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ÖCALAN CULTIC LEADERSHIP IN PKK TERRORIST ORGANIZATION

1. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

Ao analisar a trajetória da indústria farmacêutica nacional, podemos dizer que seu resultado foi bastante diferente do que se esperava em sua origem.

À época da proclamação da República, já havia 35 laboratórios no Brasil. Podem ser citados os Institutos de Patologia de Manguinhos, o Butantan e o Pasteur que produziam medicamentos de origem vegetal, mineral e até animal (opoterapia34, soros e vacinas), estimulados pelo investimento estatal em instituições públicas de pesquisa. Esses laboratórios cumpriram a tarefa de atendimento às necessidades da população e formaram um grupo de importantes cientistas e pesquisadores (RIBEIRO, 2001).

Vários membros dessas instituições se associaram a grupos de empresários nacionais e estabeleceram os primeiros laboratórios

34 Tratamento à base de extratos de tecidos, órgãos e, sobretudo, de glândulas

farmacêuticos privados no Brasil, como o Laboratório Paulista de Biologia, fundado em 1912, por antigos membros do Instituto Pasteur, e o Instituto Pinheiros, em 1928.

Segundo Maria Alice Rosa Ribeiro,

Empresas constituídas com capital nacional foram capazes de desenvolver pesquisas e produzir conforme critérios de qualidade rigorosos. (RIBEIRO, 2001)

Além do investimento privado, o Estado também incentivou e forneceu recursos para alguns projetos se tornarem laboratórios, o que foi fundamental para a criação de uma massa crítica de cientistas brasileiros. Esse projeto proporcionou o fortalecimento da produção local (GIOVANNI, 1980; RIBEIRO, 2001).

Ao se falar em parque industrial farmacêutico, temos que salientar que, antes da indústria farmacêutica, deve haver a indústria farmoquímica, um ramo da química que produz os princípios ativos que constituem a matéria-prima da indústria farmacêutica. A indústria farmacêutica propriamente dita é um setor de transformação que produz o medicamento para consumo final. Apesar de haver um parque industrial razoável nesse setor, a indústria farmoquímica brasileira não se desenvolveu de forma adequada e a subseqüente indústria de transformação teve que contar, quase sempre, com a importação de insumos de outros países.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a importação de vários insumos farmacêuticos foi inviabilizada, proporcionando um avanço na indústria local que foi obrigada a suprir o mercado. Nesse momento, foi fundado o Instituto Medicamenta - Fontoura & Serpe. Em 1919, temos a chegada do laboratório francês Cia. Chimica Rhodia Brasileira. Em 1920, O Recenseamento Geral

da República encontrou 186 empresas no setor35.

Como vimos no capítulo anterior, a transformação da indústria farmacêutica mundial começou nos anos 1930, quando começaram a aparecer as sínteses químicas que, através de reações químicas

35 Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Disponível em:

combinando diferentes elementos, geravam um composto químico. Segundo Carlos Osmar Bertero (1972):

Praticamente nada se sabia dos efeitos químicos das drogas no organismo. As boticas, assim como as companhias farmacêuticas até a década de 1930, lidavam principalmente com substâncias derivadas de organismos vivos. Foi bem demorado o aparecimento dos produtos químicos e potencialmente propícias à produção em escala industrial.

Na década seguinte, surgiram os antibióticos e, com eles, iniciou-se a transformação da indústria farmacêutica mundial. A descoberta da penicilina em 1928, por Alexander Fleming, revolucionou a medicina e, conseqüentemente, a produção nos laboratórios farmacêuticos. Mas desde a descoberta até a comercialização do produto, passaram-se dez anos36.

Em 1936, a sulfa, outra grande novidade no combate a doenças infecciosas, já havia sido introduzida. Apesar do avanço tecnológico que a produção de antibióticos proporcionou, e da conseqüente diferenciação entre os países que os produziam, a indústria nacional ainda se mantinha dominante no país: em 1938, havia452 laboratórios farmacêuticos nacionais contra 44 estrangeiros37.

A indústria farmacêutica brasileira conheceu seu apogeu nos anos 1930, quando o combate às doenças endêmicas, que representavam importante problema de saúde pública, passou a exigir implantação de instituições de pesquisa e produção de medicamentos (GIOVANNI, 1980; BERMUDEZ, 1995). Período em que, segundo Bertero (1972),

Quando a produção de drogas era em grande parte deixada ao critério e à capacidade inventiva dos boticários e médicos, quando as drogas eram relativamente inócuas, não constituía surpresa o fato de quase todos os países produzirem seus próprios medicamentos e produtos farmacêuticos em geral.

36 Nobel Prizes. Disponível em

<http://nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1945/fleming-bio.html > Consultado em 12/09/07.

37 Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Disponível em:

Durante o período de turbulência da Segunda Guerra Mundial, o Brasil novamente se viu estimulado a desenvolver a indústria local para suprir a ausência de insumos que eram comumente importados. Passou, então, a produzir princípios ativos importantes38, chegando mesmo a suprir necessidades de países europeus. Segundo Geraldo Giovanni (1980):

Muitos dos ingredientes químicos necessários à indústria farmacêutica nos foram fornecidos, neste período conturbado, pelas fábricas norte-americanas de matérias- primas, assim como aparelhos e máquinas que já nos forneciam antes. Uma grande parte dos suprimentos, entretanto, passou a ser produzida em São Paulo e Rio de Janeiro, aliviando o país da tremenda sobrecarga imposta pela Guerra.

