• Sonuç bulunamadı

3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.2. Yöntem

3.2.3. Silajın fiziksel değerlendirme yöntemleri

Para Durkheim (2003), a religião primitiva teria nascido de um ritual que simbolizaria a solidariedade comum. A religião, na visão durkheimina, pode ser definida como a instituição dotada de ritual e doutrina, onde se distingue o sagrado e o profano e também onde existe a igreja como unidade social integradora e integrante. Nesse pensamento, a relevância, na sociedade, da religião mostra-se pela perspectiva integradora de assegurar a coesão e a integração dos laços sociais dos indivíduos na coletividade, para o que cooperam as relações afetivas reveladas nos ritos e cultos religiosos. Quando as parábolas são contadas por Jesus aos seus ouvintes, vê-se, por exemplo, um momento “religioso” sendo gestado, na medida em que homens se congregam lado a lado (sem esquecer que parábola pode, etimologicamente, dizer “colocar ao lado”); são colocados de perto, para, pelo poder derivado da força simbólica criada pelo mundo da narrativa, discutir projetos de vida.

Assim, a religião, sob esse aspecto, tem a função social de agregar os homens em “rituais”, que exploram a relação afetuosa pela corporalidade que o fenômeno religioso enseja: o aperto de mão, o abraço, o beijo, o riso, o choro. A religião acaba, assim, por se constituir num lugar do exercício do afeto. As relações afetuosas, na esfera religiosa, têm ganhado, na modernidade, importante papel na caracterização do fenômeno religioso, como nos mostra Hervieu-Léger (apud CAMURÇA, 2003), que, ao analisar novas formas de expressão da religiosidade na contemporaneidade, considera o eixo emocional e afetivo como ponto formador dessa subjetividade religiosa para a criação do que denomina “comunidades emocionais”. Sobre essas novas expressões religiosas, Hervieu-Léger, conforme Camurça (op.cit., p. 260-1), as caracteriza como sendo:

constituídas na intensidade afetiva da relações de seus membros e através da manifestação física disto (beijo, abraços) (1990b); na busca estética e ecológica de um espaço favorável à convergência emocional dos participantes e na atenção dispensada às formas não-verbais de expressão religiosa; na preeminência do corpo e dos sentidos sobre a formalização doutrinal teológica, numa rejeição à religião intelectual” e a seus especialistas. Instauram o primado da experiência sobre qualquer norma ou controle, o eu implica numa fragilidade no controrno dos grupos: entra e sai-se dele com facilidade, pois não há laços formais de identificação. Esse tipo de afetividade religiosa de que fala Hervieu-Léger se afasta da forma como, no contexto bíblico de Jesus, se dão as relações de afetuosidade. Aí, como poderemos constatar com maiores detalhes no próximo capítulo, o contato entre Jesus e os seus interlocutores é atravesado, não somente por uma “intensidade afetiva das relações”, mas principalmente pela “formalização doutrinal”, para usarmos expressões da citação acima, ou mais precisamente esta se forma apoiada naquela. Para utilizarmos as nossas categorias de análise, diríamos que há uma conjugação entre o logos (“formalização doutrinal”) e o pathos (“intensidade afetiva das relações”) para a constituição dessa interlocução entre Jesus e seus ouvintes.

Saindo um pouco de uma abordagem sociológica e adentrando numa perspectiva mais filosófica, Feuerbach (1988), em A Essência do Cristianismo, afirma que a religião é a forma de o homem projetar suas virtudes num ente supremo, sendo Deus um símbolo daquilo que o homem é potencialmente. Feurbach apressa-se em sublinhar que: “A consciência de Deus é a consciência de si do homem, o conhecimento de Deus é o conhecimento de si homem. Pelo seu Deus conheces o homem e, vice-versa, pelo homem conheces o seu Deus; é a mesma coisa’. (p.9). No seu entender, todos os deuses não seriam mais do que criações humanas. Nesse sentido, ao invés de teologia, teríamos antropologia. Sem pretender levar avante as

principais teses de Feurbach sobre a crítica à religião (cristã, sobretudo), o seu pensamento pode nos fornecer, por outro lado, dados para mostrar como a religião está impregnada de afetividade, na medida em que o homem religioso, ao mostrar sua crença em Deus, irá, ao mesmo tempo, mostrar-se a si mesmo, com os seus desejos, sentimentos e anseios do coração. “A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos mais íntimos, a confissão pública dos seus segredos de amor”.(FEUERBACH apudALVES, 2005 p. 94).

