A partir desta pesquisa, foi construída a noção de que a dimensão das escolhas e
das tomadas de decisão dos sujeitos não estão submetidas por completo às ―trancas‖ do
contexto sociogeográfico, já que o homem é capaz de transcender sua realidade por mecanismos que lhes são próprios.
Esta vertente não é defendida somente por sociólogos ou geógrafos culturais. Ela também perpassa as ciências que conjecturam de modo mais profundo a mente humana; como a psicologia e a psiquiatria. Observemos isso, mesmo que de forma simplória para haver o despertar de que, espacialmente falando, o meio geográfico de localização espacial dos sujeitos, que os tornam vulneráveis socialmente ao sistema de valores e práticas desumanas,
não são capazes, também de serem determinantes ao fracasso dos sujeitos.
Viktor E.Frankl66, médico psiquiatra fundador da logoterapia67 e professor de universidades conhecidas internacionalmente, descreve e analisa experiências de seus amigos e de sua própria experiência quando trancafiado nos campos de concentração Nazista da Alemanha do século XIX.
Ele analisa as diversificadas possibilidades que os judeus encontravam para sobreviver, mesmo sem possibilidade alguma de terem voz na tomada de decisão sobre suas próprias vidas. Um judeu não escolhia estar nos campos de concentração, mas eram levados e obrigados a estarem lá e enfrentavam diversas situações de privação social, encarcerados, separados da sociedade e destituídos de liberdade viviam submersos numa realidade cruel e desumana.
Essa experiência contribui com este trabalho pela similaridade dos questionamentos levantados pelo autor que são basicamente os seguintes: Nessas condições, onde fica a liberdade humana? Haveria liberdade, por mínima que fosse frente às condições ali encontradas? O sujeito é algo além do que múltiplos resultados determinantes e condicionantes sejam de ordem biológica, psicológica ou social? As reações psíquicas da pessoa a esse ambiente evidencia que ele não pode fugir às influências dessa forma de existência? (FRANKL, 2008). A resposta, cabalmente apresentada pelo autor é que:
(...) a experiência no campo de concentração mostrou-nos que a pessoa pode muito bem agir fora do esquema. Há suficientes exemplos que demonstraram ser possível superar a apatia e reprimir a irritação, e que continua existindo, portanto, um resquício de liberdade do espírito humano, de atitude livre do eu frente ao meio ambiente, mesmo nessa situação de coação aparentemente absoluta, tanto exterior quanto interior. (...) e mesmo que tenham sido poucos não deixou de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! A cada dia, a cada hora no campo de concentração havia milhares de oportunidades de concretizar essa decisão interior, uma decisão da pessoa contra ou a favor da sujeição aos poderes do ambiente que ameaçavam privá- la daquilo que é a sua característica mais intrínseca –sua liberdade - e que a induzem, com a renúncia à liberdade e à dignidade, a virar mero joguete e objeto das condições externas, deixando-se por elas cunhar um prisioneiro típico do campo de concentração. (p.88)
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Foi professor de neurologa e psiquiatria na Universidade de Viena e também professor de Logoterapia na Universidade internacional da Califórnia. É fundador da logoterapia. Lecionou ainda na universidade de Harvard, Satnford, Dallas e Pittsburgh.
67 A logoterapia é uma psicoterapia centrada no sentido. Concentra-se mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelos pacientes em seu futuro. Para ela, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora do ser humano.
Em principio, conforme posicionamento do pesquisador, o sujeito, mesmo imerso
em adversidades, pode decidir de alguma maneira o que ele acabará sendo: ― um típico prisioneiro de campo de concentração‖, - ou na perspectiva desta pesquisa - um típico sujeito
totalmente refém do conjunto de práticas subversivas resultantes de sua vulnerabilidade social - drogas, marginalidade, por exemplo - ou então, um sujeito que também ali permanece sendo um ser humano e ali mesmo conserva sua liberdade de decisão.
Parafraseando-o, tem-se que a liberdade do ser humano, sua liberdade interior, é a grande arma para que, até o último suspiro de sua vida ele possa configurar ou reprogramar a sua vida, de modo que faça sentido.
O usufruto pleno da vida humana não está somente no suprimento e usufruto de uma vida material bem assistida, mas há sentido também na vida limitada materialmente, e isso depende das atitudes tomadas pelos sujeitos no momento em lhes são impostas restrições a partir do meio externo.
O autor ratifica isso, afirmando que, ―muitas vezes, é justamente uma situação
exterior extremamente difícil que dar à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma.‖ (p.90). Essa realidade lhe impulsiona a querer outra realidade, que lhe dará forças para superar e ir além do que o meio geográfico objetivo lhe mostra que ele é capaz.
Em posse de sua própria experiência, o autor afirma que dentro do campo de concentração, muitas vezes pensou mesmo em morrer, ou entregar-se de vez a sua condição deplorável de ser humano indigno da existência. Desistir da vida, ou entregar-se para que a própria vida se encarregasse de lhe prover o destino que coube a muitos outros prisioneiros, seus amigos. Mas o que o fez prosseguir em busca pela sobrevivência, conta ele, foi sonhar com o seu futuro, sonhar com um futuro diferente do seu. Os sonhos ajudaram-no a sobreviver! Ele confirma isso pelo seguinte escrito:
(...) nos momentos difíceis de minha existência, sempre de novo me refugiava nessa dimensão futura. (...) eis então aplico um truque: vejo-me, de repente, ocupando a tribuna de um grande auditório magnificamente iluminado e aquecido, diante de mim um público a ouvir atento, sentado em confortáveis poltronas, enquanto vou falando; dou uma palestra sobre a psicologia no campo de concentração, e tudo aquilo que tanto me tortura e oprime acaba sendo objetivado, visto e descrito da
perspectiva mais alta da ciência. (p.98)
Eis uma das grandes forças geradoras de novas realidades, o ato de sonhar, pois quem não consegue sonhar, ou não consegue mais acreditar no futuro, sucumbe interiormente, decai física e psicologicamen segundo o autor, possibilitam a transgressão da realidade, que tem a capacidade de dar asas ao eu interior para ir além do que lhes é imposto socialmente. Ele faz alusão aos sentimentos e às vontades da seguinte forma:
Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste nesse mundo, pode tornar-se bem aventurada (...) entregando-se interiormente a imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que a conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realiza-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. (p.55)
(...) ali eu sonhava os sonhos de minha saudade e enviava meus pensamentos para bem longe, para o norte, nordeste, onde supunha pessoas amadas. (p.71)
Por intermédio disso, é possível compreender que sendo ou não limitados, os sujeitos sempre terão em mãos a possibilidade de transgressão; de transgredir suas condições objetivas e subjetivas. É possível o desenhar e o redesenhar da realidade, sempre que necessário. Eis a grande força geradora nos/dos sujeitos. Cada minuto que se passa na vida de um ser, é o suficiente para mudar tudo e para sempre. O autor encerra a primeira parte de sua obra afirmando o seguinte:
Ficamos conhecendo o ser humano com talvez nenhuma geração humana antes de nos. O que é, então o ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios. (p.113).