“Junto as folhas para ajudar no adubo... queimar é prejuízo” Aristide, Araruba.
A capacidade de estratificação dos ambientes pelos quilombolas de Brejo dos Crioulos, conforme visto, ultrapassa a distinção das terras e a sua capacidade de produção agropecuária. Assume um significado maior, quando os sistemas de manejo e o aproveitamento dos recursos naturais e a compreensão do espaço (onde) e do tempo (quando) são vistos de forma interligada, possibilitando a exploração do potencial ecossistêmico local (Dayrell et al., 2006).
É sob esta égide, que os quilombolas fazem um melhor aproveitamento dos recursos naturais, com o uso de plantas medicinais, aproveitamento de frutos nativos, usam a madeira para a construção, lenha e fabricação de utensílios domésticos, caçam, realizam a pesca nas lagoas e no rio Arapuim, extraem o mel silvestre e outras possibilidades locais. Estas oportunidades ambientais estão associadas a um sistema agroalimentar construído com práticas de convivência, embasadas em um sistema diversificado de produção. Para isso, os quilombolas reconhecem o melhor momento (tempo), o ambiente (a terra, a umidade, o microclima), a espécie e variedade, combinam atividades e elencam o conjunto de práticas que permite a reprodução social de suas famílias. Reconhecem na implantação de agroecossistemas diversos, a possibilidade de um melhor aproveitamento dos ambientes e suas terras, realizando multiusos. Estratégia que implica na diminuição dos riscos de perdas de produção com eventuais estresses climáticos, como os veranicos, muito comuns no Norte de Minas. Além de ampliar o uso e ocupações de cada área no decorrer do ano, os quilombolas buscam uma maior eficiência no uso da terra, rotacionando as atividades e minimizando os efeitos da realidade a que lhes foi imposta, a pouca disponibilidade de terras. Os principais usos, solos, acesso à água, vegetação nativa e limitações de cada ambiente identificado pelos quilombolas são apresentados na Figura 12.
A interação é complexa, cria-se um sentido de pertencimento e identidade cultural, que garante a vitalidade da Caatinga, dos rios, dos brejos, das vazantes, das encostas, furados e dos carrascos, sine qua non há reprodução material e social do povo de Brejo dos Crioulos. É nessa relação de convivência, homem e ambiente, que se constrói um modo de vida condizente com as especificidades locais, forjando-se a sustentabilidade de um povo, condições explicitadas nos relatos dos quilombolas:
Tem um “carrasco”, benévolo, que oferece sua essência (plantas nativas), seu mel, seus traços, força (lenha e madeira) e alimenta (frutos nativos e solta para o gado). Quando acabam os murundus e atinge-se a vegetação mais alta na encosta (Floresta Caducifólia), eis a “cultura vermelha”, que alicerça a moradia, os quintais e pequenas criações, terra boa, mas “sofre com o Sol”. A linha de umidade abranda, a terra não é mais vermelha, é “cultura parda”, na vazante. Aqui se produz de tudo, é o milho, a fava, o feijão das águas, o guandu, a cana. Faltou o arroz, é no brejo, mas de acordo com a variedade, pode ser no “brejo baixo” ou no “alto”. Se for no alto, pode plantar o feijão de sequeiro também. O bengo, é o pasto que sustenta no brejo. E tem mais, os “furados”. E ainda, a riqueza das águas, nas lagoas, no rio, nas cacimbas, dessedenta e alimenta, tem peixe. Esse é o Brejo, simples, nem tanto, tem um povo, nativo, da comunidade remanescente do quilombo de Brejo dos Crioulos
(compilação feita pelo autor a partir de relatos dos quilombolas sobre os ambientes e a estratégia produtiva). Todo este arcabouço de estratégias e práticas, determinado por uma série de fatores, está alicerçado no conhecimento construído e repassado entre gerações, e que pode ser constantemente adaptado ou inovado de acordo com as demandas e exigências colocadas no contexto local e regional, sejam climáticas, sócio-econômicas ou culturais. Embora, as respostas não aconteçam, necessariamente, ao mesmo tempo em que as demandas as exigem. Esta é uma realidade vivida por grande parte dos remanescentes quilombolas da Mata da Jaíba, que sofreram (sofrem) com o cercamento e a expropriação das terras, a substituição da biodiversidade pelos campos de pastagens homogêneas, deixaram grande parte dos quilombolas “encurralados em seu próprio território18”, comunidades limitadas ao uso restrito de “ilhas” de pequenas franjas de terra das encostas até o brejo. Estes limites impostos pela alteração e acesso às distintas unidades da paisagem têm contribuído com a degradação dos recursos locais e o comprometimento do modus vivendi quilombola (Costa, 1999; RTID/LA19, 2004; Dayrell et al., 2006).
