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FERREIRA, Ascenso. Brasilidade e dina- mismo / a propósito do “Macunaíma” de Mário de Andrade. Diário Nacional, São Paulo, 28 nov. 1928. [IEB-USP – CAP-MP]. [Republi- cado no mesmo jornal em 23 nov. 1931].

Tocando minha vez de dizer alguma cousa sobre o discutidíssimo livro que Mário de Andrade acaba de publicar, ocorre-me dividi-lo em quatro partes assim caracterizadas:

1a. o Folclore de onde o livro nasceu;

2a. o espírito moderno que o inspirou e permitiu realizar-se; 3a. o simbolismo do livro;

4a. uma história de onça, que representa, enfim, o livro olhado em conjunto apenas com o sentimento de arte.

O folclore nacional nunca foi descuidado, mesmo antes dessa reação com sentido nativista, hoje completamente vitoriosa de canto a canto do Brasil.

Os senhores Leonardo Motta, no norte, e Cornélio Pires, no sul, são colecionadores preciosos dos múltiplos elementos poéticos de nosso povo.

Pena é, entretanto, que estejam degenerando, premidos pela necessidade do sucesso de livrarias, para a deplorável intenção de, quero- porque-quero, arranjarem motivos de jocosidade e gaiatice, esforço esse que os arrasta, não raras vezes, ao ridículo de descobrirem humorismo em cousas profundamente dolorosas até.

O escritor Gustavo Barroso, porém, tem ido um pouco mais adiante: o Bumba-meu-boi, o Reisado, a Chegança, o Maracatu têm sido abordados, em suas origens remotas por seu comentário indagador.

Faltava, contudo, na vida brasileira, quem houvesse tentado aproveitar esses elementos dispersos na construção de uma obra de arte, o que acaba de ser conseguido por Mário de Andrade com o seu Macunaíma.

Sem o espírito moderno, no entanto, impossível seria um escritor cercar- se tão rapidamente dos elementos necessários à construção de uma obra como

O modernismo brasileiro — espécie de menino fazendo “tem-tem” doidinho para se por em pé, desarrumara tudo por onde pudera passar a mão, virando baús velhos de história pátria e entornando potes de sentimento nativista sobre um potici1 de cérebros entupidos da poeira do Partenon e do Coliseu.

Chegou, mesmo, a dar um banho de carrapaticida no pensamento dos moços brasileiros, a fim de livrá-lo da sanguessuga terrível chamada “Espírito de Paris”!

Contudo, essa história de brasilidade não havia ainda sido posta nos seus justos termos.

Faltava a obra em que ela aparecesse, não apenas enumerada ou como simples elemento decorativo, mas como força, vida, expressão.

De há muito vinha Mário de Andrade movimentando sua inteligência superior num largo esforço de contato com todos os novos do Brasil, correspondendo-se com indivíduos do sul e do norte, a fim de cercar-se dos elementos necessários à construção de um livro que ficasse.

E o milagroso resultado desse contato com as diferentes expressões típicas da vida brasileira ele deve-o à coragem de suas atitudes avançadas, rompendo com todas as fórmulas de um intelectualismo caduco.

Quero dizer que se não fosse o ânimo que ele despertou nas consciências torturadas de nossa gente nova jamais teria conseguido que esses moços lhe oferecessem com naturalidade um pouco da alma misteriosa do Brasil.

A desprezível mania do aliteramento [sic] de tudo não o consentiria jamais.

Macunaíma, sem ter no seu personagem principal, o “herói sem nenhum caráter”, um símbolo do brasileiro, é, entretanto, um livro profundamente simbolista.

Não simbolismo de Salambô, de Flaubert, cheio de sacerdotes castrados, ou simbolismo romântico de José de Alencar, mas simbolismo que aproveitou no lendário brasileiro o traço de dinamismo e de solução rápida, em contraste com

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o lendário de outros povos que plantaram raios de sol para nascer ouro após o decorrer dos séculos...

O herói não representa o brasileiro porque lhe falta a totalidade brasileira. Raça nova, possuindo em si o intenso reflexo das três raças de origem e dos povos que estão influindo na nossa educação, o brasileiro atual possui muitas qualidades, boas e más.

Entretanto, ninguém pode negar que, após a queda do trono, vem se notando, por influência da maior parte de nossos governantes, uma verdadeira sistematização de falta de caráter moral, principalmente nos meios citadinos que fazem a parte representativa da civilização do Brasil para o estrangeiro.

Excluindo, pois, do “herói” todas as qualidades boas do brasileiro, teve Mário de Andrade em mira satirizar com relhadas cortantes e com peia todas essas coisas que nos deprimem.

Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são:

— Pouca saúde moral e muitas saúvas para devorarem as “comidas, meu santo...”

Mas, não fica só aí nessa frase o espírito satírico da obra.

