O conceito de gênero vem sendo discutido por teóricos (as) de diversas áreas, destacando-se entre as feministas. Seu surgimento, na década de 1970, ocorreu pela considerável produção acadêmica referente ao sexo feminino, destacando-se no estudo da dinâmica das relações sociais. Segundo Moraes (2000), nesse momento em variados locais, ocorriam estudos sobre as mulheres, que objetivavam protestar politicamente acerca da condição feminina. Esses estudos iam ao encontro da luta política do movimento feminista. Todos procuravam discutir e compreender a subordinação e a opressão das mulheres na sociedade.
A partir da década de 1980, os estudos da mulher foram cedendo espaços para os de gênero, que passam a estar em um número superior, inclusive, dentro do campo feminista. Nesse contexto, foram muitas as críticas que o conceito de gênero ou relações de gênero recebeu por dar destaque ao aspecto de homens-mulheres, deixando a margem a opressão e a hierarquia. Como infere Moraes (2000, p. 95-96), [...] a área temática que hoje chamamos de “estudos de gênero” foi antecedida historicamente pelos “estudos sobre a mulher”, comprovando a passagem gradativa do movimento social para a esfera acadêmica. Os “estudos sobre a mulher” dominaram os anos em que a militância feminista estava nas ruas ao passo que os “estudos de gênero” denotam a entrada na academia de uma certa “perspectiva de análise”. Não se trata mais de denunciar a opressão da mulher, mas de entender, teoricamente, a dimensão “sexista” de nosso conhecimento e os riscos das generalizações. Atualmente, temos menos estudos sobre a mulher e mais estudos de gênero que podem se referir aos homens – ou ao “gênero masculino” – como bem revelam os trabalhos sobre “masculinidades” e “paternidades”. Assim, saímos dos estudos sobre as mulheres para os de gênero por esse ser mais amplo, “diminuindo” a desigualdade entre homens e mulheres, originadas do sistema patriarcal. Saffioti (2004) fala-nos que a categoria gênero, dessa forma, alheia às contradições, devido ao seu foco na perspectiva relacional, impossibilita a discussão acerca de um processo opressor. Mesmo concebendo gênero como um conceito de ordem política o qual se contrapõe às concepções tradicionais conservadoras, a autora analisa que ele permite um uso neutro, ou seja, o mesmo pode ser usado a serviço tanto da opressão quanto das relações igualitárias, tendo em vista que estar em uma ou outra posição não dependeria da categoria, mas das relações sociais. Assim, traz o conceito de patriarcado, que trata
da desigualdade e da opressão, sendo uma possibilidade dentro das relações de gênero, mas não a única.
Alinhamo-nos com a posição de Saffiotti na compreensão de que se faz relevante, ao tratar das relações de gênero, atentar para os sistemas (sendo o patriarcado um deles), e seus elementos, os quais contribuem para a produção de relações desiguais e opressoras. Apesar de vermos críticas referentes ao patriarcado, originado de autoras pós-estruturalistas, precisamos nos recordar que a sociedade brasileira ainda apresenta fortes traços de sua formação social, econômica e política, dentre eles o patriarcalismo, que impactam em seu comportamento, individual e socialmente, como, por exemplo, as estruturas hierarquizantes e opressoras que vivenciamos. Por isso, os pensamentos de Heleieth Saffioti e de Rosa Cobo serão utilizados neste estudo com o objetivo de compreender o processo de dominação-exploração feminina presente nas relações de gênero.
A dominação feminina está presente nas relações de gênero, sendo facilmente percebida nas representações sociais, bem como na divisão sexual e nos respectivos papéis destinados às mulheres, os quais, muitas vezes, elas absorvem e reproduzem. Portanto, devemos estar atentos que as desigualdades de gênero são apresentadas tanto por homens, quanto por mulheres.
