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VII KAYIT DÜZELTMESİ, TAMAMLAMA VE NÜFUS KAYDININ SİLİNMESİ A- kayıt Düzeltmesi:

Belgede BİRİNCİ KISIM Genel Esaslar (sayfa 31-34)

A percepção de que Lobato promoveu excessivas mudanças no texto fica ainda mais clara quando se compara seu trabalho com a tradução de APM do poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite (1935 – 2003)22, publicada pela Summus

(1980). Esta se tornou a versão mais aceita entre o público acadêmico justamente por sua admirável fidelidade ao texto-fonte – não apenas no que diz respeito à literalidade, mas também à preocupação com a manutenção da literariedade. Entretanto, não se trata de uma versão apresentada como literatura infanto-juvenil. O volume consta, em geral, na prateleira de literatura estrangeira das livrarias,

22 Uchoa Leite estudou direito e filosofia e trabalhou como professor e jornalista. Publicou 12 livros de poemas, entre os quais Antologia, que ganhou o Prêmio Jabuti em 1980. Traduziu para o português obras importantes de ficção, além de APM, como Crônicas Italianas, de Stendahl, e também de não-ficção, como Signos em Rotação, de Octavio Paz. Publicou, ainda, diversos ensaios de crítica literária.

possui uma capa neutra, sem ilustrações, e suas ilustrações internas, réplicas das originais criadas pelo próprio Carroll, não chegam a conferir uma aparência infanto- juvenil ao exemplar.

Fica explícito, logo que se observa a sua capa, que a edição de APM traduzida por Uchoa Leite foi destinada aos leitores adultos; leitores que gostariam de ler APM sob um ponto de vista mais intelectualizado, influenciados pela onda de especulações psicanalíticas acerca de Carroll e sua obra, que se multiplicaram a partir da década de 1950 (seguindo-se ao lançamento da animação da Disney inspirada no livro). Isto é, não apenas como um clássico da literatura infanto-juvenil, mas como uma obra complexa, repleta de metáforas e detentora das chaves dos mistérios a respeito da personalidade de seu criador.

Uchoa Leite abre a longa introdução que antecede suas traduções de APM e de Alice Através do Espelho com uma afirmação polêmica: “Lewis Carroll carrega até hoje o fardo de ser considerado autor de literatura infantil.” (LEITE apud CARROLL, 1980, p. 7). Ele acredita que a complexidade da obra carrolliana possa ser até mais interessante ao público adulto do que aos jovens e crianças. Sua opção pelas ilustrações originais de Carroll reforça essa opinião, já que se trata de figuras sombrias e quase surreais, distantes dos parâmetros geralmente adotados nas ilustrações dos livros infantis. Baseando-se nesse posicionamento de Uchoa Leite, logo se imagina que a sua tradução não se preocupou com o direcionamento ao público infanto-juvenil.

Uma análise de sua tradução, comparando-a ao texto-fonte, logo apontará para os constantes cuidados tomados para que, estruturalmente, se reproduzisse, à medida do possível, o texto carrolliano em sua toda a sua riqueza estrutural e semântica. Mesmo a pontuação, na maior parte das vezes, foi mantida, especialmente nos diálogos. Como no trecho:

So she set the little creature down, and felt quite relieved to see it trot away quietly into the wood. “If it had grown up,” she said to herself, “it would have made a dreadfully ugly child: but it makes rather a handsome pig, I think.” (CARROLL, 2006, p. 62)

Soltou a pequena criatura no chão e ficou aliviada de vê-la correr tranqüilamente para dentro do bosque. “Se tivesse crescido mais” – disse ela a si mesma – “ficaria uma criança horrivelmente feia. Mas como porquinho é até bonito, eu acho.” (CARROLL, 1980, p. 82) Nota-se, na citação, a proximidade entre os textos. Embora cada língua possua, evidentemente, suas peculiaridades, Uchoa Leite consegue, por meio de um trabalho minucioso no que diz respeito à estrutura e ao vocabulário, alcançar uma reprodução bastante fiel, fazendo jus não somente ao sentido da frase, mas à maneira como ela é escrita.

