Inicialmente, é possível dizer que a ata é o texto que, de certa forma, quanto ao conteúdo composicional, é ritualizado, tendo em vista a necessidade de atender a normas determinantes desse tipo de documento, de acordo com o exposto42.
Na ata, as ideias precisam ser fiéis às expressas na sessão que documenta, mas não necessariamente que as palavras sejam reproduzidas ipsis
litteris, considerando que não é uma transcrição. Além disso, pretende-se que seja
um texto conciso e objetivo, sem, no entanto, deixar de registrar ideias, opiniões e
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reflexões que contribuíram para o desfecho do assunto tratado.
Em termos de organização do conteúdo, a ata apresenta uma ordem sequencial das informações apresentadas. Note-se que a antecipação da avaliação realizada no preâmbulo da relatoria oraliza – “/tá ok... bom... ã:: eu já: vo:u adiantando que:: o parecer da relatoria é favorável ao ao bacharelado em ciências econô/ é:: bacharelado em ciências econômicas... ã” (linhas 48 e 49) – não é registrado na ata que introduz o assunto da seguinte forma:
“Projeto Pedagógico do Bacharelado em Ciências Econômicas. Professor A relata breve histórico da proposta destacando que: “O Bacharelado em Ciências Econômicas foi criado juntamente com Bacharelado em Ciência e Humanidades” (linhas 149 a 151)
A hipótese para esse apagamento é que, tendo em vista que na conclusão da exposição oral (linhas 141 a 144) o conselheiro-relator repete o posicionamento avaliativo favorável de seu parecer, a dupla menção tornaria o texto da ata repetitivo e, portanto, não objetivo.
Outro aspecto que merece destaque é a utilização, em grande parte do texto, da terceira pessoa:
• “Professor A relata breve histórico da proposta” (linhas 149-150)
• “Prossegue avaliando que tal curso “possui um projeto pedagógico diferenciado “ (linhas 155-156)
• “Passa a elencar sugestões de aprimoramento do documento” (linha 167-168)
Embora esse recurso seja bastante utilizado, nota-se, em alguns trechos, a estratégia do uso de aspas. Conforme registra Koch (2012a, p. 65) “o uso de aspas é frequentemente um modo de manter distância do que se diz colocando-o ‘na boca’ de outros”. No caso da ata, o redator, que observa de fora, dá a voz (palavra) da declaração ao próprio conselheiro-relator. No entanto, fá-lo de modo a, equivocadamente, mesclar os aspectos formais dos discursos direto e indireto. O primeiro, grosso modo, caracteriza-se pelo uso de dois pontos (:), seguido de aspas (“ ”) ou travessão (–) e as “próprias palavras” do, diga-se, indivíduo. No caso do
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discurso indireto, conta-se o que o indivíduo disse de maneira indireta, geralmente precedido de “que”. Verifique-se o trecho a seguir com ênfase nos itens negritados:
“Professor A relata breve histórico da proposta destacando que: “O Bacharelado em Ciências Econômicas foi criado juntamente com Bacharelado em Ciência e Humanidades (BC&H) pela Resolução ConsUni nº 21 de 16 de abril de 2009. Seu projeto pedagógico foi discutido no Conselho do CECS, na Comissão de Graduação (CG) e apresentado no expediente da V sessão ordinária de 2011 do ConsEPE, ocorrida em 8 de junho de 2011” (linhas 149 a 155).
Já no trecho entre as linhas 155 a 167 adota-se estratégia semelhante, porém, sem o recuso dos dois pontos (:) antecedendo o discurso, que vem, porém, disposto entre aspas (“ ”), cujo uso, pode-se inferir, mais do que para formalizar o discurso direto, sinaliza a citação da fala ipsis litteris do conselheiro-relator, guardando a veracidade da informação fornecida.
“Prossegue avaliando que tal curso ‘possui um projeto pedagógico diferenciado, porque busca formar profissionais não polarizados, combinando uma formação em métodos quantitativos e matemáticos com conceitos qualitativos, humanísticos e filosóficos. [...] Esse baixo nível de flexibilidade curricular advém do compromisso de compatibilizar as diretrizes curriculares com o projeto pedagógico da UFABC e a recomendação expressa da direção do Centro para que a carga horária total não se distanciasse muito do mínimo de 3000 horas exigido pelo CNE’” (linhas 155 a 167).
Há, porém, ao longo da ata, uma mescla, ainda que não sejam seguidos estritamente os aspectos formais, do discurso direto e do indireto.
No trecho entre as linhas 168 a 181, lança-se mão do recurso da listagem, artifício tipicamente encontrado em textos escritos, numerada de 1 a 5, como se pode verificar nos destaques a seguir, que usa os verbos na terceira pessoa, na voz ativa e passiva ou mesmo no infinitivo impositivo, marcando a falta de paralelismo:
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“Passa a elencar sugestões de aprimoramento do documento: 1) sugere retirar a palavra “sequencial”, porque esse termo é usado com significado diferente na Lei de Diretrizes e Bases; 2) é feita uma menção ao uso de “notas numéricas”, tendo em vista que as avaliações são realizadas por conceitos da UFABC, não há razão para explicitar o possível uso de notas numéricas para atividades das disciplinas, portanto, sugere remover esse tipo de discussão; 3) é feita menção ao “Colegiado do Bacharelado em Ciências Econômicas” no contexto de trabalho de conclusão de curso, no entanto, essa estrutura acadêmica não existe e o Art. 5º da Resolução ConsUni nº 47 define a existência de Plenária de Curso e Coordenação de Curso, assim, sugere substituir Colegiado por Coordenação, de acordo com a resolução ConsEP nº 74; 4) inserir uma legenda para as cores utilizadas na apresentação da matriz curricular; 5) atentar para o fato de que a disciplina “Nascimento e Desenvolvimento da Ciência Moderna” é apresentada como obrigatória para BC&T e BC&H, porém, a mesma aparece como obrigatória somente na matriz do BC&H” (linhas 163-177) Como se percebe nos trechos até aqui analisados, de modo geral, em virtude de o único detentor da palavra nessa etapa da reunião ser o conselheiro- relator, não se repete nenhuma vez seu nome, que aparece apenas na primeira sentença logo após o título do assunto (linha 149 – “Professor A relata”). Também não são utilizados substitutivos como “o relator”, “o professor”, nem mesmo se utiliza o dêitico de terceira pessoa “ele”, ficando implícito na desinência verbal como nos seguintes casos:
• [ele] Prossegue avaliando que tal curso “possui um projeto pedagógico diferenciado” (linha 155)
• [ele] Passa a elencar sugestões de aprimoramento do documento (linhas 167-168)
• [ele] sugere retirar a palavra “sequencial” (linha 168)
• Por fim [ele] questiona a necessidade de explicitar (linhas 181-182) Ainda no tocante aos verbos dicendi, vale lembrar a observação de Garcia (1986, p. 131) de que “[a] principal função [desses verbos] é indicar o interlocutor que está com a palavra”. Assim sendo, atente-se para o fato de que,
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embora o texto da ata almeje à neutralidade, abre mão da utilização dos verbos
dicendi neutros, como “dizer” e “falar”. A esse respeito, Rebelo Viegas (2008, p. 124)
menciona que “Ao optar pelo verbo dizer, aparentemente neutro, o narrador cria um efeito de afastamento sobre o dito e seu autor”. Contudo, na ata em análise os verbos eleitos para reportar o discurso são: relatar, prosseguir, avaliar, passar, elencar, sugerir, questionar, declarar. Todos eles emprestam algum tipo de interpretação às declarações do conselheiro-relator.