Como dissemos, de acordo com a Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979, implementa-se, no Brasil, um novo Código de Menores e a Doutrina de Proteção ao Menor em situação irregular. Nesse momento, é reforçada a necessidade de o Estado intervir na “questão do menor”, a fim de agir nos casos de abandono, infrações penais, desvios de conduta, falta de assistência, ação ou omissão dos pais ou responsáveis, e reprimir a ociosidade, implementando a ideologia do trabalho.
Com base nessa política, em 1979, a FUNBERN realizou, em Natal, uma restruturação do Instituto Padre João Maria, restringindo o atendimento apenas às adolescentes consideradas em “situação irregular” (Centro Educacional Padre João Maria, 2009). Denominavam-se adolescentes em situação irregular aquelas que por uso de drogas ou envolvidas com a prostituição se enquadravam, conforme o Código de Menores, em situações de perigo que poderiam levar à criminalização. Para esse instrumento legal, o abandono material e moral era um passo para a criminalidade, devendo, assim, agir imediatamente no problema instalado, sem necessariamente
preocupar-se com a prevenção. Foi assim que ocorreu o primeiro momento da assistência potiguar a adolescentes autoras de atos infracionais.
Nesse período de restrição do público-alvo da unidade, a realidade demonstrava que, no Instituto Padre João Maria, a institucionalização das meninas decorria, na maioria das vezes, de contextos das famílias consideradas “desestruturadas”. Segundo Oliveira e Araújo (1979), os critérios para o ingresso das “menores” na instituição não se restringiam apenas as que se envolviam com conduta “antissocial ou infratoras” (p. 13), mas abrangia todas as meninas órfãs, pertencentes a famílias de baixa renda, menores com problemas de adaptação na família e as encaminhadas pelo Departamento do Bem-Estar do Menor (DEBEME) – setor de coordenação das instituições da FUNBERN. Para a educadora que atuou na referida unidade, eram motivos de encaminhamento das adolescentes:
Tinha uma diversidade muito grande. Eram meninas que os pais eram alcoólatras, por exemplo. Às vezes ela não estava envolvida com os atos infracionais. Porque misturavam meninas envolvidas com essa situação e meninas que não eram. Inclusive, tinha uma menina lá que era alcoólatra e estava na unidade porque os pais morreram de tanto beber cachaça. Tinha muita razão da família, não era tanto pela menina em si. Quando a menina estava no ato infracional, ela já vinha de um contexto muito desordenado da família. Era muito difícil ter uma menina com estrutura familiar organizada envolvida no ato infracional, devido à estrutura familiar. Tinha meninas com alcoolismo, tinha meninas que estavam incluídas em gangues e começavam a roubar. Mas, todas essas meninas, talvez eu esteja exagerando, tinham um contexto da família desordenada. Como elas mesmas diziam: todo o problema já vem da minha casa, não foi à toa que sai de lá. Então, nessa época, as meninas
eram institucionalizadas no Padre João Maria, sem necessariamente ter cometido infrações. Às vezes elas roubavam besteiras, que se fosse hoje não seria nem considerado ato infracional. Por exemplo, passar numa banca e roubar uma besteira. Era muito mais para manter a droga. (Educadora - Instituto Padre João Maria)
Com base no relatório da FUNABEM (citado por Oliveira & Araújo, 1979), uma das razões mais frequentes que causava a carência e, consequentemente, a necessidade da institucionalização de menores, tratava-se da pobreza material e sociocultural das famílias, pois, na medida em que as/os menores tivessem as necessidades básicas supridas, o seu desenvolvimento ocorreria normalmente. Em consonância a essa posição, Oliveira e Araújo (1979) traçam um perfil das adolescentes atendidas nesse período. Segundo as autoras, a clientela do Instituto Padre João Maria constituía-se de forma “bastante heterogênea, oriunda em sua grande maioria de famílias não constituídas legalmente [...], contudo, a criança necessita de todo um equilíbrio social básico para a sua integração e que somete lhe será propiciado pela família” (p. 19-20).
Exemplo da culpabilização direcionada às mulheres pode ser constatada no seguinte relato.
