Um dia virá em que todo meu movimento será criação.
Clarice Lispector
Como foi demonstrado até aqui, o percurso de Martim o faz se encontrar com a força
plástica do esquecimento e também com a potência da solidão. Além desses modos de
afirmar a vida, o personagem clariciano ainda experimenta outro meio de se fortalecer. Depois de cometer seu crime, descobre que existe um tipo de subversão maior, que consiste em criar a si mesmo, fazendo da sua vida um objeto artístico que precisa ser esculpido e adequado a um estilo429. Ele percebe que foi além da mera autocompreensão, que descobriu na escuridão de si mesmo e do mundo um modo de dizer sim, de afirmar sua própria existência, não simplesmente a aceitando, mas a transfigurando e lhe atribuindo sentidos inusitados, como alguém que consegue “imprimir no múltiplo a forma do uno”430. Essa postura inventiva diante da própria existência só é possível uma vez que Martim consegue se ancorar no momento presente e ousa esquecer o passado. É possível também porque ele se isola como um artista que deseja criar a partir de si mesmo.
Martim, dessa forma, não é o artista que surge na escritura de Clarice em personagens como G.H., a voz de Água viva ou Rodrigo S. M. É outro tipo de artista, aquele que, antes de escrever, pintar, compor, está mais interessado na invenção de si mesmo431, sendo assim um
429 Cf. MELÉNDEZ (2006, p. 48). Em ensaio intitulado “Homem e estilo em Nietzsche”, Germán Meléndez
observa que o estilo de um homem, a partir da interpretação de Nietzsche, consiste no estabelecimento de uma unidade, que não está dada, mas que é sempre criada. Julgo ser pertinente identificar no percurso de Martim esse estilo, criado e reinventado pelo personagem através de sua própria formação.
430 MELÉNDEZ, 2006, p. 49.
431“Martim caíra tão em si próprio que não se reconheceu. Como se até agora tivesse apenas brincado. Quem era
ele? Teve a certeza intuitiva de que não somos nada do que pensamos e somos o que ele estava sendo agora, um dia depois que nascemos nós nos inventamos – mas nós somos o que ele era agora”. (LISPECTOR, 1999c, p. 217).
“artista de sua própria existência”432
. Com o romance A maçã no escuro, a escritura de Clarice parece colocar em questão exatamente a ideia de que só se pode criar quando a obra de arte começa por uma transformação aguda, por uma invenção de si mesmo que inaugura novas possibilidades de vida433. Em uma carta a sua irmã Tania Kaufman, em 6 de janeiro de 1948, poucos anos antes de iniciar a escrita do romance em questão, Clarice, em Berna, fala da importância de praticar a si mesmo, de cuidar do eu e de criar e conservar o que somos diante dos outros, ressaltando a importância de não desistirmos de nós mesmos, realizando-nos tal como um objeto estético:
Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.434
A fala de Clarice indica uma preocupação que aparece também em sua ficção, o cuidado de si435. A escritora defende que devemos cuidar de nossa existência, apontando para
o que Michel Foucault disse ser “uma cultura de si”, na qual se intensificam e se valorizam “as relações de si para consigo”436
. O personagem de A maçã no escuro é justamente esse homem que compreende que seu primeiro dever é consigo. Antes de criar uma obra, de escrever um livro, Martim tem a coragem de se colocar de pé, isto é, de construir seu caráter, dando-lhe um estilo. Antes de ter um compromisso com a arte, com os outros, ele precisa firmar um compromisso consigo mesmo. É como se Martim fosse, aos poucos, intuindo que é
necessário “aplicar-se a si próprio, ocupar-se consigo mesmo”437
. Ele se torna, assim, uma espécie de deus que possui como missão ampliar o mundo, restituir a si mesmo os contornos de seu estilo. Outras personagens claricianas também passam pelo mesmo processo de
432 DIAS, 2008, p. 44. 433 DELEUZE, 2010, p. 124. 434
LISPECTOR, 2002, p. 165.
435 Cf. FOUCAULT (1985). Em História da sexualidade: o cuidado de si, Michel Foucault escreve um capítulo
intitulado “O cuidado de si”, que retoma a discussão da estética da existência, a partir da qual se diz que cada homem deve se tornar seu objeto de conhecimento e ação, ou seja, deve se ocupar de si mesmo, num exercício permanente do cuidado consigo.
436 FOUCAULT, 1985, p. 47. 437 FOUCAULT, 1985, p. 49.
criação, mas, particularmente no caso de Martim, a obra de arte se manifesta apenas como uma estética da existência, “uma tarefa de constante autossuperação: o si como trabalho
ininterrupto, como infinitas metamorfoses”438
. Não há escrita de um livro, realização de uma obra literária, mas exclusivamente a mudança que se dá na construção de si.
