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Compartilhamos o pensamento de Fetterman (1989), quando diz que todas as ferramentas da etnografia – blocos de notas, computadores, gravadores, câmeras – facilitam a pesquisa etnográfica na coleta dos detalhes, na organização e análise dos dados, mas são apenas extensões da ferramenta humana que é o etnógrafo, uma vez que o instrumento humano passa a ser um dos mais sensíveis e perceptivos instrumentos de coleta de dados. Tendo em vista que este estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa de tipo etnográfico, optamos por trabalhar com vários instrumentos que possibilitaram a coleta e a

organização das informações obtidas, entre eles, a observação, as anotações de campo e a análise de documentos, os quais passamos a descrever na sequência49.

3.7.1 Observação

A observação ocupa um lugar privilegiado na pesquisa qualitativa, no momento em que permite um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno investigado, o que se confirma nas palavras de Lüdke e André (1986, p. 26), quando dizem: “a experiência direta é sem dúvida o melhor teste de verificação da ocorrência de um determinado fenômeno”, ou seja, é o momento em que se pode confirmar, ou não, as noções preconcebidas que o investigador tem em mente antes de entrar no campo de pesquisa.

Ainda em consonância com esse pensamento, podemos dizer que a observação caracteriza a maioria das pesquisas etnográficas e é muito importante para a realização do trabalho de campo, no sentido de que “[...] combina a participação na vida das pessoas em estudo com a manutenção de uma distância profissional que permite a observação adequada e o registro dos dados” (FETTERMAN, 1989, p. 45, tradução nossa)50, sendo que é esta relação com as pessoas que dá validade e vitalidade à pesquisa etnográfica.

Para a realização desta pesquisa, dividimos a fase de observação nos dois semestres em que permanecemos em sala de aula: no semestre 2008.2, o período em que ocorreu esta fase foi de novembro de 2008 a março de 2009, e no semestre 2009.1, foi de maio a agosto de 2009.

Assim, no primeiro semestre, iniciamos a coleta fazendo as anotações do que ocorria na sala de aula. Logo em seguida, tentamos fazer gravações em áudio das aulas, mas a professora chegou a declarar que não se sentia à vontade com o uso do gravador, então, achamos por bem não continuar com as gravações; também a acústica da sala não contribuía para esse registro. Desta forma, registramos as ocorrências em sala de aula na forma de anotações de campo.

49 Nesse momento, julgamos ser importante mencionar que também trabalhamos com aplicação de questionários, junto às professoras e aos alunos, mas não conseguimos obter o material de volta, o que inviabilizou a exploração dos dados coletados por esse instrumento.

50 “[…] combines participation in the lives of the people under study with maintenence of a professional distance that allows adequate observation and recording of data […] (FETTERMAN, 1989, p. 45).

Na sequência, no segundo semestre, optamos por realizar os registros apenas por meio das anotações de campo, uma vez que já não havíamos realizado o procedimento da gravação em áudio no semestre anterior.

Durante essa etapa, coletamos também materiais utilizados nas aulas, como, por exemplo, textos teóricos que serviam de base para discussões ou para realização de atividades, e tivemos acesso às produções de texto dos alunos, o que será objeto de nossa reflexão no capítulo de análise.

3.7.2 Anotações de campo

Na execução de uma atividade de observação, segundo Bogdan e Biklen (1982)51, precisamos considerar que o seu conteúdo deve envolver uma parte descritiva e uma parte mais reflexiva. Dessa forma, dizemos que a parte descritiva compreende um registro detalhado do que ocorre “no campo”: descrição dos sujeitos; reconstrução de diálogos; descrição de locais; descrição de eventos especiais; descrição das atividades; os comportamentos do observador. Por sua vez, a parte mais reflexiva compreende as observações pessoais do pesquisador, feitas durante a coleta: reflexões analíticas; reflexões metodológicas; dilemas éticos e conflitos; mudanças na perspectiva do observador; esclarecimentos necessários. Nesse sentido, as anotações de campo mostram-se como uma ferramenta capaz de dar conta da atividade de observação de uma forma satisfatória.

Para a realização desta pesquisa, no período de observação das aulas, fizemos uso de caneta e bloco de notas, no qual identificávamos a disciplina, a professora, a data, o horário, o conteúdo trabalhado durante a aula e todos os registros concernentes ao comportamento da professora e/ou dos alunos, especificamente aqueles que nos interessavam de forma particular, tendo em vista o nosso objeto de estudo, a produção textual. Registramos, também, os significados que conferimos às situações que vivenciamos naquele ambiente.

Quanto aos instrumentos utilizados na execução dessa atividade, Fetterman (1989) destaca a caneta e o papel como sendo os de uso mais comum dos etnógrafos. O autor destaca a facilidade de uso, a despesa mínima e a discrição como sendo algumas vantagens dos referidos instrumentos, e apresenta, como desvantagens, o fato do pesquisador não poder gravar cada palavra em uma situação social, a dificuldade em manter contato visual com os outros participantes, e o grande esforço para gravar dados de forma legível e organizada.

3.7.3 Documentos analisados

Durante a nossa permanência em sala de aula, pudemos reunir alguns documentos relacionados às atividades desenvolvidas nas aulas, como, por exemplo, cópias de textos utilizados para introduzir a discussão sobre os conteúdos e de textos utilizados como suporte para a produção de texto dos alunos, materiais produzidos pelos alunos para a apresentação dos seminários, entre outros.

Tivemos acesso, ainda, ao Projeto Pedagógico do Curso de Letras (2008), documento no qual pudemos coletar dados sobre a UERN, o CAMEAM, bem como sobre o curso de Letras. Pudemos consultar, também, as fichas individuais dos alunos, disponibilizadas pela secretaria do curso, nas quais obtivemos algumas informações, como a idade e o município de origem dos alunos.

Coletamos, também, cópias do Programa Geral de Disciplina, com a descrição dos seguintes pontos: ementa – foco na linguagem, modos de produção textual, elementos de textualidade e estratégias de produção textual; objetivos – entre eles, reconhecer a linguagem como instrumento impulsionador das relações sociais, utilizar as estratégias de produção textual e discutir as tipologias textuais; conteúdo programático – principais temas: socialização e linguagem, estudo do parágrafo e do texto, tipologias textuais; metodologia – aulas expositivas, leitura e discussão de textos, produção e reescritura de textos, trabalhos individuais e em grupos, seminários; avaliação – desempenho do aluno nos exames, assiduidade, participação nos estudos e desenvoltura na apresentação dos seminários; bibliografia. Em uma breve análise dos dois programas, pudemos observar que estes apresentam a mesma descrição para os pontos elencados acima, o que não nos permite fazer uma interpretação mais específica sobre a proposta de trabalho de cada professora.

Por fim, tivemos acesso às produções de texto desenvolvidas pelos alunos durante as aulas. No semestre 2008.2, coletamos vinte e um textos. Vale ressaltar que todos eles foram reescritos, o que passa a constituir um total de quarenta e dois textos. Nesse momento, os alunos tiveram como encaminhamento a produção de um texto com base em um outro entregue pela professora e discutido durante uma aula.

No semestre 2009.1, coletamos dez textos, orientados pela professora Valquíria, a partir de uma atividade proposta com base em um dos textos trabalhados em sala de aula para discutir determinado conteúdo. Destacamos que não tivemos acesso aos textos reescritos pelos alunos, o que comprometeu o trabalho de análise desse material, limitando, assim, nosso

objeto de estudo aos textos produzidos pelos alunos da turma do semestre 2008.2, orientados pela professora Renata, conforme veremos na sequência.

Benzer Belgeler