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Na sociedade contemporânea, presenciamos um novo regime de acumulação capitalista, que se vê comandado muito mais pela especulação financeira do que por investimentos produtivos, o que faz com que grandes corporações se fortaleçam e determinem novas formas de produção, as quais transcendem as fronteiras geográficas e se instalam nos países onde a tecnologia, a matéria-prima e o trabalho são oferecidos a custos baixos. Essa transposição de fronteiras, nas esferas da produção e do consumo capitalista, associada a uma filosofia de Estado Mínimo16, impede que os

governos, por si só, exerçam o controle sobre as políticas econômicas internas e protejam o emprego e a renda de seus cidadãos.

Essas transformações, associadas à desregulamentação das relações de trabalho e ao desmonte dos sistemas de proteção, até então existentes, têm provocado a elevação dos níveis do desemprego e o aumento da pobreza em diversos países do mundo. Esse processo de precarização do trabalho e aumento da pobreza atinge de forma desigual as diferentes categorias sociais e os diferentes países, mas, cabe ressaltar, essa forma desigual é muito mais uma diferença de grau do que de natureza (CASTEL, 2000a).

O que se pode perceber no trato da situação juvenil é que não há como desvinculá-la de uma discussão mais ampla sobre o processo de acumulação do capital e de reprodução das forças produtivas em nossa sociedade, haja vista que, como afirma Margulis (1996, p. 17):

A juventude, como toda categoria socialmente constituída, que atende a fenômenos existentes, possui uma dimensão simbólica,mas também tem que ser analisada a partir de outras dimensões: aspectos fáticos, materiais, históricos e políticos, nos quais toda produção social se desenvolve.

Trata-se, portanto, de associá-la a um contexto que Castel (2003, 2000) denominou de metamorfose da questão social. Metamorfose, porque o autor pretende

16 A idéia de Estado Mínimo está atrelada à concepção liberal, que pressupõe um deslocamento das

atribuições do Estado perante a economia e a sociedade. O Estado deixa de ser o principal regulador e financiador da economia, para que esta seja regulada pelas forças racionais do próprio mercado.

com esse termo, que expressa a dialética do mesmo e do diferente, mostrar as transformações históricas do modelo capitalista, evidenciando o que há de novo e permanente nas diferentes formas que esse modelo assumiu ao longo dos anos e suas repercussões na vida social.

Como discutem Castel (1998) e Costa (2000), a compulsão do trabalho, sob a égide do capitalismo, desenvolveu-se no sentido de incluir, sempre, os indivíduos como trabalhadores e de admitir uma faixa de não trabalhadores, como a do desemprego residual. O espírito do capitalismo, impregnado da cultura de valorização humana pelo trabalho, filiou crescentemente os homens e as mulheres ao trabalho, símbolo maior da cidadania contemporânea, adquirida pela fórmula keynesiana17 do pleno emprego. No

entanto, nos últimos anos, o desemprego e a precarização do trabalho passaram a despejar, de modo incessante, em diferentes regiões do mundo industrial, um número cada vez maior de sobrantes (CASTEL, 1998), deixados à sua própria sorte. A cultura e a cidadania do trabalho foram desmontadas, diante da constatação de que uma massa humana jamais seria filiada.

Castel (1998) utiliza o conceito de questão social, um conceito relacional e histórico, como ferramenta para entender esse processo. Segundo o autor, a questão social é definida como:

[...] uma aporia fundamental, sobre a qual uma sociedade experimenta o enigma de sua coesão e tenta conjurar o risco de sua fratura. É um desafio que interroga, põe em questão a capacidade de uma sociedade (o que, em termos políticos, se chama de uma nação) para existir como um conjunto ligado por relações de interdependência. (Id, p. 30)

A ameaça de ruptura é apresentada por grupos cuja existência, em determinados contextos históricos, abala a coesão do conjunto: os conhecidos como anormais

incapazes, na década de 70, e normais inúteis, na década de 80, por exemplo. Os primeiros são considerados como anormais por não estarem integrados à divisão social do trabalho, como os indigentes, deficientes, mendigos, vagabundos, velhos e doentes sem recursos.

17 O Keynesianismo é um modelo econômico proposto por John M. Keynes, no período pós-guerra, que

previa a intervenção estatal na economia. Contestava a teoria neoclássica de que o mercado se ajusta automaticamente, sem necessidade de regulação.

Já o segundo grupo retrata uma nova realidade: a do desemprego estrutural, na qual há uma impossibilidade latente de se conseguir um emprego estável na nova dinâmica do trabalho. Esse grupo assume uma condição de não empregáveis. Não se trata mais do pedinte, do desvalido, do vagabundo, do vadio, ou outras denominações quaisquer. A nova questão social passa a ser marcada por um processo em massa de desenraizamento e vulnerabilidade socioeconômica, fruto de rupturas profundas no tecido social, em virtude de três aspectos: instabilidade nas relações de trabalho, aumento das desigualdades e presença dos denominados desfiliados, sobrantes ou

supranumerários (CASTEL, 1998).

Isso significa, como afirma o autor, que a nossa sociedade está redescobrindo um perfil de indivíduos. São indivíduos que não têm lugar na sociedade porque não são integrados, no sentido durkheimiano da palavra, ou seja, não estão inseridos em relações de utilidade social, relações de interdependência com o conjunto da sociedade. Como traduz Kowarick (2003, p. 73):

[...] desfiliação significa perda de raízes sociais e econômicas e situa-se no universo semântico dos que foram desligados, desatados, desamarrados, transformados em sobrantes, inúteis e desabilitados socialmente. Não se trata, alerta o autor, de um estado ou de uma condição, mas de um percurso que é preciso constantemente perseguir para delinear suas múltiplas metamorfoses, pois a questão social só pode ser equacionada do ponto de vista histórico, por conseguinte, dinâmico, mutável e contraditório.

Todos esses elementos levam-nos a constatar que há uma metamorfose da

questão social no mundo e, especificamente, no Brasil. Essa metamorfose tem colocado em questão como lidar com esses desfiliados, que, apesar de impedidos de agir como atores sociais porque não são considerados socialmente úteis, estão presentes na vida social, problematizando-a e solicitando atenção.

A nova questão social, hoje, na nossa sociedade pode traduzir-se no questionamento da função integradora do trabalho e da desmontagem do sistema de proteções e garantias que foram vinculadas ao mesmo. Trata-se, pois, do desmonte da cidadania social (uma das maiores conquistas democráticas e que se aproximava dos ideais iluministas de igualdade) e, ao mesmo tempo, do abalo na utopia de construção de uma sociedade livre de incertezas e desamparos sociais.

Concomitantemente, representa a destruição dos vínculos que atavam um grande número de pessoas às engrenagens de uma sociedade que se pretendia integradora, por meio da divisão do trabalho e de instituições socializadoras, como a família, a escola e a igreja. No entanto, essas instituições, também, têm sofrido transformações que têm colocado em questão o seu monopólio na formação dos indivíduos, sobretudo dos jovens.

Benzer Belgeler