O processo de avaliação da oferta turística intitulada como condizente com o Turismo Rural requer a adoção de princípios que possam servir como parâmetros de entendimento do que será reconhecido como atividades turísticas que se aproximam do segmento turístico em ques- tão. Assim, para dar conta desse último critério, são utilizados os quatro princípios instituídos pela Comissão das Comunidades Européias (citado por Zarga, 2001) como um recurso norte- ador para a avaliação das iniciativas de Turismo Rural levantadas para o banco de dados dessa investigação. Além desses, também é considerado um princípio elaborado a partir do conceito de Bovo (2006)8 sobre o Turismo Rural. Esses princípios estão citados e comentados a seguir, sendo que os quatro primeiros se referem aos critérios da Comunidade Européia, e o último, a princípio, derivado do conceito de Bovo (2006):
¾ 1° - Que a atividade se realize no mundo rural. Esse princípio destaca a importância dos recursos humanos e das atividades de natureza culturais e econômicas para o desenvolvimento dessa atividade. Mais do que estar localizado no espaço rural, é necessário que a atividade esteja sediada em um “mundo” no sentido de espaço habitado por grupos sociais que caracte- rizam o meio rural devido às suas relações de ordem cultural e produtiva.910
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Segundo Bovo (2006), o Turismo Rural pode ser definido como “a atividade turística que vem a ser um conjun- to entre a natureza, a identidade local e o modo de vida no campo, elementos que caracterizam um espaço ru- ral. Assim, quando essa modalidade é estruturada neste espaço e possui como atratividade central a busca pelo modo de vida no campo, podemos dizer que isto é Turismo Rural”.
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Nesse momento não serão abordadas em profundidade as relações que caracterizam o “Mundo Rural” uma vez que essa questão é discutida no referencial teórico desse estudo, no tópico que diz respeito à relação do Turis- mo Rural com o Desenvolvimento Rural Local.
¾ 2° - Que haja uma oferta integrada de recursos e atividades turísticas rurais. O segundo princípio destaca a necessidade de que tais iniciativas aproveitem os recursos locais para a estruturação das atividades e serviços turísticos a serem ofertados. Se a principal atração do Turismo Rural pode ser considerada o modo de vida rural das comunidades locais, torna-se imprescindível a apropriação dos recursos locais para a organização de atividades turísticas que venham proporcionar para os anfitriões e os turistas a oportunidade de convivência, de interatividade, de aprendizado, buscando valorizar a dimensão cultural da comunidade e en- torno visitados. O atendimento desse princípio por parte dos estabelecimentos de turismo, em geral, demanda a discussão e orientação técnica por parte dos proprietários, uma vez que tra- duzir esses valores culturais locais para as atividades turísticas de valorização do ambiente rural é um desafio para os mesmos. Ainda que o movimento de revalorização do espaço e da cultura rural seja notório com o advento da sociedade pós-industrial, o mesmo ainda passa por uma fase de transição em que a valorização do mundo rural tem se fundado, de forma mais significativa, no reencontro com a natureza, sendo relegados para o segundo plano a plena valorização das questões culturais.
¾ 3° - Que exista relação entre os participantes e o entorno autóctone.A estruturação de uma proposta que caminhe nesse sentido possibilita que o visitante possa, efetivamente, co- nhecer a cultura rural de uma localidade. Isoladamente, uma propriedade rural não é tutora de toda a herança cultural de uma comunidade.Assim, proporcionar o contato dos visitantes com a paisagem, a comunidade e sua cultura local são princípios que traduzem os valores nortea- dores desse segmento turístico, possibilitando, além de interações sócio-culturais, a oportuni- dade de que novos atores possam se beneficiar dessa atividade. O entorno autóctone se refere a tudo que é próprio da região, ou seja, é constituído pelas paisagens, pela população, pela cultura local etc. (ZARGA, 2001)
¾ 4° - Que se produza uma inter-relação com a sociedade local. O terceiro princípio englo- ba, de forma geral, essa proposta. Entretanto, é dada exclusividade à formulação de um prin- cípio especificamente para esse quesito, tendo em vista a relevância de valorizar a oportuni- dade de convívio comunitário entre os visitantes, os proprietários de estabelecimentos e as pessoas que habitam o local onde estão sediadas as iniciativas turísticas. Assim como ressal- tado no item anterior, uma família, um grupo de funcionários, também não representa, de forma isolada, a totalidade do universo da identidade cultural de uma localidade. O contato com a sociedade local é que pode trazer a complementaridade entre os traços culturais pró-
prios de uma unidade familiar ou grupo de pessoas e a identidade cultural que encerra a rique- za cultural local de uma comunidade. Assim, faz-se necessário que os serviços e atividades estruturados para o Turismo Rural levem em conta a condição de oportunizar momentos de convívio e interação sócio-cultural para seus hóspedes e, de preferência, privilegiando que esses momentos possam também ocorrer no ambiente externo da iniciativa turística.
¾ 5° - Que haja o compromisso explícito com a valorização do Modo de Vida Rural presen- te nas localidades, implicando que o principal atrativo desse tipo de turismo seja a dimensão da cultural rural; dessa forma, os recursos naturais são considerados como um atrativo com- plementar a essa oferta e devem ser aproveitados de forma contextualizada em relação à apro- priação cultural, por parte da comunidade, quanto a esses recursos.
A utilização desse recurso, para efeito dessa pesquisa, não vai ao encontro de uma classifica- ção precisa dos estabelecimentos que são ou não ofertas de Turismo Rural, mesmo porque essa classificação exigiria não somente a adoção de princípios, mas também de critérios. Cri- térios esses que pudessem embasar com o devido rigor tal tipo de classificação. Desse modo, a utilização dos princípios supracitados tem como finalidade entender o contexto de aproxi- mação ou distanciamento dessa oferta turística em relação ao Turismo Rural.
