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Kayıp Bayrak Davası, Gazete Haberleri ve Mahkeme Süreci 13 Temmuz 1930 tarihli Türk Sözü Gazetesinde yayınlanan “Menilin

THE FRENCH BATTALION TAKEN CAPTIVE IN THE KARBOGAZ WAR AND THE LOST FLAG ISSUE

II. Kayıp Bayrak Davası, Gazete Haberleri ve Mahkeme Süreci 13 Temmuz 1930 tarihli Türk Sözü Gazetesinde yayınlanan “Menilin

O homem social está envolvido por um meio ideológico vivo e complexo, repleto de materialidades sígnicas das mais diversas: “de palavras realizadas nas mais diversas formas, pronunciadas, escritas e outras; de afirmações científicas; de símbolos e crenças religiosas; de obras de arte, e assim por diante” (MEDVIÉDEV, 2012, p.56). Esse meio ideológico que envolve o homem densamente é “a consciência social de uma dada coletividade, realizada, materializada e exteriormente expressa” (MEDVIÉDEV, 2012, p.56). Num dado período da história, a consciência social, que é determinada pela existência econômica, manifesta-se por diferentes discursos que constituem o “espírito” de uma dada época.

O “espírito da cidadania global”, o “novo espírito do capitalismo”, o “espírito da Globalização”, todos esses e ainda outros (componentes da novlangue ou new speech) que poderíamos levantar aqui vão convergindo no atual período para o espírito da competitividade. Ele é, ao mesmo tempo, motor e base para o funcionamento e para a organização desse mundo globalizado em grande medida. As repetições de padrões fabulosos de enunciados que vão propagando a bondade de todas as medidas e de todos os processos homogeneizadores de globalização não passam de complexos exercícios de fabulações, essenciais à existência e manutenção de uma perversidade sistêmica, que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade e que tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas (SANTOS, 2013, P.20).

Entrecruzadas e interpenetradas pelo “espírito” de competitividade, que não é um espírito, mas uma materialidade, uma realidade concreta, as relações sócio-históricas vão se constituindo de modo que incorporam esse espírito e o alimentam em nome dos processos de organização atual do mundo. Esse contato da organização e do funcionamento do mundo com os discursos da competitividade não é um contato simbólico, mas se dá num espaço e num tempo. As relações que se constroem, então, são relações de cronotopos com cronotopos, intermediadas pelas materialidades discursivas e ideológicas de um espaço-tempo de globalização.

Nesse espaço-tempo global, o estudo da palavra como signo ideológico é um estudo também revelador do espírito de uma época. Não só revelador, mas construtor desse espírito. A Globalização é uma construção, uma produção, uma elaboração humana. Assim também o é a competitividade. Sem as fábulas e mitos produtores desse período histórico, ele não existiria (SANTOS, 2013, p.43). Entre as fabulações mais recorrentes que constituem esse período globalizado, Milton Santos apresenta: 1) o mito da aldeia global, ligado à ideia de comunicação, agora possível em nível planetário (no entanto, “a informação sobre o que acontece não vem da interação entre as pessoas, mas do que é veiculado pela mídia, uma interpretação interessada, senão interesseira, dos fatos” (SANTOS, 2013, p.41)); 2) o mito do espaço e do tempo contraídos, creditado aos prodígios da velocidade (“Só que a velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possibilidades de cada um, as distâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não permite igual economia de tempo” (SANTOS, 2013, p.41)); e 3) o mito da humanidade desterritorializada, somado à ideia de uma cidadania universal, sob a justificativa do desfalecimento das fronteiras, (mas as fronteiras “nunca estiveram tão vivas, na medida em que o próprio exercício das atividades globalizadas não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efetivas dentro de um território” (SANTOS, 2013, p.42)). Esses discursos produzem e reproduzem uma época, o que se diz sobre ela, o modo como se olha para ela e o modo como se age nela.

Os mitos e as fábulas não são, no entanto, os únicos discursos que entrecruzam a base material da sociedade. Há infinitas possibilidades discursivas, mas a hegemonia se constitui a partir de processos dentro de toda a complexidade do funcionamento dessa base na relação com os discursos. Essa inter-ligação dos padrões enunciativos com os padrões de comportamento é estudada por Augusto Ponzio, que, a partir da leitura de Rossi-Landi,

apresenta as programações sociais comportamentais em três dimensões, sempre co-presentes: “1) os modos de produção (forças produtivas e relações de produção); 2) as ideologias; 3) os programas da comunicação verbal e não-verbal que atravessam os sistemas sígnicos” (PONZIO, 2007, p.327). E para compreender como, então, a partir dessas programações as hegemonias se constituem, retomo as palavras do autor, segundo o qual a situação de hegemonia e de poder é melhor exercida por quem exerce o maior controle sobre o sistema geral da comunicação.

