Devemos destacar que foi nesse ano que Gabriel mudou de escola saindo, portanto da etapa da educação infantil e estando agora no Ensino Fundamental.
Percebemos que, nesse período, as produções gráficas representam um momento em que os desenhos de Gabriel começam a ganhar uma forma de fácil identificação para os adultos (Figura 27), mas ainda percebemos ser necessário recorrer ao título da proposta para compreendermos o contexto de sua produção. Sem dúvida, identificamos mudanças significativas em toda sua atividade gráfica e seus desenhos se apresentam como narrações gráficas: Gabriel carrega seu desenho de tudo aquilo que o objeto a ser retratado apresenta. Vygotsky (1987) diz ser por isso que o desenho de memória pode ser considerado uma narração gráfica.
Figura 27 - O macaco e a velha
Percebemos que para esse ano (2009) não encontramos produções com o título “desenho livre”, contudo foram identificadas atividades com o tema “escrita livre”. Isso nos dá indícios da mudança de concepção da linguagem gráfica desenho-escrita. Nos dois anos anteriores Gabriel se encontrava na etapa da educação infantil, fase em que a alfabetização ainda não é sistematizada. Entretanto, nesse ano de 2009, como já citado, ele está no Ensino Fundamental, momento em que se começa a sistematização efetiva da alfabetização.
Notamos pelas atividades que, apesar da mudança da indicação da atividade de desenho livre para escrita livre, Gabriel continua priorizando o desenho em suas atividades, complementando-as com a escrita. Podemos supor que esse processo ocorre uma vez que ele está sendo sistematicamente inserido na apropriação da escrita nessa etapa da educação. Isso pode ser explicado quando Vygotsky diz: “Al igual que en la historia del desarrollo cultural del niño, nos encontramos frecuentemente aqui con cambios a saltos, alteraciones o interrupciones em la línea del desarrollo” (2000, p.184).
Em várias atividades podemos ver indícios do que foi exposto. Seguem a primeira (Figura 28) e a última atividade de “escrita livre” (Figura 29) catalogadas.
Figura 29 - Desenho livre | última atividade
Identificamos muitas mudanças nessas duas produções (Figuras 28 e 29): passagem da letra de bastão para a letra cursiva, texto mais completo, com mais informações. Na primeira atividade (Figura 28), o desenho revela ser o foco. A escrita nesse momento aparece como suporte da linguagem do desenho. Já na segunda imagem (Figura 29), o desenho surge com vários detalhes, como uma linguagem gráfica. Nesse sentido Vygotsky aponta:
Por todo ello, podemos considerar que el dibujo infantil es una etapa previa al lenguaje escrito. Por su función psicológica, el dibujo infantil es una lenguaje gráfica peculiar, um relato gráfico sobre algo. (2000, p.192)
Podemos dizer que, nessa atividade, temos indícios de que o desenho passa a ser um relato gráfico e a escrita parece surgir como um complemento.
Apesar de Gabriel, em todas as atividades mapeadas, apresentar o desenho como principal linguagem, notamos, por meio da categoria “histórias lidas em sala”, que à medida que ele se apropria do código escrito, a linguagem escrita aparece nas atividades cada vez mais frequente, até identificarmos o momento em que sua escrita começa a aparecer como narrações gráficas juntamente com o desenho.
Essas narrações que eram antes apenas representadas pela linguagem dos desenhos, passam a ser representadas também através da escrita. Isso provavelmente se deve ao fato de a apropriação da escrita estar em desenvolvimento, assim também como sua linguagem do desenho. Mostramos, a seguir, as atividades que demarcaram o processo do desenho para a escrita, fazendo com que ambos se tornassem uma narração gráfica.
Figura 31- Bruxa, bruxa venha a minha festa
Figura 32b - A raposa sabida (verso)
Percebemos, nas atividades colocadas (Figuras 30, 31, 32 e 32b), que o processo de a escrita vir progressivamente acompanhando o desenho não se deu de imediato. Gabriel, na primeira atividade mostrada (Figura 30) escreve e desenha, mas na segunda (Figura 31) ele apenas faz o desenho da história e coloca seu título, sem evidências de narrações por meio da escrita, retomando assim ao que fazia antes.
Depois de algumas outras produções com esse “jeito”, ele retoma e elabora outra atividade (Figuras 32 e 32b). Nesse momento, o desenho e a escrita aparecem como textos narrativos. Essas “evoluções” e “involuções” são explicadas por Vygostky (2000), uma vez que a apropriação da linguagem não ocorre de imediato e nem em uma linha contínua, pois “el desarrollo del lenguaje escrito no sigue una línea única, ni conserva nada parecido a la sucesión de las formas” (p. 184).
Posterior a isso, identificamos duas produções diferentes das demais (Figuras 33, 33b e 34)
A atividade das Figuras 33 e 33b não foi elaborada em folha sulfite mas em folha almaço. Identificamos na própria produção que foi solicitado fazer uma reescrita da história contada (“1- Reescreva a história com começo meio e fim”), sendo identificada pela primeira vez tal comanda de atividade. Vejamos a produção em questão (Figuras 33 e 33b):
Figura 33b – A vira volta de Janjão (verso)
Notamos que mesmo sendo a comanda da atividade uma reescrita, a criança no final remete-se à linguagem do desenho. Observamos também que no final da reescrita há marcas de apagamento. Gabriel começa escrevendo “Por que o janjão...” e não finaliza, mesmo com a colocação – intervenção provavelmente feita pela professora – de um ponto de interrogação, parecendo não haver outra tentativa para escrever o que havia apagado. Aparece então o desenho no final.
A partir dessa atividade (Figuras 33 e 33b), foi solicitada outra (Figura 34). Contudo nessa produção não aparece o termo reescrita, apenas o título da história lida.
Vejamos a atividade que segue (Figura 34):
Essa foi a última atividade (Figura 34) de “história lidas em sala” que catalogamos e identificamos a produção textual com a linguagem do desenho no final. Podemos dizer que o desenho aparece nessa atividade novamente como um complemento à sua “nova” maneira de reescrever a história.
Nessas duas atividades (Figuras 33, 33b e 34), percebemos uma apropriação significativa da linguagem escrita. Podemos a partir delas inferir que Gabriel se encontra alfabetizado nessa etapa. No entanto, mesmo com a apropriação do código escrito ele ainda se remete ao desenho, contudo usando-o agora com outra função: a de ilustração do que foi escrito.
Entendemos que, ao considerarmos o desenvolvimento do desenho para a escrita no contexto escolar, a partir das palavras de Silva (1993), a “escolarização tanto pode oferecer amplas oportunidades de desenvolver, ampliar e modificar o repertório gráfico da criança, quanto de abafá-lo e/ou prejudicá-lo” (p.2). Nesse sentindo, entendemos que para essa criança a escolarização foi relevante para o desenvolvimento da linguagem gráfica, uma vez que identificamos significativas mudanças em suas produções.