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Em 1878, ano que marcou o início da construção da Estrada de Ferro Oeste de Minas, a interiorana cidade de São João del-Rei recebe a visita da Photographia Internacional, dirigida por Ágio Pio. Signos do anseio pelo progresso que passou a movimentar a cidade, principalmente a partir do último quartel do século XIX, a Estrada de Ferro Oeste de Minas e a fotografia serão personagens importantes da modernidade em São João del-Rei.

PHOTOGRAPHIA INTERNACIONAL DIRIGIDA POR AGIO PIO

Tem a honra de participar ao respeitável público, que tem aberto sua oficina por pouco tempo de demora nesta cidade, e preparado seu ateliê, com os melhores aparelhos que há na Alemanha e em Nova York, pelo que garante fidelidade, nitidez e duração.

Tira retratos pelo sistema bombé, colorido ou não, imitando perfeitamente ao esmalte.

Previne as exmas senhoras que nem sempre vão à corte, que desejarem ter um perfeito retrato em photographia, que não devem perder a ocasião que se lhes proporciono.

Gabinete photographico – Largo do Rosário, 18.70

O anúncio da visita do fotógrafo permite compreender o modo como a cidade e seus habitantes passaram a vivenciar, ainda no século XIX, o universo da fotografia. Nesse mesmo período, constatamos a passagem pela cidade de outros fotógrafos, principalmente vindos do Rio de Janeiro e São Paulo. Esses profissionais se estabeleciam em São João del-Rei durante um tempo determinado e ofereciam seus serviços, destacando a perfeição de seus trabalhos, a tecnologia utilizada sua procedência etc. Tratava-se de explorar o mercado fotográfico em expansão nas cidades do interior.

Estabelecido por pouco tempo na cidade, o ateliê Photographia Internacional, dirigido por Ágio Pio, desejava atrair o público mencionando a origem de seus aparelhos, “Alemanha e Nova York”, que garantiriam “fidelidade, nitidez e duração”. A qualidade do serviço oferecido estava diretamente ligada à dependência existente entre o trabalho do fotógrafo e a tecnologia utilizada. Segundo Maraliz de Castro Vieira Christo, essa dependência era bem mais valorizada do que a percepção estética. Segundo a autora, somente os fotógrafos que se dedicavam à fotopintura enfatizavam o caráter artístico de seu trabalho71.

70 ARAUTO DE MINAS, 05/08/1878, ano II, nº. 20. 71 CHRISTO, 2000, p. 131.

Além da qualidade técnica de seu trabalho, Ágio Pio se dirige especificamente ao público feminino, destacando a oportunidade de as “exmas senhoras que nem sempre vão a corte” terem um retrato fotográfico. O Rio de Janeiro era a grande vitrine para o restante do País e, portanto, ditava a moda, seja do urbanismo, seja do vestuário, enfim, dos costumes e hábitos de um país que se queria civilizado e progressista. O público feminino era responsável por disseminar novas idéias dentro da estrutura familiar e da comunidade, daí ser muito cortejado pelos fotógrafos.

Outro importante fotógrafo do século XIX também visitou São João del-Rei, em 1883. O alemão C. Bischoff prestou seus serviços em várias regiões do País. Segundo Kossoy, ele teria passado por Joinville, Vitória, João Pessoa, Teresina, entre outras tantas cidades, mas sua trajetória ainda está por ser pesquisada72. Em São João del-Rei, C. Bischoff estabeleceu-se na Rua da Prata, oferecendo as últimas novidades da arte fotográfica, divulgadas na Exposição

de Paris e Philadelphia73. A preocupação em oferecer as “últimas novidades da arte

fotográfica” é recorrente nos anúncios, como observa Maraliz de Castro Vieira Christo na análise dos jornais de Juiz de Fora.

Na segunda metade do século XIX, o processo para obtenção da fotografia passava por aceleradas mudanças, o que justifica a grande preocupação com a atualização técnica. Ávidos por novidades, os habitantes da interiorana São João del-Rei representavam para esses profissionais uma clientela que se ampliava.

72 KOSSOY, 2002, p. 83.

Segundo Kossoy, esses fotógrafos itinerantes são “uma das características mais notáveis da penetração da fotografia no interior do país”74. Foram esses homens, dispostos a enfrentar longas viagens, carregando pesados equipamentos e buscando novos públicos para um mercado cada vez mais concorrido, que levaram a fotografia às cidades do interior do País.

O fotógrafo M. B. de Sá Vasconcellos, em 1882, também anunciou sua visita à cidade de São João del-Rei75. Em sua propaganda, destacava a ornamentação de luxo de seu ateliê e o reconhecimento de seu trabalho nas principais cidades da Europa e América. Sua condição de fotógrafo itinerante era reforçada pelo anúncio de que visitaria todas as principais cidades da província de Minas Gerais. Além da itinerância, Vasconcellos destacava a sua formação científica. Boris Kossoy encontrou referências a esse fotógrafo na cidade de Poços de Caldas e Uberaba e nesta última ele se apresenta como bacharel em Ciências Naturais, Belas Artes e Letras, além de fotógrafo viajante premiado em diversos concursos artísticos nacionais e estrangeiros76.

Muitas fotografias anônimas do século XIX, que hoje são utilizadas em campanhas publicitárias e de educação patrimonial, foram produzidas por esses fotógrafos itinerantes. A implantação da Estrada de Ferro Oeste de Minas em São João del-Rei (1881) facilitou a vinda desses fotógrafos que, anteriormente, encontravam grandes dificuldades para o transporte dos equipamentos e acessórios necessários à montagem de seus ateliês itinerantes.

Assim como Juiz de Fora, São João del-Rei também foi favorecida pela proximidade com o Rio de Janeiro e pela chegada da ferrovia, que levava mercadorias e trazia “artigos

74 KOSSOY, 2002, p. 25.

75 ARAUTO DE MINAS, 12/08/1882, ano VI, n. 16. 76 KOSSOY, 2002, p. 313.

importados, as máquinas, os imigrantes, as companhias dramáticas...e os fotógrafos”77. Apesar de ser considerada uma cidade barroca guiada pelos sinos das igrejas, São João del- Rei, assim como Juiz de Fora, também passa a vivenciar a modernidade através da fumaça da locomotiva, dos apitos da fábrica, da luz elétrica, do cinematógrafo, do telefone, vivência essa que encontrou na imagem fotográfica uma possibilidade de registro, testemunho e propaganda.

Se nas últimas décadas do século XIX o panorama fotográfico em São João del-Rei é caracterizado pela passagem desses profissionais itinerantes, o início do século XX será marcado pela presença do primeiro fotógrafo que se estabeleceu na cidade, tanto profissionalmente quanto constituindo família e se tornando um habitante de São João del- Rei. Em 1906 encontramos a primeira propaganda desse “hábil photographo”:

O hábil photographo Sr. André Bello, com gabinete caprichosamente montado nesta cidade, communicou-nos que é representante do Sr. G. Caminada, de Milão (Itália), casa especial e uma das mais importantes da Europa (...).

O Sr. Bello promptifica-se a tirar o retrato de quem deseje qualquer obra nesse gênero, offerecendo aos seus amigos e clientes amostras e catálogos para escolha do modelo.78

Benzer Belgeler