VÍTOR, Nestor. Macunaíma, o herói sem
nenhum caráter. O Globo, Rio de Janeiro, 08 out. 1928. [FBN – Periódicos]. [Recolhido em VÍTOR, Nestor. Os de Hoje / Mário de Andrade / Macunaíma. Obra crítica de Nestor Vítor. Rio de Janeiro: MEC / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973, v. II, p. 360-365. 1. ed. 1938].
É cousa conhecida por muitos que uma das origens do romantismo se encontra no conceito da “bondade natural”, a que J. J. Rousseau deu todo o desenvolvimento que se podia dar.
A glorificação do “bom selvagem” por Montesquieu e outros seus contemporâneos concorreu muito para dar origem a essa utopia. Eles representavam o índio da América, então recentemente descoberta, como um pegureiro de pastoral, meigo, benévolo, superior em muitos pontos ao homem civilizado.
Era isso uma reação que se produzia em favor dos filhos do Novo Mundo contra as informações dos primeiros viajantes, que os davam como perversos, como réprobos, senão como verdadeiros possessos, com o diabo no corpo.
Não havia, nessa reação desinteressada, romantismo ainda. Ele se produzia muito em parte por hostilidade da França contra sua rival política dessa época, a Espanha de Carlos V ou de Filipe II, cujos conquistadores tratavam bárbara, estupidamente, de fato, as populações selvagens de ultramar com que de pouco tinham estabelecido contato.
Depois, Montesquieu, que efetivamente fora informado de modo pouco perspicaz sobre as cousas do Brasil, por um seu serviçal aqui residente algum tempo, reconheceu, lendo viajantes menos ingênuos, a inexatidão com que o fâmulo lhe falara. Mas, era tarde: a primeira versão é que pegou, pois já tendiam aí os espíritos para essa crença na “bondade natural” com que o gênio de Jean- Jacques criou um verdadeiro misticismo social.
Mais tarde, Chateaubriand (que começou nitidamente rousseauísta1) com os Os Natchez e Fenimore Cooper, com Os Pele-Vermelhas, dão origem ao indianismo, que o nosso Basílio da Gama já pressentira no século XVIII, idealizando admiravelmente Lindóia, no Uraguai.
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Chateaubriand deu a música e o sentimento naturista, mas Cooper foi quem proporcionou à gente do indianismo a psicologia que ela atribuía ao selvagem da América, reconstituindo dramaticamente os costumes ferozes e ingênuos das tribos.
Seria impossível fazer obra de efeito, pintando-os como “bons selvagens”, à maneira montesquiana, quando a equilibrada poesia pastoral se fora com o classicismo, e a divinização dos instintos impunha à estética romântica dar livre surto à paixão.
Depois, já nesse tempo, quem tivesse visto um índio não poderia aceitar que o representassem sob esses traços absurdamente lisonjeiros. Hans Staden2, por exemplo, que por milagre não foi morto e comido pelos selvagens aqui no Sul, ainda “quando o Brasil amanhecia”, não os pintou assim.
Mesmo os românticos, embora utilizando o processo psicológico de Cooper, foram muito fantasistas.
Estes apoiavam-se em uma verdade que se impõe a quem conhece a história da espécie de acordo com a ciência. É inegável que “as disciplinas mais do que rudes dos clãs primitivos” como diz Seillière, “com suas impiedosas sanções, místicas, imprimiram, em certos selvagens virtudes sociais efetivas, embora nada tenham de naturais”.
Mas, para citar um caso, o tipo de Iracema é verossímil? No fundo, que vem a ser o magnífico “I-Juca-Pirama”? É a idealização das próprias virtudes heróicas da nossa raça, não no complexo dos sentimentos que ali se exaltam, a das do índio – ser tão rude, tão elementar, símbolo da incongruência moral.
Sabemos perfeitamente e já o sabiam os descobridores: ele é uma criança que se vende ou vende os seus por um espelhinho, um berimbau ou um metro de baeta.
Isolado sempre foi assim, e hoje coletivamente o é, nas malocas de pobre vencido, descrido, muitas vezes reduzido a um bicho abjeto, hidrópico, por efeito do paludismo, nas regiões ribeirinhas onde o mosquito anda em nuvens.
Os próprios românticos, pois, carregaram demasiadamente na nota. É verdade que assim o tema foi fecundo para eles.
Mas daí que resultou?
Na opinião implantada pelo naturalismo resultou isto: até agora, pelo menos a nós brasileiros, lá na Europa simbolizam de tanga e tacape, confundindo-nos com o bororo.
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Não se vê que o indianismo foi o principal propulsor da nossa brasilidade, sob o ponto de vista do idioma. Se Alencar não tivesse de escrever Iracema, não se sentira impelido a exprimir-se naquela linguagem de sabor frutal, que usou para fazer o ambiente desse delicioso poema em prosa. E é de Alencar por diante que o Brasil começou na verdade a exprimir-se na escrita com modalidade sua.
