A valorização da cultura do campo esteve bastante presente nos discursos das participantes.
Segundo a diretora Maria, a construção da proposta político-pedagógica específica para as pré-escolas no campo foi elaborada, exatamente, para: “valorizar a cultura deles” [população do campo].
“É tudo diferente, porque o [PPP] do campo é voltado totalmente para a cultura e para os valores do pré no campo. Assim, o projeto do pré no campo é voltado para a rotina da escola, desde o momento que pega a criança, até o momento que deixa a criança, ele é todo voltado para ações da rotina, ao trabalho da atividade, da alimentação, da escovação, das musiquinhas”. (Diretora Maria).
Segundo a diretora Maria, um projeto pedagógico específico tem suas ações planejadas voltadas às necessidades das pré-escolas no campo, incluindo o transporte e a rotina pedagógica.
Essa ideia da valorização da cultura aparece também na fala da coordenadora municipal de educação infantil Valéria:
“Eu acho que é para valorizar a própria cultura que ele [criança do campo] tem, né? Se ele mora no campo, para que ele aprenda as coisas do próprio campo. Para que ele continue morando no campo, entendeu? Eu acho que o sentido foi, realmente, para a criança ter uma escola, mas, assim, valorizar o espaço, a cultura que ele vive, entendeu? Porque o êxodo é uma coisa que vem acontecendo muito, né? Para trabalhar com as coisas da terra, dali mesmo, do dia a dia. Aquilo que os pais passam, e a escola é só um suporte para tudo isso”. (Coordenadora municipal de educação infantil Valéria).
Em sua fala, a significação presente é da fixação do homem no campo. A escola seria, portanto, um suporte para o enfrentamento do êxodo rural.
Para a coordenadora Cecília, a proposta pedagógica que valoriza a cultura do campo e a escola no campo é uma forma de: “não descaracterizar a vida da criança”.
“Acho que, assim, a decisão veio para ‘tá’ inserindo ela [criança do campo] no meio de vida dela, né? No contexto de vida, que é a vida dela, onde ela vive, e aproximar da cultura. Toda a proposta pedagógica é voltada para realidade da criança, adaptada ao meio onde a criança vive. Então, para não descaracterizar essa situação de vida da criança. Tanto é que, depois no ensino fundamental, toda essa clientela é atendida no núcleo da fazenda D, que vai dar continuidade até o quinto ano”. (Coordenadora pedagógica Cecília).
A escola no campo preservaria de modo positivo o contato da criança com seu contexto de vida. Ela fala da proposta a partir do conhecido da criança:
“É o ambiente dela [criança do campo], né? É o ambiente que ela conhece, que está acostumada, que ela vai ficar tranquila lá, né? Pra não ser uma coisa, assim, tão diferente, é por esse motivo mesmo. A criança da cidade, ela é atendida na cidade e ela conhece tudo na cidade, e a criança no campo tem esse conhecimento do campo, ela sabe mais sobre as plantações, ela sabe mais sobre os animais, ela conhece. Então, na fazenda onde ela mora tem os animais e ela vê, durante o transporte ela vai vendo onde que ela tá, né? É o ambiente dela, é o ambiente onde ela se sente segura, ela conhece aquele lugar, e os pais também, acho que eles gostam muito”. (Coordenadora pedagógica Cecília).
Cecília reconhece com essa fala o conhecimento da criança e de sua família sobre o campo. Ela ressalta que a vivência com o conhecido e o sentimento de pertencimento ao contexto trazem segurança, tanto para as famílias como para as crianças.
Procurou-se compreender como a valorização da cultura é incorporada à prática das escolas de educação infantil no campo, como as gestoras orientam as práticas pedagógicas tendo em vista tal diretriz.
A coordenadora Cecília explica que o planejamento do conteúdo curricular é o mesmo para todas as escolas.
“É uma orientação geral [...]. O planejamento é igual para todas as escolas [no campo e na cidade]. Porém em cada escola existe uma realidade diferente. Como eu disse, aqui é uma realidade que é diferente da escola EMEI X [escola da cidade], então, a gente trabalha de formas diferentes, assim como o campo também é diferente [...], a gente busca orientar as diferenças de cada um”. (Coordenadora pedagógica Cecília)
Portanto, sendo uma proposta curricular geral para todas as escolas de educação infantil, a orientação que a gestão escolar dá para as professoras do campo é adaptar o conteúdo à realidade do campo, como explicita a coordenadora pedagógica Júlia:
“Todas elas [professoras do campo] adaptam a realidade do campo. Então, vamos supor, nós vamos trabalhar o número 1, então, eu dei a atividade do número 1 com alguma coisa que veio, alguma coisa da cidade, ela [professora do campo] pega algum desenho do campo, invés de eu por um carro, eu vou por uma galinha. Então, elas [professoras do campo] vão procurar atividades de dentro do contexto deles, é mais do professor adaptar essa atividade”. (Coordenadora pedagógica Júlia).
A adaptação do conteúdo ocorre não pela modificação metodológica, mas fundamentalmente pela incorporação de elementos do campo.
