Os dados obtidos por meio da pesquisa de campo foram analisados com base em teoria fundamentada (ou grounded theory), conforme propõe Strauss e Corbin (2008). O termo “teoria fundamentada” refere-se a uma teoria que surge com base em dados, reunidos e analisados de maneira sistemática por meio de um processo de pesquisa (STRAUSS e CORBIN, 2008). O objetivo deste tipo de análise é possibilitar que, com base nos dados, parta-se da descrição para um ordenamento conceitual, que se constitui na organização dos dados em categorias segundo suas propriedades e suas dimensões, para a produção de teoria,
48 ou seja, um conjunto de conceitos desenvolvidos e relacionados por meio de declarações de relações.
Para me engajar neste tipo de análise, contei com o auxílio do software Atlas.ti 74, que me ajudou a lidar com as mais de 3.200 páginas de dados. Com auxílio do software, seguindo as etapas de análise sugeridas por Strauss e Corbin (2008), iniciei o meu processo de análise de dados a partir da microanálise, ou seja, da análise detalhada, linha por linha, de cada documento de nota de campo ou de entrevista transcrita, produzindo, a partir daí, as primeiras categorias, que se configuraram enquanto categorias iniciais. Tendo em vista que o processo de análise não é um processo estático ou rígido, mas envolve a liberdade e criatividade do pesquisador, na microanálise já são realizadas tanto a codificação aberta quanto a axial. Enquanto a codificação aberta consiste em um processo analítico que possibilita a identificação de conceitos e de suas propriedades e dimensões nos dados, criando categorias ou subcategorias, a codificação axial consiste no estabelecimento de relações entre categorias e subcategorias. Nesse sentido, na primeira leitura detalhada buscou-se identificar temas persistentes, aspectos chave, que pudessem ser organizados em categorias, bem como a forma como eles estavam relacionados. Busquei organizar estes dados empíricos recorrentes em códigos, que também foram influenciados pelos meus pressupostos de pesquisa.
Após a primeira etapa de microanálise, seguiu-se uma nova etapa voltada para uma codificação seletiva, ou seja, para a integração e refinamento de teoria às categorias, para a formação de um esquema teórico maior. Nesse sentido, ainda com o auxílio do software Atlas.ti 7, voltei-me novamente à leitura dos dados, buscando elevar as minhas categoriais a um nível teórico. A aderência conceitual das categorias produzidas ajudou a validá-las enquanto categorias teóricas.
Uma importante parte da teoria fundamentada diz respeito à validade das categorias construídas. Uma das formas de conseguir esta validade é por meio da apresentação e discussão destas categorias construídas com outros pesquisadores, para verificar o seu sentido e incorporar estas sugestões. Seguindo esta lógica, ao longo de todo o trabalho, as categorias foram compartilhadas com minha orientadora, que cumpriu este papel de validação, sugerindo categorias novas e eliminando outras. Buscamos, por meio deste processo, conferir maior validade às categorias construídas.
Como forma de complementar a teoria fundamentada, e diante da importância explicativa que pareciam ter as falas persuasivas dos agentes investigados, também foi
4 Vale ressaltar que o software foi utilizado apenas para facilitar a organização da grande quantidade de dados,
49 utilizada uma análise retórica, complementada pela análise argumentativa. Conforme explicam Bauer e Gaskell (2012), a análise retórica envolve a análise de discursos persuasivos, desvelando tais discursos e questionando-se a respeito do porque eles são persuasivos. Desta forma, o objeto da análise retórica é a persuasão (BAUER e GASKELL, 2012).
