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O expressivo aumento do número de benefícios emitidos e do respectivo aumento do valor monetário transferido aos beneficiários residentes nos municípios do RN tem reflexo direto na redução do nível de pobreza e na composição da renda das famílias.

De acordo com a PNAD 2008, no Rio Grande do Norte, as transferências previdenciárias reduziram o contingente de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo mensal) em 14,1% pontos percentuais, o que ultrapassa a média nacional que no mesmo período foi de 12,3%. Trata-se do sexto maior impacto sobre a pobreza entre as unidades federativas, ficando o RN atrás apenas dos estados do PI (17,6%), PB (16%), RJ (15,5%), RS (14,6%) e CE (14,6%), conforme retrata o Gráfico 17.

22 As informações deste parágrafo foram extraída do Boletim Estatístico da Previdência Social – NE - Rio

Gráfico 19

Pontos Percentuais de Redução de Pobreza no Brasil em função das Transferências Previdenciárias por UF - 2008 (Inclusive Área Rural da Região Norte)

Fonte: PNAD/IBGE 2008. Elaboração: SPS/MPS.

Nota: Foram considerados apenas os habitantes de domicílios onde todos os moradores declararam a integralidade de seus rendimentos.

Sem apontar as causas desta redução, o Comunicado n.º 58 do IPEA (2010b) indica que, no RN, entre 1995 e 2008, o percentual de pessoas em condições de pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo mensal) passou de 63,8% para 44,2% da população, segundo menor percentual da Região Nordeste.

No caso da taxa de pobreza extrema (rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo mensal), o mesmo estudo aponta que o RN reduziu esta categoria de pobreza, de 34,3%, em 1995, para 20,2%, em 2008, índice mais baixo entre os estados da Região Nordeste.

O estudo também apontou redução na desigualdade da renda, medida pelo índice Gini, que passou de 0,60 para 0,5523, no RN

A importância da renda previdenciária é corroborada ainda pelo Comunicado IPEA n.º 59 (2010c) de que, em 2008, 23,8% da composição da renda das famílias residentes no RN originaram-se de transferências sociais previdenciárias e assistenciais (PBC/LOAS e Bolsa Família). Ou seja, quase um quarto da renda familiar no estado advém destas políticas sociais.

23 O índice Gini varia de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade.

5, 8% 6, 1% 7, 0% 7, 0% 8, 1% 8, 3% 8, 9% 9, 3% 9, 8% 10 ,3 % 10 ,7 % 10 ,8 % 11 ,2 % 11 ,5 % 11 ,8 % 12 ,0 % 13 ,0 % 13 ,2 % 13 ,3 % 13 ,5 % 13 ,6 % 14 ,1 % 14 ,6 % 14 ,6 % 15 ,5 % 16 ,0 % 17 ,6 % 0,0% 2,0% 4,0% 6,0% 8,0% 10,0% 12,0% 14,0% 16,0% 18,0% 20,0% PI PB RJ RS CE RN AL PE BA MG ES MA SC SE PR SP TO AC GO MS PA MT RO AP DF AM RR UF Brasil Brasil: 12,3%

Como observado por IPEA (2010c), esta informação não é relevante apenas para as questões de pobreza e desigualdade de renda, mas deve ser objeto de reflexão também por outras áreas. Se faixas significativas, de aproximadamente um quarto da renda das famílias de um estado, originam-se de transferências sociais, então se estabelece de imediato uma conexão entre as políticas sociais, o consumo das famílias, e toda a dinâmica econômica mobilizada a partir daí no comércio e na indústria de bens de consumo durável e não-durável, bem como no setor serviços.

É inequívoco que a transferência de renda advinda da previdência rural tem posição de destaque na composição da renda da família rural potiguar, pois, como visto, no RN, a clientela rural supera numericamente a urbana. E a importância destes recursos avulta-se ainda mais nas localidades menos desenvolvidas, que contam com inexpressiva receita resultante da tributação própria.

Segundo Delgado e Cardoso Jr. (2003), enquanto na região Sul a maior contribuição à renda dos aposentados provém de rendimentos da ocupação principal (52% da renda domiciliar total), o contrário se dá na região Nordeste, onde apenas 26,3% da renda provêm da ocupação em atividades agropecuárias, evidenciando a relevância do seguro previdenciário, que contribui com mais de 70% da renda domiciliar das famílias nordestinas com ou chefiadas por aposentados.