18
Francisco Barbosa, o “Ticão”, liderança de Brejo dos Crioulos, residente no núcleo de moradia de Araruba.
19
Relatório técnico de identificação / laudo antropológico da comunidade remanescente do quilombo de Brejo dos Crioulos.Fundação Cultural Palmares, Rio de Janeiro. 2004. 167 p.
Figura 12. A caracterização dos diferentes ambientes e limitações identificadas pelos quilombolas na comunidade de Orion, Brejo dos Crioulos.
Unidade
paisagem Carrasco
Cultura
vermelha Vazante Brejo Vazante
Cultura vermelha Uso Solta de gado, pastagem, cultivo de amendoin, feijão catador Moradia, mandioca, amendoim, feijão catador, milho, fava, cana
Milho, feijão, fava, abóbora, quiabo, melancia, mandioca, amendoim, cana
Arroz, feijão de sequeiro, sorgo
Milho, feijão, pasto, fava Moradia, milho, fava, pasto, amendoim Solos LVd (franco-argilosa e argila) - “terra vermelha” LVe (franco- argilosa) - “terra vermelho escuro”
CXbe + LVe (franco- arenosa) “terra preta arenosa”
RYbe + RKk + GXve (muito argilosa e argila siltosa) - “terra de barro cinza” CXbe (franco- arenosa) “terra preto arenosa” CXbe + RLe (argila, franco arenosa) “vermelho escuro” Água Poços artesianos ou armazenada e furados (dolinas)
Poços artesianos Lagoas e cisternas Lagoas, rios e cacimbas Lagoas e cisternas Poços artesianos e furados Vegetação nativa Surucaba, caatinga de porco, rastelo, vaqueta, malícia, miroró, bucho de boi, ararico, periquiteira
Aroeira, pereiro, tamboril, farinha seca, mutamba, umbuzeiro
Jaú, aroeira, cedro, pau d’arco, angico, pau preto, barriguda, juazeiro
Ingazeira, rosqueira, itapicuru, tamboril, mutamba, gameleira, angico, farinha seca, mangue
Aroeira, pau preto, pereiro, mutamba
Aroeira, pau preto, tamboril, farinha seca
Limitação
Solos com baixa fertilidade natural e elevada acidez, aliada a vulnerabilidade à déficit hídrico Déficit hídrico e suscetibilidade à erosão Inundação no período chuvoso e déficit hídrico nas culturas de sequeiro
Inundação Solos rasos, déficit
hídrico
Afloramento de rochas, solos rasos e déficit hídrico
Este conhecimento ecológico local se mostra chave para o manejo dos recursos naturais, promoção do bem-estar humano e o desenvolvimento econômico local. Conhecimento este, embasado em informações pertinentes aos agroecossistemas, que envolve um sistema ecossociológico, composto pelas relações entre o clima, solo, organismos e o homem (Resende, 1995). O resgate e compreensão destes sistemas locais de manejo de solos e convivência ambiental possibilitam articular estratégias e propostas apropriadas ao desenvolvimento sustentável junto à população quilombola do território de Brejo dos Crioulos (Petersen, 2005).