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AMBIENTE

Ao tratar do meio ambiente ecologicamente equilibrado, como um direito

fundamental, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, assevera que todos os

destinatários estabelecem a existência de um bem que tem duas características específicas. As

quais são ser de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Contudo, formula-

se inovação verdadeiramente revolucionária, no sentido de criar um terceiro gênero de bem



125 SILVA, José Afonso. Comentário contextual à constituição. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p, 37. 126 CLÈVE, Clèmerson Merlin. A eficácia dos direitos fundamentais sociais. In: Revista de Direito

ϳϵ que, em face de sua natureza jurídica, não se confunde com os bens públicos e muito menos

com os bens privados. 127

As normas de Direito Ambiental possuem nítido caráter econômico, a própria

política nacional do meio ambiente ancora-se em uma finalidade econômica, no sentido mais

elevado que a expressão comporte. Assim considerada a questão, parece mesmo natural a

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 prevê a defesa do meio ambiente no

capítulo destinado ao exame dos princípios que regem a atividade econômica, aliás, a

conjugação do econômico e do ambiental reconduz de todo modo, ao que se tem entendido

por Desenvolvimento Sustentável. 128

Examinando-se a ordem econômica percebe-se não se amoldar nem ao figurino

liberal, menos ainda ao dirigismo estatal, conclusão advinda da análise dos termos previstos

na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no artigo 170 e seguintes. De fato,

consubstancia um texto moderno, perfeitamente adequado a uma social-democracia, onde

uma economia de mercado - adoção de um regime capitalista, com a apropriação privada dos

meios de produção e liberdade de iniciativa - é temperada por princípios como o da função

social da propriedade, livre concorrência, defesa do consumidor e respeito ao meio ambiente,

afora a busca de uma justiça social, onde a dignidade da pessoa humana e a redução das

desigualdades conferem um conteúdo social à mesma economia, por natural vocação, mais

orientada pela ótica individualista dos agentes econômicos. ϭϮϵ

A concepção do desenvolvimento sustentado busca conciliar a conservação dos

recursos ambientais e o desenvolvimento econômico. Pretende-se garantir condição de vida

mais digna e humana para milhões de pessoas, cujas atuais condições de vida são 

127 FREITAS, Vladimir Passos de. A constituição federal e a efetividade das normas ambientais. tese de

doutorado. 2. ed. São Paulo: RT, 2002, p. 54.

128 PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do

art. 170 da constituição federal. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2005, p. 242.

ϴϬ absolutamente inaceitáveis e, concomitantemente, manter um nível adequado de recursos

ambientais relevantes. O princípio da proteção do meio ambiente como princípio econômico

implica uma direção constitucional para o exercício da atividade econômica, alterando o

conceito de desenvolvimento econômico. ϭϯϬ

Reforçando o compromisso de dar função social à propriedade, a Constituição

da República elege como princípio da ordem econômica, também, a defesa do meio ambiente.

Poder-se-ia argumentar que este princípio já está implícito nos outros já acima comentados,

contudo acreditamos que este não é o melhor caminho. Ao optar por reforçar o seu

compromisso com a preservação ambiental, não quis o constituinte de 1988 simplesmente

repetir o que já havia dito em outras passagens da Carta. A intenção do constituinte foi a de

atribuir uma responsabilidade bem mais ativa aos envolvidos na atividade econômica,

estimulando ações (e não só diretrizes de produção) que visassem, especificamente, a tutela da

natureza e da boa qualidade ambiental. Exemplo desse querer do constituinte é o surgimento

de fundações, ligadas a grupos empresariais, destinadas ao fomento de pesquisa e à instalação

e à preservação de espaços destinados à conservação ambiental. 131

A importância do meio ambiente nos dias atuais fez com que a nossa Constituição

não permanecesse inerte para esta realidade. Com efeito, se antes da Carta Magna atual não

havia referência constitucionais ao meio ambiente, esta falha foi sanada, tendo a presente

Constituição realizada diversas referências ao longo do seu texto.



130 ANTUNES, Paulo de Bessa. Manual de direito ambiental. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 2007. p. 17 131 CARVALHO, Ivan Lira de. A empresa e o meio ambiente. In: Revista de Direito Ambiental. v. 13. São

Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 38. É o caso da Fundação “O BOTICÁRIO”, sediada no Paraná, que estipendia diversos programas de educação e pesquisa no campo da ecologia, bem assim a Escola das Dunas, mantida no Rio Grande do Norte pela Universidade Potiguar - UnP, destinada ao estudo do ecossistema costeiro local.

