Sofrendo pressões para uma abertura política, Vargas planejou, como já foi dito, uma mudança direcionada e uma abertura controlada e vigiada. A formação de partidos políticos não era desejável aos detentores do poder, mas antes que se formassem alheios ao Estado, Getúlio se adiantou e formou O Partido Social Democrático (PSD), sob a chefia dos interventores, ou seja, um partido de base oligárquica e submetido ao Estado.
93
SOUZA, 1990, p. 134.
94
Definido por C. Souza, o Estado é uma “organização de âmbito territorial que procura monopolizar determinadas funções, e que, por esta razão, aciona os recursos disponíveis para a sua realização com efetividade incomparavelmente maior que as demais organizações sociais”. SOUZA, 1990, p. 46.
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Nesse sentido, o PSD, segundo Maria Lippi,96 era um partido herdeiro da estrutura do Estado Novo. Fundado por interventores do governo e com a pretensão de representar o interesse geral, não obstante, defendia os setores médios e agrícolas e as elites empresariais. A principal característica do PSD era a força atribuída à sua dinâmica eleitoral. Era o voto que permitia ao partido formar a maioria no Congresso. Essa posição majoritária dava condições ao PSD, segundo Lucia Hipólito,97 de ser o estabilizador do sistema partidário. Quanto às cisões internas, o partido procurava destruí-las. Quanto ao perfil, o PSD pode ser classificado como um partido de quadros, já que eram os empresários e parlamentares que angariavam fundos para as eleições. Embora o PSD não fosse fortemente centralizado, possuía uma articulação forte nos níveis nacional, regional e local.
Segundo Hippolito,98 o partido incluía, como base social, o pequeno proprietário de terra, o comerciante e os funcionários públicos, ou seja, representava os setores conservadores da sociedade. Outra característica do PSD era a conciliação e a formação política de seus filiados. Os pessedistas cresciam na vida pública a partir dos municípios, para, em seguida, encaminharem-se à via nacional.
No caso do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi com muita desconfiança e com reservas que, em setembro de 1945, devolveu-se seu registro. Ainda assim, este não era permanente. O PCB possuía uma atuação bastante diferenciada, tanto por sua origem anterior a 1945, quanto por sua base nacional e seu vínculo internacional.99 Por diversas vezes, foi acusado de possuir um programa antidemocrático, e chamado a prestar vários esclarecimentos. Certa vez, insatisfeito com as explicações, o relator Ministro Sampaio Dória, sentenciou a ameaça de que o partido, a qualquer momento, poderia ter seu registro cassado, caso se verificasse a falsidade das declarações prestadas. Como, em 1945, o PCB possuía uma aliança com Getúlio Vargas, pôde manter-se na legalidade sem maiores problemas. Após 1946, diante da pressão internacional de repulsa ao comunismo e da mudança de
96
OLIVEIRA, Lúcia Maria Lippi. O partido social democrático: In: FLEISCHER, David Verge (Org.) Os
partidos políticos no Brasil. Brasília: UNB, 1981, p.113.
97
HIPPOLITO, 1985, p. 40-44.
98
HIPPOLITO, 1985, p. 44-47.
99
governo, o partido sofreu pressões que evoluíram para o pedido de sua cassação, em maio de 1947.100
Além da cassação, a perseguição, segundo José Antônio Segatto,101 foi muito violenta. Todas as sedes do partido foram fechadas, funcionários públicos, pela simples suspeita de atividade comunista foram demitidos, e inúmeros sindicatos sofreram intervenção. A esses fatos acrescentou-se, ainda, o fechamento dos jornais comunistas e prisão dos líderes do partido. Alguns meses depois, foram cassados também os mandatos dos comunistas, em âmbito municipal, estadual e federal. Na conjuntura de Guerra Fria, essas ações foram mais uma demonstração da cooperação do governo brasileiro com o norte-americano, na luta anticomunista, do que propriamente uma ideologia do Estado.102
A transição do regime autoritário contou ainda com um partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN). Organizada em abril de 1945, lutava pela superação do Estado Novo.103 Sem dúvida, o nascimento da UDN gravitou em torno de um inimigo comum – Vargas –, unindo diversos setores da sociedade, inclusive os esquerdistas, que, posteriormente, formariam a Esquerda Democrática.104 As sucessivas derrotas eleitorais – de 1945 e 1950 – levaram ao endurecimento e intransigência do partido, separando ainda mais os grupos que conviviam em seu interior: os liberais, os bacharéis, os realistas, a “Banda de Música” e a “Bossa-Nova” – esse último era o único favorável às reformas sociais. Nesse sentido, Benevides105 afirma não ser possível classificar o partido como nacional, uma vez que figuravam em seu interior diversos grupos.
100
SOUZA, 1990, p. 117-118.
101
SEGATTO, José Antônio. PCB: a questão nacional e a democracia. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (Org.). O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. O Brasil republicano; v. 03, p. 223-224.
102
VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Do nacional-desenvolvimentismo à Política Externa Independente (1945-1964). In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (Org.). O tempo da
experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003. O Brasil republicano; v. 3, p. 200.
103
DELGADO, 1989. p.26.
104
BENEVIDES, Maria Victória M. A união democrática nacional. In: FLEISCHER, 1981, p. 96-97.
105
A tradição liberal característica da UDN é marcada também por uma face elitista, pois apenas participava do partido a camada média, excluindo-se a entrada dos trabalhadores. Esse lado só ficou evidente quando a propriedade privada foi ameaçada com as reformas de base, colocando em risco o liberalismo assentado nos privilégios das elites. Deve ficar claro também que para os udenistas a intervenção estatal, contrária aos ideais liberais, era preferível à extensão da cidadania, à liberdade sindical e à participação política popular.106
De acordo com Otávio S. Dulci,107 a UDN, embora representasse parte das oligarquias rurais e amplos setores médios urbanos de alguns estados, no começo, tinha sua força eleitoral posta na zona rural e semi-rural. Sendo assim, apesar de haver interesses divergentes convivendo entre si, prevaleceram os da base rural, convergindo numa orientação conservadora voltada para a limitação da participação política.108
Logo, não só a UDN, como também o PSD, excluíam a massa trabalhadora. Dessa maneira, não foi possível reunir num único partido todas as forças políticas de Vargas, como era o seu desejo. Seria preciso criar um partido que representasse os interesses do trabalhador. Então, no início de 1945, estabeleceu-se a hipótese de reunir as forças políticas ligadas a Vargas em duas organizações partidárias, o PSD e o PTB.109