaço que interessava de perto aos setores imobiliário e minerário (Park Burle Marx). A proposta deve, entretanto, ser melhor refletida, apesar de muitos estudiosos e outros membros da sociedade civil ovacionarem ruidosamente a criação de leis como esta, que objetivam regular a (re)produção do espaço em suas diferentes modalidades.
Recentemente, Martins & Gomes (2009) realizaram uma interessante análise sobre a transferência do direito de construir em outro empreendimento em Belo Horizonte. Refiro-me
101Informações disponíveis em
http://www.almg.gov.br/opencms/export/sites/default/consulte/arquivo_diario_legislativo/pdfs/2011/05/L201105 26.pdf Acesso em 12/08/2012. 66 p.
aos empreendimentos shopping popular Oiapoque e shopping Pátio Savassi.102 Segundo os autores:
o shopping Oiapoque, que integra as ações do Estado destinadas à reprodução espacial do centro de Belo Horizonte, implementadas através do Programa Centro Vivo, abriga camelôs que foram retirados das ruas do centro e realocados em
espaços fechados, os denominados “shoppings populares”. [Facilitaram tal
transferência] o Estatuto da Cidade, o Plano Diretor e o Código de Posturas para a região central [que] compuseram o conjunto institucional que permitiu que os camelôs fossem efetivamente retirados das ruas do centro. Não obstante, seu
destino não foram os “camelódromos”, uma vez que tal contexto institucional
atrelou a solução do que era posto como problema às estratégias de valorização do espaço, de atualização dos patamares de capitalização de propriedades tornadas obsoletas no movimento de reprodução social da metrópole. A associação da definição da função social da propriedade, da transferência do direito de construir, da outorga onerosa no âmbito das operações urbanas consorciadas foi o lastro institucional de tal estratégia, na medida em que tornou factível a modificação do potencial construtivo de áreas com zoneamentos de adensamento restrito, caso da área onde foi construído o Pátio Savassi, por meio dos créditos edificáveis transferidos de imóveis que passaram a cumprir uma função social (tal como estabelecido no Plano Diretor), por meio de uma operação urbana, caso do imóvel transformado no shopping popular Oiapoque. Embora altamente rentáveis devido à locação dos boxes aos antigos camelôs, os shoppings populares foram considerados equipamentos que cumprem uma função social, o que possibilitou aos proprietários de antigos galpões ou edifícios que compunham a inércia geográfica do espaço central de Belo Horizonte, refuncionalizarem suas propriedades e exercerem a transferência do direito de construir. [...] A transferência do direito de construir evidenciou-se tão ou mais rentável para os proprietários que a locação dos boxes para os camelôs. Isso porque o cálculo dos créditos edificáveis foi definido numa razão de um por três: ou seja, a cada m² destinado à função social o proprietário recebeu o direito de construção de 3m² em outro terreno localizado sob outro zoneamento, conforme definido no plano da Operação Urbana Consorciada do Conjunto Arquitetônico da Avenida Oiapoque (MARTINS & GOMES, 2009, p. 100-101).
Ou seja, o Estatuto da Cidade serviu, em conjunto com o Plano Diretor e o Código de Posturas, para proteger intervenções no espaço urbano, privilegiando aqueles que deveriam ser onerados nos processos de (re)produção do espaço urbano. Nesses termos, o Estatuto foi equivocadamente saudado como panacéia para os problemas urbanos, pois não disciplinou a questão fundiária nas metrópoles, não desenvolveu o propalado planejamento urbano através de planos diretores democráticos, pensados para gestar a cidade e não resultou na produção de uma cidade ideal e sem segregações. Em síntese, contribuiu para ampliar a reprodução capitalista do espaço. Segundo Ricardo Baitz (2011)
102
Este processo e seus desdobramentos já haviam sido apresentados pela geógrafa Gláucia Carvalho Gomes, em pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-graduação do Instituto de Geociências da UFMG (IGC/UFMG), sob orientação de Sérgio Martins, intitulada A realização da economia política do/no espaço e as (im)possibilidades do Urbano na metrópole contemporânea. Belo Horizonte: Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, 2006. (Dissertação de mestrado em Geografia). 380f.
Passados [mais de] dez anos, é possível verificar in loco que a promessa [contida, discursivamente, no Estatuto da Cidade] não apenas não se efetivou, como o quadro se agravou: as periferias cresceram, e embora a infra-estrutura urbana e o mobiliário urbano tenham evoluído, não acompanharam o crescimento das cidades, agravando o quadro diagnosticado anteriormente. Do mesmo modo, a segregação sócio- espacial avançou, e novos territórios exclusivos foram semeados em meio a um turbilhão de pobreza, pulverizada pelo tecido urbano. Alguma coisa saiu errado, definitivamente. Cabe à análise verificar o que, materialmente, estava equivocado desde o início, pois esforços não faltaram na implementação da lei que, entretanto, praticamente produziu o inverso do esperado, avançando pifiamente a questão urbana (BAITZ, 2011, p. 02)103.