Marx (1989, p. 47-49) aproveitou as veredas abertas pela crítica de Feuerbach, para associar a religião, pelo viés da ideologia e da alienação, a uma substância que faz com que os indivíduos entrem em um estado de torpor e percam o fio condutor que os ligam com a realidade. Ao fazê-lo, Marx destacou, consciente ou inconscientemente, a função afetiva que a religião cumpre no meio social através da “expressividade consoladora” que ela promove, pela referência a algo que faz parte de uma experiência primária e fundamental no homem: o seu lado sentimental e afetivo. As passagens abaixo podem ser reveladoras dessa idéia:

Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo.

a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a perder-se.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para que abandonem uma situação que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola.91

Embora de um ponto de vista psicológico, quem segue à sombra, em certa medida, desse mesmo olhar negativo sobre a religião é Freud, apelando para o mesmo argumento da projeção proposto por Feuerbach e Marx. Assim, por meio da religião, o homem projeta, por um processo de sublimação, para a figura de Deus a idéia de pai.

91A aposta de Marx de que a religião não teria mais razão de ser no momento em que os homens, na vida social,

tivessem consciência da realidade de seu mundo não foi vaticinada. Basta ver que, mesmo entre os filósofos, em vista de as sociedades modernas atestarem a cada dia um florescer cada vez mais agudo do homo religiosus, o debate sobre a religião, segundo confirma o Seminário de Capri, encabeçado por Derrida e Vattimo, retorna para o centro da cena da discussão.

De igual modo, assim também como Feuerbach e Marx, Freud92, pela sua concepção de religião, resvala numa idéia em que a dimensão afetiva da religião ganha força. Comentando essa concepção freudiana de religião, Mondin (1983, p. 82) pode-nos esclarecer mais sobre esse ponto:

Para ele (Freud), a falta de fundamento da religião é dada como certa à medida que, ao seu ver, é óbvio que fora do mundo e do homem não existe nenhum outro ser. Ao estudioso resta, portanto, apenas o problema de explicar de que modo surgiu a “ilusão religiosa”. Na opinião do fundador da psicanálise, esta não surgiu em decorrência de uma luta de classes entre burguesia e proletariado, como queria Marx, nem em conseqüência de uma luta entre fracos e fortes, como sustentava Nietzsche, mas sim através de um processo de sublimação de uma luta primordial entre os membros do lar familiar, com a decorrente projeção externa à psique no plano cósmico, da idéia de pai. O objeto da religião – Deus – é exatamente o resultado dessa projeção. A idéia de tal Ser Supremo reflete, no plano cósmico, a polaridade afetiva amor-ódio, que os filhos sentem pelo pai.

Deve-se pôr em ênfase, do excerto acima, no fato de que o fenômeno religioso para Freud “reflete, no plano cósmico, a polaridade afetiva amor-ódio, que os filhos sentem pelo pai”. Essa associação pode encontrar, na esfera do discurso bíblico, uma aplicação peculiar, pois basta-nos atentar para a Parábola do Filho Pródigo (Lc.16:11-32) ou para a Parábola dois Irmãos (Mt.21:28-32) para se constatar isso. Ora, conforme ainda o texto bíblico, a relação entre Jesus e Deus é mediada por um contato afetuoso (Pai – Filho), o que é estendido para a relação do crente com Deus: "Como pastor, apascentará o Seu rebanho; entre os Seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam Ele guiará mansamente" (Is. 40:11). Parece, assim, que o afeto torna-se uma via de acesso ao mundo da religião.

De toda forma, para além do cetismo de Feurbach, Marx e Freud sobre a religião, o que se pode dizer é que os autores, ao discutirem o fenômeno religioso, trazem à tona uma concepção de um sujeito religioso caracterizado por um perfil com forte expressividade de afeto.