Nos domicílios nordestinos, o tamanho médio das famílias com aposentados chega a 3,93 pessoas. Isso atesta que o benefício previdenciário cobre um número relativamente alto de pessoas no meio rural nordestino, uma vez que é a principal fonte de renda desses domicílios. No semi-árido, a aposentadoria chega a representar 72% da renda domiciliar total, conforme pesquisa de campo realizada em 1999 (Galindo e Irmão, 2003).

As pesquisas sobre previdência rural geralmente destacam que a renda dos idosos nas áreas rurais é impactante não apenas no orçamento familiar, mas também no nível de atividade econômica. De maneira inesperada, a pesquisa de campo organizada por Delgado e Cardoso Jr. (2003) encontrou atividades agrícolas na maioria dos domicílios com beneficiários da previdência: 48% no Sul e 43% no Nordeste. Nos domicílios dessas regiões, respectivamente 44,7% e 37,0% do valor dos benefícios são utilizados para custear a produção.

Observam Delgado e Cardoso Jr., 2003 que a conversão do seguro previdenciário em seguro agrícola introduz um elemento novo na política previdenciária, qual seja: o impacto sobre a produção agropecuária do numeroso setor de agricultura familiar de todo o país e, até mesmo, sobre o vasto segmento de agricultura de subsistência presente no semi-árido nordestino. No geral, a aposentadoria rural propicia a formação de um pequeno excedente de renda nos domicílios dos aposentados e pensionistas rurais que é praticamente reinvestido na própria atividade produtiva familiar, criando condições para uma ―reprodução ampliada‖ dessa economia familiar.

Diante dessa realidade, Galindo e Irmão (2003) admitem que seja fato incontestável que os domicílios que gozam de uma aposentadoria rural desfrutam de uma qualidade de vida melhor do que aqueles que não têm o seguro rural, principalmente no Nordeste do país. Fator extremamente importante é que o seguro previdenciário, ao lado de outras variáveis, atua com um peso fundamental na permanência do aposentado no campo, impedindo sua migração para os centros urbanos. No Nordeste, 74% dos beneficiários permaneceram em suas residências após a concessão da aposentadoria.

Maia Gomes, citado por Aquino e Souza (2004, p. 07), confirma no seu estudo que pela expansão que teve no Nordeste, principalmente na região do semi-árido, o crescimento das aposentadorias veio a ser a ocorrência de maior impacto para o sertão nordestino nos últimos vinte anos. Na interpretação daquele autor, num ambiente em que quase 10 milhões de pessoas no semi-árido nordestino praticam uma agricultura e pecuária tradicional, atividades estas que vem se desestruturando a cada dia e totalmente vulneráveis às crises climáticas, a renda proveniente das aposentadorias cria uma ―economia resistente às secas‖ numa vasta área geográfica não contemplada pelos pólos regionais de irrigação e pelas indústrias de calçados e de confecções.

A corroborar que os efeitos positivos verificados no resto do país, especialmente, na Região Nordeste, replicam nos municípios do RN, Aquino e Souza (2004) promoveram, no período de outubro e novembro de 2003, pesquisa teórica e de campo a respeito dos impactos socioeconômicos da Previdência Rural no pequeno município de Encanto, localizado no interior do Rio Grande do Norte.

A análise dos dados permitiu verificar que a Previdência Rural tem uma função extremamente importante para a reprodução das famílias da localidade, mostrando em muitos casos ser a única fonte de rendimento domiciliar. Além disso, os benefícios recebidos pelos idosos são responsáveis por mais da metade dos rendimentos de mais de 80% dos domicílios pesquisados e chegam a ser a única fonte de renda monetária para mais de 2/3 dos casos analisados. Os dados mostraram ainda que o dinheiro das aposentadorias representa uma verdadeira

―tabua de salvação‖ para economia do município, com o comércio local

funcionando basicamente nos dias de pagamento dos 796 segurados rurais.

Nesse sentido, confirmamos a tese de que a Previdência Rural desempenha um importante papel social no sertão nordestino, sendo um dos principais instrumentos de distribuição de renda e de combate à pobreza no Brasil. Essa realidade se apresentou com bastante clareza no município pesquisado. Como foi observado, sem o pagamento dos benefícios da previdência o número de pessoas abaixo da linha de pobreza e de indigência, sem dúvida, aumentaria significativamente. Esses e outros resultados sociais e econômicos devem ser levados em consideração pela sociedade brasileira e pelos gestores de políticas públicas em qualquer proposta de reforma constitucional relacionada à Seguridade Social no país.

Benzer Belgeler