ϴϭ 1.3. O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE

ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO

O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado deve ser enquadrado como

um direito caracterizado por elementos difusos e globais, superando qualquer conceito

meramente formal. A proteção ao meio ambiente deve transpor todos os limites da

preservação da fauna e da flora, para abranger a efetiva construção de um meio saudável, no

qual deve ocorrer educação, cultura e condições higiênicas de vida para a população. 132

O meio ambiente tornou-se um tema cadente no século XX, assumindo proporções

inesperadas, com intenso destaque a partir dos anos 60, bem se compreende que as

constituições mais antigas como a norte-americana, a francesa e a italiana, não tenham

especificamente do tema. Assim ocorria no Brasil, nos regimes constitucionais anteriores a

1988, mas, ainda, que sem previsão constitucional expressa, os diversos países, inclusive o

nosso, promulgaram e promulgam leis e regulamentos de proteção ao meio ambiente. Isto

acontecia porque o legislador se baseava no poder geral que lhe cabia para proteger a saúde

humana. Esta que foi o primeiro fundamento historicamente para a tutela ambiental, ou seja,

saúde humana tendo como pressuposto, explícito ou implícito, à saúde ambiental. Nos

regimes constitucionais modernos, como o português, 1976, o espanhol, 1978, e o brasileiro,

1988, a proteção do meio ambientem embora sem perder seus vínculos originais com a saúde

humana, ganha identidade própria, porque é mais abrangente e compreensiva. Nessa nova

perspectiva, o meio ambiente deixa de ser considerado um bem jurídico per accidens e é



132 TUPIASSU, Lise Vieira da Costa. Tributação ambiental: a utilização de instrumentos econômicos e

ϴϮ elevado à categoria de bem jurídico per se, isto é, com autonomia em relação a outros bens

protegidos pela ordem jurídica, como é o caso da saúde humana. ϭϯϯ

Não obstante a Constituição Americana não trazer normas expressas de proteção ao

meio ambiente, as constituição de mais de um terço dos estados americanos, incorporaram

normas expressas reconhecendo e protegendo o meio ambiente.

As constituições brasileiras anteriores à de 1988 nada traziam especificamente sobre

a proteção do meio ambiente natural. Das mais recentes, desde 1946, apenas se extraía

orientação protecionista do preceito sobre a proteção da saúde e sobre a competência da

União para legislar sobre água, florestas, caça e pesca. Desta maneira, tornava-se possível a

elaboração de leis protetoras como o Código Florestal e os Códigos de Saúde Pública, de água

e de Pesca. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 foi, portanto, a primeira

a tratar deliberadamente da questão ambiental. Pode-se dizer que ela é uma Constituição

eminentemente ambientalista. Assumiu o tratamento da matéria em termos amplos e

Modernos. Traz um capítulo específico sobre o meio ambiente, inserido no título da Ordem

Social, capítulo VI do Título VIII. Mas a questão permeia todo o seu texto, correlacionada

com os temas fundamentais da ordem constitucional. 134

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no que pertine ao meio

ambiente e à sua proteção jurídica, trouxe uma imensa novidade em relação àquelas que a

antecederam. De fato, as Leis Fundamentais anteriores não se dedicaram ao tema de maneira

abrangente e completa, pois as referências aos recursos ambientais eram feitas de forma não

sistemática, sendo certo que os mesmos eram considerados, principalmente, como recursos

econômicos. ϭϯϱ



133 MILARÉ, Edis. Direito do ambiente. A gestão ambiental em foco. Doutrina, jurisprudência, glossário.

5. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. p. 142.

134 SILVA, José Afonso. Direito ambiental constitucional. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 46 135 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 2004. p. 59.

ϴϯ No âmbito do direito interno, o art. 225, caput, da Constituição da República

Federativa do Brasil de 1988, completou a valorização da temática ambiental, iniciada com a

Lei nº. 6.938, de 31 de agosto de 1981, ao reconhecer o direito a um ambiente de vida

ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana. Este foi um passo

importante, que, no plano da dogmática jurídica, colocou o Brasil em uma posição de

vanguarda quanto à proteção ambiental. Isto em virtude do fato de diversos países, como

Estados Unidos, França, Itália e Alemanha, ainda não disporem de normas constitucionais

voltadas para a proteção ambiental, cabendo aos intérpretes extrair de outros princípios ou de

outros direitos um princípio de defesa do ambiente.

As vantagens da constitucionalização do meio ambiente são múltiplas, trazendo

benefícios de ordem substantiva e formal. Os benefícios substantivos ou materiais são:

obrigação genérica de não degradar, fonte do regime de explorabilidade limitada e

condicionada dos recursos naturais; ecologiza o direito de propriedade e sua função social;

atribui perfil fundamental a direitos e obrigações ambientais; legitima a intervenção estatal em

favor da natureza; reduz a discricionariedade administrativa no processo decisório ambiental;

amplia a participação pública, em especial, nas esferas administrativas e judiciais. Por sua

vez, os benefícios de ordem formal são: agrega preeminência e proeminência à questão e aos

conflitos ambientais; robustece a segurança normativa; substitui a ordem pública ambiental

legalizada por outra de gênese constitucional; enseja o controle da constitucionalidade da lei

sob bases ambientais; e, por fim, reforça a interpretação pró-ambiente das normas e políticas

públicas.ϭϯϲ

A base normativa do princípio constitucional do meio ambiente ecologicamente

equilibrado encontra-se no art. 225, em diversos parágrafos e incisos, da Constituição da



136 BENJAMIN HERMAN, Antonio. Constitucionalização do ambiente e ecologização da constituição

brasileira. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes, LEITE, José Rubens Morato (org). Direito constitucional ambiental brasileiro. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 82-83.