É que diante daquela extensão de terra enorme e vazia, em sufocado esforço Martim penosamente se aproxima – com a dificuldade de quem nunca vai chegar – se aproxima de alguma coisa a que um homem a pé chamaria humildemente de desejo de homem mas a que um homem montado não poderia fugir à tentação de chamar de missão de homem. E o nascimento dessa estranha ânsia foi provocado, agora como na primeira vez em que pisara a encosta, pela visão de um mundo enorme que parece fazer uma pergunta. E que parecia clamar por um novo deus que, entendendo, concluísse desse modo a obra do outro Deus. Ali, confuso sobre um cavalo assustado, ele próprio assustado, num segundo apenas de olhar Martim emergiu totalmente e como homem.439
Emergir como homem, no caso de Martim, significa, em diferentes contextos, cometer um crime, arriscar-se no isolamento, esquecer seu passado, mas, sobretudo, a partir desse delito, ser capaz de criar uma nova vida. Ele então se coloca mais uma vez nesse lugar simbólico da solidão e da criação, a montanha. Deseja sempre “ir de novo à encosta para retomar a cada dia o instante de sua formação do dia anterior. Onde ficava de pé, bastando-lhe estar de pé, sem saber o que fazer. Essa necessidade que uma pessoa tem de subir uma montanha – e olhar”440. De pé sobre uma encosta, ele percebe que a criação de si – e, por extensão, a do mundo – começa pelo olhar. Olhando para o mundo, sentimos que ele só pode nos receber quando o criamos, ou seja, o homem e o mundo só podem se adequar na medida em que aquele constrói este de acordo com seu estilo, fortalecendo-se e afirmando-se441. Ao criar-se no mundo e reinventar o que existe, Martim se torna um deus que consegue responder às questões que são colocadas para ele.
A concepção do homem como criador, que perpassa a escritura de A maçã no escuro, também se encontra presente na filosofia trágica de Nietzsche e constitui um de seus aspectos primordiais442. Tanto no romance de Clarice como na filosofia de Nietzsche observamos o pensamento de que o homem é responsável por criar o mundo e a sua própria existência. A
438 ORTEGA, 1999, p. 63. 439
LISPECTOR, 1999c, p. 113-114.
440 LISPECTOR, 1999c, p. 127.
441“Ao ponto de um dia, diante da claridade inóspita e sem nenhum sentido, ele ter enfim pensado, um pouco
inquieto e avançando: „por Deus, se não criássemos um mundo, este mundo apenas divino não nos receberia‟”. (LISPECTOR, 1999c, p. 128).
442 Cf. Alexander Nehamas (2002), que, em seu livro Nietzsche, la vida como literatura, discutiu de maneira
máxima de Píndaro “Como alguém se torna o que é”, que ocupa o interesse de Nietzsche,
quando este se propõe a pensar na construção e formação do homem, está também disseminada nos textos de Clarice, principalmente no que tange à escritura de A maçã no
escuro. Na Terceira consideração intempestiva: Schopenhauer educador, Nietzsche fala de
como a singularidade de cada um pode nos encorajar “a viver segundo a nossa própria lei e
conforme a nossa própria medida”443
. Martim pode ser visto como esse homem que descobre sua singularidade e se desloca, movido pelo desejo de se reconstruir segundo sua própria medida. O protagonista comete um crime e parte à procura de si mesmo – podemos ler esse evento como uma tentativa de o personagem se assumir como homem e, sobretudo, de aceitar que é apenas sua a responsabilidade444 de sua existência. Assim, a partir dessa ousadia, Martim decide se tornar uma espécie de deus de sua própria existência, não obedecendo aos valores alheios nem se colocando passivamente no mundo, como um homem que espera que
“Deus” resolva sua vida e comande sua existência. Ao contrário, ele parte para a criação de si
mesmo, assume a tarefa de reinvenção do mundo e, sobretudo, a de “transvalorar” o estabelecido. Como um habitante temporário da terra, se arrisca na tarefa de viver-criar sua existência. Tal percurso é recorrente em outros textos de Clarice, revelando-se um aspecto primordial de sua escritura. G.H., Ana, Martim, a protagonista de Água viva e Lóri são apenas alguns exemplos de personagens que mantêm essa atitude de ver a vida como obra de arte que deve ser composta.
O homem que cria o mundo, que se torna “um deus”, na medida em que pode decidir, escolher e construir, nos remete ao aforismo 125 de A gaia ciência, em que Nietzsche fala do homem louco que procura Deus, após constatar que ele está morto445. Mesmo que as
443
NIETZSCHE, 2003a, p. 140.