As que utilizavam drogas eram as que tinham mais conflito dentro da família, de vez em quando chegava uma que bateu no irmão, outra que bateu no cunhado. Elas usavam geralmente a maconha e eram rebeldes, mas essa rebeldia era em razão do histórico da família, por exemplo, associavam logo: a mãe de fulana tá no presídio. Tinha uma menina, por exemplo, que a mãe era do cabaré e depois passou a vender drogas. Tinha outra que foi criada por uma tia que não dava limite e se envolveu com a barra pesada. (Educadora - Instituto Padre João Maria)
Ao analisar os aspectos familiares dos responsáveis das internas no Instituto Padre João Maria, Oliveira e Araújo (1979) chamam a atenção para a configuração dos membros das famílias: “verificamos um grande número de mães empregadas domésticas, [...] pois o mesmo atinge um percentual de 21,4%”; “as mesmas não possuem qualificação profissional e, consequentemente faltam-lhes condições financeiras para criar seus filhos, em ambiente favorável a uma educação adequada”; “outra característica bastante evidenciada refere-se à conduta irregular da mãe, o que faz surgir problemas que vão repercutir na vida da menor, levando-a na maioria das vezes ao internamento” (p. 21).
Com relação à renda familiar das adolescentes inseridas no Instituto Padre João Maria, Oliveira e Araújo (1979) verificam que mais da metade das famílias sobrevivem
com a metade de um salário mínimo59, indicando que elas não possuem condições para
atender as necessidades básicas de suas filhas e filhos. A maioria dessas famílias, “naturalmente, não possuem renda fixa, limitando-se provavelmente a biscates e até mesmo o desemprego” (p. 22).
Como apontamos anteriormente, em meados de 1979, como forma de separar as adolescentes envolvidas com drogas e/ou prostituição daquelas não envolvidas e tais contextos, foi criada a Granja Santana. Inicia-se, então, a classificação do perfil das adolescentes, usada como critério de atendimento. Nessa ocasião, foram escolhidas as consideradas “piores” do Instituto Padre João Maria. Nessa unidade o objetivo era isolar essas adolescentes para realizar um trabalho diferenciado. Pretendia-se a salvação das adolescentes que, em situações adversas, estavam “perdidas”: “Alugaram uma granja em Parnamirim. E a proposta era trabalhar com as meninas do Padre João Maria, com as
59
Conforme o Decreto n. 84.135, de 31 de Outubro de 1979, o salário mínimo passa a ser 2.932, 80 cruzeiros. Informações recuperadas de http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto- 84135-31-outubro-1979-433690-publicacaooriginal-1-pe.html
quais ninguém tinha coragem de trabalhar. A gente começou o trabalho com 10 meninas, as piores que tinham” (Educadora - Granja Santana).
É importante ressaltar que a estruturação dessa unidade, com atendimento paralelo ao Instituto Padre João Maria, objetivava salvar as adolescentes. Consideramos que essa unidade configurou o segundo momento da assistência às adolescentes autoras de atos infracionais. Assim como foi realizado no cenário nacional, a assistência a crianças e adolescentes do sexo feminino, em Natal, fundava-se na ideia de proteger as meninas das más influências que as desviariam do caminho da decência e da honestidade, valores cristãos adequados para o comportamento das mulheres (Madeira, 2008).
Na década de 1990, conforme apontado alhures, constitui-se a terceira unidade de atendimento às adolescentes autoras de atos infracionais em Natal/RN, o CEDUC. Ao ser questionado sobre os motivos que levam à institucionalização das adolescentes no CEDUC feminino, nos dias atuais, o diretor da unidade declarou:
O maior índice é assalto, maioria delas. Em relação à droga o índice é muito alto, a maioria já usou ou usa, geralmente maconha e crack. Elas chegam geralmente acompanhadas por uma amiga ou por um grupo de amigos. Só teve uma recentemente que veio sozinha. Também já vieram algumas com os companheiros, mas geralmente eles são maiores e elas menores. (Diretor - Centro Educacional Padre João Maria)
A influência do grupo de amigos, da família e dos companheiros sobre as adolescentes autoras de atos infracionais tem sido apontada como tema imprescindível nos estudos que teorizam a infração juvenil (Assis & Constantino, 2001). Segundo esses autores, no universo das meninas envolvidas com infrações,
nota-se que a força dos amigos se exerce com maior intensidade nos momentos em que os conflitos familiares se exacerbam. Em geral, a adolescente necessita de apoio do grupo para sair do espaço doméstico, diferentemente do menino, que sempre convivi com os companheiros de rua. (p. 135)
De acordo com Assis e Constantino (2001), a influência dos familiares, principalmente a experiência de criminalidade da mãe – associada à relação com companheiros, pais, irmãos, tios e primos (mais fortes, poderosos e capazes de supri-las financeiramente) –, provoca a inserção das adolescentes (filhas) na vida do crime e, consequentemente, no sistema de privação de liberdade.
