• Sonuç bulunamadı

Em Luhmann o processo elementar que constitui o social como realidade especial é o processo comunicativo. A comunicação aparece sempre como uma ação seletiva: toma algo de atual no horizonte referencial constituído por ela mesma e deixa aparte outro (LUHMANN, 1998, p. 142). A seleção atualizada na comunicação constitui seu próprio horizonte, aquilo que seleciona já como seleção, ou seja, como informação.

A informação é uma seleção de um repertório (conhecido ou desconhecido) de possibilidades. Além disso, alguém deve selecionar uma conduta que comunique esta informação, deliberada ou premeditadamente. O decisivo é que a terceira seleção é baseada na diferenciação entre a informação e a forma com ela é comunicada. Como a comunicação em Luhmann só pode ser entendida sobre esta base, são utilizadas as designações Alter e Ego para determinar respectivamente o emissor e o receptor.

Existe comunicação, portanto, se Ego compreende que Alter emitiu uma informação. A emissão de informação não é em si uma comunicação. A comunicação se realiza somente se houver uma compreensão: as informações, que se compreendem e a responsabilidade da emissão de Alter devem ser vistas como seleções distintas. Se não existe esta compreensão não pode haver uma comunicação.

Quando se observa a compreensão como seleção na comunicação não se tem referência a sua qualidade psíquica, se bem que esta última está sempre co- relacionada com a comunicação. A compreensão psíquica tem um significado para reprodução do pensamento consciente, mas na comunicação a compreensão permite unicamente a reprodução de um sistema social.

Emissão, informação e compreensão podem ser separadas pela observação da comunicação: na comunicação mesma, estas constituem uma unidade inseparável, que não pode ser posteriormente descomposta. Esta unidade não tem duração, enquanto que a compreensão se apresenta no mesmo momento em que a emissão se distingue da informação. A comunicação é então um evento que

desaparece enquanto aparece, e não uma seqüência de seleções. Já que cada comunicação individual é um acontecimento sem duração, a comunicação sempre é nova, diferente, e seu contínuo produzir-se cria conteúdos de sentido sempre novos e diferentes. A seqüência se realiza só em um processo de comunicação que requer que, depois de uma comunicação, suceda outra unida a ela.

As comunicações individuais se produzem por uma rede recursiva de comunicações, a qual define a unidade do sistema social. A comunicação, então, é também a operação que produz as comunicações individuais como elementos dos sistemas sociais. Isto equivale afirmar que os sistemas sociais utilizam a comunicação como um modo particular de reprodução autopoiética: a comunicação da comunicação é a autopoiésis de um sistema social.

Já que toda comunicação é uma operação interna de um sistema social, entre os sistemas sociais e seu entorno não existe comunicação. Já que produz tudo na comunicação, um sistema social está enclausurado com respeito ao entorno: não recebe informação deste último.

Mediante a operação de comunicação, um sistema social está aberto ao entorno, no sentido de que pode observá-lo: o entorno se constrói comunicativamente como informação. Tudo o que não é comunicação (consciência, vida orgânica, máquinas físicas, ondas eletromagnéticas, elementos químicos, etc.) se observa no sistema social e se converte em tema de comunicação. Já que nos sistemas sociais apresentam-se somente comunicações e estruturas que permitem comunicações, os sistemas psíquicos não são parte, mas entorno daqueles.

Quanto aos problemas relativos ao êxito da comunicação, Luhmann (1998, p. 157-160) refere-se a três situações que ilustram a improbabilidade de Ego aceitar a seleção proposta por Alter. A Primeira está em que o ato de entender inclui sempre o mal-entendido e este componente, enquanto não se basear em condições prévias adicionais, só irá intensificar-se. A segunda refere-se a improbabilidade de que a comunicação chegue a mais pessoas do que as presentes em uma situação concreta; sendo que esta improbabilidade cresce na medida em que necessita que a comunicação seja transmitida sem se modificar. A terceira estabelece que quando uma comunicação é compreendida, não será de todo seguro que ela seja aceita, ou

seja, que ego aceite o conteúdo seletivo da emitido por Alter como premissa para sua própria conduta.

Como uma resposta a estas três formas de improbabilidade, Luhmann aponta três conquistas evolutivas da sociedade: a linguagem, os meios de difusão e os meios de comunicação simbolicamente generalizados.

A linguagem, enquanto meio de comunicação que se caracteriza pelo uso de signos acústicos e óticos, assegura que quase qualquer acontecimento possa ser trabalhado como informação, reduzindo assim as possibilidades de ocorrerem mal- entendidos.

Os meios de difusão tornam provável o fato improvável de que a comunicação alcance destinatários distantes ao mesmo tempo em que assegura que a comunicação enviada não sofra modificações.

Quanto aos meios de comunicação simbolicamente generalizados, estes se apresentam como estruturas particulares que tornam provável o fato improvável de que uma seleção de Alter seja aceita por Ego. A verdade científica, o amor e o poder, são exemplos de meios de comunicação simbolicamente generalizados: o amor torna a comunicação íntima provável (é a medida da construção do mundo com os olhos do outro); a verdade científica torna provável a aceitação de um saber novo que é provado com base em teorias e métodos científicos; e o poder torna provável o fato de que Ego acate uma ordem emitida por Alter.

4.3 CONSIDERAÇÕES

A partir do que foi exposto neste capítulo pôde-se observar que a Teoria Sistêmica de Niklas Luhmann é, em parte, fruto das modificações ocorridas no âmbito da teoria geral dos sistemas e de sua inquietação frente a inexistência de uma teoria que pudesse dar conta de uma sociedade cada vez mais complexa.

Como foi elucidado, o autor descreve os sistemas sociais como um resultado de uma diferenciação entre aquilo que designa o sistema e aquilo que é designado como seu entorno. Sobre a distinção sistema/entorno ficou estabelecido que o ambiente apresenta-se como o lado mais complexo, pois abarca um sem número de possibilidades, as quais o sistema não pode comportar. Desta forma o sistema atua, em suas observações com relação ao entorno, como um redutor de complexidade.

Os sistemas sociais também foram designados por Luhmann como entidades auto-referentes e autopoiéticas, no sentido de que sua ordem interna é gerada a partir da interação dos seus próprios elementos (comunicações) e que tais elementos são produzidos a partir dessa mesma rede de interação circular e recursiva, que designa o próprio sistema.

Observou-se que tanto os sistemas sociais como os sistemas psíquicos são sistemas de sentido, que possuem um alto grau de contingência em suas operações. Contudo ficou determinado que os sistemas sociais, por operarem somente comunicações não abrangem os sistemas psíquicos em seu interior, pois estes são compostos somente de pensamentos. Atuam, portanto, um em relação ao outro, como sistemas no entorno.

No que se refere à sociedade, esclareceu-se que ela representa o conjunto de todas as comunicações, e que se encontra dividida em vários subsistemas sociais, os quais produzem comunicações submetidas a condições mais restritivas, ou seja, pontos de vista específicos que reproduzem desde um ângulo particular a sociedade global.

Também se definiu o conceito de comunicação como uma diferença entre emissão, informação e compreensão, e elucidou-se como a teoria sistêmica

interpreta a improbabilidade da comunicação bem como os meios que a tornam possível.

5 A CONTRADIÇÃO E O CONFLITO NA PERSPECTIVA SISTÊMICA DE NIKLAS

Benzer Belgeler