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1 - O Despojar-se: A Historicidade do Conceito.

“Se não acudi, como me mandaste, não foi por preguiça, sim por causa de algo importante. Deixando de lado a reverência devida a vós e a toda pessoa honrada, me tenho proposto não sair jamais do monastério senão por razões muito precisas1”.

“‘Bem-aventurado o servo’ que não se envaidece com o bem que o Senhor diz e opera por meio dele mais do que com o que o Senhor diz e opera por meio de outrem. Peca o homem que exige do seu semelhante mais do que ele mesmo diria de si ao Senhor seu Deus2”.

Partimos, para nossa análise, de uma definição apresentada por Jacques Le Goff, na qual o sentido das palavras torna-se fundamental para se compreender as variações de uma sociedade, pois "a história das palavras pertence à história sem mais qualificativos. O desaparecimento e aparecimento de termos, a evolução e as transformações semânticas do vocabulário fazem parte do próprio movimento da história3”. Toda variação representa um dinamismo dentro de sua sociedade, seja esta de agregação, ou de limitação da própria palavra.

Com o conceito despojamento, definido aqui como nosso objeto, as variações no decorrer dos séculos XII-XIII expressam agregações e novas interpretações, sobretudo nos movimentos religiosos a que pertenceram Bernardo de Claraval e Francisco de Assis. Variações que não se restringiram somente às questões religiosas, mas eram expressões

1 BERNARDO, C. EpB. 17, In: SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Obras Completas de San Bernardo. 8

Volumes. Edicion Bilingüe (Latim-Espanhol), Edicion Prepara por Los monjes cistercienses de España. Introducción por Iñaki Aranguren. Traducción por Iñaki Araguren y Mariano Ballano. Madrid: BAC. Tomo VII- Volume 1, 1990, p. 151 – Epístola direcionada a Pedro, Cardeal Diácono em resposta a solicitação deste para que Bernardo escrevesse novas correspondências e que estivesse presente nas várias localidades como representante da Igreja nas questões de fé.

2 SÃO FRANCISCO DE ASSIS, Admoestações 17. IN: SÃO FRANCISCO DE ASSIS SÃO FRANCISCO

DE ASSIS. Escritos e biografias de São Francisco de Assis. Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano. Seleção e Organização de Ildefonso Silveira e Orlando dos Reis. Tradução. Orlando Reis (et all) . 9ª Ed. Petrópolis/RJ: Vozes/FFB. 2000.p. 67.

3

LE GOFF, J. A História Nova. IN: LE GOFF, J.; CHARTIER, R; REVEL, J. A História Nova, 1978. Tradução Eduardo Brandão. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 25.

correntes na sociedade dos séculos XII e XIII, bem como dos posteriores. No entanto, devemos mencionar tratar-se de uma sociedade de homens que viviam sob a égide da Igreja, que os dividia em Ordens4, possuindo a ordem eclesiástica dos oratores a chefia da Igreja, contando em seu seio com a parcela mais abastada da sociedade, restando aos bellatores e laboratores a tarefa de lutar para conseguir a sua própria participação nos assuntos eclesiásticos e mesmo nos seculares. Assim, despojar-se nos séculos XII e XIII era muito mais do que se fazer pobre. Era, sobretudo, fazer-se obediente, humilde, fraterno, menor, e mesmo submisso. Como menciona Francisco de Assis aos seus seguidores no século XIII: “E éramos iletrados e submissos a todos [...] e embora eu seja simples [...]5”, fazia-se de menor diante dos outros, despojando-se de sua condição, para melhor glorificação de Deus.

Nesta perspectiva, buscar na medievalidade o sentido da palavra despojamento, requer que a compreendamos nas definições gerais. Palavra derivada, conforme os dicionários especializados, do greco-latino definindo-se por: Despoliare, Despouiller, Spoliare, Despoliat, Despoliatio6. Dessa primeira grafia, para as evoluções semânticas das

novas línguas, principalmente, as que surgiram do entrecruzamento da romana com as línguas bárbaras, o radical permanece o mesmo. No entanto, encontramos diferenças de grafia entre as de origem latina das que mesclam com a origem celta. Para as primeiras,

4 Segundo a definição de Georges Duby, a sociedade medieval nos tempos de Bernardo se dividia em

oratores, bellatores e laboratores, cabendo aos primeiros a direção da sociedade. DUBY. G. As Três Ordens ou o Imaginário do Feudalismo. 1978. Trad. Maria Helena Costa Dias. Edição Portuguesa 1982. Lisboa: Editorial Estampa. 1982.

