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O contexto social, econômico e político vivenciado pelos índios no país neste momento é o de uma política indigenista atrelada ao Estado, sendo conhecido este período como o do milagre econômico, em que muitos investimentos eram feitos em infraestrutura em prospecção mineral, tendo em vista, ser a época da Transamazônica, de barragens, tudo pautado na hegemonia do progresso. E neste contexto os índios eram empecilhos, sendo muitas vezes realocados de aldeias, forçados a integrar-se com as comunidades locais (inclusive os que viviam isolados), pois, atrapalhavam as construções de estradas e as terras inundadas pelas barragens (Cunha, 1992).

Na constituição de 1934 o conflito sob as terras indígenas levando à discussão constitucional, para Cunha (1987), o fundamento do texto constitucional foi o reconhecimento dos direitos originais e a titularidade como os primeiros donos das terras.

Apesar de existir legislação reconhecendo a legitimidade das terras indígenas aos povos originários em documentos legais desde o período colonial, foi a partir desta carta política que a temática incorporou o título de terras indígenas como prerrogativa constitucional. No artigo 129 foi expresso: “Será respeitada a posse de terras de silvícolas que nelas se achem permanentemente localizados, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-las” (Brasil (1934). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil).

Não há neste período garantia ou política de atenção a saúde indígena. O direito discutido nesta constituição ainda estava restrito a propriedade das terras indígenas.

A história desta carta política ainda revela que houve outro avanço e que fez relação com a competência, ou seja, a quem competia dizer o direito dos índios brasileiros, ficando então, definido que cabia privativamente à União a capacidade jurídica de legislação sobre questões indígenas, assim disposto no artigo 5ª da referida Constituição: “Compete privativamente à União: XIX - legislar sobre: m)

incorporação dos silvícolas à comunhão nacional” (Brasil (1934). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil,).

Para Carvalho (2004) a terceira constituição brasileira, de 1937, surgiu em um contexto social e político bastante agitado, no que se refere a luta política. Pois, foi um período de intensa mobilização, inclusive da sociedade pela abertura de sindicatos, associações de classe e partidos políticos.

Assim, diante de grande agitação política a Constituição de 1934 foi revogada e o golpe de estado de Getúlio Vargas e outorgou a nova carta política de 1937, que possuía um espírito ditatorial e por isso em nada avançou na questão dos direitos indígenas. Apenas manteve-se estável quanto a questão da terra (Cunha, 1987).

Em 1946, a quarta Constituição do Brasil, vivenciada no período da República Populista que antecede o golpe militar de 1964 apresenta o tema indígena em alguns momentos entre eles no artigo 5º, inciso, alínea r, atribuindo a União a competência de legislar sobre a incorporação dos silvícolas à comunhão nacional (...) ainda faz referência a posse das terras, prevendo que onde se achassem permanentemente localizados, seriam respeitados os silvícolas, com a condição de não a transferirem (Brasil. (1946). Constituição dos Estados Unidos do Brasil).

A reparação histórica surge na Constituição de 1946 pelo condão reparatório, como se observa nos Comentários à Constituição para Dória, que identifica o artigo pelo seu caráter reparatório, o qual o autor proclama como “os conquistadores que, até certo ponto, se penitenciam da espoliação cometida” (1960, p. 871-872).

O importante desta Constituição foi a de que manteve dois artigos sob o direito as terras indígenas da Constituição de 1934, no artigo 5º da competência à União para legislar sobre a incorporação dos silvícolas à comunhão nacional e no artigo 216 manifestando que a posse das terras onde se achassem permanentemente localizados, os silvícolas, teriam então a condição de não os transferirem.

No ponto de vista de Cunha (1987, p. 92-93), houve discussão precedendo a promulgação da Constituição de 1946 no que tangia o direito à terra indígena ser considerado transitório ou “posse imemorável”, tendo em vista, a comprovação dos títulos anteriores aos de outros ocupantes.

A Constituição de 1946 manteve os dispositivos referente as terras indígenas fazendo a discussão sobre a “condição de não transferirem as terras indígenas” (Brasil (1946). Constituição dos Estados Unidos do Brasil), e desta forma, trouxe ao debate

da época a questão da transmissão hereditária entre os índios e a preservação da propriedade coletiva.