Em comparação, Lobato compôs esse mesmo trecho de forma mais livre, usando, entre outras substituições, “criança” (com aspas) para criatura e “futura pessoa” no lugar de criança:

Alice largou-o no chão.

Assim que se viu livre, pôs-se a “criança” a correr na direção do bosque. Alice suspirou.

– Se tivesse crescido gente, seria uma horrível futura pessoa; mas para porquinho está muito bem e até bonitinho, disse ela. (CARROLL, 2005, p. 69).

Transferir trocadilhos, à medida do possível, também é uma preocupação nítida de Uchoa Leite como tradutor de APM, como na passagem do Rato (marcas para destacar):

“You promised to tell me your history, you know,” said Alice, “and why it is you hate – C and D,” she added in a whisper, half afraid that it would be offended again.

“Mine is a long and a sad tale!” said the Mouse, turning to Alice, and sighing.

“It is a long tail, certainly,” said Alice, looking down with wonder at the Mouse’s tail: “but why do you call it sad?” And she kept on puzzling about it while the Mouse was speaking, so that her idea of the tale was something like this: (CARROLL, 2006, p. 28-29).

– Você prometeu-me contar sua história, está lembrado? – propôs Alice, acrescentando num sussurro, por temer que ele se ofendesse outra vez: – E dizer por que odeia tanto... G e C.

– Todo o enredo, de cabo a rabo? Ele é triste e comprido – disse o Rato, voltando-se para Alice e suspirando.

– Que é comprido, não tem dúvida – observou Alice olhando com espanto para o rabo do Rato – mas por que dizer que é triste? E continuou dando tratos à imaginação enquanto o Rato falava, de

modo que a idéia que ela acabou fazendo da estória foi mais ou menos assim: (CARROLL, 1980, P. 56).

Uchoa Leite encontra uma possível solução para o trocadilho tale (conto) e tail (rabo) incluindo a expressão “de cabo a rabo”, que, embora não seja uma tradução literal, mantém o efeito lúdico e demonstra a tentativa de substituir, em vez de eliminar. Seu texto é integral: para toda frase de Carroll, ele propõe uma solução em português, mesmo que não literal.

Ao contrário da maioria dos outros tradutores brasileiros, que ou eliminaram as cantigas e poemas de APM, ou os adaptaram culturalmente, substituindo-os por versos do folclore brasileiro, Uchoa Leite os verteu do original. Também traduziu o último parágrafo do conto, após o despertar de Alice, em que a irmã da personagem pensa sobre a doçura da infância. Essa parte final não foi traduzida por Lobato, que encerra o texto um parágrafo antes.

A questão que surge, entretanto, é por que a tradução de Uchoa Leite, claramente mais literal, costuma ser classificada como literatura para adultos. É claro que, primeiramente, o fato de o próprio tradutor considerar uma injustiça definir a obra de Carroll como literatura infanto-juvenil influencia essa classificação genérica. Ela dificilmente será indicada para crianças por pais e professores – a própria aparência sóbria da edição os desencorajaria. Pode-se pensar que, por trás dessa decisão editorial, existe também um preconceito em relação ao leitor, na mesma linha do que se pode perceber a partir de Lobato: a criança não seria, ao que parece, capaz de apreciar o texto carrolliano mais fielmente reproduzido em português; talvez se considere que seja um texto complicado demais. As traduções voltadas ao público infantil, em formato maior e recheadas de ilustrações coloridas, de uma maneira ou de outra promovem alterações mais drásticas no conteúdo e na estrutura, como ocorre com a versão de Lobato.

Enfim, apesar de serem trabalhos de tradução completamente diferentes, as versões de Lobato e Uchoa Leite esbarram nas mesmas questões: o direcionamento ao público e a dificuldade que se supõe que leitores mais jovens teriam para compreender o texto carrolliano.

Belgede BİRİNCİ KISIM Genel Esaslar (sayfa 31-34)