Um bosque amarelo, o meu caminho, Abriu em dois, para eu escolher E, sendo um só, parei, sozinho, Olhando um deles no longínquo Arbusto, curvar e se perder; Segui o outro, tão bom quanto, Até, quem sabe, um pouco mais, pois carecia mais um tanto Daquele uso que, no entanto, Deixara-os como que iguais. E naquela manhã, os dois Não tinham marcas de pegadas. Deixo o primeiro para depois, Inda que dúbia a volta, pois
Uma estrada chama outras estradas. Direi, falando suspirado,
Após vencer distância imensa: Ante o caminho bifurcado, Segui o menos desbastado E isso fez toda diferença.
Numa primeira leitura, The Road not Taken parece ser um poema sobre redenção. Um viajante, que pode ser a representação de qualquer um de nós na jornada da vida, resolve agir diferentemente das demais pessoas, diferenciar-se da coletividade, tomando o rumo diferente da maioria para colher os benefícios disso mais tarde. Mas que benefício pode ser deduzido de alguém que suspira em certa altura de uma longa viagem e diz que uma escolha feita muito antes, no início da caminhada, fez toda a diferença? Qual é essa diferença? O suspiro é de alívio ou de arrependimento?
Quando retomamos a leitura do poema mais atentamente, vemos que há pequenos detalhes que podem passar desapercebidos num primeiro momento, mas que começam a reorientar nossa interpretação à medida em que damos a eles o devido destaque. O poema usa da furtividade para nos fazer acreditar que houve uma escolha ponderada por uma atitude independente e nobre por parte do viajante e de que sua autonomia é o que lhe renderia frutos benéficos num futuro imaginado. Mas a primeira estrofe, que mostra o caminhante com o olhar demorando-se sobre o primeiro caminho, avaliando-o talvez, medindo-o, estudando-o, deixa entrever, a partir da segunda estrofe, que a parada desse eu-lírico na entrada do primeiro caminho pode muito bem ter sido distraída, absorta, quem sabe pensando em algo
diferente, sem que a visão do caminho contribuísse para sua decisão sobre por onde seguir. Isto porque, tão logo entra a segunda estrofe, o vemos escolhendo o segundo caminho de imediato, sem parar para examiná-lo ou compará-lo com o primeiro. É uma atitude mais irreflexiva que razoável e o que aparenta ser uma justificativa, a de que o segundo caminho seria pouco gasto pelos pés dos passantes é refutado de imediato, logo em seguida, quando o poema afirma, no final da segunda estrofe e no início da terceira, que ambos os caminhos ofereciam iguais condições de desuso.
Como gestar um poema que ofereça os mesmos pressupostos? Que estabeleça com o seu original uma relação de restituição, que seja um desdobramento deste, uma nova forma de dizê-lo, mantendo a fluidez de sua leitura sem falseá-lo? A poética do texto traduzido deve ser alimentada pela leitura e incorporação da atmosfera do texto original, seu tom, suas imagens, sua sonoridade e no caso de The Road not Taken, o texto inicia com a imagem de duas estradas divergindo num bosque de folhas amareladas, mas a exatidão da estação, o outono, não se reflete no posicionamento das estradas. Duas estradas divergentes podem encontrar-se num cruzamento, podem ser uma bifurcação de uma única estrada anterior, ou talvez sejam dois caminhos que nem se toquem, que aproximem-se em um determinado momento, de modo a estarem um à vista do outro por um certo trecho, antes de se afastarem novamente na distância. O poema não diz como as estradas estão dispostas, não diz sequer se o viajante vinha por uma delas ou se vinha em meio às árvores, tendo desembocado no caminho em certa altura. Tudo o que temos é um bosque, uma cor, duas estradas que se desencontram de alguma forma. A tradução do ritmo do poema se dá, na minha visão, a partir das possibilidades geradas por essas incertezas e do diálogo entre essas potencialidades e a concretude do texto original. A poética do texto traduzido deverá beber de duas fontes: aquilo que é dito (e como é dito) no texto original e as sugestões que ficam nas entrelinhas, porque estas também fazem parte do poema, e o que é sugerido em um texto pode ser explicitado em sua tradução, se isso contribuir para que esta se desenvolva como um texto autônomo e funcional.
Assim, o protagonismo das estradas, que tomam para si a autonomia do ato de divergir na primeira estrofe do poema em inglês, transfere-se para o bosque amarelo, que parte uma estrada em duas, impondo-se como obstáculo natural que obriga o viajante a fazer uma escolha. Uma escolha amarela, outonal, feita em uma estação do ano em que a mudança estampada nas folhas das árvores é anúncio da vinda de tempos de penúria logo em seguida, mas que traz a sugestão, depois de vencida distância imensa, de uma caminhante temperado e amadurecido pela passagem de várias estações, das provações e aprendizado decorrentes. A
tradução segue, buscando a fluidez do original, a sua velocidade, a duração dos seus versos (mais sobre a métrica da tradução adiante), a incerteza – em expressões como “quem sabe” e “no entanto” – pairando entre a gravidade aparente da situação – artifício do poeta para desviar a atenção do leitor – e a leveza de uma escolha irrefletida, que encaminhará o poema para finalizar com a declaração enganosa sobre a diferença de se ter escolhido o caminho menos percorrido, quando a verdade é que a escolha, no poema, não dá evidências de ter tido relevância alguma. A confirmação dessa conclusão está no início do poema, fechando o ciclo com seu final: o título remete não à estrada que o caminhante tomou, mas àquela que ele deixou para trás, sugerindo que diferenças haveria da mesma forma, tivesse ele ido por uma ou por outra e que, finalmente, sua decisão no ponto de divergência das duas estradas fora a que menos importou para o resultado.
Um outro poema bastante conhecido de Frost é Fire and Ice, que reproduzo abaixo, com a tradução sugerida por mim: