A preocupação central no desenvolvimento desta pesquisa tem como tema o estudo das dinâmicas socioambientais que constituem o PEIC e deste modo, os principais desdobramentos que ocorreram na Ilha do Cardoso no contexto de sua criação quando foi decretada Parque Estadual, em 1962 e posteriormente, como ocorreu o processo de implantação desta UC. A pesquisa visa verificar a hipótese de que os desdobramentos e conflitos entre diferentes agentes atuantes no Parque tem resultado em crescimento das dificuldades para manutenção das populações tradicionais nas UCs, inserindo-se também num contexto estadual e federal de pressão para privatização das áreas protegidas. Para tanto é preciso a utilização de um referencial teórico- metodológico que considere as dinâmicas socioambientais que estão expressas na configuração territorial e paisagística da Ilha do Cardoso.
É necessário partir de uma análise que seja capaz de evidenciar a correlação entre as dinâmicas naturais que se expressam na biodiversidade existente na Ilha do Cardoso e que dá suporte à criação do parque, pela relevância ambiental e a partir daí, de que modo se estabelecem as estratégias para conservação dos recursos naturais do Parque e nesse contexto, como se dá esta relação com as dinâmicas do território e da paisagem (dinâmicas socioambientais) dos diferentes indivíduos e atores sociais que estão presentes no mesmo e que possuem seus projetos de vida e de ações nessa UC, sendo eles, as populações tradicionais e conselho gestor do PEIC, membros da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, que rege as dinâmicas de uso e ocupação no interior do Parque. Foi necessária a escolha de uma metodologia capaz de relacionar e evidenciar quais são os atores e os diferentes projetos dos mesmos que interagem (e atuam) no PEIC.
Nesse sentido, alguns pontos devem ser considerados a partir das hipóteses que norteiam este estudo. Tais questões estão fundamentadas na discussão que há tempos vem
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sendo desenvolvida no País e exterior por uma série de autores pertinentes à temática de áreas naturais protegidas, de como estão sendo pensadas a criação destas áreas e a coexistência com as populações tradicionais e consequentemente, as problemáticas e conflitos decorrentes dessa relação entre diferentes atores presentes nas UCs. O que requer estratégias de gestão operantes e capazes de repensar essas relações conflituosas e que sejam capazes de atenuar as problemáticas e cumprir de fato o papel de assegurar a preservação tanto da biodiversidade quanto da manutenção dessas populações nas áreas protegidas.
Estas áreas, embora sejam definidas como últimos redutos (ou ilhas) dotados de biodiversidade conservada por grupos sociais pré-modernos- populações tradicionais- (Diegues, 20004), muitas vezes coexistem em uma contradição, tantos pelas comunidades que lá existem (tradicionais ou não), quanto pelo Conselho Gestor das UCs do Estado de São Paulo, onde muitas vezes prevalecem os diferentes interesses políticos em detrimento do investimento em ações conjuntas para elaboração e estratégias de gestão entre os Conselhos Gestores das UCs e as populações tradicionais que habitam tais áreas para que se possa efetivamente promover a preservação em todos os aspectos destas áreas.
A conservação dessas áreas pode ter maior efetividade a partir do momento em que se relativizam as distâncias dos interesses e perspectivas entre os atores das UCs, no caso do PEIC, entre o Conselho Gestor - que visa garantir o previsto na legislação ambiental do País que é promover a efetiva conservação da biodiversidade nas UCs - e as populações tradicionais, no caso da Ilha, os caiçaras, que reivindicam o direito de permanência no interior do Parque sob o fundamento de garantia da manutenção dos seus modos de vida tradicionais e garantia de preservação de sua diversidade cultural.
Diante das diferentes perspectivas também estão presentes as diversas representações paisagísticas destes atores, que se apresentam nas suas relações (sejam elas afetivas ou econômicas) com o meio físico e biótico, ligadas aos seus territórios e à sua identidade. Nesse sentido, os procedimentos metodológicos empregados neste estudo possibilitaram uma análise integrada sobre as dinâmicas socioambientais presentes no PEIC, em que contexto ocorreu sua criação a partir do histórico de fundamentação de políticas de conservação ambiental no mundo e suas influências no contexto brasileiro referente à criação de áreas protegidas. Quais foram os principais desdobramentos e repercussões da inserção da Ilha do Cardoso como área protegida regida pelo Estado de São Paulo, respaldado na legislação ambiental vigente no País que dispõe sobre as áreas protegidas e como se estabelecem as relações entre os atores no sentido de apontar os principais desafios e contribuições em relação à estratégias de gestão e
parceria adotados por esses atores.