Hoje se percebe claramente que a classe dominante não é aquela que é dona de coisas e nem tampouco aquela que é proprietária de meios de produção, mas aquela que controla setores amplos da rede da comunicação, através das quais se realizam a produção e a cotação das coisas humanas. […] Na atual fase do sistema capitalista, ocorre que o domínio não depende da posse de coisas, mas do controle das relações de comunicação, do controle da troca dos bens no nível do mercado e da produção. Pode-se dizer que com isso mesmo a classe dominante possui o capital, mas é mister que a expressão “capital” seja agora especificada, sobretudo como controle da comunicação. Se, de modo geral, na troca comercial o segredo da mercadoria se desvela remontando até as relações comunicativas humanas, hoje, mais do que nunca, no atual sistema capitalista, o capital é um fato sígnico (PONZIO, 2007, p.328).

O controle das relações de comunicação, o controle da troca dos bens no nível do mercado e da produção é um controle universalizador de discursos, universalizador do espírito hegemônico de uma época. E “falamos aqui em hegemonia admitindo que tal racionalidade, mesmo não sendo a única, tem a força de determinar a tendência de todas as demais formas de desenvolvimento do processo de produção material da vida na fase atual do capitalismo” (KAHIL, 2010, p.478). A produção material da vida se dá, na contemporaneidade, em diversos níveis e esferas, inclusive nos discursos, que são materialidade prenhe de vida e que, em sua cadeia infinita e inquebrável de significados, também emprenha a vida.

As hegemonias se dão, dessa forma, na repetição de padrões carregados de interesses de classes e de grupos, produzindo e reproduzindo racionalidades capazes de compor o espectro de concepções e de organização do mundo e da vida em sociedade. A ideologia compõe essas racionalidades, construindo determinada tendência social e valorativa, um determinado projeto ligado a determinado grupo social, a uma certa classe social, “com tendências que vão indiferentemente na direção da inovação, da revolução e da ciência, como também da ocultação, da mistificação e do conservadorismo” (PETRILLI, 2013, p.38).

A produção de um processo de globalização em que os sistemas técnico-científico- informacionais servem de instrumento, em comunhão com a produção de discursos que pintam um imaginário que sustente toda essa produção, também sustenta e fortalece um sistema econômico e de organização de mundo em que os que não atendem às características de um determinado tipo de identidade, criada de forma a obedecer aos ditames e às lógicas de funcionamento de uma época, são dessa lógica toda excluídos ou por ela explorados. Nas palavras de Milton Santos,

É uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em noções que parecem centrais à própria ideia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância – utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, e do que são os países e os lugares (SANTOS, 2013, p.45).

São discursos que apontam, em nome da liberdade e da igualdade, para uma direção, mas o que de fato se vivencia são caminhos opostos. O que nos é vendido como “liberdade de opinião” ou “liberdade de imprensa” é o que Augusto Ponzio considera a distinção essencial que se deve fazer entre “liberdade de palavra” e “liberdade da palavra”. Para o autor, é preciso que haja a possibilidade de circulação da palavra nos lugares de discurso; já que a liberdade

depalavra faz parte de uma segurança ilusória, “é também indício de demagogia secundária, baseada na qual não somente uma pessoa 'toma a palavra', a 'pretende', a 'concede', a 'dá' (Dou a minha palavra!), mas, mais ainda, a distribui, dividida, segundo um tempo igual para todos: a cada um um tempo de palavra” (PONZIO, 2010, p.19) (“Agora passo a palavra para o próximo debatedor”). A liberdade de palavra dita e mantém uma ordem, uma hierarquia, é verticalizada; a liberdade da palavra é fazer a palavra circular, é colocar junto da ideologia oficial (da manutenção da atual ordem das coisas) a ideologia do cotidiano (da ruptura, da quebra da ordem), é a palavra da Roda de Conversa, do Círculo em que as palavras não hierarquizadas circulam e movimentam a roda, uma palavra horizontalizada.

O discurso de um mundo único, globalizado, prega a liberdade de palavra em nome da democracia, da igualdade (todos têm lugar e tempo de fala), contudo, como afirma Ponzio, é uma demagogia secundária: todos têm lugar de fala dentro de uma mesma identidade. Assim também a tolerância, lembrada por Milton Santos, tolerar o outro é ainda afirmar a lógica da identidade, aqueles que não se enquadram devem ser tolerados, dentro de uma identidade de superioridade e bondade, já que “sou tão bom que sou capaz de tolerar aqueles que pensam ou agem diferentemente de mim”. É ainda afirmar que a ordem das coisas deve ser uma só, mas

que podemos “tolerar” aquilo que não a segue. O espírito da competitividade nessa época globalizada é um espírito propagador da liberdade de palavra, dentro da identidade da mais- valia universal.