Os relatos dos entrevistados confirmam as análises apresentadas pelas autoras Assis e Constantino (2001) e Oliveira e Araújo (1979), o que nos impõe a necessidade de refletir criticamente sobre essa realidade. A justificativa pelo envolvimento das adolescentes com infrações, até aqui destacadas, evidenciam marcas da lógica da desigualdade decorrente das relações sociais, com especificidades nas relações entre os sexos; “esta forma modulada historicamente e societalmente” (Kergoat, 2001, p. 36). Aqui, vemos primeiramente a culpabilização da família pobre arraigada no processo histórico do Brasil. Foi no Brasil Império, com crescimento de abandono e circulação de crianças negras nos centros urbanos que surgiu a repulsa diante das crianças pobres e a desqualificação da família por esta condição (Rizzini, 1997). Na história da política para infância e adolescência vimos que o papel dos higienistas em muito contribuiu para o reforço dessa desqualificação, pois, segundo eles, os hábitos sustentados pelas famílias pobres degeneravam as crianças e os transformavam em possíveis perigosos, razão de ameaça à ordem do país (Nascimento, Cunha, & Vicente, 2007).
Ao analisarmos o surgimento da tutela da família, da criança e do adolescente no âmbito da legislação, vimos que a política de atendimento baseada nos Códigos de
Menores não é imparcial a essa situação. Ao contrário, a classificação da categoria menor diz respeito a uma periculosidade associada à desestruturação da família pobre (Nascimento et al., 2007). A desqualificação dessas famílias como justificativa da classificação das adolescentes em situação irregular é uma forma clara de criminalização da pobreza que, fruto de organizações familiares divergentes ao plano da legalidade da ordem familiar burguesa instituída pela sociedade capitalista e patriarcal, se torna alvo de repressão.
No que diz respeito à associação das infrações penais ao histórico das famílias, os dados demonstram que razões para o cometimento de crimes por adolescentes do sexo feminino podem ser encontradas na postura familiar, especificamente no comportamento das mães. Com isso, entendemos que a culpabilização da família pobre não impacta da mesma forma a todos os membros dos grupos familiares, mas afeta de maneira mais destrutiva as mulheres.
Lembramos que na sociedade capitalista/patriarcal instituiu-se a divisão sexual do trabalho baseada em uma hierarquia e uma separação que confere às mulheres as atividades reprodutivas e aos homens as atividades produtivas, ambos sob forma de exploração. Essa divisão sexual do trabalho atribuiu majoritariamente às mulheres as tarefas necessárias e imprescindíveis à manutenção e ordem do espaço doméstico e da família, enquanto que aos homens atribuiu-se tarefas pontuais consideradas como apoio ou suporte àquela de responsabilidade das mulheres (Ávila, 2013). Assim, quando as mulheres não conseguem cumprir o papel social esperado, elas são responsabilizadas de forma severa, sendo, a partir disso, consideradas más cidadãs e inadequadas à sociedade (Saraceno, 1997).
Nos últimos anos, essa responsabilização das mulheres tem se mantido intacta. Apesar da entrada da mulher no mercado de trabalho, decorrente de inúmeras
transformações da sociedade contemporânea, não se pode afirmar que tenha havido uma verdadeira emancipação, pois, mesmo trabalhando em mercados comuns aos dos homens, ela não é dispensada da responsabilidade da vida doméstica.
4.2.2. Propostas educacionais: uma versão feminina
Nesta seção, discutimos quais propostas educacionais foram desenvolvidas na Granja Santana, no Instituto Padre João Maria e no Centro Educacional Padre João Maria. Conforme identificado nas entrevistas e na análise documental, abordamos aqui a educação baseada nos valores cristãos (conforme aplicada na Granja Santana), a educação pelo trabalho (Instituto Padre João Maria) e a socioeducação (Centro Educacional Padre João Maria). Analisamos as propostas teóricas dessas perspectivas educacionais e como elas foram abordadas na prática.