Para abordar a complexidade das relações existentes entre esses atores, foi adotado como pressuposto de fundamentação teórica, o sistema teórico metodológico GTP (Geossistema- Território – Paisagem) elaborado pelo geógrafo Georges Bertrand, o qual propõe uma análise sistêmica e integrada sobre as dinâmicas socioambientais. O sistema GTP nos permite realizar uma abordagem geográfica através de uma análise integrada dos fenômenos que se constituem na interface sociedade-natureza e a tentativa neste estudo é conseguir dimensionar o mais próximo possível essa pesquisa dentro da integração proposta pela conceituação tripolar desta metodologia.
Os procedimentos se fizeram necessários, às vezes de forma separadas, às vezes concomitantemente quando se buscou correlações entre os temas. Foi realizado aprofundamento em várias questões relacionadas ao processo de criação de áreas protegidas no Brasil seguindo parâmetros internacionais e outros temas envolvendo as Unidades de Conservação.
Foram realizados levantamentos e seleções sobre materiais bibliográficos que abordam os principais aspectos conceituais de diferentes naturezas, incluindo artigos e periódicos não só no âmbito da Geografia, mas das Ciências Sociais, áreas jurídicas e antropológicas a fim de se compreender a conjuntura atual da legislação brasileira que discorre sobre as políticas ambientais (Código Florestal, Constituição de 1988, Política Nacional de Meio Ambiente de 1981, SNUC, IUCN, CDB, PNAP- Plano Nacional de áreas Protegidas e outras disposições). Além dessas referências, foi realizado o levantamento de diversas referências bibliográficas disponíveis e que contemplam a caracterização do PEIC em diferentes áreas (física, social/etnográfica). Sobre o referencial específico do PEIC, alguns foram de fundamental importância para compreender as dinâmicas ali existentes, como o Plano de Manejo Fase 2 e os Laudos do Ministério Público disponibilizados.
Foi igualmente necessário, o aprofundamento acerca dos fundamentos do modelo teórico-metodológicas adotado nesta pesquisa, o GTP, elencando o contexto de criação e o processo de aprimoramento e discussões que continua ocorrendo. Assim como o aprofundamento e análises bibliográficas de muitos outros autores tomados como referenciais e que estarão presentes no decorrer do trabalho.
Para sustentar o embasamento do modelo GTP às dinâmicas socioambientais do PEIC, conforme as hipóteses norteadoras e objetivadas na pesquisa foram necessários, além dos levantamentos e análises de diferentes bibliografias, um planejamento concreto para
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realização dos trabalhos de campo, para isso, foi necessário criar roteiros de trabalhos de campo e entrevistas bem definidos para que posteriormente fosse possível o tratamento e análise adequados dos levantamentos e dados obtidos durante os trabalhos.
É importante esclarecer que foi de suma importância à prévia elaboração desses roteiros definidos visto as limitações de distância, temporais e financeiras de realizar trabalhos de campo constantes à área de estudo. De forma que os roteiros (compilados em um questionário detalhado contextualizado na página 139 deste estudo) e número de entrevistas semidirigidas definidos pelos núcleos do Parque visam abarcar o maior número de aspectos possíveis que se propôs trabalhar a fim de não criar necessidades seguidas de ir ao campo e minimizar assim, o número de idas. Como dito, além dos recursos financeiros serem um fator limitante, é importante considerar também a disponibilidade das comunidades do Parque em receber e participar dos trabalhos, a fim de não gerar incômodos e visitas inoportunas.
Desse modo, foram realizados dois trabalhos de campo durante o desenvolvimento da pesquisa, um antes da qualificação, realizado durante os dias 20 a 28 de maio de 2013 e um posterior, entre os dias 28 de novembro e 05 de dezembro de 2013.
CAPÍTULO II: REFERENCIAL TEÓRICO -
METODOLÓGICO: O SISTEMA GTP (GEOSSISTEMA-
TERRITÓRO- PAISAGEM)
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