E nessa lógica identitária da época globalizada, o controle das relações de comunicação e da troca dos bens, tanto no nível do mercado quanto no nível da produção, fica a cargo de agentes também hegemônicos. Essa lógica, como também outras, reflete determinadas interpretações da realidade que se refratam signicamente. Esse é o jogo ideológico que se estabelece para refletir uma lógica competitiva de uma interpretação da realidade pautada nas relações econômicas neoliberais. A ideologia é, portanto, esse conjunto de reflexos, uma vez que “Por ideologia entendemos todo o conjunto de reflexos e interpretações da realidade social e natural que se sucedem no cérebro do homem, fixados por meio de palavras, desenhos, esquemas ou outras formas sígnicas26” (VOLOCHÍNOV, 2013, p.138).

Os reflexos e as interpretações da realidade que vêm se construindo em discursos capitalistas dominantes refletem e interpretam a realidade de um determinado ponto de vista, atribuindo a ela valores de verdade, de mentira, construindo a partir dela as valorações de benefícios e beneficiários em oposição àqueles que não têm habilidade de se encaixar nesse sistema, entre outros valores que constroem a competitividade como âncora, como alvo e como a melhor (ou única) alternativa para a organização social global. Essas valorações, de certa forma, “naturalizam” determinados conjuntos de signos que são funcionais a determinadas interpretações da realidade e a determinados pontos de vista. No entanto, os pontos de vista, as valorações não são naturais, mas sociais e históricos. “E seu lugar de constituição e materialização é na comunicação incessante que se dá nos grupos organizados ao redor de todas as esferas de atividades humanas” (MIOTELLO, 2012, p.170).

A comunicação verbal constitui e materializa as diferentes interpretações da realidade e os signos verbais dela constituintes abarcam e se recobrem de sentidos funcionais a interesses de determinados grupos sociais, ora reproduzindo e mantendo como definitiva algumas interpretações, ora colocando determinadas interpretações em discussão em tentativas de subversão da ordem estabelecida. Os discursos dominantes expressam seus pontos de vista e suas valorações em tom de explicação, orientando sua argumentação a partir de uma só

26 Essa é a única definição de ideologia que se pode ler nos escritos do Círculo Bakhtiniano e está publicada no

consciência27.

Os discursos dominantes, que explicam a realidade no exercício de sua hegemonia em determinado momento da história são marcados por características que lhes são típicas. Reproduzo aqui algumas dessas características apontadas por Miotello para compor a reflexão acerca de grupos humanos que construíram poder hegemônico e os discursos também hegemônicos a partir disso produzidos:

i) a fala e a autorização da fala produtora e sempre veiculadora de sentidos vem exclusivamente do setor dominante, incluído; por obviedade, o dominador é quem também domina as narrativas; ii) esta fala pretende sempre construir um discurso de igualdade, e por

isso inclui no discurso dominante os excluídos, falando por eles e falando para eles;

iii) aparentemente também há um lugar de inclusão dos pretensos discursos dos excluídos nesse discurso hegemônico;

iv) esse discurso, por se comportar como discurso absolutamente único e monológico, visa garantir um eco permanente, universal e necessário;

v) o discurso é intermediação mais eficaz que armas para garantir dominação e subalternização, e institucionaliza o mais urgente e da melhor forma possível suas pretensões (MIOTELLO, 2005, p.272).

Para compreender essas características, Miotello olhou para discursos como o Discurso Católico na Idade Média, o Discurso do Estado nos séculos XVII e XVIII, o Discurso Industrial no século XIX, o Discurso do Mercado no século XX e o Discurso da Tecnologia nas últimas décadas do século XX.

O discurso capitalista neoliberal produzido no período da Globalização instaura a mono- lógica da identidade competitiva e ecoa de maneira universal e permanente as explicações e interpretações da realidade do ponto de vista do dominador.

Nesse contexto neoliberal, os agentes da globalização, como podemos chamá-los, regulam, mediam e conferem as relações produtivas, comerciais e comunicativas, produtoras e reprodutoras do espírito competitivo e homogeneizante da globalização. É sobre esses agentes e sobre a construção do discurso da competitividade por eles promovida que tratarei no item

27 Bakhtin faz uma distinção entre os níveis da explicação e da compreensão em “O problema do texto na

linguística, na filologia e em outras Ciências Humanas”: Na explicação existe apenas uma consciência, um sujeito; na compreensão, duas consciências, dois sujeitos. Não pode haver relação dialógica com o objeto, por isso a explicação é desprovida de elementos dialógicos (além do retórico-formal). Em certa medida, a compreensão é sempre dialógica” (BAKHTIN, 2003, p.316).

seguinte, para compreender, um pouco que seja, a formação do “espírito” dos interesses globais. Esses discursos contribuem também para a construção do processo de Globalização como fábula contemporânea e refletem e refratam a organização e o funcionamento da sociedade contemporânea.

2.3 Os agentes da Globalização (os governos mundiais) e a construção do discurso da