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ŞANLI ERKE HAN

KAVİMLER GÖÇÜ

Formado em Filosofia pela PUC-Minas, há pouco mais de três anos, o professor Renato leciona em duas escolas da Rede Estadual. Na EE “Alaíde Lisboa” está há quase dois anos, na condição de designado. Tive a oportunidade de conhecê-lo numa das minhas primeiras visitas à escola e numa das tantas conversas informais que mantive na sala dos professores, ele me contou que a motivação para ser professor nasceu dentro de uma escola onde ele já trabalhava. Era porteiro.

O professor Renato se disponibilizou a cooperar com esta pesquisa, embora não tenha atuado no REM. Marcamos um encontro no intervalo entre os turnos da manhã e da tarde. Ficamos no laboratório de Ciências pela comodidade do silêncio. Foi durante a entrevista que soube que ele não atuara no REM.

Para início da conversa, deixou claro que a implantação do REM na EE “Alaíde Lisboa” envolveu todos os professores. Reportou sua experiência nessa escola no ano de

2013. No ano seguinte, trabalhando em outra escola, na cidade de Ibirité, teve a mesma experiência atuando da mesma forma como professor de Filosofia do Ensino Médio.

Em 2013, vivenciou a organização da escola com a apresentação do Projeto no Seminário de Percurso, logo no início do ano letivo. Em 2014, em Ibirité, foi convidado pela outra escola, mas não aceitou. Perguntei o porquê da negativa, ao que ele respondeu que não teria tempo para se dedicar pesquisando sobre um conteúdo que ia além de sua área de formação.

Trabalhando em duas escolas que experimentaram o Projeto no curto período de dois anos, o professor observou a experiência de implantação em contextos diferentes e comentou sobre as dificuldades enfrentadas pelos colegas das áreas da empregabilidade.

Comentou sobre as dúvidas e incertezas dos professores que optaram pelas disciplinas da empregabilidade, mas que houve um movimento muito interessante por parte desses professores no sentido de buscar as informações, buscar recurso pedagógico para a realização de seu trabalho no novo currículo.

Viu esse movimento, sobretudo, na EE “Alaíde Lisboa” e destaca o empenho da coordenadora do Projeto que, inclusive, criava as condições para que todo o corpo docente do turno da manhã compartilhasse do planejamento e discussão dos “dois currículos”.

Em sua fala, deixou muito claro o empenho da escola em envolver os professores no REM.

Pude perceber que o professor, mesmo na posição de quem tenta manter um distanciamento, fora envolvido no processo de implantação da nova metodologia, estimulado pela coordenação pedagógica da EE “Alaíde Lisboa”.

E mais, a organização imposta para a implantação do REM, inevitavelmente, interferiu na rotina de trabalho de todos os professores dentro da escola, na medida em que estabeleceu o acréscimo de mais um horário na jornada diária do aluno.

Embora os direcionamentos estabelecidos no Caderno de Orientações, tenham sido explícitos quanto às formas de organização das disciplinas para o sexto horário, não foi incomum o desagrado de alguns professores com o quadro final.

É, eu não estava dentro do Projeto, mas eu tinha, por exemplo, um sexto horário, no primeiro ano. Filosofia no sexto horário! Uma aula por semana... É, justamente porque o REM entrou na grade assim, em horários diferentes, não só nos últimos horários. Aí... ...no sexto horário. É o que eu achei também que acrescentou muito por causa disso porque você joga Filosofia para o sexto horário, os meninos já ficavam enfurecidos por causa do sexto horário. Essa ideia de sexto horário. E tinha problema com isso... (Depoimento de Renato, 2015).

Dessa forma, pontuou o incômodo para o professor o acréscimo de mais um horário por dia, não que isso representasse aumento na jornada de trabalho, mas na extensão do turno e na distribuição da sequência das aulas.

O complicador estaria no fato de que o aluno, já mais cansado, mostrava-se indisposto de assistir à sexta aula do dia.

Em relação aos alunos, Renato foi mais um professor a observar a reação negativa por parte deles, mas analisa:

Por que começou com o primeiro ano (turmas do primeiro ano). Mas o segundo não tinha. Aí saíam no quinto horário. Mas o primeiro ano ficava todos os dias até o sexto horário. [...] “Aí, como o adolescente gosta de... é próprio da adolescência mesmo de levar vantagem, precisa assim ter uma educação - eu creio que o primeiro ano ainda está recebendo essa educação agora - que é aprender a esperar sua vez, buscar conhecimento de tudo que ele aprendeu no fundamental, no primeiro ano é que ele vai concretizar isso. Então o primeiro ano é muito difícil por isso, porque o aluno ainda está meio assim... É igual com relação à minha matéria, Filosofia no primeiro ano é praticamente, não vou dizer assim, um fracasso, mas é um “fracasso” assim que você vai tentar passar o máximo possível aquilo vai surtir efeito - não é um fracasso no termo de não ter valor. Aí quando vai chegando no segundo ano, os meninos vão aceitando, vão entendendo, compreendendo mais. No terceiro ele já começa a ter uma maturidade, né? Pra entender a disciplina. Mas no primeiro ano, eles estão muito assim, é aquela questão da competição: “eu sou melhor que o outro. Porque que ele teve uma oportunidade e eu não tive... Então o que eu vou fazer, já que os meninos do segundo e do terceiro vão sair mais cedo, eu vou dar um jeitinho de sair também. Porque eu estou levando vantagem, estou conseguindo escapar”. (Depoimento de Renato, 2015).

Embora não tenha assumido nenhuma das disciplinas da empregabilidade, alegando inclusive questão que chamou de ética: “Eu estaria passando por cima dos meus princípios e até de minha formação em Filosofia...”, reconhece o empenho dos colegas que ministraram as novas disciplinas, ressaltando o problema da falta de recursos para o melhor desempenho dos trabalhos.

E sobre a aceitação do Projeto pelos alunos, comenta que “houve uma sede dos alunos, assim, um quero mais”, mas percebeu que a escola não tinha mais o que oferecer. Portanto,

uma boa parte dos alunos, ao final do ano, aceitou a proposta do REM e perguntava: “Quero mais. Cadê?”.

4.6 O lugar da coordenação do Projeto na escola

Foi através da coordenadora do REM, atual vice-diretora da escola, que meu percurso de entrevistas foi elaborado. O contato com professores foi inicialmente feito por ela ou através de telefone ou através de e-mail, com todos os professores que quisessem colaborar. Depois desse contato, encaminhei o meu convite e fomos marcando datas para as entrevistas.

Em todas as entrevistas, Júnia era presença na escola e, muitas vezes, buscava o melhor local para a realização dessa entrevista. Observando sua relação com o trabalho, pude compreender a citação recorrente de seu nome nas entrevistas, por sua dinâmica nas múltiplas demandas cotidianas.

A pessoa, na figura da vice-diretora daquela escola, transitava em todos os espaços e respondia a várias demandas em curtos trajetos que fazia e ao mesmo tempo. Assistindo à sua rotina de trabalho, entendi a organização das informações que me prestara quando de minha primeira visita àquela escola. Ela tinha domínio de seu trabalho e muito conhecimento daquele contexto.