Na carta às Icamiabas – impagável documento escrito em estilo retórico e ali posto de propósito como um intruso à vida e expressão sintética do livro; nas reuniões de qualquer natureza onde há sempre “muitos empregados públicos”, na cena do Advogado que vai logo aos bolsos de Macunaíma morto; na fatalidade da mentira a que o “herói” é sempre arrastado; na consciência deixada por ele na ponta de um mandacaru ao ter de entrar em contato com a civilização; há inteligentíssimas críticas urdidas com uma surpreendente feição de simbolismo moderno.

E essa feição simbolista do livro ainda mais se acentua com o encantador misticismo das lendas e com os circunlóquios usados pelo autor a fim de tirar a feição sensualizante dos elementos pornográficos, os quais fazendo parte integrante do folclore não poderiam absolutamente ser excluídos de uma obra de aproveitamento dele.

Daí o cuidado que teve Mário em escrever em línguas brasílicas certas frases que encobrem referências a órgãos sexuais de personagens, dando ao livro um estilo sagrado, com repetições de frases, com runas, termos cheios de

comicidade, tudo formando, porém, um conjunto poemático verdadeiramente harmonioso.

E no desenvolvimento desses circunlóquios não raro sua inteligência atinge um impossível de delicadeza e de mimo, como quando diz, se referindo às pedras preciosas, “que muitas delas eram até as graças das cunhãs”.

Olhando-se, porém, Macunaíma em conjunto, ele se me afigura uma interessantíssima história de onça.

Quem quer que conheça em nossa terra uma história desse gênero, cheia de Jabotis, de Urubus, de Jaguaras, de Urcas, de Caiporas, de Pés-de- Espeto, de tudo enfim que pelo mal-assombrado enche a gente de admiração e de espanto, há de ter notado a facilidade com que o fantástico da imaginação primitiva resolve as dificuldades mais insuperáveis.

Há sempre um Carrapato que presta um auxílio inesperado, um Urubu que leva um Jaboti às festas do céu... um talismã que concedeu o dom do encantamento.

Essa facilidade de solução do fantástico de ontem é um ponto de contato entre o primitivismo e a realidade moderna:

A onça Palauá mandava, nas páginas imaginosas de Macunaíma, seus olhos ver o que se passava nas imensidades do mar...

— Podemos pedir para Paris que nos mandem fotografias dos últimos acontecimentos através da televisão!

E esse espírito de dinamismo e de solução rápida ninguém poderia aproveitá-lo com mais inteligência do que Mário o fez.

Todas as sugestões dispersas da vida brasileira ali estão concentradas em páginas de um comovente lirismo, como na lenda de Boiúna a Luna, ou profundamente humanas, como o capítulo do Tico-tico e o Chupinzão.

Tudo animado por uma expressão absolutamente brasileira, quer como forma, quer como sentido, quer como som.

A enumeração de nomes de bichos, de pássaros, de frutas, não é uma coisa sem sentido.

Há um todo poemático no jogo daquelas tonalidades combinadas discretamente num sentido de harmonia e de ritmo:

“Cajus, cajás, cajamangas, mangas, abacaxis, abacates, jaboaticabas [sic], graviolas, sapotis, pupunhas, pitangas, guajirus”.

“O jacareúna, o jacaretinga, o jacaré-açu, o jacareurarau, todos esses jacarés...”

“O macaco-prego, o macaco-de-cheiro, o guariba, o bugio, o cuatá, o barrigudo, o cairara”.

“E o sabiacica, o sabiapoca, o sabiaúna, o sabiá-piranga, o sabiá-gongá, que quando come não me dá...”

No capítulo de Ceuci – a caipora expulsa do território nacional e que voltou contratada da Companhia Lírica... – a gente fica se babando de gozo com aquela carretilha de adágios sobre cavalos, postos em jogo num aproveitamento lógico da rima:

“O gázeo-sarará que nunca prestou nem prestará!” “O castanho-pedrês que para a carreira Deus o fez!”

“O cavalo-castanho-escuro que pisa no mole e pisa no duro!” “O cavalo-bebe-em-branco que é cavalo manco!”

E, por fim, aquela delícia da “filha expulsa que corre no céu batendo perna de déu em déu!”

E agora vejamos alguns exemplos do aproveitamento folclórico realizado pelo autor:

“O ramo cortado ficou pingando água e se escutou o lamento do caramboleiro:

— Capinheiro de meu pai Não me corte meus cabelos, Que o malvado me enterrou Pelos figos da figueira Que o passarinho picou! Chô-chô, passarinho!”

“Não vê que um ajurucatinga passara muito afobado por ali. Os papagaios perguntaram pro parente onde ia.

Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos ingleses, porém primeiro viraram periquitos, porque assim comiam e os periquitos levavam a fama”.

“Cortou o grelo do pau e enfiou-o pelo buraco a dentro por amor de fazer a francesa sair. Porém Jacaré saiu? Nem ela”.

“Macunaíma encarou o Curumi empalamado e teve raiva.

Quis bater nele porém lembrou-se de cor: — quando você estiver embrabecendo conte três vezes os botões de vossa roupa. Contou e ficou manso outra vez”.