Interessante perceber que, das poucas vezes em que o termo religião aparece no texto bíblico, explora a carga afetiva da prática religiosa, demonstrável no texto que usamos como epígrafe desse capítulo: “A religião pura e imaculada para com Deus é esta: visitar os órfãos e

92Para uma apreciação crítica filosófica do conceito religião em Feuerbach, Marx e Freud, remetemos o leitor a

as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo”. (Tg.1:27) (O destaque é meu).93

Jesus fomenta, pelas suas atitudes, gestos que demonstram afeto. (“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse...” Mc.10:21). Declarou, num gesto de consolo, estar presente com os seguidores de todo o mundo e de todas as eras. (Mt. 28:18). A enunciação bíblica mostra na figura de Jesus a imagem de alguém sensível e afetuoso. Ele aparece chorando: “Jesus chorou” (Jo 11.35) e, outras vezes, se mostra com um sentimento ético de indignação contra o mal (Mc.10:14) ou mesmo orando. Sobre este último aspecto, é importante ressaltar que a oração, enquanto prática religiosa, revela bem a dimensão afetiva em que está coberto o fenômeno religioso, na medida em que mostra, através da expressão de palavras, o contato íntimo do homem com a divindade. Sobre a importância da oração ou prece na vida religiosa cristã como elemento revelador do aspecto afetivo da religião, podemos aproveitar o que disse Mauss (apud MENEZES, 2003, p. 113)94:

Analisemos por exemplo uma das formas religiosas mais simples que existe, aquela bênção: In nomine patris, etc. Quase toda a dogmática e toda a liturgia cristãs estão aí intimamente combinadas [...]. Não somente ela é complexa pelo número de elementos que envolve, mas ainda porque a consciência individual não pode naturalmente perceber. Uma interjeição como a que começa a prece dominical é o fruto do trabalho de séculos. Uma prece não é apenas a efusão de uma alma, o grito de um sentimento. É o fragmento de uma religião.

Jesus, na verdade, instituiu uma ética do afeto pelo seu discurso parabólico, traduzida na seguinte passagem extraída de uma de suas parábolas: "Se um homem tiver cem ovelhas, e uma se desviar e se perder, que fará ele? Não deixará as outras noventa e nove, e sairá pelos montes em busca da perdida?". (Mt.18:12).

A religião, na Bíblia, requer do homem, em sua relação com Deus, disposições afetivas, segundo a orientação dada pelo próprio Jesus: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças".Sob esse aspecto, faz sentido recuperar, na esteira agostiniana, o significado de religião na sua acepção original: religião é religar, atar os laços, enfim, é o momento de um contato afetivo

93 Na verdade, a palavra religião, de religio, é latina, pela qual traduziram, em língua grega, em que o Novo

Testamento foi escrito, o termo threskéia, que pode assumir o sentido de culto, piedade e, por extensão, à religião. No Novo Testamento, outras palavras aparecem para dar essa noção de atividades e práticas religiosas, como eusébeia, theosébeia e deisidaimonia.

94 Jesus salientou esse aspecto afetivo da oração em uma de suas parábolas (“E não fará Deus justiça aos seus

reestabelecido entre o homem e Deus, o que pode ser figurado com a Parábola do Filho Pródigo (Lc.15:11-32) Segundo Charles Finney, um pensador cristão, a fé que pertence à religião é uma confiança afetuosa em Deus95.

Mesmo os anti-religiosos e céticos reconhecem o forte aspecto afetivo em que o fenômeo religioso está envolvido, quando acusam a religião de aguçar mais a dimensão emocional e afetiva do homem em detrimento do seu lado racional, o que aparece através do milenar debate entre fé e razão, oposição profunda e grávida de conseqüências, que, para o momento, não convém explorá-las.