Seja como for, os naturalistas, amigos da verdade liberal, puseram fora da moda o indianismo, que lhes era impossível explorar. Nenhuma tentativa se conhece da parte deles a ver se com os seus processos se poderia ainda tirar desse assunto alguma cousa.
Por último, um escritor cientista, o Sr. Roquete Pinto, acha que índio não é brasileiro, no sentido atual desse vocábulo. Que é que o índio tem conosco? – pergunta ele. Nós representamos outro tipo humano e nem sequer essa gente comunga dos sentimentos que nos são próprios, isolada como vive da nossa comunhão. Índio nem sabe o que é pátria. Caboclo já não é índio.
Apesar de tudo isso, persiste em nós o sentimento de que é pena dar de mão por completo a esse tema. O ambiente americano no-lo proporciona, se não impõe. Se o naturalismo teve de renunciá-lo, não prova apenas com isso a deficiência dos seus recursos estéticos?
Nossa história está aí. Antes da escravatura africana sistematizar-se, a escravatura vermelha, repugnante como fosse, é que permitiu a colônia subsistir. Não só economicamente; também do ponto de vista militar, para expelirmos os intrusos. Além disso, não haveria os bandeirantes, que dilataram o território até entestarem com os Andes, se não houvesse os mamelucos. Sermos indiferentes ao índio em arte é um absurdo. A poesia é o recurso natural para a expressão dos sentimentos e a gratidão há de estar por força entre estes, enquanto o homem for homem.
Além disso, com o índio vivemos na América, e a vida comum estabelece um interesse forçoso. O índio, autóctone ou imigrado, deste continente recebeu o cunho, como nós não o receberemos tão cedo. Mas, um dia virá em que o tenhamos, e aí, mais do que nunca, representando uma humanidade nova, dele seremos irmãos, a ele identificados até nos nossos característicos somáticos. Ninguém o contesta.
Em última análise, pois, negarmos que essa gente oferecesse qualquer base efetiva para as obras de idealização em que serviram de tema, é negar ao ambiente onde ela se desenvolveu ou a que se adaptou condições favoráveis a
manterem-se quaisquer caracteres nobres, dos que distinguem a espécie humana. É formular-se implicitamente um tremendo3 prognóstico sobre o nosso próprio futuro daqui a alguns milênios.
Impõe-se, pois, uma certa solidariedade entre nós e esses primitivos habitantes da terra que lhes tiramos, se não somos estúpidos a ponto de descrer dos nossos próprios destinos remotos.
Os “futuristas” de São Paulo exprimem, agora, o sentimento da tal necessidade por um modo humorístico: resolveram fazer a propaganda da antropofagia numa revistinha cujo título já é um franco programa em tal sentido.
Até há pouco, eles se tinham apenas limitado a propor que substituíssemos na escrita a linguagem portuguesa pela geringonça do nosso jeca. Propunham, dando o exemplo desde logo de tal barbaria.
Agora querem mais, por outra, fingem que querem: proclamam que é preciso retrogradarmos até os canibais para sermos independentes, para nos vermos livres da influência européia. Fazem-no, em todo caso, em nome das doutrinas de Freud, que da Europa vieram...
Mas, já antes disso, Mário de Andrade, líder4 desses vanguardistas, preparava laboriosamente esse livro de ficção, que publicou outro dia,
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.
Creio que vão ficar históricas essas páginas. Elas representam o início do neo-indianismo entre nós, como um livro pode representá-lo.
Antes de tudo, uma cousa Mário de Andrade consegue com esta obra: é tornar possível que se façam outra vez enredos em que os personagens sejam bugres. Realizou, portanto, o que os naturalistas tinham dado por impossível.
Mas de que modo?
Tratando o assunto inteiramente pelo avesso.
Gonçalves Dias, Alencar idealizaram o índio? Pois ele antes de tudo pô-lo sem caráter nenhum desde o título.
Mário empresta a Macunaíma, seu herói, mais à gente de Macunaíma, mãe, amantes, irmãos, etc., o processo onírico, isto é, um modo de pensamento regressivo. Ele é próprio à criança como à gente primitiva; aqui, porém, é levado ao seu último grau.
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No texto em livro, supressão. Lê-se: “(...). É formular-se prognóstico sobre (...)”. 4
No jornal, lê-se “leader”, forma inglesa substituída pela portuguesa “líder” na publicação em livro.
Como nós sonhamos à noite, assim vivem os seus personagens de dia. Tudo em torno desses imaginados seres é sonho e sonho.
Com eles parece que se realiza a existência na quarta dimensão suspeitada pelos einsteinianos5. Aquela em que pode ser que vivam os espíritos. Para essa fauna supostamente humana o espaço e o tempo a que vivemos sujeitos não existem. De um instante para outro eles se transportam a distâncias enormes.
Além disso, comem ou são comidos, mas daí a pouco voltam ao que eram. Passam por surpreendentes metamorfoses: de um piaba surge um príncipe; um gigante vira besouro.