5 SÃO FRANCISCO DE ASSIS, op., cit. , TestP., p. 189-190.

6 DU CANGE, DOMINO, Glossarium Mediae Et Infimae Latinitatis, Graz, Áustria: Akademischen Druck -

u.Verlagsanstalt. Tomo II, Edição de 1678, republicada em 1954, p. 82; ENCLICLOPÉDIA UNIVERSAL ILUSTRADA-EUROPEO-AMERICANA, Etimologías- Sánscrito, Hebreo, Griego, Latín, Árabe, Lenguas Indígenas Americanas, etc. Madrid: Espasa-Calpe, Tomo XVIII - Primeira Parte, 1968, p. 612. Em outros dicionários, que trabalham com termos medievais por nós consultados, o sentido vem referido ao apresentado no Dicionário Du Cange, op. cit. . Assim, optamos por ficar com esta versão e, nas próximas citações, deveremos pautar-nos, salvo exceção, por este dicionário.

encontramos: Depouiller, Spolier, Spogliare, Despojar, Despullar, e nas segundas, a estrutura define-se por: to Spoil, to Despoil7.

Se, nos primeiros tempos, tal termo possuía a sua aplicabilidade, este pouco sofreu no surgimento das línguas vernáculas. O radical semântico permaneceu inalterado. Na nossa verificação, o que altera é a aquisição de novos sentidos: espoliar, privar da posse, desapossar, privar, despir-se, ou, privar a alguém do que gosta e tem, despojar-se dele com violência, além de usurpação, pilhagem e roubo. Termos que apresentam diferentes aplicabilidades na sociedade dos séculos XII e XIII e que podemos analisar em dois sentidos diferentes.

O primeiro no sentido jurídico (caso de despojar alguém de seus bens durante uma contenda, ou uma guerra) e o segundo, na Igreja, religioso e eclesial, na constituição de um "grau", ou no sentido de elevação espiritual.

Na primeira referência, o termo despojamento surge com sentido de quitar juridicamente a possessão dos bens ou habitação que um tem, para dar ao seu legítimo dono, precedendo de uma sentença para isto. É possível vê-lo aplicado ainda como despojar os feridos, mortos e prisioneiros de uma guerra, ficando neste caso condicionado ao que estabelece o direito jurídico dos povos.8 Fatores que pouco nos interessam nesta pesquisa.

No segundo caso, o eclesial, as primeiras referências foram empregadas à vida dos Santos9, definindo-se, nestes casos, pela valorização da experiência religiosa frente à

7ENCLICLOPÉDIA UNIVERSAL -EUROPEO-AMERICANA, Etimologías- Sánscrito, Hebreo, Griego, Latín, Árabe, Lenguas Indígenas Americanas, et op. cit. p. 612 .

8 Idem, p. 612-613.

9 Não estamos aqui ainda definindo Bernardo de Claraval e Francisco de Assis como santos. Estamos usando

as denominações encontradas que demonstram que a utilização das palavras devem-se à valorização de homens que conseguiram elevar-se diante dos outros, chegando a constar como santos. Por enquanto, para Bernardo e Francisco, preferimos tratá-los como homens religiosos, pois trabalhamos com os escritos de

permanência de posses. É o caso das Vitas de S. Altamanni Episcopi Pataviensis, S. Gregorium VII, Gelasius I, para além desses, encontramos referências com relação à vida dos padres do deserto. No nosso caso, a expressão ocorre em Bernardo de Claraval (Bernardus de Claravalle) e, posteriormente, com acréscimos, em Francisco de Assis (Francisci di Assii), citados pelos dicionários.

Na primeira referência, a questão material é refutada pela espiritual. Vemos assim dois momentos distintos para Bernardo de Claraval e Francisco de Assis. Bernardo, segundo os biógrafos, deixa a casa paterna e condiciona o seu irmão a administrar tudo pelo zelo do pai. É o aristocrata que, renunciando, deixa a sua família nuclear para estar com a família monástica. Já emFrancisco de Assis, a renúncia segue de perto a família nuclear, mas não vem seguida por uma família monástica. Não diz que deve permanecer com eles, pelo contrário, propõe a divisão, escolhe ficar nú para seguir ao Cristo Nú.

