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Apesar de à época ser um setor relativamente novo, em 1962 quando da aprovação do CBT o setor de televisão aberta já demonstrava bastante potencial de desenvolvimento e nos anos que seguintes se tornaria um dos principais meios de comunicação do país.

Talvez por conta da escassez das radiofreqüências, por se tratar de um modelo de comunicações novo para o período e por conta da capacidade de abrangência do serviço, a justificativa utilizada para que a atividade de radiodifusão fosse objeto de regulação estatal sempre foi a de que consistia num serviço de caráter educativo, destinado a promover a cultura e a integração nacional por meio da difusão da informação, sujeita, dessa forma, ao atendimento do interesse público. Ainda assim, a legislação em vigor não dava conta de fixar parâmetros objetivos que pudessem embasar a atividade dos concessionários, de modo que estes dispunham de liberdade de atuação suficiente na exploração do serviço.

Contudo, antes que se passe a tratar dos elementos fundamentais para a compreensão do processo de formação do modelo de televisão aberta no Brasil, algumas ressalvas devem ser feitas sobre este tema, embora não seja o objeto de estudo propriamente dito deste trabalho.

Usualmente, o debate a respeito da radiodifusão e das comunicações no Brasil é cercado por ‘consensos’ em torno de determinados assuntos, principalmente naqueles ligados à relação entre os grupos de comunicação e agentes do Estado, merecendo destaque o período da ditadura militar.

O principal alvo de críticas é o Grupo Globo e muito se discute a respeito de seu poder frente a governos e ao modo pelo qual consolidou sua posição no setor televisivo brasileiro55, afirmando-se, inclusive que ‘’A própria institucionalização de seu padrão Globo de qualidade constitui uma barreira à entrada de novas emissoras de televisão no mercado’’56

. Por outro lado, o que se deve apontar quanto a esta questão é que consistindo em uma atividade cujo acesso pelo público se dá de maneira gratuita, a formação de um mercado na televisão aberta depende necessariamente da adesão do público à programação exibida pelas distribuidoras.

Muito embora, a partir da citação feita acima, possamos considerar que, em se tratando de um efeito em rede no setor, a programação do Grupo Globo (ou de algum dos demais grupos de comunicação) constitui uma barreira à entrada de novos competidores, conforme postulados básicos do estudo da concorrência57, deve-se compreender que quando se analisa a estrutura de propriedade das emissoras, não há uma concentração propriamente dita no mercado.

Ao se consultar o ‘Sistema de Controle da Radiodifusão’ mantido atualmente pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) pode se perceber que os principais grupos de comunicação possuem, em comparação com o número total de operadores de radiodifusão no país, um número reduzido de outorgas. A Rede Globo

55 Várias obras dedicam-se ao assunto, dentre elas algumas se destacam: HERZ, Daniel. A história

secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Editora Tchê, 1986; LIMA, Venício. Mídia: teoria e política. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001; BRITTOS, Valério Cruz, BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (Organizadores). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.

56 SCORSIM, Ericson Meister. TV Digital e Comunicação Social: Aspectos Regulatórios: TVs Pública,

Estatal e Privada. Belo Horizonte: Editora Forum, 2008. p. 52.

57 [...] et o k effe ts a ake it ha d fo a e fi to e te the a ket he e the i i u ia le

s ale of the et o k is la ge i elatio to the size of the a ket. WHISH.Richard. Op. cit. p. 359.Nesse sentido, ver também HOVENKAMP, Herbert.The Antitrust Enterprise.principle and execution. Harvard University Press, 2008. p. 277-304.

tem cinco emissoras próprias, a Rede Bandeirantes possui quatorze distribuídas pelo território nacional e o Sistema Brasileiro de Televisão – SBT controla diretamente oito58.

A consolidação do modelo de televisão aberta no Brasil demonstra um quadro em que se estabeleceu um controle de entrada no segmento de distribuição do setor, limitando, assim, a competição pelas redes de distribuição, ao mesmo tempo em que as emissoras competiam entre si pela audiência do público, através do conteúdo veiculado.