A educação baseada nos valores cristãos
Ao fazer uma releitura das propostas educacionais empreendidas para mulheres pela Igreja Católica, constatamos que houve várias iniciativas para criações de conventos, recolhimentos e escolas encarregadas de cuidar de jovens mulheres no Brasil. Dessas iniciativas, “a mais carregada de efeitos para elas foi à criação de uma rede de escolas católicas sob a direção e administração de religiosas” (Lopes, Azevedo, & Frota, 2006, p. 170). No entanto, as religiosas também se encarregaram da formação de crianças e adolescentes, mulheres envolvidas com crimes, idosos, dentre outros grupos populacionais que se encontravam em situação de pobreza.
No que diz respeito ao trabalho com crianças, adolescentes e jovens do sexo feminino, ao longo dos anos, as religiosas prepararam outras mulheres, a partir do discurso religioso, com uma profunda visão tradicional do papel social da mulher (Lopes et al., 2006). No trabalho educacional, desenvolvido com as adolescentes
institucionalizadas na Granja Santana, é possível enxergar esse histórico arraigado em todo o país. Em resposta ao questionamento realizado na entrevista sobre quais eram os objetivos da orientação educacional nessa instituição, a educadora descreve:
O código de Menores tinha uma função muito de isolamento, da privação de liberdade e nós, desse projeto diferenciado, víamos que o contexto de trabalho com essas meninas deveria ser com o trabalho voltado sobre a temática da família. Então, para educarmos essas meninas, nós dizíamos: “aqui é a sua casa e nós somos uma família”. As irmãs já trabalhavam com mulheres presas. Tinham experiência desde o tempo que moravam nos Estados Unidos e aqui no Brasil quando trabalharam na unidade que se chama hoje Instituto Bom Pastor. Então, elas trabalhavam a questão da dignidade e sempre na perspectiva da família. Quanto às atividades pedagógicas mesmo, nós tínhamos muitos cursos. Nós as ensinávamos a cozinhar. Elas fizeram também cursos para confecção de bolsas, costura, cortes de cabelo e cursos de manicure. (Educadora - Granja Santana)
Essas informações são reforçadas pelo relato da religiosa que administrava essa unidade de atendimento:
Com base na minha experiência dos Estados Unidos, a proposta educativa era basicamente comunicar para menores infratoras o amor e a bondade. Nós tínhamos poucos meios para trabalhar com esse tipo de meninas com problemas de conduta. Havia ausência de atendimento profissional. No caso, fora a assistente social que ia uma vez por semana, não tinham mais profissionais. Tudo era muito difícil e todas as nossas necessidades dependiam da FEBEM que era o órgão que coordenava. Lembro-me que a Casa era muito longe das coisas e para conseguir até um transporte era coisa muito difícil. Aí no Brasil
era muito diferente dos Estados Unidos. Nos Estados Unidos eu era acostumada trabalhar com muitos profissionais com esse tipo de menina. Eram psicólogos, psiquiátricas, da área do serviço social. As meninas eram perturbadas mesmo e precisavam de uma assistência com muitos profissionais, mas não tinham.
(Diretora - Granja Santana)
Com isso, percebemos que a proposta educacional da referida unidade se baseou predominantemente nos valores cristãos, no qual o intuito dessa educação se restringia a reforçar padrões associados à posição socialmente construída para as mulheres.
A educação pelo trabalho
Como vimos, a FUNABEM, órgão que substituiu o extinto SAM, surgiu com a finalidade de afastar-se das críticas e ser o oposto de seu predecessor. Ao se discriminar as suas competências, ressaltava ser uma antítese ao SAM em vários aspectos, dentre eles, no planejamento das soluções, na orientação, na coordenação e na fiscalização das entidades da PNBEM, com imediatismo, legitimidade nacional e âmbito irrestrito, pontos jamais efetivados pela antiga instituição (Lei n. 4.513/1964, Art. 5). Certos de sua incumbência de atuação para o novo órgão de atendimento aos “menores”, a FUNABEM deixava evidente seus objetivos legais, no qual destacamos:
I- Realizar estudos, inquéritos e pesquisas para desempenho da missão que
lhe cabe, promovendo cursos, seminários e congressos, procedendo ao levantamento nacional do problema do menor;
II- Promover a articulação das atividades de entidades públicas e privadas;
III- Propiciar a formação, o treinamento e o aperfeiçoamento de pessoal
VII- Propiciar assistência técnica aos estados, municípios e entidades públicas ou privadas que a solicitarem. (Lei n. 4.513/1964, Art. 7)
Na década de 1980, era perceptível que a FUNABEM, juntamente com PNBEM, não havia conseguido os objetivos propostos. Nesse período, a incongruência das finalidades da instituição com a ideologia da segurança nacional incidiam em discussões sobre quais rumos essas instituições deveriam tomar para não serem extintas. Com o intuito de trocar experiências de unidades de atendimento “modelos” e formar profissionais, a FUNABEM propôs às FEBEM’s de cada estado “um intercâmbio de experiências” (Silva & Lima, 1986, p. 24).