A diretora Fernanda exemplifica a incorporação do campo nas atividades da educação infantil por parte das professoras:
“Que nem no dia da festa junina: a mãe falou que o maracujá que elas plantam é orgânico e aí a Aline [professora do campo] já foi falar assim: ‘eu posso levar as crianças ‘pra’ conhecer?’. A Aline já aproveita as oportunidades: ‘ai pode, mas eu tenho que ver com a minha gerente que dia você pode ir, porque a gente pode agendar [disse a mãe da criança]’. Então, assim, é tudo muito dinâmico, elas [professoras do campo] querem aproveitar”. (Diretora Fernanda).
Na fala acima, a diretora Fernanda apresenta as professoras como ativas no processo de mediação do conhecimento da criança com o campo. A professora julgou importante trabalhar com as crianças para conhecerem a plantação de maracujá orgânico na fazenda em que a mãe de uma aluna trabalhava. A prática das professoras do campo é significada como dinâmica pois, a partir da realidade do campo, elas criam oportunidade de inserção daquele contexto às atividades da educação infantil.
Outra prática adotada na consideração da realidade da criança refere-se ao desenvolvimento de projetos:
“É um direcionamento que a gente dá, é um direcionamento mesmo daqui, mas a orientação é que elas [professoras do campo] possam abordar as questões ligadas ao campo. Então, sempre que tem um projeto, mas é um projeto voltado para o campo. Elas trabalharam jardim suspenso, plantio de hortaliças. Então, elas, assim, trabalham algumas atividades mais voltadas para o cultivo da terra, para conhecer as coisas do campo mesmo”. (Coordenadora municipal de educação infantil Valéria).
Além da adaptação do conteúdo, Valéria explica que os projetos realizados anualmente são construídos conforme o contexto de vivência da criança.
Segundo a coordenadora pedagógica Cecília, como a diretriz curricular é a mesma, os projetos acabam sendo a oportunidade para abordar questões culturais e do contexto da criança.
“É mais sobre os projetos que diferenciam bastante, os projetos do campo, que é o que a professora faz, é mais voltado ‘pro’ campo, os da cidade são mais ‘pra’ cidade mesmo. Teve um projeto que uma professora fez, não sei se foi o ano passado, acerca dos animais, né? E lá, eles têm essa oportunidade de ver os animais ao vivo, né? Na casa deles, eles então têm essas vivências. Tem também um projeto que uma professora fez sobre os alimentos, cada criança levou os alimentos, que cultivavam na sua fazenda. Então, isso é impossível fazer aqui [na cidade]. Então, aqui [na cidade] a gente traz frutas, as frutas que come em casa, que compra no supermercado,
ou vai até o supermercado. Então, são projetos diferenciados para cada tipo de escola”. (Coordenadora pedagógica Cecília)
Cecília fala do papel ativo da professora na promoção da vivência das crianças em torno dos projetos que realizam a mediação das aprendizagens.
A coordenadora pedagógica Júlia também explicita que o projeto pedagógico da pré- escola no campo é: “um projeto dentro de sala e dentro do contexto que elas [crianças] vivem ali. Então tem da fazendinha, tem da horta. Então, elas [professoras] vão adaptando os projetos”.
As falas das gestoras remetem a um dos grandes desafios enfrentados pela educação infantil do campo, ou seja, a consideração sobre o que deve ser geral a todas as crianças da educação infantil e o que poderia ser específico para as crianças do campo.
As gestoras relataram que a proposta curricular da educação infantil no campo é geral para toda a rede municipal. No entanto, para que a valorização da cultura do campo seja posta em prática, as gestoras orientam as professoras do campo quanto uma adaptação do currículo e dos conteúdos à realidade da criança.
Assim, as atividades são construídas a partir de uma diretriz curricular geral para todas as escolas de educação infantil, tanto do campo como da cidade, mas sem deixar de considerar o que é específico do contexto da criança; esse específico é entendido como a cultura das crianças do campo e seu contexto.
Apesar desse movimento, a coordenadora Valéria expõe a necessidade de maior aprofundamento da proposta pedagógica, de modo a aproximar ainda mais o conteúdo à cultura e ao contexto do campo.
“E outra coisa que eu gostaria muito que a gente venha trabalhar, uma proposta mais vinculada ao campo, mais voltadas ao campo, sem esquecer essa parte pedagógica. Aprimorar, eu acho que a gente precisa. De repente, fazer um planejamento mais direcionado com ações voltadas mais para o campo”. (Coordenadora municipal de educação infantil Valéria).
Cabe dizer que o horário das pré-escolas no campo foi adaptado, sendo portanto diferente do horário da escola da educação infantil na cidade. No campo, a educação infantil ocorre das 9:00 da manhã às 13:00 da tarde, para que as crianças não acordem de madrugada, já que o trajeto feito da residência das crianças até a pré-escola é longo.
Segundo as participantes a valorização da cultura do campo na educação infantil é uma diretriz que norteia a construção do PPPPI das pré-escolas no campo, bem como é uma significação presente nos discursos de todas as gestoras.
Guiadas por essa concepção, as gestoras orientam as professoras, que atuam nas pré- escolas no campo, a adaptarem os conteúdos da educação infantil à realidade das crianças, bem como construírem projetos específicos sobre o contexto das crianças.
8 GESTÃO DOS RECURSOS HUMANOS E DOS PROCESSOS FORMATIVOS