444“Temos de assumir diante de nós mesmos a responsabilidade por nossa existência, por conseguinte, queremos
agir como os verdadeiros timoneiros desta vida e não permitir que nossa existência pareça uma contingência privada de pensamento. Esta existência quer que a abordemos com ousadia e também com temeridade, até porque, no melhor ou no pior dos casos, sempre a perderemos”. (NIETZSCHE, 2003a, p. 140).
445“O homem louco se lançou para o meio deles [os homens que não criam em Deus] e trespassou-os com o
olhar. „Para onde foi Deus? ‟, gritou ele, „já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Pra onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Pra trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda „em cima‟ e „embaixo‟? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos a putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?” (NIETZSCHE, 2001, p. 147-148).
representações de Deus sejam bem distintas na obra de Nietzsche e Clarice, existem algumas correspondências entre o referido aforismo e aquilo que Martim sente. Tanto o homem louco de Nietzsche quanto Martim, de A maçã no escuro, podem ser aproximados pela verificação de que o mundo se lhes apresenta esvaziado de qualquer divindade que possa assegurar um consolo metafísico ou provida de força para atuar sobre a realidade. Nietzsche proclama a morte de Deus e incita que cada homem se torne o artesão do mundo. Também Clarice mostra aos leitores um homem que descobre “a morte de Deus” e se depara com o fato de que apenas ele mesmo pode afirmar o mundo, construir sua vida, determinar sua existência, definir caminhos e se tornar um deus de sua própria história.
Enquanto Nietzsche fala do assassínio de Deus como um crime cometido por todos os homens, em Clarice, a morte de Deus é representada simbolicamente pelo crime cometido por Martim, uma vez que tal crime inaugura seu primeiro ato como homem: passa a ter nas mãos o poder de escolha, passa a poder decidir, afirmar ou negar, em suma, a agir sobre a realidade e sua própria existência. Seu crime significa a destruição de uma vida reativa e o começo de uma reconstrução que se dá a partir de seu estilo. Ele se arrisca na aventura de ser outro, de experimentar caminhos, de se lançar numa deriva, cujos pontos de partida e chegada pouco importam. O risco maior nesse percurso, assim como a alegria e a força que dele surgem, decorre do próprio desequilíbrio do deslocamento contínuo, de uma “viagem sem finalidade (atelos), na qual o fio de Ariadne não se mantém esticado em direção à Arkhé, como na metafísica, mas se arrisca nos desvios, nos caminhos laterais e marginais”446. Nesse jogo de criação, Martim descobre que é o único responsável por sua existência, ou seja, é ele quem decide que forma dar à multiplicidade de sua vida. Sentindo não ser fácil se exprimir, ainda se
permite arriscar. “Ele queria isto: reconstruir. Mas era como uma ordem que se recebe e que
não sabe cumprir. Por mais livre, uma pessoa estava habituada a ser mandada, mesmo que fosse apenas pelo modo de ser dos outros. E agora Martim estava por sua própria conta”447.
Lançado nesse mundo que o instiga a se reconstruir, a dar formas à multiplicidade de si mesmo, o personagem clariciano empreende sua maior tarefa: a de se criar. A vida lhe é então oferecida em seus fragmentos múltiplos, e Martim, desamparado, num universo do qual Deus se retirou ou foi retirado, precisa inventar sua vida em seus próprios termos, com a
446 GRAGNOLINI, 2006b, p. 101. 447 LISPECTOR, 1999c, p. 131.
liberdade e a angústia daquele que tem a tarefa de construir algo, dar forma ao informe, ao caos de si mesmo448.
Pois já na sua primeira visão um passarinho não cabia. Tudo lhe fora dado, sim. Mas desmontado e aos pedaços. E ele, com peças sobrando na mão, não parecia saber como montar a coisa de novo. Tudo era dele para o que quisesse fazer. No entanto a própria liberdade o desamparava. Como se Deus tivesse atendido demais o seu pedido e lhe entregasse tudo. Mas tivesse ao mesmo tempo se retirado. A campina era toda de Martim, e mais um passarinho que cantava. E dele também, nesse tempo curto, era a vida inteira. E ninguém e nada podia ajudá-lo: fora exatamente isso o que ele próprio preparara com cuidado, e até com um crime preparara. Mas se astuciosamente começara pelo mais fácil – que mais simples que um passarinho? – então perguntou-se embaraçado: que faço de um passarinho cantando?449
Martim percebe que está agora num mundo sem deus, num universo em que ninguém pode ampará-lo. A tarefa de construir o mundo e de imprimir sobre ele um sentido, assim como moldar sua vida, estabelecendo aspectos que confiram a ela uma unidade, é uma ocupação em certa medida solitária. Ele então começa a observar o que há de mais simples nesse mundo, mas mesmo o ordinário – um pássaro que canta – o assombra. Talvez esse assombro seja aquele experimentado por todo homem que se vê livre para criar. Criar o mundo, assim como se criar nesse mundo e se construir a partir de suas nuances, exige entender as várias partes que compõem o todo. Cada parte ganha uma dimensão maior, já que é responsável, no final, por aquilo que se torna. Martim também percebe que o trabalho de criação exige o estabelecimento de uma relação diferente com a temporalidade, visto que se inventar é também, em alguma medida, ruminar. “Ele por enquanto estava moldando, e isso é sempre lento; ele estava dando forma ao que ele era, a vida se fazendo era difícil como arte se
fazendo”450 .