Obviamente, os homens gostam de ideologias machistas, sem sequer ter noção do que seja uma ideologia. Mas eles não estão sozinhos. Entre as mulheres, socializadas todas na ordem patriarcal de gênero, que atribui qualidades positivas aos homens e negativas, embora nem sempre, às mulheres, é pequena a proporção destas que não portam ideologias dominantes de gênero, ou seja, poucas mulheres questionam sua inferioridade social. Desta sorte, também há um número incalculável de mulheres machistas. E o sexismo não é somente uma ideologia, reflete, também, uma estrutura de poder, cuja distribuição é muito desigual, em detrimento das mulheres. Então, poder-se-ia perguntar: o machismo favorece sempre os homens? Para fazer justiça, o sexismo prejudica homens, mulheres e suas relações. O saldo negativo maior é das mulheres, o que não deve obnubilar a inteligência daqueles que se interessam pelo assunto da democracia. As mulheres são “amputadas”, sobretudo no desenvolvimento e no uso da razão e no exercício do poder. Elas são socializadas para desenvolver comportamentos dóceis, cordatos, apaziguadores. Os homens, ao contrário, são estimulados a desenvolver condutas agressivas, perigosas, que revelam força e coragem (SAFFIOTI, 2004, p. 34-35).
Essa condição histórica de inferiorização e opressão feminina são atribuídas por Saffioti (2004, p. 136), ao patriarcado, o qual existe desde
[...] milênios da história mais próxima, nos quais se implantou uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina. Tratar esta
realidade em termos exclusivamente do conceito de gênero distrai a atenção do poder do patriarca, em especial como homem/marido, “neutralizando” a exploração-dominação masculina. Neste sentido, e contrariamente ao que afirma a maioria das (os) teóricas (os), o conceito de gênero carrega uma dose apreciável de ideologia. E qual é esta ideologia? Exatamente a patriarcal, forjada especialmente para dar cobertura a uma estrutura de poder que situa as mulheres muito abaixo dos homens em todas as áreas da convivência humana. É a esta estrutura de poder, e não apenas à ideologia que a acoberta que o conceito de patriarcado diz respeito. Desta sorte, trata-se de conceito crescentemente preciso que prescinde das numerosas confusões de que tem sido alvo.
O patriarcado tradicional, que tem como base o poder dos homens mais velhos sobre os jovens, bem como a superioridade masculina presente em todas as instituições sociais, perde espaço com a conquista de direitos pelas mulheres e as consequentes mudanças na família e sociais (THERBORN, 2006), como discutiremos na sessão seguinte. Contudo, partimos da compreensão de que esse sistema social de dominação masculina não só não se extingue, como se reinventa e, contemporaneamente, a fim de se manter, associa-se a outros sistemas sociais - capitalistas, raciais e culturais (COBO, 2011). Assim, busca promover novamente a ideia de que a inferioridade faz parte da natureza feminina, pautados no suposto déficit de força feminino e usando, como veremos mais a frente, a violência como instrumento.
O machismo da modernidade, o sexismo e a heteronormatividade estão contidos nas relações de gênero, fazendo-se presentes nos mais diversos atos e nos momentos da socialização de homens e mulheres, bem como nas suas falas e nas normas que os atingem. Dessa forma, temos heranças desse antigo patriarcado e traços da reinvenção desse sistema contidos também nas atividades das pessoas, sendo inclusive, como afirma Saffiotti (2004), utilizado pelas mulheres no disciplinamento dos filhos, por exemplo. Apesar disso, devemos enfatizar que são as mulheres as mais alvejadas por esse sistema, o qual determina papéis sexuais, cria preconceitos e as mais variadas expressões de desigualdade a fim de subjugá-las, e o qual não se restringe ao espaço privado, mostrando-se também nos espaços públicos e no Estado que ratificou os preceitos do patriarcado privado, possibilitando a criação de um patriarcado público.
[…] os Estados modernos inscreveram no direito de família, especialmente nas regras que definem o estado civil dos cidadãos, todos os princípios fundamentais da visão androcêntrica. E a ambiguidade essencial do Estado consiste, por um lado, determinante, no fato de que ele reproduz em sua estrutura mesma, com a oposição entre os ministérios financeiros e os
ministérios de administração, entre sua mão direita, paternalista, familiarista e protetora, e sua mão esquerda, voltada para o social, a divisão arquetípica entre o masculino e o feminino, ficando as mulheres com a parte ligada ao Estado social, não só como responsáveis por, como enquanto destinatárias privilegiadas de seus cuidados e de seus serviços (BOURDIEU, 2014, p. 105 - 106).