Segundo Silva e Lima (1986), estágios foram oferecidos aos técnicos de várias unidades da FUNABEM. Essa troca de experiência entre os profissionais possibilitaria a aprendizagem do modelo de atendimento daquelas unidades-padrão, para, posteriormente, implementá-las nas suas unidades de trabalho. No RN, o Instituto Padre João Maria foi uma das unidades escolhidas60. Os campos de estágio foram a Escola Barão de Camargos e a Casa São Francisco, localizadas no estado de Minas Gerais, devido às suas semelhanças com o Instituto Padre João Maria. Ambas atendiam adolescentes do sexo feminino com conduta “antissocial e, portanto infratoras ou abandonadas pelos pais ou responsáveis” (Silva & Lima, 1986, p. 25).
A proposta a ser implantada à época deveria se preocupar com uma lógica
pedagógica. Afinal, para o Estado nacional, a massa crescente de crianças e adolescentes e jovens marginalizados e o caos no atendimento no interior das unidades reforçavam a previsão dos prejuízos consideráveis, do ponto de vista socioeconômico e político. Em documento publicado no ano de 1976, a FUNABEM já descrevia sua preocupação com a questão dos menores. Para essa entidade, a preservação do “capital
60
A participação nesses estágios era aberta a todos. No entanto, apenas a psicóloga da instituição foi escolhida e realizou o estágio no estado de Minas Gerais (Silva & Lima, 1986).
humano” importava diretamente à ideologia do modelo de desenvolvimento adotado, na medida em que afetava o poder nacional (Vogel, 2009), haja vista que meninas e meninos da nação estariam despreparados para a lógica do trabalho. A FUNABEM pretendia disseminar a proposta da educação pelo trabalho, implantada pelo pedagogo
Antônio Carlos Gomes da Costa, desde 197661 (Silva & Lima, 1986). Com a realização
do estágio na Escola Barão de Camargos em Minas Gerais62, a técnica retornou ao
Instituto Padre João Maria e implementou essa proposta educacional.
Na concepção de Costa (1984), a educação pelo trabalho difere da educação
para o trabalho. Na primeira perspectiva, a educanda ou o educando aprende para
trabalhar, na segunda, a educanda ou educando trabalha para aprender. Para esse autor, em linhas gerais, a educação pelo trabalho significa educar jovens envolvidos com infrações utilizando o trabalho. “Educar é criar espaços para que o educando, situado concreto e organicamente no mundo, como sujeito e não como objetivo, possa empreender ele próprio a construção do seu ser, tanto no nível pessoal, como a nível social” (p. 11).
Assim, a educação pelo trabalho é um processo educacional produtivo que objetiva produzir homens conscientes e aptos para o “engajamento na classe trabalhadora”. Ela propõe não apenas utilizar a mão de obra dos adolescentes, mas desenvolver mulheres e homens capazes de serem produtivos e emancipados. Para que assim ocorra não poderá ser desenvolvida de forma desmembrada da participação da adolescente. A adolescente não poderá ser excluída das concepções da finalidade do trabalho, da organização do trabalho e do produto final que esse trabalho resulta. “A
61 Nesse período, o pedagogo Antônio Carlos Gomes da Costa era diretor da Escola Barão de Carmagos
em Minas Gerais.
62 A criação dessa proposta educacional surgiu a partir da dificuldade do trabalho pedagógico nas
Febem’s de Minas Gerais e, sobretudo, a rejeição da comunidade e da Igreja sobre a presença dos adolescentes na convivência com a sociedade (Silva & Lima, 1986).
proposta pedagógica – Educação pelo Trabalho – deve ser dar de forma participativa, com diálogo e planejamento entre a equipe institucional e as educandas” (Silva & Lima, 1986, p. 28).
São os três princípios básicos desta proposta:
1º) A participação do educando na gestão de trabalho; 2º) A participação do educando no produto do seu trabalho;
3º) A participação do educando no conhecimento relativo ao trabalho realizado.