A análise retórica foi utilizada na presente pesquisa como forma de investigar as estratégias de legitimação utilizadas por agentes dos programas da UPP, PAC, UPP Social, Territórios da Paz e CRAS, conforme será explicado em capítulo posterior, de forma a prover elementos que ampliem a compreensão a respeito das disputas entre os agentes e a respeito de seus posicionamentos no campo burocrático do Estado. Para realização da análise retórica foram selecionados argumentos persuasivos destes agentes, apresentados em entrevistas ou em reuniões gravadas e transcritas. Tais argumentos foram analisados de forma a identificar a origem dos argumentos, ou “como os oradores inventam argumentos em relação a determinados objetivos” (BAUER e GASKELL, 2012, p. 302). Para a análise retórica, parte- se da ideia de que cada estrutura de argumento dá um peso maior a uma das três qualidades da fala propostas por Aristóteles (BAUER e GASKELL, 2012). Aqueles argumentos cuja estrutura privilegia o Ethos configuram-se como uma argumentação persuasiva fundamentada em princípios morais ou na credibilidade de seu autor. Os argumentos baseados em Pathos apelam para a emoção como forma de persuasão. Já argumentos baseados em Logos configuram-se enquanto argumentos lógicos, que se baseiam em uma lógica racional como forma de convencimento. Além dos três tipos tradicionais de estruturas de argumento, também foi possível identificar nos dados argumentos baseados em presença. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) chamam atenção para o fato de que as concepções tradicionais da retórica negligenciam os argumentos de presença, fator essencial na argumentação segundo as autoras. A presença possui um efeito direto em nossa sensibilidade, e não basta que uma coisa exista para que se sinta a sua presença (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005). Por isso, nos argumentos de presença o orador tenta tornar presente ou valorizar tornando mais presentes certos elementos, por meio de recurso, principalmente, a objetos concretos (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005).
Como forma de facilitar a análise daquilo que está sendo privilegiado na estrutura dos argumentos, também utilizei aqui uma análise argumentativa conforme proposta por Toulmin. Toulmin (2001) parte da ideia de que argumentos, assim como organismos, possuem uma estrutura. Propõe, assim, uma análise argumentativa a partir da análise do layout do
50 argumento, ou seja, da forma como ele está estruturado. Para o autor, um argumento apresenta dados (D) que consistem nos fatos aos quais recorremos para fundamentar uma alegação. A alegação ou conclusão (C), por sua vez, consiste na parte do argumento cujos méritos buscamos estabelecer. Normalmente, a relação entre estas duas partes resume-se em expressões do tipo “se D, então C” ou “D, portanto C”. Por trás da relação entre o dado e a conclusão, existe, segundo o autor, uma garantia (W), que determina o grau de força que os dados conferem à alegação, ou, em outras palavras, a garantia é “uma premissa consistindo de razões, autorizações e regras usadas para afirmar que os dados são legitimamente utilizados a fim de apoiar a proposição” (BAUER e GASKELL, 2012, p. 226). Neste sentido, a análise argumentativa, a partir da perspectiva de Toulmin, também nos permite acessar as premissas por trás dos argumentos dos agentes, e por isso foi utilizada nesta pesquisa como forma de ajudar a acessar as lógicas institucionais em disputa no campo burocrático do Estado, conforme será explicitado em capítulo posterior.
Ainda seguindo a perspectiva da análise retórica, também busquei analisar ao longo da tese o papel das metáforas utilizadas pelos agentes em sua “transferência” de sentidos de um conceito a outro, conforme explicaram Bauer e Gaskell (2012). Na análise retórica a metáfora é considerada um tropo, ou seja, uma mudança de significado de uma palavra que se dá de forma bem sucedida (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005). Conforme explicam Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), por meio da metáfora é possível transpor a significação de um nome para outra significação. Tendo em vista que o uso de metáforas era muito frequente entre os agentes de minha pesquisa, e referiam-se a fenômenos importantes em minha análise, não pude deixar de me atentar para os sentidos que os agentes tentavam transferir por meio de suas metáforas.
Enquanto os fundamentos da teoria fundamentada perpassam toda a análise, a análise retórica e, mais especificamente, a análise de metáforas, foi utilizada em pontos mais específicos da análise, nos quais se mostram úteis. Nesse sentido, ao início de cada um dos capítulos teórico-empíricos que se seguem buscarei explicitar as técnicas de análise de dados que os embasaram.