Síntese

Partindo aprioristicamente da idéia de que a cena englobante de que faz parte a parábola bíblica é a do discurso religioso, preocupamo-nos, no desenrolar do capítulo, com mostrar a constituição fenômeno religioso, acentuando alguns dos seus aspectos, como o ético, o simbólico, o de autoridade e o afetivo, para entendermos melhor o tipo de experiência religiosa em que Jesus e seus ouvintes estão cercados quando estes se relacionam através das parábolas. A partir desses elementos, um conceito de religião poderá ser esboçado: a religião pode ser um conjunto de normas, traduzidos em mandamentos, preceitos, regras e valores morais (aspecto ético), realizados por um lesgilador com poder para tal (aspecto da autoridade), o que é feito através da materialização de práticas simbólicas (aspecto simbólico), em que os indivíduos exprimem seus afetos pela relação entre eles e Deus e/ou entre si (aspecto afetivo).

Cada um desses aspectos poderia merecer uma pesquisa à parte, pois são complexas as variadas discussões que eles inspiram, mas limitamo-nos a expô-los relacionando com o que cada um trouxe de significativo para a elucidação da cena englobante em que a parábola se inscreve. Outros aspectos do discurso religioso de igual relevância evidentemente poderiam ser ressaltados, como o sagrado, o ritualístico, o institucional, o político ou mesmo o transcendental e metafísico, todavia, além de, certa forma, eles estarem envolvidos naquelas

95 Para uma apreciação dos vários conceitos que a partícula re-, presente no termo “religião”, pode conotar,

como, além de re-ligar, re-ler, re-tornar, re-sponsabilizar, re-colher, etc., observe-se a apreciação que faz Derrida (2000, p. 51-27) a partir das considerações de Benveniste.

outras dimensões, entendemos que, para o foco estrito do projeto da pesquisa, os aspectos do fenômeno religioso discutidos nesta parte do trabalho são mais pertinentes para a compreensão do nosso tema de estudo.

Porém, uma questão que pode ficar em aberto é a de se saber até que ponto os aspectos estudados caracterizam essencialmente este tipo de discurso religioso ou que aspectos da suas características encontram pontos de intersecção ou de afastamento com outros tipos de discursos, como o discurso filosófico, o político e o científico. Realizar esta tarefa agora seria esbarrar em correlações simplistas e apressadas, o que não nos impede de poder dizer que algumas das características do discurso religioso, tratadas aqui podem não ser reduzíveis a somente o campo de atividade da religião, mas podem estar emparelhadas a outras formas de compreensão do mundo já conhecidas, como a Filosofia, a Ciência e a Política, em cada um desses campos assumindo formas próprias de regulá-los segundo as leis que governam a sua discursividade, conforme alguns teóricos já puderam enxergar, por exemplo, a relação entre o discurso religioso e o filosófico (HEGEL, apud MONDIN, 1997, p. 95), discurso religioso e político (BOURDIEU, p. 26-27) e o discurso religioso e o científico (WHITEHEAD, p. 223- 236).

3 A CONFIGURAÇÃO DO GÊNERO PARÁBOLA BÍBLICA: A

PARÁBOLA COMO A CENA GENÉRICA PELA QUAL JESUS E SEUS

INTERLOCUTORES FIRMAM O CONTRATO DISCURSIVO

“Por que lhes falas por parábolas?” (Mt. 13:10;Mc.4:10).

Introdução

Dentro da cena genérica em que a parábola se increve, compete a este capítulo destacar a configuração do gênero parábola bíblica sob diversos ângulos possíveis, destacando as normas e as leis do gênero, bem como o horizonte de recepção que ela cria, assim como as rotinas de escritura que essa cena genérica mobiliza. Num primeiro momento, procuraremos expor alguns pontos conceituais que cercam o termo parábola, como a sua definição, seu perfil estrutural e de conteúdo, da mesma forma que queremos discutir sobre o regime de enunciação oral e escrito em que foi produzida. Em seguida, exploraremos outras dimensões discursivas das parábolas bíblicas que marcam a sua identidade, como a de seu aspecto de discurso formado por um gênero captado, a sua natureza de discurso narrativo ético, o seu caráter de metadiscurso parafrástico, o seu aspecto de discurso de múltipla destinaridade e, por fim, o seu estatuto de um discurso com características semelhantes às do diálogo socrático.

Benzer Belgeler