Assim, através da análise do processo de formação deste mercado, podemos constatar que a regulação estabelecida pelo CBT e pelos órgãos da Administração cuidou apenas dos aspectos técnicos destinados ao controle sobre a infraestrutura do mercado, estabelecendo limites à entrada de novos agentes neste segmento, sem, no entanto, dispor acerca da produção e programação59.

Sob o ponto de vista da concentração de propriedade na televisão aberta, portanto, ao contrário do que se afirma, há uma fragmentação significativa entre as outorgadas. Isso porque há um grande número de operadoras das redes de transmissão, cuja titularidade é do Estado, de acordo com o modelo consubstanciado no CBT, em que se fiscaliza a prestação do serviço e estabelece seus padrões técnicos, bem como distribui as radiofreqüências (bem escasso e fundamental) aos terceiros, com base em um regime de direito público.

Por outro lado, no que se refere à produção do conteúdo a ser transmitido prevalecem os arranjos privados, obedecendo à preferência dos ‘consumidores’ na busca pela maior abrangência de suas transmissões. Ou seja, as emissoras necessitam de produções capazes de atrair um número maior de telespectadores, o que, por sua vez, faz com que concorram pelos anunciantes e pelo aumento de suas receitas60.

Desta maneira, o que ocorreu no Brasil foi a formação das redes afiliadas

nacionais, em que não há uma concentração na cadeia de distribuição, mas um ‘efeito

em rede’ desencadeado pela maior preferência do público por determinados tipos de conteúdo, o que fez com que alguns grupos em particular se destacassem no mercado

58 Fonte: Ministério das Comunicações - Anatel – Sistema de Controle da Radiodifusão. Consulta ao

banco de dados realizada através da inserção do CNPJ das empresas nos campos de busca. Disponível em: http://sistemas.anatel.gov.br/srd/Consultas/ConsultaGeral/TelaListagem.asp?SISQSmodulo=5243.

59 Não se tem como objetivo aqui afirmar que se trata de uma falha da regulação, mas simplesmente

descrever as características das normas referentes ao setor e sua abrangência.

60 Conforme já explicado anteriormente, por consistirem numa plataforma de mercado two sided seu

nacional. Por estes motivos, é possível afirmar que as críticas direcionadas ao modelo de televisão aberta, no sentido de que estes grupos não atendem ao ‘‘interesse público’’ quando desempenham suas atividades, deixam de levar em conta que fundamentalmente atendem ao interesse do público.

Diante da realidade do cenário brasileiro, é possível afirmar que encontramos um ambiente efetivamente competitivo, em que pese o fato de os grupos de maior destaque existirem em um número mais reduzido. Não é uma competição em termos de pulverização da participação individual no mercado, mas sim em termos de intensidade, já que poucas empresas dotadas de extensivo poder econômico disputam entre si uma maior participação no setor por meio de suas retransmissoras.

Há que se levar em conta, além disso, que no contexto econômico brasileiro compreendido entre a década de 1960 e a metade da década de 90 não é possível identificar claramente uma política nacional voltada à promoção e defesa da concorrência como um princípio fundamental.

Portanto, a formação do mercado nacional de televisão aberta tem como base um modelo em que se estabeleceu um controle legal à entrada de novos agentes no segmento da distribuição, enquanto, de modo concomitante, os grupos que se destacavam na produção de conteúdos passo a passo constituíram suas redes associadas, criando um ambiente que era ao mesmo tempo competitivo e concentrado em torno de alguns agentes principais.

Evidentemente, ainda que houvesse a possibilidade de obtenção de uma outorga do Poder Executivo para operar no mercado, a chave para fazer frente aos principais agentes do setor seria o fornecimento de alternativas viáveis à programação da televisão aberta, mediante a diferenciação do conteúdo veiculado e do modo de transmissão.

2.5. A TV por assinatura como alternativa à televisão aberta e a concorrência