Tomemos como exemplo o Estado brasileiro que apesar de apresentar avanços na construção de políticas específicas para as mulheres, não superou a cultura política patriarcal e neoliberal. Assim, visualizamos na gestão pública distintas formas de relação do Estado com as mulheres, perpetuando atuações contraditórias. Na ordem jurídica, por exemplo, até 2002, quando temos a aprovação do Novo Código Civil (Lei 10.406/2002), tínhamos de um lado os parâmetros igualitários da Constituição de 1988, bem como os tratados internacionais dos quais o Brasil era signatário, e de outro um Código de 1916, que privilegiava o ramo paterno; aceitava a anulação do casamento no caso de não virgindade da mulher; não reconhecia os filhos nascidos fora do casamento e autorizava o lugar de subalternidade da mulher dentro do casamento civil, já que muitos atos só poderiam realizar a partir da autorização do marido, ou seja, não havia uma cidadania plena. O Código Penal vigente, no referido período, que foi modificado apenas pela Lei 11.106/2005, extinguia a punição do estuprador caso esse se casasse com a vítima ou essa se casasse com outra pessoa e não afirmasse o desejo de prosseguir com um processo penal, além de usar o conceito de mulher honesta e criminalizar o adultério, que culturalmente foi usado para argumentar contra as mulheres na justificativa dos mais diversos crimes direcionados a elas. E não podemos deixar de mencionar a ainda vigente Lei de Planejamento Familiar (9263/96) que estabelece a esterilização voluntária restrita a homens e mulheres acima dos 25 anos com pelo menos 2 filhos vivos e com autorização de ambos os cônjuges. Isso impõe à mulher, ainda comumente vista como a responsável pelos métodos contraceptivos, a um controle extremo sobre o seu corpo. Além disso, vai de forma antagônica à Lei Maria da Penha (2006) que considera violência doméstica impedir uso de método contraceptivo.
Esses anacronismos e essas contradições do Estado brasileiro também estão presentes nas políticas públicas. Vejamos, por exemplo, a Política de Assistência Social. A PNAS/2004 reconhece os diferentes arranjos familiares, não existindo a legitimação de nenhum modelo familiar, no entanto, constrói suas
politicas com atenuada preocupação com “[...] a produção e a reprodução das relações familiares”. De acordo com Soares (2012, p. 101), “[...] o cuidado é a tônica ao se discutir a família e um conceito de família”. Visualiza-se o reforço a determinadas funções de família associadas predominantemente às mulheres, que são inclusive sugeridas como ocupantes prioritárias da função de Responsável Familiar para o Cadastro Único73. Dessa forma, permanece fortemente a ideia da divisão sexual do trabalho, em que a família é o espaço de ação da mulher e o mercado de trabalho, o do homem. Mesmo com todos os avanços e a presença cada vez maior das mulheres nos mais diversos espaços, essa é a ideia ainda presente, mesmo que de forma sutil e camuflada, nas intervenções estatais, sendo, por isso, as políticas de família enfocadas, preferencialmente, nas mulheres. Porém, essa posição não é exclusiva da política de assistência social, fazendo parte de várias outras políticas sociais brasileiras, como a saúde e a educação. Portanto,
[...] não se trata apenas de uma relação “material”, mas também produzida por e produtora de ideias, normas, valores e concepções de mundo. Isso implica o caráter dinâmico das relações sociais, que devem ser historicizadas, haja vista que possuem uma “estrutura” que permite sua permanência, mas também passam por transformações que correspondem a determinados períodos históricos. Para isso, deve-se desnaturalizar radicalmente as construções que se baseiam na diferenciação das desigualdades, sem com isso perder de vista a dimensão concreta das relações sociais (KERGOAT, 2010, p. 100).
Contudo, apesar de defendermos a importância da discussão de um sistema de dominação, não devemos perder de vista a importância da perspectiva de início do uso da palavra gênero, que tentava explicar a organização social da relação entre os sexos, tendo como foco uma rejeição ao determinismo biológico, presente em terminologias como “sexo” e “diferença sexual”, com a intenção de compreender mulheres e homens sem essencialismos.
