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4.2.1 Heterogeneidades e resistência à imposição

Como pôde ser observado, não houve consenso nem homogeneidade nas concepções e nas práticas prescritas pelos grupos técnico e acadêmico, menos ainda entre ambos e o grupo de sitiantes.

Vale relembrar, porém, que não existe homogeneidade mesmo dentro de cada grupo, ainda que dentro de uma mesma instituição. Como ilustração, podemos verificar

- ao examinarmos publicações de diferentes áreas do conhecimento como as de Moro (2005), Sparovek et al. (2001) e Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal – LERF (2007), para citar alguns - que cada uma delas também apresenta diferentes enfoques sobre a relação entre água, bacia e floresta, fazendo com que recomendem práticas distintas do preconizado, por exemplo, pelo grupo de hidrologia florestal, presente na mesma instituição.

Da mesma forma, diversos trabalhos técnicos, assim como a elaboração de leis relacionados ao tema restauração florestal e manejo de bacias hidrográficas são realizados com a coordenação e/ou em parceria com as universidades. Assim, acabam sendo influenciados pela concepção dominante em seu âmbito de atuação, fato que irá refletir em suas práticas.

Além disso, o segmento popular também é bastante heterogêneo, formado por grupos de diferentes origens e categorias sociais que carregam consigo distintas crenças, concepções e práticas. Desta forma, o que o grupo de sitiantes de Saltinho estudado pensa e realiza, por si só já não é homogêneo, além disso, possivelmente não é igual ao que fazem ou acreditam outros grupos de sitiantes, ainda que de origem italiana. Vale apenas relembrar que o fato de este grupo de sitiantes não associar a presença da mata ciliar à água, não necessariamente é incongruente com o que pensam todas as correntes acadêmicas.

No entanto, chama a atenção o fato de as concepções do segmento técnico- científico serem mais conhecidas e divulgadas do que as concepções do grupo de sitiantes. Sobre este aspecto, é importante retomar a concepção apresentada anteriormente, frequentemente repetida no segmento técnico-científico, de que os agricultores são resistentes. Este adjetivo refere-se, sobretudo, à não incorporação, por parte deste grupo, de ensinamentos e práticas levados pelos técnicos ao meio rural.

No entanto, os técnicos, de modo geral, no caso estudado, também não demonstraram ter conhecimento de diversos termos e explicações sobre as práticas efetuadas pelos sitiantes. Assim, parece haver uma resistência mútua “ao mundo do outro”. Este não entendimento e a recusa recíproca às práticas do segmento oposto, também se inserem, provavelmente, em um grande desconhecimento sobre suas organizações, suas relações sociais e seus históricos e, portanto, sobre as concepções

que as embasam, ou seja, desconhecem o habitus alheio, assim como acham que o seu é o padrão de referência.

Ainda sobre o fato de algumas concepções serem mais conhecidas e difundidas do que as concepções do grupo de sitiantes, vê-se que existe uma certa imposição do pensar técnico-acadêmico sobre outros segmentos da sociedade.

A atuação de técnicos, no caso estudado, se mostrou embasada por instituições - governamentais ou não - que por sua vez são amparadas por políticas públicas, por financiamentos e pela legislação.

Nos depoimentos de alguns técnicos do caso estudado verificou-se que, ainda que reconheçam a existência de outras demandas por parte dos públicos com quem atuam, ficam pressionados pelos prazos e demandas estipulados em seus cronogramas, dos quais são eles próprios dependentes. Assim, não conseguem abrir espaço para um atendimento maior das necessidades observadas no campo.

Pode-se dizer, também, que o modo técnico-científico de enxergar as condições atuais da bacia do Campestre e de prescrever práticas de conservação se dá em função dos conhecimentos atuais alcançados por este segmento, que a verdade que se tem hoje dentro deste grupo social aponta nesta direção.

Mas seria importante lembrar que verdade e habitus se relacionam intimamente. Ao existirem conjuntos de códigos que ordenam os atos dos indivíduos no interior de uma sociedade, estes escapam à consciência dos mesmos quanto mais constantes se tornarem, ficando naturalizados. As verdades, desta forma, se tornam “naturais” para o grupo que as constrói.

Assim, o pressuposto da racionalidade econômica que fundamenta o segmento técnico-científico é considerado como natural por seus integrantes, que acreditam em seus conceitos e visões como forma única de se confrontar com o real (Cf. CUNHA; ALMEIDA, 2002).

Entretanto, como amplamente relatado por estudiosos de camponeses, ribeirinhos, seringueiros, caboclos, quilombolas, entre outras comunidades não urbanas (Cf. BRANDÃO, 1999; CÂNDIDO, 1971; CUNHA; ALMEIDA, 2002; DURKHEIM, 1981; FRIEDBERG, 1992; KRENAK, 2003; LEACH, 1971; LOUREIRO, 2004; MALINOWSKI, 1976; MOURA, 1978; QUEIROZ, 1983; UNGER, 2001; WOLF, 2003; WOORTMANN,

1983, 1995, 1998, 1999, entre tantos outros autores), existem outras formas de compreender e se relacionar com a realidade e com o meio, diferentemente do que acredita e prescreve o segmento técnico-científico.