Sem desqualificar os resultados das lutas urbanas desenvolvidas ao longo das décadas de 1970 e 1980, quando “novos personagens entraram em cena”, cansados de sofrer várias privações de direito, presentes na lei ou não, observamos, a partir de práticas como as descritas anteriormente, que os processos de reprodução capitalista do espaço seguem seu curso de maneira vitoriosa. O caso supracitado foi um movimento ímpar de realização das rendas territoriais que não ocorreu ao arrepio da lei, numa clara expressão de institucionalização de racionalidades parciais e estímulo ao desenvolvimento de estratégias para que os capitais se movimentem e se revalorizem sob os auspícios da legislação. Assim, o Estatuto da Cidade, que inequivocamente contou com a participação dos movimentos sociais que lutaram e lutam pelo direito à cidade, expressa os limites da democracia numa sociedade como a brasileira e impõe àqueles que lutam pelo direito à cidade a árdua tarefa de retirar das mãos de parcela da sociedade civil o poder de definir a forma e o conteúdo dos processos de urbanização.
Ou seja, as derivações do Estatuto da Cidade no contexto da reprodução capitalista do espaço revelam que ocorreu uma exacerbação do rentismo na raiz da metrópole, colocando para os movimentos sociais a necessidade de continuar a perseguir a cidade como uma utopia. Nesse sentido, novas estratégias devem ser engendradas nas lutas sociais, e novas reivindicações devem ser construídas coletivamente, com objetivo de se alcançar o direito à cidade nos termos do filósofo francês Henri Lefebvre.
Também nesses termos se insere, no meu entender, a criação desse novo parque, entre os bairros Mangabeiras e Belvedere. Diante do conflito de interesses, a legislação ambiental
103Algumas reflexões sobre os “desvios” do Estatuto da Cidade, após alguns anos de sua publicação foram
realizadas por Ricardo Baitz e merecem noss atenção através da leitura do texto: BAITZ, Ricardo. O estatuto da cidade após dez anos de sua publicação: algumas notas críticas a partir dos seus resultados no urbano. Disponível em <http://xiisimpurb2011.com.br/app/web/arq/trabalhos/29db2f38d7c9b2568866482371081d32.pdf> Acesso: 08/07/2012 (anais do XII Simpósio de Geografia Urbana). Belo Horizonte. 2011. 11p.
não se altera, como no passado, para atender ao setor imobiliário e minerário. Ao contrário, procura-se aliar a legislação ambiental à legislação urbanística, favorecendo a reprodução capitalista do espaço. Caso se efetive essa proposta, consubstanciada no Projeto de Lei nº 1.711 de 2011, e que ainda tramita na Câmara de Vereadores de Belo Horizonte, mais uma vez ocorrerá a mobilização do Estatuto da Cidade e do Plano Diretor para que ocorra “[...] a reafirmação e ampliação [...] dos fundamentos da mobilização da propriedade territorial no âmbito da valorização do espaço” (MARTINS; GOMES, 2009, p. 124) com o aprisionamento da política de estado (recentemente adjetivada de “política pública”) às determinações da urbanização capitalista. O Estado e o espaço serão mobilizados, mais uma vez, para potencializar a extração de distintas rendas territoriais.
Tal processo já se expressava no início do século XXI ao sul de Belo Horizonte, quando empreendedores imobiliários e minerários passaram a criar UCs para assegurar a aprovação de seus respectivos projetos, potencializando a extração de rendas fundiárias. O que se verifica aqui, portanto, é a sua atualização, pois a criação de um Parque Municipal, que é uma Unidade de Proteção Integral, permitirá que os proprietários logrem êxito na extração de rendas fundiárias em outras partes da metrópole, uma vez que a legislação lhes garantirá o direito de construir em outro fragmento dessa. Em outros termos, estamos diante de um espaço que,
aparentemente transparente, especular, especulativo, [...] nada tem de inocente. Ele
também é produzido, segundo as visões e os interesses dos “produtores”, embora
tenha a aparência de surgir do solo natural para substituir eqüitativamente a natureza. Às vezes ele tem até a aparência de um espaço da energia vital e do desejo, embora seja o espaço das necessidades filtradas e codificadas. [...] Em relação ao espaço diferencial, o espaço homogêneo especificado (visual, fálico) não é outro que o espaço de morte. Redução mortal das forças produtivas. Retrocesso da prática social. Destruição da natureza enquanto urbanidade. Se dispersa num espaço pseudonatural. Destruição das forças produtivas. Repetição de tudo o que é anterior,
apresentado como “neo” (LEFEBVRE, 2008, p. 144-145).
Trata-se de espaços repressivos e, apesar dos discursos positivistas (objetivo, neutro, científico) que carregam consigo, expressam estratégias das classes dominantes, são perigosos e destroem as possibilidades de um futuro baseado no espaço social. Tudo isso encoberto por ações urbanísticas que dissimulam os traços indispensáveis à reprodução capitalista do espaço.
Assim, nesse contexto de (re)produção de Unidades de Conservação para extração das rendas diferenciais e de monopólio, insere-se a criação das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) que elevam as possibilidades de formação e acumulação de capitais com a exploração de novas raridades associadas ao setor imobiliário e minerário no