Conforme a proposta definida no início deste trabalho (análise dos episódios de chuva intensa e sua repercussão no espaço urbano do Rio de Janeiro) foi definido os anos- padrão da série histórica em análise para a definição da gênese dos extremos de chuva por meio da análise rítmica.
Cabe ressaltar que, diante das peculiaridades inerentes entre os totais de chuva elevados e ocorrência de repercussões no espaço urbano do Rio de Janeiro, foram definidos dois tipos de extremos nos anos escolhidos, respectivamente: os eventos extremos e os episódios extremos.
Nos três anos padrão em análise, definidos a partir do limiar de chuva acima de 20mm em 24h, foi identificado o crescimento gradativo do número de chuvas intensas.
As áreas a sotavento de ambos os maciços apresentaram totais de chuva inferiores àquelas localizadas a barlavento, sobretudo nos arredores dos dois maciços. Destacam-se os bairros da zona norte, atrás do maciço da Tijuca, como a região que, em consonância com a caracterização das chuvas (tanto em média anual, como média da série e média dos números de dias de chuva), consiste em uma área de sombra de chuva (figura 20).
O ano de 1999 apresentou três dias nos quais os totais de chuva foram acima de 20mm em 24h; o ano de 2006 apresentou 14 dias, com 20 dias no ano de 2010. Assim, os anos-padrão que, respectivamente, apresentaram menores, maiores e “habituais” totais de chuva também apresentaram esse mesmo padrão para os episódios de chuva que podem impactar o espaço urbano (gráfico 19).
128 1999
2006
2010
Figura 20: Chuva acumulada nos anos-padrão (respectivamente 1999, 2006 e 2010) no município do Rio de Janeiro.
129 Gráfico 19: Eventos extremos por ano-padrão
Fonte: Fundação GeoRio
Organização: Núbia Beray Armond, 2014.
No caso da análise das chuvas em escala horária, os dois anos escolhidos (2011 e 2012) verificou-se que as médias se apresentaram reduzidas em comparação com os anos anteriores, selecionados em meio à série histórica mais longa. Nos dois anos, os totais de chuva não superaram os 2.000mm Ainda assim, os padrões espaciais de variabilidade seguem o encontrado entre 1999 e 2010 (figura 21).
No que se refere aos extremos horários, os gráficos indicam que o ano de 2011 apresentou maior número de dias de chuva horária intensa do que o ano de 2012. Dentre os sete postos analisados, em 2011 (gráfico 20), o maior número de extremos foi em dezembro, com 11, seguido de abril (7) e janeiro (4). Já em 2012 foram janeiro (4), outubro (3) e, empatados, março, abril, setembro e dezembro (2).
Ressalta-se que o mês de abril, identificado como o segundo mês com a maior frequência de extremos em escala horária no ano de 2011, já foi citado por Serra (1970a) como mês em que historicamente são registrados extremos. O início do avanço da FPA, atrelado a superfície aquecida, ainda, pelo verão, pode provocar eventos de chuva intensa e desencadear uma série de impactos.
130 2011
2012
Figura 21: Chuva acumulada – CHA, em 2011 e 2012 no município do Rio de Janeiro.
Fonte dos dados: Fundação GeoRio Organização: Núbia Beray Armond, 2014.
Gráfico 20: Quantidade de extremos por mês do ano (respectivamente, 2011 e 2012) no Rio de Janeiro.
Fonte: Fundação GeoRio
131 Para cada um dos eventos dos anos-padrão da série histórica de 1999 a 2010, realizou-se a identificação da distribuição espacial da intensidade das chuvas em classes (0 – sem chuva ou insignificante; 1 – de 20mm a 40mm; 2 – de 40mm a 60mm; 3 – de 60mm a 80mm; 4 – de 80mm a 100mm; 5 – acima de 100mm). As classes foram escolhidas de acordo com o referencial teórico consultado (GONÇALVES, 2003; VICENTE, 2004; BRANDÃO, 2005; OLIVEIRA e HERMANN, 2005; SILVEIRA, 2007; COLLISCHONN, 2009; LIMA, 2012), sobretudo no campo da Geografia, no qual se considera que totais de chuva não tão significativos podem se constituir em elemento deflagrador de episódios. Conforme descrito nos procedimentos metodológicos, a informação qualitativa atrelada aos episódios deu-se através das reportagens do jornal O Extra (na série entre 1999 e 2010), e a partir de um mapa de pontos de alagamento, produzido pelo instituto Rio Águas e fruto de uma compilação de informações obtidas por diferentes segmentos e instituições vinculadas à Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. O mapa é fruto de registros de alagamento obtidos nos anos de 2011, 2012 e 2013.
Com o objetivo de colocar as duas informações (alagamento e precipitação pluviométrica) em paralelo, optaram-se também por realizar uma análise da intensidade das chuvas em escala horária (milímetros por hora) em seis postos pluviométricos representativos. Quatro postos a sotavento e três a barlavento foram elencados. Foram escolhidos os anos de 2011 e 2012, já que o mapa dos pontos de alagamento contempla este biênio. Para ambas as análises de extremos (em 24h e a de intensidade por hora), realizou-se um gráfico de análise rítmica com dados da estação do Aeroporto do Galeão, localizado na Ilha do Governador.
Para os eventos extremos (ou “extremos meteorológicos”), elaborou-se 13 gráficos de análise rítmica para aqueles definidos acima de 20mm em 24h e 12 para aqueles definidos segundo a equação de intensidade horária das chuvas. Para os episódios, foram elaborados os gráficos de análise rítmica para o limiar superior a 20mm/24h e 3 para aqueles totais de chuva por hora correspondentes a equação. Por conta dos procedimentos adotados (análise de 5 a 6 dias antes do episódio e 1 dia depois), alguns episódios ficaram compreendidos no mesmo gráfico.
132 Os gráficos são parte integrante das pranchas, que dispõem, lado a lado, informações úteis para uma análise mais completa e complexa dos tipos de tempo geradores das chuvas, da sua intensidade e, quando dos episódios, de seus impactos decorrentes.
3.2.1. No ano-padrão SECO de 1999
Data do evento: 15 de Janeiro de 1999
Segundo Boletim Climanálise (1999a), o quarto sistema frontal do mês atingiu a região sul no dia 14. No dia 15, a FPA sofreu conexão com o terceiro sistema frontal do mês de Janeiro, que passou no litoral do Sudeste e ficou estacionário até dia 18.
Ao caracterizar os sistemas atuantes na área de estudo, o Boletim (1999a), o dia 09 foi marcado pela presença de uma linha de instabilidade - IT à retaguarda do Rio de Janeiro, mas que interferiu diretamente na dinâmica local. Precipitação de aproximadamente 50mm foi registrada na estação meteorológica, que registrou ventos de NO, temperatura média de 25ºC e elevada nebulosidade.
No dia 10 ainda foi verificada a presença da linha de instabilidade, que avançou para as baixas latitudes. Uma FPA se deslocou pelo oceano, se conectando a IT no dia 11 e permanecendo dia 12, ainda à retaguarda do Rio de Janeiro. No dia 13, a estabilidade denotou a presença da mTa, que deu lugar a IT no dia 14. A FPA só entrou em ação nos dias 15 e 16 de Janeiro (prancha 1).
s sobre mapa hipsométrico
rie histórica (1999-2010) Evento de 15 de Janeiro de 1999: intensidade da precipitação (por posto) chuva acumulada anual Gráfico de análise
a na série histórica (1999-2010) Conjunto de cartas sinóticas de superfície das 12h (dias 13, 14, 15 e 16/01/1999)