Em certo sentido, a história política foi encenada no terreno do gênero. É um terreno que parece fixado, mas cujo sentido é contestado e flutuante. Se tratarmos da oposição entre masculino e feminino como sendo mais problemática do que conhecida, como alguma coisa que é definida e constantemente construída num contexto concreto, temos então que perguntar não só o que é que está em jogo nas proclamações ou nos debates que invocam o gênero para justificar ou explicar suas posições, mas também como percepções implícitas de gênero são invocadas ou
73 O Cadastro Único é um conjunto de informações sobre as famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza que são utilizadas pelos governos para a implementação de políticas públicas que busquem a melhoria da vida dessas famílias. Podem estar inscritos no Cadastro único as famílias de baixa renda que ganham até meio salário mínimo por pessoa ou que ganham até 3 salários mínimos de renda mensal total.
reativadas (SCOTT, 1995, p. 28).
O vocábulo foi tratado no campo dos estudos feministas, pioneiramente, por Rubin (1993), com o sistema de sexo/gênero, o qual consistia em arranjos societais que transformam a sexualidade biológica em produtos socioculturais.
Uma mulher é uma mulher. Ela só se transforma em mulher do lar, em esposa, em escrava, em coelhinha da Playboy, em prostituta, em um ditafone humano, dentro de determinadas relações. Fora dessas relações, ela já é mais a auxiliar do homem, assim como o ouro em si não é dinheiro etc. Quais são, então, essas relações por meio das quais uma mulher se torna uma mulher oprimida? (Ibid. p. 10).
O conceito de gênero foi então passando por reformulações conceituais a fim de abordar as várias dimensões envolvidas (construção histórica, social, política estabelecidos entre homens e mulheres e sobre suas diferenças sexuais), trazendo uma análise política e relacional. Assim, a princípio, o gênero é tratado a partir de dois elementos: a) a necessidade de um contexto cultural e as respectivas construções de papéis sociais diferenciados com base no sexo; b) o aspecto relacional, aqui sendo consideradas as relações interpessoais assinaladas por poder e hierarquia.
No final da década de 1980, Joan Scott conceituou gênero como uma construção cultural pautada na divisão binária dos sexos, sendo construído a partir das relações de parentesco, bem como de outras interações sociais da esfera pública, como economia e organização política e jurídica. Para a autora, o gênero se pauta em uma construção hierarquizada por meio de elementos simbólicos, os quais possibilitam a produção de conceitos normativos que os dão sentido.
Esse conceito, formado por essas interligações, especialmente, o contexto cultural e a perspectiva relacional, remete-nos a algumas questões. No que se refere ao primeiro elemento da definição, observamos quatro elementos: 1) os símbolos culturais que estão a nossa disposição e despertam representações simbólicas, frequentemente, contraditórias; 2) os conceitos normativos, como os contidos nas doutrinas religiosas e educativas, por exemplo, que estabelecem o binarismo masculino-feminino como arranjo dominante; 3) as organizações sociais as quais se firmam em uma “imutável” representação binária do gênero e 4) a identidade subjetiva, ou seja, a forma de construção das identidades de gênero. Na segunda proposição, gênero é entendido como um meio que dá sentido às relações de poder, apesar de não ter sido o único campo, foi um dos que mais colaborou na
produção dos significados de poder (CONCEIÇÃO, 2009).
Ao tomar o gênero como uma categoria de análise histórica, passa-se a tratá-lo como algo constantemente construído na sociedade, influenciando os jogos de poder econômicos, políticos e jurídicos, nas esferas pública e privada, e influenciado por esses poderes.
O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político foi concebido, legitimado e criticado. Ele se refere à oposição masculino/feminino e fundamenta ao mesmo tempo seu sentido. Para reivindicar o poder político, a referência tem que parecer segura e fixa fora de qualquer construção humana, fazendo parte da ordem natural ou divina. Desta forma, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se, os dois, parte do sentido do poder, ele mesmo. Colocar em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema por inteiro (SCOTT, 1995, p. 27).