Em continuidade a abordagem da seqüência dos procedimentos metodológicos, todas essas informações fomentaram a geração de mapas temáticos, inéditos, com informações a respeito dessa oferta turística no que tange à sua localização e população rural, à concentração espaci- al, aos eixos e áreas e às atividades de entretenimento turístico disponibilizadas aos visitantes. Os mapas utilizados nessa pesquisa são gerados com a utilização do programa MapInfo Pro- fessional, versão 6.0 e do programa Corell Draw, versão 12.
A obtenção e processamento de todos esses dados e informações contribuem para a percepção de relações orgânicas ou não dessa oferta turística, em função de onde a mesma está sediada, permitindo o apontamento das áreas onde exista maior propensão de uma oferta turística con- dizente com a proposta de Turismo Rural, e as áreas onde há maior distanciamento em relação aos preceitos que regem esse segmento. Após a conclusão da fase de gabinete, o arcabouço de informações obtido é utilizado para o planejamento dos Trabalhos de Campo.
Os principais objetivos das incursões de campo são perceber as distintas vocações turísti- cas existentes nas Áreas de Estudo que possam auxiliar a estruturação desse segmento e i- dentificar se as iniciativas turísticas visitadas mais se aproximam ou distanciam da propos- ta de Turismo Rural, à luz dos princípios escolhidos para caracterização desse tipo de tu- rismo nesse estudo. A adoção dos cinco princípios mencionados em muito contribui para a avaliação do aproveitamento dos recursos naturais e sócio-culturais locais para a estrutura- ção dessas propostas turísticas durante o trabalho de campo. Além de buscar essas respos- tas, também será aproveitada a oportunidade das vivências de campo para a identificação da presença ou ausência do poder público e demais atores sociais frente ao desenvolvimen- to do Turismo Rural em parte dos municípios cadastrados para o banco de dados. Para cumprir esses objetivos, serão realizadas entrevistas presenciais com proprietários e profis- sionais, visitas às instituições competentes, obtenção de documentos, contatos com as dis- tintas realidades locais, coleta de material para o banco de imagens e visita a iniciativas tu- rísticas. Uma observação importante, em relação ao último item, é que ao visitar os estabe- lecimentos a postura do pesquisador foi a de não se identificar como tal. Tal medida foi adotada visando garantir a maior espontaneidade das respostas por parte dos proprietários.
Vale ressaltar que essas entrevistas realizadas junto aos atores envolvidos com a atividade têm por objetivo trabalhar a dimensão qualitativa sobre a temática pesquisada. A quantidade de visitas realizadas junto às iniciativas turísticas não constitui, para fins dessa pesquisa, um fator determinante para esse processo, considerando que o banco de dados nesse estudo envolve, no total, o cadastramento de 604 estabelecimentos considerados de Turismo Rural. Assim, para que o número de visitas aos estabelecimentos pudesse assumir uma expressividade quantitati- va, seria necessária a realização de vários trabalhos de campo, com longa duração, o que invi- abilizaria a realização dessa investigação.
Porém, os trabalhos de campo, somados às fases de gabinete, contribuem para o vislum- bramento, em sua complexidade, sobre qual é o contexto do Turismo Rural mineiro à luz
do banco de dados utilizado para esse estudo. A pesquisa de gabinete realizada para a for- mulação da hipótese deste projeto de pesquisa e, conseqüentemente, para sua real necessi- dade de execução, demonstrou que essa atividade turística no estado ainda passa por sérios desafios de ordem estrutural, administrativa, tributária, legal, entre outros. Acredita-se que a conclusão desse estudo possa colaborar para minimizar os entraves que emperram o de- senvolvimento do Turismo Rural mineiro, bem como servir de referência para reflexões sobre sua dinâmica mercadológica e estabelecimento de políticas públicas.
Em suma, os objetivos dessa pesquisa pretendem ir ao encontro das demandas colocadas pelas próprias instituições competentes do setor que acenam para um contexto onde ainda existe um árduo trabalho a ser realizado. O próprio Ministério do Turismo enfoca, no texto das Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural no Brasil, que “a profusão de en- tendimentos (sobre o que é Turismo Rural) deve-se, em grande parte, à ausência de ações capazes de ordenar, incentivar e oficializar o Turismo Rural como um segmento turístico, fazendo com que a vasta diversidade cultural e geográfica do País, ao invés de caracterizar e identificar cada lugar, tenda à descaracterização” (Ministério do Turismo, 2003). Portan- to, enquanto não houver consenso terminológico, conceitual e sobre os princípios e crité- rios que embasam o desenvolvimento do Turismo Rural, os levantamentos/estudos poderão continuar inconsistentes no âmbito da pesquisa turística segmentada, de caráter técnico ou acadêmico. E, dessa forma, a lacuna de eficientes instrumentos técnicos de planejamento público e privado para o Turismo Rural continuará expressiva, prejudicando o desenvolvi- mento de profícuas políticas públicas para o aproveitamento desse segmento turístico como um dos possíveis vetores de Desenvolvimento de Base Local.
Localização e Características da Área de Estudo
O estado de Minas Gerais é uma das 27 unidades federativas do Brasil e está localizado na porção sul do continente Americano. Sua extensão territorial é de 588 384,30 km², sendo considerado, devido a sua proporção territorial, o quarto estado brasileiro em extensão. Localiza-se no Sudeste e limita-se a norte e nordeste com a Bahia, a leste com o Espírito Santo, a sudeste com o Rio de Janeiro, a sul e sudoeste com São Paulo, a oeste com o Mato Grosso do Sul e a noroeste com Goiás, incluindo uma pequena divisa com o Distrito Federal.