Estas características não eram exclusivas da Idade Média, ou dos homens de seu período. Eram, sobretudo, definição ou determinação bíblica. Faziam parte da opção dos homens que escolhiam a eclésia em vez da vida profana. Segundo os Evangelistas, Jesus Cristo, ao convidar os seus primeiros seguidores, indicou-lhes que deixassem todos os seus bens e O seguissem. Que se despojassem pelo outro. Citações verificadas em: Mt. 4,18-22; Mc. 1,16-20; Lc. 5,1-11; ou ainda em Lc. 10,25-37, ou ainda na parábola do Bom Samaritano, quando encontramos o conceito despojamento. “Um homem descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram [...]”. Aqui o sentido,

Bernardo e de Francisco, que foram alcançando a santidade aos poucos, que se despojaram de suas vertentes, recusaram as glorias terrenas e, em muitos casos, chegaram a estar entre os santos, ainda em vida. As obras sobre Francisco são discutíveis, pois as biografias que veremos mais à frente têm caráter de santidade, porém aquelas a ele atribuídas são um tanto quanto exortativas.

além de eclesial, é também jurídico, porque o homem perde pelo roubo e não há um despojar-se voluntário. Trata-se também do homem que é expropriado no seu direito.

Contudo, o termo, ainda no contexto eclesiástico, não se restringe somente à utilização na Vida dos santos, engloba decisões administrativas, de fé, pois aparece nas definições canônicas e conciliares, cujo sentido permanece inalterado.

São as denominações empregadas no primeiro sentido que nos interessam nesta pesquisa, sobretudo, porque serão estas conotações que encontramos em Bernardo de Claraval e Francisco de Assis. Mas, despojar-se, na compreensão dos homens religiosos dos séculos XII e XIII, ia além da questão material. Para os homens religiosos e seguidores do exemplo evangélico, despojar incluía, também, o despojar-se da carne, na esperança de uma compensação em algo transcendental, de estar espiritualmente em contanto com Deus.

Mas o que é despojamento carnal e espiritual? O que difere Carne de Espírito? O despojamento carnal refere-se ao desprezo pelo corpo, pela família, pelas coisas materiais que os prendiam numa existência terrena, dificultando, segundo seus argumentos, de se unirem a Deus. Mas estes também, unem-se ao espiritual, o qual está na discussão entre união de carne e espírito10. Sobretudo, há uma preocupação em não se valorizar

10 “São Paulo (em Tes. 5,23; 1 Cor 15,24) compreende o homem integral dotado de três elementos: O Espírito-Penuma que é a parte reservada para a imortalidade; a Alma/Psykhe, que anima o corpo; O Corpo/Soma, a parte que desaparecerá. Já Isidoro de Sevilha, com base em Jo. 10,18, estabelece que o espírito é igual a Alma (XI, 1,19). A alma (pnuema/spiritus) é apenas o principio da geração para o conjunto dos seres animados; em seu principio espiritual, é o pensamento humano (XI, 1,11-12). O corpo liga-se a carne sem, contudo, confundir-se com ela, pois a carne ‘tem vida enquanto vive o corpo’ (XI, 1,17). Como mundo, a carne constitui-se pelos 4 elementos (...) O homem, enquanto humano, dota-se do dualismo corpo/carne, cognoscível, e alma/inteligência que o torna imago Dei. (...) É o que vemos, o que apalpamos, o que mais ou menos chegamos a conhecer, pelo que é rejeitado. E não apenas por isso, mas também por sua transitoriedade, por ser a parte que irá desaparecer. No conjunto corpo/alma, o elemento integrador são os sentidos, que servem para governar o corpo (XI, 1,19). Tais sentidos nada mais são do que projeção da alma, enganando-se quem ‘por princípio não lhes dá fé’ (De Civitate Dei XIX, 18). Desta forma, a imagem do mundo (céu e terra), o homem possui corpo e alma. Tal como as esferas do mundo (celeste, terrestre e infernal), são 3 esferas humanas: inteligência, corpo e carne. ANDRADE FILHO. R. O. A respeito dos homens e dos seres prodigiosos: Uma utopia do homem e de sua existência na obra de Santo Isidoro de Sevilha (Etimologias, Livro XI), IN: Revista de História USP. Dossiê Nova História. São Paulo: USP. ANO 23, 1994, p. 78.

demais o espírito, para que, assim, o homem religioso não perca de vista sua busca em Deus.

Por outro lado, o despojar espiritual refere-se à ascese, que os transformam, porque o modelo é baseado na vida de Cristo. Modelo que os levava a aceitar de bom grado as privações (quer seja material, carnal ou espiritual) em nome de Deus. Eram homens que tudo faziam para agradar a Deus; portanto, cumpridores dos preceitos por Ele determinados, recusavam todas as vantagens adquiridas na existência terrena, preparando- se espiritualmente e vivendo uma nova experiência religiosa.

Despojamento carnal, material e espiritual são os focos desta discussão.Contudo, num primeiro momento, analisemos a aplicabilidade do conceito despojamento.