Cousas que lembram os contos orientais, as lendas da Idade Média,
Gargantuae Pantagruel, de Rabelais, Peer Gynt, de Ibsen, Malasarte, do nosso Graça Aranha.
O que há de mais novo, porém, em tudo isso é que Macunaíma é mesmo sem caráter nenhum. O que ele quer é viver com mulheres, “brincando”, como diz a cada instante o autor.
Ele vem lá de Venezuela (o herói não é propriamente do Brasil, é da América) e chega a São Paulo, como vai de São Paulo para onde quer, conversando com o falecido bacharel de Cananéia, como já conversara, se não me engano, com o finado Caramuru; sofre fome, corre riscos, encontra-se com o Currupira, que quase o engole, passa tormentos com o gigante Piaimã, que mora em São Paulo e ali tem nome de italiano, tudo por mulher ou por cousas que se prendem à mulher. É um sem-vergonha de uma marca tal como ainda não se vira.
Além disso, o pai da preguiça. Mesmo quando o atiram pelos ares a léguas de distâncias, vai dormindo pelo caminho.
É instinto e madraçaria, tão-só.
O Sr. Tristão de Ataíde explicou por miúdo, baseado em informações do autor, desde a origem desse nome de Macunaíma (mito, dos índios da Roraima – “Maku”, mau e “ima”, grande –) até as complexas intenções que ele teve criando esse tipo e essa história.
A princípio quis fazer um símbolo do brasileiro, que lhe parece não ter caráter, não só do ponto de vista moral, mas como entidade psíquica permanente, manifestando-se por tudo, e nos costumes, na ação exterior, no sentimento, na língua, na História, na andadura, tanto no bem como no mal.
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Quis fazer qualquer cousa de cíclico, no sentido brasileiro. Desrespeitou de propósito a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim, desregionalizava o mais possível a criação, ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea, um concerto étnico nacional e geográfico.
Afinal, resolveu apresentar-nos tudo apenas como uma brincadeira. Não é bem isso.
Naquelas quase trezentas páginas há muita matéria relativa às nossas lendas, aos nossos mitos, aos nossos brocardos populares, que fazem delas uma mina para futuros escritores.
Quase tudo é escrito como se fosse por um nosso caipira, e para isso, Mário de Andrade tem talento especial. Peculiaridades sintáticas, próprias ao falar do nosso povo do mato, freqüentemente se apresentam. O vocabulário, no gênero, é de uma riqueza como ainda não se tinha visto em livro nenhum. A nomenclatura referente à nossa fauna, à própria culinária dos matos, até dos índios, por este Brasil afora, à produção das nossas pequenas indústrias e outras cousas assim, é abundante e superabundante.
Além disso, tudo até certo ponto, escrito com legítimo bom humor. Uma vez que nos adaptemos à atmosfera fedorenta, bem freudiana do livro, lardeado de fescenismos a cada passo (“para dar conta”, disse o autor a Ataíde, “de uma constância brasileira que não sou o primeiro a verificar”); adaptando-nos a isso, encontra-se novidade nele. Mas só até quando se chega a uma carta do herói, escrita por deboche num português pseudoclássico6. Isso faz contraste tão violento com o que lêramos antes, que se começa a bocejar sem querer. É uma falta imperdoável na estética do livro.
Também daí por diante a verve vai parecendo falsa cada vez mais, e, como se está ainda em menos da metade do livro, daí por diante é com canseira crescente que chegamos ao fim.
Seja como for, o que se torna patente na leitura de Macunaíma é isso: é que o dadaísmo europeu, passando para o Brasil e produzindo aqui um movimento literário dionisíaco de arremedo, vai, contudo, estimulando os nossos moços para tentarem uma literatura nacionalista que entre em simbiose com as particulares disposições nesse rumo que a guerra em toda parte suscitou.
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Mas o grupo, aliás muito explicavelmente, sabendo-se o que o dadaísmo é, simpatizou com a ciência de Freud, de alcance moral com possibilidades as mais dissolventes.
O herói Macunaíma e todo o ambiente que em torno dele se vai criando, na sua peregrinação de sonho são francamente abjetos. Está vindo assim romanticamente, embora se pratique o romantismo às avessas, um neo- indianismo derrotista. O índio, visto com tão furioso freudismo, torna-se um símbolo antecipado da nossa segura bancarrota como povo no correr dos séculos.
Nesse sentido, pois, a tentativa de Mário de Andrade, a meu ver, é lastimável.
Se estes moços continuassem por muito tempo em tal caminho, não sei até onde poderiam ir, num momento como este em que o mundo procura novos rumos, mais fiado no instinto, do que na razão.
Mas o Brasil é o Brasil. Até hoje quantas escolas literárias aqui encontraram eco, todas acabaram por ser mais ou menos construtoras.
Confiemos que ainda com esta acontecerá assim.