“Macunaíma foi balançando Piaimã cada vez mais forte. Cantava:

— Bão-balão Senhor capitão, Espada na cinta, Ginete na mão”.

Mas, é impossível resumir nas estreitezas de um artigo um livro de 283 páginas onde não há um capítulo insignificante, uma frase oca, uma palavra vã, — estupenda realização de um subconsciente enriquecido por todas as sugestões da vida brasileira, o qual florindo por si mesmo nos ofereceu na realidade as maravilhas da árvore Volomã.

O período mais brilhante da vida de um pesquisador, sim, como dele disse o senhor Tristão de Ataíde, mas de um pesquisador que atingiu o seu termo.

Prova real de uma inteligência fortalecida por uma cultura de observação, que não tem deslizes, nem ao realizar a mudança formidável do cenário caboclo para o negro, como na estupenda página sobre o Xangô.

Livro de tudo. Livro onde há páginas encantadas como aquela em que Macunaíma deseja que o céu fique sem nuvens a fim de sua “Ci” mudada em estrela vir refletir-se nágua e ele poder brincar com ela na correnteza.

Livro de história da pátria desconhecida e bela.

O buraco de Maria Francisca, as inscrições de Pajeú e de Pedra Lavrada, a estátua do Deus Marte encontrada no Amazonas, as galinhas com pintos de

ouro de perto de Natal, as rendas maravilhosas de Quiquina Cacunda de Pernambuco, o Tamarindo das irmãs Louro Vieira de Óbidos, os sapatinhos de lã da paulista D. Ana, tudo aparece no corre-corre tremendo dessas páginas ansiosas de tudo fixarem.

Macunaíma sofre todas as doenças da terra: o sarampão, o bute-calnua2, a erisipa. — Cura-se com todos os sortilégios tais como chave de Sacrário, rezas de Bento Milagroso, invocações... mas assim que se apanha curado depressa ganha a rua em busca de sarnas pra se coçar...

Nas conclusões do herói a respeito da máquina Mário de Andrade mostra sua segurança em assuntos brasílicos:

A mentalidade cabocla tende forçosamente para dar uma interpretação de vida animal aos maquinismos, cujos movimentos não pode compreender.

São estas as conclusões de um Carijó de Águas Belas a respeito de um automóvel.

— Tem olhos (me dizia ele se referindo aos faróis), bebe água, faz necessidade, ronca e respira que nem nós...

Na lenda do pezão de Sumé esboça-se o quadro da formação das três raças brasileiras e no capítulo de Pauí-Pódole a gente sente a teoria da origem da vida provindo das nebulosas.

Na página da Pacuera de Oibê a sugestão para o assombro é uma coisa completa:

A pronúncia daquele pacuera... cuera... cuera... lembra forçosamente um rosnar selvagem! Junte-se a isso a imagem do Minhocão Terrível descrita no livro e a assombração é inevitável.

A venda que Carrapato botou é um mimo de inteligência interpretativa. A caça do Tapir na porta da Bolsa de S. Paulo — um delicioso flagrante de psicologia das multidões.

A canção de Mandú Sarará é um assombro de nostálgico e o trecho do furun-fun-fum... uma delícia de sutilidade.

Uma coisa que impressiona profundamente em Macunaíma é o equilíbrio de idéias conservado através do tumulto daquelas páginas tão diferentes.

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O vocábulo “bute”, no Nordeste brasileiro, indica de modo jocoso qualquer doença. No contexto da enumeração de patologias, pode ser essa a sua acepção. A expressão “bute- calnua” nos é desconhecida, mas, como “bute”, também no Nordeste, indicava uma dermatite que acometia os escravos, talvez a locução conjugue patologia e terapêutica.

“Pouca saúde e muita saúva” o dístico profundamente irônico torna-se até como um “leitmotiv” aparecendo aqui e ali para manter de pé o sentido do livro.

E, após tudo isso[,] o acabamento natural da obra, sem esforço, sem intenção de findar...

O livro acaba-se por si mesmo como que absorvido por aquele silêncio onde só se escutava o gritinho fino do inseto tísico: “Vim de Minas, vim de Minas”.

O herói não morre. — Realiza o destino lendário de seus maiores: — Passa também a ser constelação perdida no mistério dos céus.

Volta intuitivamente ao ponto de partida da vida, cientificamente interpretada como provinda das nebulosas.

Macunaíma é, pois[,] um formidável poema.

Apenas não foi escrito para seguir a orientação dos críticos e por isso ficará para eles como uma parábola, até que o Brasil acabe de descobrir-se a si mesmo, como o pressente o senhor Tristão de Ataíde.

Não é livro escrito para ser julgado por uma geração ainda desorientada pelos ardores da revolução.

Para ser apreciado com justeza carece de distância. Esperemos.

Por enquanto, digamos como Piaimã morrendo atolado no tacho: — Falta queijo!

Benzer Belgeler