Em busca de melhor circunscrição medieval para o termo, o Glossarium Mediae Et Infimae, de Domino Du Cange, nos apresenta a seguinte definição em S. Fulgentius, Ep. 3,:

"Virgo, quae ornatum corporeae vestis affectat, animam suam virtutum splendore

Despoliat"11. (A virgem que ambiciona o enfeite dos trajes corporais priva12 sua alma das virtudes com esplendor). O contexto aqui é o da privação, despoliat - privar-se. A referência expressa algo exterior, mas no sentido literal expressa algo interior. É interior e exterior, ou seja, ornamentos para o corpo e virtudes para a alma. É o desprezo do mundano pelo espiritual. Nestes casos, pede-se a mortificação do corpo para numa gradação de mortificação, chegar à morada eterna. Mortificação que farão Bernardo de Claraval e

11

DU CANGE, , Glossarium Mediae Et Infimae Latinitatis, op. cit., p. 82.

Francisco de Assis. Para tanto, recusar-se-ão os enfeites, jejuaram para não dar ao corpo os prazeres carnais e desta forma não deixar perder a alma13.

O corpo, neste caso, aparece como prisão para a alma. Há uma separação entre o corpo (matéria) da Alma (princípio da vida). Pela tradição Bíblica, o corpo recebe o Espírito no sopro da vida; “O senhor Deus formou o homem do pó da Terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo”. (Gn. 2,7).

Por esta criação o homem recebe o Espírito e tem a mortalidade do corpo e não da alma. São Tomás de Aquino, chama em 1312 no Concílio de Viena a alma de “forma do corpo”; forma corporis humani per se et essentialiter”. Assim, a alma é imortal, ao contrário do corpo que é mortal14.

Já Ferrater Mora, no Dicionário das Religiões, nos dirá que “a alma é o sopro divino que anima o corpo, a força propulsora de todas as atividades vitais, a sua saída do corpo resulta em morte”; e continua mais à frente: “A alma vem de Deus, não é uma emanação ou uma parte dele, é uma criação especial e única”. Argumentação que encontramos concluída da seguinte maneira: diferente do corpo padecível, a alma vive a esperança de uma transcendência até Deus. Feita por ele, pode também ser destruída; porém é preservada para a glória de seu criador15.

Morada de Deus, mas também morada do demônio, o corpo era constituído, para a maioria dos homens místicos, tanto da Antigüidade, como na época de Bernardo e Francisco, com uma certa ambigüidade. Ser pecador era caracterizado como sendo demoníaco, sendo desprezado, impondo-se-lhe um constante sofrimento, através de ascese

13 SCHMITT, J. C. Corpo e Alma. In: LE GOFF, J. & SCHMITT, J. C. Dicionário Temático Do Ocidente Medieval. Trad. Capítulo de José Carlos Estevão. Coord. Trad. Hilário Franco Jr. Bauru/sp; São Paulo: Edusc; Imprensa Oficial. 2002, p 261.

14 SCHLESINGER, H & PORTO, H. Dicionário Enciclopédico das Religiões. Petrópolis: Vozes, Volume - I

e II, 1995, p. 129.

espiritual, jejum constante e vigília contra os maus pensamentos16. Desprezam-se os prazeres e as companhias, principalmente das mulheres, cujo corpo é visto com repulsa, abominação e “o lugar de eleição do Diabo17”. Mas, se morada de Deus, deve ser valorizado. Contudo, necessita ser justificado, para que não distraia o espírito na sua busca pela Parúsia. O corpo constituído pela matéria difere do espírito, pois este é aquele que, estando em contato com Deus, pode desprender-se do corpo, para, neste estado, elevar-se até Deus.

1.1- Do conceito para a práxis: O exemplo de Bernardo de Claraval.

Gladius Petri defendat patrimonium Petri18.

Nossa referência para o conceito de despojamento em Bernardo de Claraval advém da compreensão desenvolvida para o termo pelo dicionário de Domino Du Cange, sobretudo nos verbetes do período em que encontramos grafados como Despoliat, nudat.

"Et observant quasi in simplicitate ambulantes, quem Dispolient". (E observam como na

simplicidade dos ambulantes, a quem despojavam)19”. Agregação nova, o nudat, incorporado nos séculos centrais da Idade Média, traz a idéia do abandonar as coisas

16 Doreteo, um antigo padre do deserto, respondendo a um de seus discípulos sobre o constante jejum, diz

sobre o seu corpo. "Ele me mata, e eu o mato". Ascetismo que é encontrado em vários padres do deserto e que encontramos também em Bernardo e Francisco. Cf. COLOMBAS, G. M. OSB. El Monacato Primitivo. La Espiritualidad. Madrid: La Editorial Catolica/ BAC, 1975, p. 175.