Ao longo da construção dos direitos indígenas o que se viu foi a afirmação de que os nativos eram senhores de suas terras, e detinham a sua posse, contudo, direitos construídos sob o prisma da política segregacionista, a qual conduziu a comunidade indígena pautada de acordo com o ordenamento jurídico do Estado dominador, o qual ditou desde o primeiro contato a ordem social do individualismo, dos interesses mercantis, pela lei os titulares dos direitos.

Com a intervenção militar foi imposto em janeiro de 1967 uma nova Constituição para o Brasil, a qual confirma a intervenção militar e institucionaliza o regime militar na sociedade (Carvalho, 2004). Contudo, sabe-se que antes da promulgação da nova Constituição houve um ingresso no ordenamento jurídico e social brasileiro a recepção do decreto n. 58.824 de 1966, o qual incorporou à legislação brasileira a Convenção 107, abordando sobre “a proteção e integração das populações indígenas e outras populações tribais e semitribais de países independentes”- da Organização Internacional do Trabalho (Convenção OIT,n 107, 1957) representando interna e externamente um avanço para o reconhecimento aos direitos dos indígenas (Oliveira, 2009).

O referido decreto tem importância na história da saúde indígena, tendo em vista, ser a primeira legislação internacional reconhecida e ratificada pelo Brasil, apresentando imperativamente a necessidade de sua execução e cumprimento integral. Assim, como se lê no texto legal:

Artigo 12: 1. As populações interessadas não deverão ser deslocadas de seus territórios habituais sem seu livre consentimento, a não ser de conformidade com a legislação nacional por motivos que visem à segurança nacional, no interêsse do desenvolvimento econômico do país ou no interêsse da saúde de tais populações.

PARTE V - SEGURANÇA SOCIAL E SAÚDE

Artigo 19: Os regimes de segurança social existentes serão progressivamente ampliados, na medida do possível, de modo a abrangerem: a) os assalariados pertencentes às populações interessadas; b) as demais pessoas pertencentes a essas populações.

Artigo 20: 1. Os governos assumirão a responsabilidade de colocar serviços de saúde adequados à disposição das populações interessadas. 2. A organização dêsses serviços será baseada no estudo sistemático das condições sociais, econômicas e culturais das populações interessadas. 3.O desenvolvimento de tais serviços acompanhará a aplicação de medidas gerais de progresso social, econômico e cultural (grifo da autora) (Brasil. Decreto n. 58.824 de 14 de julho de1966. Grifo da autora).

A Convenção entra em vigor no Brasil em um cenário político de extrema tensão, tendo em vista, o pleno exercício da ditadura militar, em que havia privação de direitos de toda ordem e a toda a população.

A nova Constituição do Brasil foi promulgada em janeiro de 1967 e o que a identifica é a sua preocupação com a segurança nacional. Vive-se um período político conflitante, em que Atos institucionais são incorporados e modificam o cenário administrativo, político e social da sociedade brasileira, restringindo direitos para todos os cidadãos, Estados brasileiros, partidos políticos, judiciário. Culminando com o mais severo ato do presidente o conhecido Ato institucional – AI5- que suspendeu as garantias constitucionais, bem como suspendeu os direitos políticos por 10 anos (Oliveira, 2009).

No que se refere aos direitos indígenas a Constituição de 1967 seguindo as antigas constituições mantêm-se preocupada com a propriedade das terras ocupadas pelos nativos, como se vê no texto constitucional:

Art 4º - Incluem-se entre os bens da União: I - a porção de terras devolutas indispensável à defesa nacional ou essencial ao seu desenvolvimento econômico; II - os lagos e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, que sirvam de limite com outros países ou se estendam a território estrangeiro, as ilhas oceânicas, assim como as ilhas fluviais e lacustres nas zonas limítrofes com outros países; III - a plataforma submarina; IV - as terras ocupadas pelos silvícolas;

Art 8º - Compete à União: XVII - legislar sobre: o) nacionalidade, cidadania e naturalização; incorporação dos silvícolas à comunhão nacional;

Art 186 - É assegurada aos silvícolas a posse permanente das terras que habitam e reconhecido o seu direito ao usufruto exclusivo dos recursos naturais e de todas as utilidades nelas existentes. (Brasil (1967). Constituição da República Federativa do Brasil).