Louro (1995), com base no texto de Scott (1995), evidencia que o conceito de gênero, para as ciências sociais, vai significar mais do que uma categoria de análise. Sua conceituação densa vai inscrever o social, o biológico, a cultura e a natureza. Portanto, além da compreensão de que as pessoas constituem- se homem e mulher num processo continuado e dinâmico, a autora nos faz refletir que “[...] gênero é mais do que uma identidade aprendida, é uma categoria imersa nas instituições sociais […] generificadas, ou seja, expressam as relações sociais de gênero” (p. 103). Assim, como categoria de análise, o gênero nos ajuda a compreender porque, apesar de um século de lutas do Movimento Feminista por equidade, ainda temos um número alarmante de registros de violência contra as mulheres, tanto no espaço público como no privado. A construção social do masculino e feminino reafirma reações de poder que tentam naturalizar a dominação masculina.
A imersão do gênero nas instituições sociais faz com que essa construção social do gênero se dê cotidianamente nas normas sugeridas e impostas, de forma relacional, em um constructo simultâneo na teoria e prática.
Tendo apenas uma existência relacional, cada um dos dois gêneros é produto do trabalho de construção diacrítica, ao mesmo tempo teórica e prática, que é necessário à sua produção como corpo socialmente diferenciado do gênero oposto (sob todos os pontos de vista culturalmente pertinentes), isto é, como habitus viril, e, portanto não feminino, ou feminino, e, portanto não masculino. A ação de formação, de Bildung, no sentido amplo do termo, que opera esta construção social do corpo não assume senão muito parcialmente a forma de uma ação pedagógica explícita e expressa. Ela é, em sua maior parte, o efeito automático, e sem agente, de uma ordem física e social inteiramente organizada segundo o princípio de
divisão androcêntrico (o que explica a enorme pressão que ela exerce) (BOURDIEU, 2014, p. 41).
Existe, assim, uma construção social do feminino e do masculino, sendo os traços anatômicos interpretados no contexto histórico e cultural. Simone de Beauvoir (1970) afirma que, durante a infância, as crianças são apenas crianças. A ideia de superioridade do macho tem sua construção iniciada com a noção de independência que é ditada aos meninos por meio da exaltação da virilidade, como adjetivo deles. Em contraposição, as meninas é atribuída a passividade feminina, como “[...] um destino que lhes foi imposto por seus educadores e pela sociedade”. (BEAUVOIR, 1970, p. 21). Assim, os costumes e, consequentemente, a sociabilidade estabelecem atividades e qualificações diferentes para meninas e meninos.
Bourdieu (2014, p. 63) caminha na mesma direção e defende que a socialização, compreendida aqui como um processo de “[...] diferenciação ativa em relação ao sexo oposto”, tende a diminuir as mulheres, por meio de uma aprendizagem, essencialmente tácita, da resignação e do silêncio, que se dá por meio de um disciplinamento constante. Aos homens cabe a virilidade - reprodutiva, social e sexual - e o dever de afirmá-la em qualquer circunstância, também vista como a capacidade para o combate e, consequentemente, a concretude de ações violentas, sendo investida por meio dos jogos de violência masculinos presentes nas sociedades e nos esportes. Contudo, esse privilégio masculino apresenta ônus para ambos, mulheres e homens.
Em oposição à mulher, cuja honra, essencialmente negativa, só pode ser defendida ou perdida, sua virtude sendo sucessivamente a virgindade e a fidelidade, o homem "verdadeiramente homem" é aquele que se sente obrigado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de fazer crescer sua honra buscando a glória e a distinção na esfera pública. A exaltação dos valores masculinos tem sua contrapartida tenebrosa nos medos e nas angústias que a feminilidade suscita (Ibid, p. 64) .
Assim, segundo o autor, esses elementos antagônicos da construção da identidade masculina e da identidade feminina partem da concepção das formas permanentes “de se servir do corpo”, que são a “naturalização de uma ética” (p. 38).
Margareth Mead (2003, p. 274) afirma que a padronização e a proibição de comportamentos passam por uma seleção social, podendo ser “[...] padronizadas ou proibidas a todos, ignoradas pela sociedade, ou convertidas no comportamento aprovado e exclusivo de um único sexo”. Assim, a violência contra as mulheres é