6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta tese, investigamos as inter-relações entre o saber-fazer e a construção da identidade profissional de professores de Sociologia do Ensino Médio das escolas públicas estaduais da cidade de Picos/PI. Não foi nossa intenção avaliar o seu saber-fazer. Queríamos, sim, dar voz, expor seus depoimentos e analisá-los à luz das teorias. Nessa caminhada, tivemos de considerar outros percalços, expostos nos capítulos da tese, alguns dos quais serão aqui retomados.
Em todo o estudo, buscamos a coerência entre os objetivos, a metodologia utilizada e os instrumentos de coleta de dados, que nos possibilitaram informações riquíssimas agrupadas em dois eixos categóricos de análise: a formação para a docência – a busca de sentidos na experiência ser – e o exercício da docência no cotidiano do professor de Sociologia do Ensino Médio. Tais eixos fomentaram a sistematização das informações em instâncias de análises que compuseram os dois últimos capítulos da tese, o quarto e o quinto.
A função da Sociologia no Ensino Médio, conforme exposto neste estudo, é a de uma ciência que pode trazer grandes contribuições aos estudantes desse nível de ensino, auxiliando na formação da consciência crítica, que os fariam pensar como sujeitos e protagonistas históricos e enquanto atores sociais capazes de intervir na realidade em que estão inseridos. Contudo, a disciplina de Sociologia tem uma história permeada por avanços e retrocessos. Hoje podemos comemorar, pois finalmente, a partir da Lei n. 11.684/08, ela passou a ser obrigatória nos currículos de todas as escolas do Ensino Médio no Brasil. Esta foi uma grande conquista, a vitória de uma luta acompanhada de muitos desafios. Porém, as questões e as dificuldades a serem enfrentadas são muitas, a começar por não existir um consenso sobre os conteúdos programáticos, a escassez de recursos didáticos e a falta de professor com formação na área de Ciências Sociais para trabalhar com a disciplina de Sociologia no Ensino Médio. Esses problemas foram identificados por nós nas entrevistas, individuais e coletiva, nas observações e na literatura estudada.
Na opinião dos professores que entrevistamos, a carência de material didático, como o livro didático de Sociologia e os recursos materiais e tecnológicos, contribui para a falta de estímulo dos alunos pelas aulas. Eles acreditam também que o desinteresse dos alunos pela disciplina ocorre devido à ausência de conteúdos de Sociologia de forma explícita nos exames vestibulares das universidades do Piauí. Para eles, o fato de a disciplina estar no elenco das
matérias do vestibular causaria uma maior assiduidade e um maior interesse dos alunos, acabando ou amenizando a discriminação e a desvalorização enfrentada pelos professores e pela disciplina de Sociologia.
Identificamos, nos depoimentos e nas observações realizadas em sala de aula, que a falta de formação na área de Ciências Sociais traz dificuldades ao exercício do saber-fazer pedagógico dos professores de Sociologia sujeitos deste estudo. Entretanto, constatamos, por meio das fontes bibliográficas consultadas, que este não é um problema específico das escolas públicas estaduais da cidade de Picos, onde realizamos a pesquisa, mas sim de um âmbito mais geral, atingindo várias cidades do Brasil, entre elas Londrina – PR e Uberlândia – MG. Por isso, a formação do professor de Sociologia precisa ser pensada em uma dimensão mais ampla. Os cursos de Ciências Sociais, que pouco têm se dedicado à licenciatura, agora, com a inclusão da Sociologia como disciplina obrigatória no Ensino Médio, precisam repensar e investir mais na formação dos licenciados, para que o retomar do ensino da Sociologia nas escolas desse nível de ensino seja de qualidade e essa disciplina faça sentido para os alunos, ajudando-os na compreensão da realidade e na busca de emancipação.
Contudo, embora nem todos os professores pesquisados tenham demonstrado interesses iniciais pela docência, encontraram sentido no exercício do ser professor de Sociologia no Ensino Médio. Procuraram atuar buscando alternativas para superar as dificuldades pessoais e profissionais vivenciadas no cotidiano da escola, especialmente na sala de aula.
Ser professor de Sociologia representou para eles algo marcante. Na busca de sentido da experiência do ser, alargaram suas experiências, aprofundaram seus conhecimentos, formularam e reformularam valores bem como assumiram compromissos com si mesmos e com o outro, o aluno. Marcas de inter-relações entre o saber-fazer e a construção da identidade socioprofissional.