Criar a vida é um trabalho lento, assim como o ofício do artista. Como ressaltaria Foucault, a experiência de si mesmo consiste em se criar de forma a ter prazer consigo mesmo451. A vida e a obra de arte mais uma vez se entrecruzam, já que são compreendidas como uma coisa só. Ao viver, Martim constrói sua vida tal como um artista escreve um romance. Ele supera o espanto de poder inventar e se abre para o jogo da criação-destruição.
448“A grande paixão aspira à potência. A potência quer mais potência. A potência não é o que se quer, mas
aquilo que quer. O essencial é dominar-se, limitar-se, não se deixar arrastar. Fazer do próprio caos forma”. (VASQUEZ, 2005, p. 122).
449 LISPECTOR, 1999c, p. 141-142. 450 LISPECTOR, 1999c, p. 143.
451“E a experiência de si que se forma nessa posse não é simplesmente a de uma força dominada, ou de uma
soberania exercida sobre uma força prestes a se revoltar; é a de um prazer que se tem consigo mesmo. Alguém que conseguiu, finalmente, ter acesso a si próprio, é, para si, um objeto de prazer. Não somente contenta-se com o que se é e aceita limitar-se a isso, como também „apraz-se‟ consigo mesmo”. (FOUCAULT, 1985, p. 70-71).
Para o personagem de Clarice, não basta viver; é ainda preciso dar à sua existência os contornos de uma obra de arte. Essa concepção da vida entendida como um artefato artístico aparece em alguns textos de Nietzsche e fazem parte de sua filosofia trágica. Em O
nascimento da tragédia, o filósofo assegura que “a existência e o mundo aparecem
justificados somente como fenômeno estético ”452
. Essa mesma ideia, levemente modificada, reaparece no aforismo 107 de A gaia ciência: “Como fenômeno estético a existência ainda nos é suportável”453. Essa concepção trágica do mundo que perpassa toda a filosofia de Nietzsche e se inscreve de modo particular na literatura de Clarice tem como um de seus atributos o pensamento de que a vida deve ser entendida como uma obra de arte454. Somente aquele homem que mantém com sua existência um cuidado estético, pode, no final, construir uma vivência intensa. Ademais, apenas o homem que se constrói vendo-se como uma obra de arte pode, no final, justificar sua própria vida, assim como suportar a travessia.
Antes de escrever um livro, Martim se debate com algo mais complexo, a criação de um novo homem, ele mesmo. Nesse mundo esvaziado de um deus, o personagem tangencia algo fundamental, a saber, o fato de que cada um é o artista de si:
Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém, exceto tu. Certamente, existem as veredas e as pontes e os semideuses inumeráveis que se oferecerão para te levar para o outro lado do rio, mas somente na medida em que te vendesses inteiramente: tu te colocarias como penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho sobre o qual ninguém, exceto tu, poderia trilhar. Para onde leva ele? Não perguntes nada, deves seguir este caminho. Quem foi então que
anunciou este princípio: “Um homem nunca se eleva mais alto senão quando
desconhece para onde seu caminho poderia levá-lo?”455
O trecho acima, retirado da Terceira consideração intempestiva, deixa entrever a questão da responsabilidade de cultivar a existência como obra de arte. Essa responsabilidade se inscreve no horizonte de cada existência. Todo homem é responsável por criar sua vida e reinventar, assim, o mundo, com o olhar perspectivo que lança sobre cada coisa e sobre si mesmo. Martim arrisca-se nesse jogo, sentindo-se responsável por sua vida, e entendendo que só ele pode trilhar o caminho que o leva àquilo que se tornará. Ele abandona as veredas, as pontes e os semideuses, optando por escalar a montanha, elevando-se e subindo pelo caminho
452 NIETZSCHE, 1992, p. 141.