ϴϰ República Federativa do Brasil de 1988, compreendendo numa lúcida observação de José

Afonso da Silva, como três conjuntos de normas. O primeiro aparece no caput se inscrevendo

como a norma-matriz, reveladora do direito de todos ao meio ambiente ecologicamente

equilibrado; o segundo encontra-se no §1º, com diversos incisos, os quais versam sobre os

instrumentos de garantia e efetividade do direito enunciado no caput do artigo; o terceiro

instrumento de garantia e efetividade do direito enunciado no caput do artigo; o terceiro

compreende um conjunto de determinações particulares, em relação a objetos e setores,

referidos nos parágrafos 2º. a 6º, notadamente no 4°, que por tratarem de áreas e situações de

elevado conteúdo ecológico, mereceram desde logo proteção constitucional. ϭϯϳ

O estabelecimento do direito ao meio ambiente como um dos direitos fundamentais

da pessoa humana é um importante marco na construção de uma sociedade democrática e

participativa e socialmente solidária. É importante frisar que o direito ao meio ambiente

saudável não se limita aos brasileiros ou aos estrangeiros residentes no País. Longe disto, ele

atinge qualquer pessoa que esteja no território nacional, ainda que temporariamente. ϭϯϴ

O entendimento e a defesa da posição de que o meio ambiente se encontra no rol dos

direitos fundamentais, mesmo que fora do catálogo do artigo 5º. da Constituição da República

Federativa do Brasil de 1988, decorre da existência de um sistema materialmente aberto dos

direitos fundamentais. A norma constitucional prevista no parágrafo 2º, do artigo 5º, da

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, revela a possibilidade da existência

de direitos fundamentais, tanto em sentido formal quanto material, mesmo para além dos

previstos no Titulo II de nossa Lei Fundamental. Quando a norma constitucional dispõe que

os direitos e garantias de direitos fundamentais fora do catálogo e até mesmo fora do corpo da

Constituição formal. A questão ambiental é de relevância tal que insurge a necessidade de

integrar a preservação do ambiente no âmbito da proteção subjetiva e, esse fato somente se



137 SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 52. 138 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 2004. p. 70.

ϴϱ dará mediante o recurso dos direitos fundamentais. A realidade imposta diante de nós

converge para a situação que somente com a consagração de um direito fundamental ao

ambiente, expressa ou implicitamente, poder garantir a adequada defesa contra agressões

ilegais, proveniente quer de entidades públicas, quer de privadas, na esfera individual

protegida pelas normas constitucionais. ϭϯϵ

O artigo 225, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, é complexo

em sua estrutura e, portanto, compõe-se de normas de variado grau de eficácia. No interior do

citado artigo, de fato, há normas que explicitam um direito da cidadania ao meio ambiente

sadio, art. 225, caput, normas que dizem respeito ao direito do meio ambiente art. 225, §1°, I,

e normas que explicitam um direito regulador da atividade econômica em relação ao meio

ambiente, art. 225, §1º, V. Estas dificuldades ainda não foram devidamente enfrentadas pela

doutrina. Não restam dúvidas em asseverar que as normas que consagram o direito ao meio

ambiente sadio são de eficácia plena e não necessitam de qualquer norma subconstitucional

para que operem efeitos no mundo jurídico. E que, em razão disso, possam ser utilizadas

perante o poder judiciário, mediante todo o rol de ações de natureza constitucional tais como a

ação civil pública e a ação popular. 140

Na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 podemos encontrar

diversos pontos dedicados ao meio ambiente ou a este de alguma forma vinculado, de maneira

direta ou indireta: art. 5°, incisos XXIII, LXXI, LXXIII; art. 20, incisos I, II, III, IV, V, VI,

VII, IX, X, XI e §§ 1° e 2°; art. 21, incisos XIX, XX, XXIII, alíneas a, b e c, XXV; art. 22,

incisos IV, XII, XXVI; art. 23, incisos I, III, IV, VI, VII, IX, XI, art. 24, incisos VI, VII e

VIII; art. 43, §2°, IV, e §3°; art. 49, incisos XIV, XVI; art. 91, §1°, inciso III; art. 129, inciso



139 MEDEIROS, Fernanda Luíza Fontoura de. A proteção ambiental diante da necessária formação de uma

nova concepção de um estado democraticamente ambiental. In: BENJAMIN HERMAN, Antônio. Direito, água e vida: law,water and the web of life. vol 2. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: 2003. p. 198-199.

ϴϲ III, art. 170, inciso VI; art. 174, §§ 3° e 4°; art. 176 e §§; art. 182, e §§; art. 186; art. 220,

incisos VII, VIII; art. 216, inciso V e §§ 1°, 3° e 4°; art. 225, e §§; art. 231; art. 232; no ato

das disposições constitucionais transitórias, os artigos 43 e 44 e §§.

Benzer Belgeler