Durante esse processo, houve a implantação de várias empresas transnacionais, seja por associação a empresas nacionais, seja pela construção de instalações próprias e até pela transferência de capital acionário. Inicia-se, nesse momento, a desnacionalização da indústria farmacêutica nacional. O processo, no entanto, não foi acompanhado por uma transferência de tecnologia. A produção de matérias-primas, assim como as atividades de P&D, continuaram a ser desenvolvidas nos países sedes dessas empresas (BERTERO, 1972; BERMUDEZ, 1995; GIOVANNI, 1980).

A indústria farmacêutica nacional começou, então, a sentir os efeitos negativos de seus produtos obsoletos num mercado extremamente competitivo e ávido por novas tecnologias (TACHINARDI, 1993). Se o mercado nacional teve acesso aos novos medicamentos por meio das indústrias estrangeiras aqui instaladas, o país não teve acesso à tecnologia desenvolvida por essas empresas.

Para Bertero (1972), as empresas nacionais originaram-se das antigas boticas e, geralmente, eram negócios dirigidos por famílias, passando de pai para filho. Alguns desses estabelecimentos conseguiram

38 Cafeína, teobramina, estricnina, cumarina, atropina, hiosciamina e escopalamina, ópio,

eucliptol, quinina, curcumina, emetina, pilocarpina, digitalina, extrtatos glandulares, hormônios etc.

transformar-se em indústrias farmacêuticas de pequeno e médio porte, conforme o padrão nacional, e lograram manter-se independentes e rentáveis.

Para Giovanni (1980), os laboratórios nacionais, mesmo os maiores39, não desenvolveram a pesquisa científica, diferentemente do que aconteceu nos países europeus e nos Estados Unidos. Isso determinou definitivamente a situação dos anos subseqüentes: a indústria nacional, exercendo uma atividade inexpressiva, passou a importar matéria-prima apenas para processá-la e embalá-la. Enquanto isso, os países que investiam em P&D realizavam as descobertas de novas substâncias, conforme tabela a seguir.

Tabela 8 – Cronologia das descobertas da indústria farmacêutica transnacional Especialidade Ano Vitamina B1 e Sulfa 1932 Hormônio Masculino 1934 Vitamina B2, D3 e K 1935 Tocoferol e Síntese da B1 1936 Corticosteróide 1937

Penicilina e Síntese de Tocoferol 1938

Hormônios, Gonadotrópicos 1943

Estreptomicina 1944

Bautracina e Cloranfenicol 1947

Cortisona, Vitamina B12, Tetraciclina 1948

Hidrocortisona 1950

Vacina contra Pólio 1953

Prednisona 1954

Reserpina 1956

Dexametazona 1958

Fonte: Giovanni (1980).

39 Silva Araújo, Granado, Werneck, Orlando Rangel, Biologia Clínica, Moura Brasil, Pelosi,

Nos anos 1940, o Brasil começa a sentir a defasagem tecnológica propriamente dita de seus produtos com a introdução de vários medicamentos muito mais eficientes, e menos tóxicos, no mercado consumidor (GIOVANNI, 1980; BERTERO, 1972).

Segundo Maria Helena Tachinardi (1993), esse fenômeno foi decorrência da falta de incentivos estatais para o desenvolvimento do setor:

A literatura especializada destaca que o principal fator da falta de capacitação tecnológica no Brasil é a falta de apoio do governo que, ao contrário de outros setores, como a informática e as telecomunicações, não considerou a indústria farmacêutica estratégica para a segurança nacional.

Para Bertero (1972), a indústria nacional debilitou-se em conseqüência de falta de capital, tecnologia e especialização administrativa, além da incapacidade de estabelecer ligações com a universidade. Para o autor, havia centros de pesquisa capazes de proporcionar o desenvolvimento da indústria nacional, mas não houve intercâmbio entre eles e a iniciativa privada. Salienta ainda que nas empresas norte- americanas, apesar de poder ser considerado tardio, o início da inclusão sistemática de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, foi um fenômeno determinante para o desenvolvimento do setor, a saber: Smith, Kline & French em 1920, Sterlig Drug em 1920, Upjohn em 1921, Wyeth em 1930, Searle em 1930, Parke Davis em 1939 e Squibb em 1958.

Sem a necessária infra-estrutura da indústria farmoquímica e a ausência de P&D no país, e com a crescente sofisticação tecnológica do produto, a verticalização da produção tornou-se inviável (Bermudez, 1995). Ao mesmo tempo em que não houve incentivo para a produção de farmacoquímicos no Brasil, nos Estados Unidos e Europa ocorreu exatamente o inverso.

Os avanços científicos e tecnológicos observados durante as décadas de 40 e 50 resultaram no desenvolvimento de uma grande quantidade de novos produtos. Naquele momento, as indústrias farmacêuticas incorporaram o processo que denominamos de integração

vertical de novos produtos, a formulação e a comercialização (BERMUDEZ, 1995).

Logo após a Segunda Guerra Mundial, a introdução no Brasil de medicamentos considerados modernos constituiu, sem dúvida, um grande sucesso. Doenças antes consideradas estigmas sociais, como tuberculose, sífilis e outras doenças venéreas, passaram a ser passíveis de cura por meio da administração de antibióticos, o que representou uma revolução na prática clínica.

As intervenções cirúrgicas também sofreram grandes transformações com a introdução dos antibióticos, uma vez que as infecções no pós- operatório resultavam em altos índices de mortalidade. Foi possível, a partir daí, desenvolver técnicas cirúrgicas nunca antes experimentadas, assim como a administração em massa de vacinas, como a Salk, contra a tão temida poliomielite. Esses fatos contribuíram de forma significativa para a constituição da imagem positiva da indústria farmacêutica e sua receptividade no mercado internacional.

2.2 A aceleração do processo de desnacionalização