Por meio dos sentidos atribuídos, foram expressando valores, conflitos, aprendizados, esforços, experiências, realizações, satisfações, insatisfações, reconhecimentos, solidão, alegria, discriminação e desvalorização, perfazendo uma rede de relações dinâmicas e conflituosas no decorrer da profissão, que foram relevantes e pertinentes para a compreensão das inter-relações estabelecidas entre o seu saber-fazer e a construção da identidade socioprofissional.
construção, em movimento, em transformação, em conflito e em mediação constantes com o seu saber-fazer pedagógico, com o seu jeito de ser professor de Sociologia, no cotidiano de sala de aula. Na atitude ética e na significação atribuída a si mesmo e ao outro, construíram suas experiências de ser, buscando e vivenciando sentidos.
Outros aspectos foram revelados sobre a docência dos professores de Sociologia do Ensino Médio investigados. Um deles trata da postura política, a partir da qual se declararam pessoas conscientes politicamente, que acreditam na luta, mas que admitem estar ainda engatinhando no engajamento político na escola. Não presenciamos, no decorrer da pesquisa, qualquer tipo de envolvimento deles de forma espontânea nas ações coletivas promovidas na escola. Suas ações pedagógicas são centradas no aluno, na sala de aula. Porém, na sua quase totalidade, não são professores de Sociologia, ministram a disciplina por carência da escola e para completar a carga horária.
Investigando o que nos revelou o exercício da docência no cotidiano dos professores de Sociologia do Ensino Médio pesquisados, verificamos, através das entrevistas e das observações, que, no exercício do seu saber-fazer pedagógico, trabalharam com estratégias de ensino-aprendizagem que valorizaram a relação dos alunos com os conhecimentos do cotidiano e da realidade que os cerca, tais como: aulas expositivas dialogadas, debates, dramatização, júri simulado e exibição de filme. Problematizaram os conteúdos, estabeleceram relações teórico-práticas e procuraram levar os alunos a explicitarem seus pensamentos de forma questionadora e crítica para interagir de maneira mais consciente na sociedade atual. Sucintamente, esses são achados revelados no cotidiano dos professores de Sociologia do Ensino Médio da cidade de Picos, no contexto escolar das escolas públicas estaduais que pesquisamos, mencionadas anteriormente.
No momento conclusivo deste estudo, à luz de todos os elementos analisados, podemos dizer que para a Sociologia no Ensino Médio atingir minimamente o que propõem os PCN e a LDB, 9394/1996, os quais definem claramente a possível contribuição da Sociologia enquanto disciplina de nível médio na formação básica do cidadão, seja no que diz respeito aos princípios conceituais com que operam, seja quanto às situações concretas do cotidiano social, é preciso rever urgentemente as questões e os problemas que envolvem o ensino dessa disciplina e investir na formação dos seus professores para que eles tenham conhecimento na área de Ciências Sociais, dominem os referenciais básicos da análise social e consigam
transformar o conhecimento acadêmico em conhecimento escolar, visando a formação dos jovens, educando por meio da consciência crítica.
Entretanto, a temática da docência do professor de Sociologia do Ensino Médio ainda é pouco estudada e extremamente complexa, apresentando vários desafios importantes para serem discutidos e analisados. A inclusão da Sociologia como disciplina obrigatória no Ensino Médio veio acompanhada de inúmeros problemas, entre eles a falta de tradição do ensino da disciplina e a ausência de professores habilitados para trabalhar com ela nas escolas de nível médio.
Assim, as histórias que Marcos, Petrônio, Valter, Daniel e Rosa nos contaram através dos depoimentos expressaram uma identidade profissional em construção, em movimento, em transformação, inter-relacionada com o saber-fazer pedagógico, construído por meio dos saberes do conhecimento de formação e dos saberes das experiências vivenciadas no contexto sociocultural e educacional ao qual pertence.
Finalmente, esperamos que este estudo ajude a despertar o interesse a respeito da docência do professor de Sociologia do Ensino Médio, remetendo à produção de mais pesquisas que abordem essa temática. Este estudo não termina aqui, pelo contrário, abre-se para outras e novas possibilidades de investigação, já que um tema de pesquisa não se esgota nunca, faz-se e refaz-se no olhar de cada pesquisador (aqui retornamos os nossos olhares sobre o assunto e a trajetória teórico-analítica da tese). Enfatizamos alguns pontos que nos pareceram essenciais e que estão totalmente abertos a críticas e reflexões futuras para que o debate se prolifere. Esperamos que alerte para a importância que a Sociologia tem no processo de formação da cidadania dos jovens e que a Sociologia, como disciplina obrigatória nas grades curriculares de todas as escolas de nível médio no Brasil, passe a usufruir da estabilidade desejada há mais de um século.
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