17 LE GOFF, J. O Imaginário Medieval. 1985. Tradução Portuguesa de Manuel Ruas. 2ª Ed.; Lisboa: Editoral

Estampa, 1994, p. 146.

18 Que a espada de Pedro defenda o patrimônio de Pedro. Cf. BERNARDO DE CLARAVAL, EpB. 286, op., cit., p. 887.

materiais, do desnudar-se, mas é, também, uma agregação que diferenciará o letrado que se faz submisso.

Bernardo faz uso da terminologia despoliat, nudat, sobretudo na introdução de suas Epístolas, procurando transmitir uma mensagem de simplicidade, de fazer-se menor, servos dos outros, pecador, pouco que vale, um pecador que fala com seu senhor, pobres irmãos em Cristo, servo inútil dos servos de Deus. “O irmão Bernardo, servo inútil dos monges que estão em Claraval [...]20”; ainda “O irmão Bernardo, pecador, ao jovem de boas inclinações Fulco, [...]”. Nesta Epístola, a de número 02, Bernardo continua: “[...] que não chocasse este meu atrevimento para escrever, sendo um homem tão rústico e monge, a um como você, escolástico e da cidade. [...] Se despoja do homem velho e se reveste do novo, e já que só havia sido canônico de nome, agora, atesta-o com sua vida e costumes21”. Na Ep. 266 de 1150, escrita para Suger, Abade de São Dionísio, Bernardo dirá: “Homem de Deus, não temas despojar-te desse homem que tem sua origem na terra, que te inclina a terra e intenta sepultar-te nos infernos22”. Ora, neste pequeno trecho, vemos o abade discutir a questão da renúncia em prol do trabalho religioso, mas é, sobretudo, a visão de um eclesiástico que defende o abandono das coisas mundanas pelas coisas de Deus, respeitando os preceitos da Igreja.

Nesta busca pelo abandono, Bernardo faz suas Epístolas circularem por vários lugares do Ocidente e do Oriente Próximo. Por isso, o sentido de despojamento, despoliat, nudat no abade, não pode se entendido somente no contexto monacal, daqueles que

20 Introdução feita por Bernardo na Apologia. Geralmente, era assim que o Abade iniciava as suas

correspondências. Cf. BERNARDO, Apologia, op. cit. p. 825.

21 Veterem hominem exiutur et novum induitur, quodque solo nomine exstiterat, moribus, vita canonicum

profitetur. Cf. BERNARDO, Ep.B. 02, op. cit. p. 65. Esta Epístola descreve a preocupação de Bernardo com a administração da Igreja de Langres. Igreja em que Fulco era o responsável, mas que a abandonou, conforme veremos no subitem mais à frente.

ficavam fechados em um claustro23. Aliás, Bernardo escreve vários de seus textos para os homens que estão fora do claustro.

Na, Ep.B n. 354, direcionada a Rainha de Jerusalém, Melisandra, filha do rei Balduino II, e esposa de Fulco, rei a partir de 1143, Bernardo escreve como conselheiro político sobre a administração de um reino. É um escrito também de submissão da rainha ao reino.

“Se considerar unicamente a ti a glória do teu reino, teu poder e tua nobre estirpe, me pareceria impróprio escrever a quem vive imersa nas múltiplas preocupações e assuntos da corte real. Isto é, o que parece aos olhos humanos, e aos que carecem deles, invejam aos que o têm e crêem felizes aos que o possuem. [...] São bens, mas efêmeros, instáveis, passageiros e caducos, porque são bens da carne. E da carne e de seus bens disse a Escritura: ‘toda carne é erva e sua beleza como flor campestre’ [...] Por isso não convém a que quem te escreve apreciar estes bens, cuja graça é enganosa e fugaz a formosura. [...] Depois de falecer teu marido, o rei e, enquanto o seu filho herdeiro não seja capaz de tomar em suas mãos os assuntos do reino e desempenhar as funções reais, os olhos de todos se voltam a ti e unicamente em ti repousa o peso íntegro do reino. É preciso que atue com valor e debaixo das aparências de mulher manifesta-te muito varonil, realizando tudo o que seja necessário com Espírito de sabedoria e fortaleza24”.

Problemas além das fronteiras do Ocidente, a Epístola a Melisandra deixa clara a preocupação do Abade de Claraval com o despojamento em favor de algo “a administração de um reino”; mais ainda da boa condução, segundo os preceitos cristãos.

Benzer Belgeler