Assim, a proposição de alternativas por este segmento, geradas com o intuito de incentivar os agricultores e outros grupos à realização da conservação ambiental, precisam ser discutidas com os seus públicos, buscando incorporar a lógica de vida e a concepção que eles têm sobre os aspectos abordados. Caso contrário, têm-se alternativas geradas dentro da mesma concepção não reconhecida pela comunidade e/ou dentro da mesma racionalidade econômica que vem sendo a causadora dos processos de degradação atuais.

Através deste estudo de caso, foi possível perceber que as concepções do grupo de sitiantes não são conhecidas, porque este grupo de agentes não está sendo ouvido, porque estão faltando espaços de interlocução que os permitam expressar aquilo que pensam. Assim, pode-se levantar a hipótese de que os sitiantes, desta forma, resistem a este processo de imposição de uma verdade externa, de uma postura técnico- científica fechada a um verdadeiro diálogo.

4.2.2 Verdades passageiras e homogeinização

Outra questão refere-se à falta de homogeneidade e consenso nas concepções e práticas prescritas pelos grupos estudados ao longo do tempo, já que, como visto, as concepções passam por transformações. Entretanto, no segmento técnico-científico as verdades, ou as concepções consideradas como corretas, mudam com uma velocidade maior do que no grupo de sitiantes.

Como ilustração, trazemos a conclusão de um artigo de 1947 (DUNFORD; FLETCHER, 1947, p. 105) que dizia, através de experimentação científica, que deveria eliminar-se a mata ciliar porque propiciaria um maior volume de água na microbacia. Caso se esteja preocupado apenas e tão somente com a quantidade de água em um curto prazo, os autores poderiam estar com a razão, uma vez que a mata ciliar, por ter suas raízes mais próximas ao lençol freático e às vezes alocadas diretamente na zona saturada do solo, apresenta um crescimento maior e mais rápido de que as demais formações vegetais da microbacia, consumindo mais água que aquelas.

No entanto, esta conclusão, reconhecida na época como uma verdade, começou a perder sua aplicabilidade quando outras conclusões científicas começaram a surgir (ainda que algumas correntes de pensamento atuais ainda sejam adeptas a ela). Verificou-se, assim, que caso se queiram atingir mais objetivos além do aumento do rendimento de água, esta ação acabaria por ocasionar uma degradação da área ciliar (e ripária) e de diversos processos que ocorrem na microbacia, inclusive a perda da própria possibilidade de armazenamento de água ao longo do tempo.

O mesmo se verifica em relação à legislação referente à mata ciliar que, no caso dos rios de até 10 metros, passou de 5 metros em 1965 para 30 metros em 1986. Para outras larguras de rios, as especificações de mata ciliar mudaram pelo menos três vezes entre 1965 e 1989, ou seja, em um período de 24 anos (Cf. DERANI; ZÁKIA, 2006).

Porém, é importante lembrar que existe uma demora para que o conhecimento científico chegue ao segmento popular. Neste espaço de tempo, como visto acima, a ciência caminha e chega a novas conclusões, e não mais reconhece como suas as verdades antigas que começam a ser repetidas naquele âmbito, levadas, muitas vezes, pelo grupo técnico. Estas passam, então, a ser chamadas de folclore ou de especulação, como se tivessem sido originadas apenas das observações populares (Cf. ANDREASSIAN, 2004; LIMA, 1994; MCCULLOCH; ROBINSON, 1993).

É possível, assim, levantar um questionamento a respeito da imposição das verdades passageiras do segmento técnico-científico a outros grupos, já que há 10 ou 20 anos outras verdades estavam em voga e, hoje, se pensam e se prescrevem práticas diferenciadas.

Isso leva a imaginar que diferentes posturas atuais e ao longo do tempo na academia e nas instituições técnicas não podem levar a um comportamento homogêneo por parte dos sitiantes, já que o fato de não haver um consenso também contribui para que o agricultor se sinta menos seguro pra adotar uma alternativa proposta.

Além disso, conforme o artigo citado sobre mata ciliar, percebe-se que quando o foco da atuação técnica ou científica é colocado em apenas um ponto, em um único objetivo, perde-se a visão do todo, provocando interferência e degradação de outros

aspectos. Levanta-se aqui a possibilidade de que ao se centrar apenas na recuperação das áreas ciliares ou mesmo das zonas ripárias, corre-se o risco de subestimar a dimensão social, a dimensão das relações humanas entre si e com o ambiente a ser recuperado; de que ao se colocar foco na conservação da biodiversidade, acaba-se por provocar uma perda da sociodiversidade.

A centralização em um único objetivo ou enfoque, em detrimento de outros, liga- se à prática, sobretudo dentro das ciências naturais, do parcelamento do objeto de estudo até a sua total compreensão. O processo do parcelamento, entretanto, muitas vezes descontextualiza o objeto da sua realidade e, além disso, relembra-se que o todo é muito maior, que não corresponde somente à soma das partes estudadas (Cf. SANTOS, 2001).

Então, será que as verdades de hoje estão tão certas assim? Só se pode fazer conservação de um único modo? Será que outros grupos não podem ser ouvidos em suas verdades? Não se poderiam propor mudanças nas verdades de cada grupo em tempo real porque abertas a outras possíveis verdades? Por que insistir em um nivelamento, em uma homogeneização, em uma simplificação cultural? Porque praticar deliberadamente ações que levam a uma perda da sociodiversidade e dos conhecimentos associados a ela?

Benzer Belgeler