Presidente Fernando Collor de Melo, segundo Schlickmann (2008, p.161), busca a “implantação de um sistema de avaliação baseado no „Estado avaliador‟ ”, fato fortemente rejeitado pela comunidade universitária.
Foi no governo do Presidente Itamar Franco, que assumiu a direção do país após o
impeachment do Presidente Collor, que os dirigentes das universidades federais, através da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), apoiados pelos Fóruns dos Pro-Reitores de Graduação e Planejamento e da Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (ABRUEM), iniciaram as discussões sobre a criação de um modelo de avaliação, sem a imposição do Ministério da Educação (MEC), mas fruto de uma ampla parceria entre governo e IES.
Nesse sentido, sob a coordenação da Secretaria da Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC) foi criada a Comissão Nacional de Avaliação (CNA), que, em conjunto com as IES ali representadas, criaram inicialmente um Projeto de Avaliação Institucional, como marco inicial das discussões que se seguiram e que redundaram no Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (PAIUB).
Uma das características desse programa era a adesão voluntária da instituição universitária, sendo seus objetivos específicos, de acordo com Oliveira (2003):
1) Impulsionar um processo criativo e de autocrítica da instituição, como evidência da vontade política de auto-avaliar-se para garantir a qualidade da ação universitária e para prestar contas à sociedade da consonância dessa ação com as demandas científicas e sociais da atualidade; 2) Conhecer, numa atitude diagnóstica, como se realizam e se inter- relacionam na Universidade as tarefas acadêmicas em suas dimensões de ensino, pesquisa, extensão e administração; 3) (RE)estabelecer compromissos com a sociedade explicitando as diretrizes de um projeto pedagógico e os fundamentos de um programa sistemático e participativo de avaliação, que permita o constante reordenamento, consolidação e/ou reformulação das ações da universidade, mediante diferentes formas de divulgação dos resultados da avaliação e das ações dela decorrentes; 4) Repensar objetivos, modos de atuação e resultados na perspectiva de uma Universidade mais consentânea com o momento histórico em que se insere, capaz de responder às modificações estruturais da sociedade brasileira; 5) Estudar, propor e implementar mudanças das atividades acadêmicas do ensino, da pesquisa e da extensão, e da gestão contribuindo para a formulação de projetos pedagógicos e institucionais
socialmente legitimados e relevantes”. ( STEIN, apud OLIVEIRA, 2003,
p. 44).
Nos moldes em que foi concebido, o PAIUB, segundo Andriola (2005), “se preocupava com a totalidade, com o processo e o papel das instituições na sociedade” (ANDRIOLA, 2005, p.123). E vai mais além o autor, afirmando que a concepção do
programa estava “comprometida com a transformação acadêmica na dimensão formativa, emancipatória” (Ibid, p.123).
Há que se ressaltar que o PAIUB, por meio da avaliação interna que ensejava o agrupamento de uma quantidade imensa de informações, propiciaria condições para se complementar o processo com a avaliação externa.
Aqui vale lembrar novamente Leite (2005), quando afirma que
Com duração média de dois anos, o PAIUB estabelecia três fases centrais para o processo a ser desenvolvido em cada universidade: avaliação
interna da universidade por seus „segmentos constitutivos‟, avaliação
externa por especialistas das áreas do conhecimento e/ou provedores de informações da comunidade externa (representantes de sindicatos, de associações profissionais, usuários das profissões e egressos) e reavaliação, que reúne e discute os resultados das fases anteriores, estabelecendo ações para melhoria da qualidade dos cursos e restabelecimento do projeto pedagógico e de desenvolvimento da
instituição”. (p. 51).
A preocupação primeira do PAIUB foi com o ensino de graduação, mesmo porque a CAPES já avançava e muito na avaliação da pós-graduação. Ali era objeto de análise a integralização curricular, bibliotecas, infra-estrutura física, laboratórios além, evidentemente, dos corpos docente, discente e técnico-administrativo.
É interessante observar, ainda de acordo com Andriola (2008, p.132), que “No documento do PAIUB, a avaliação institucional pauta-se na perspectiva de Daniel Stufflebleam: isto é, está ligada à tomada de decisão, como forma de garantir a qualidade do ensino [...]”.
Como intrínseco ao processo de avaliação institucional, Ristoff (1999) define os seguintes princípios como integrantes e norteadores da sua natureza: a globalidade, a comparabilidade, o respeito à identidade institucional, a não premiação ou punição, a adesão voluntária, a legitimidade e a continuidade.
• O princípio da globalidade estabelece a necessidade de se avaliar a instituição na sua inteireza, com participação de todos os atores envolvidos – direção, professores, alunos, funcionários técnico-administrativos e comunidade.
• O princípio da comparabilidade objetiva a uniformização de linguagem e método, sem preocupação em estabelecer um ranking entre as instituições, mas de permitir, internamente, comparar dados entre distintas avaliações.
• O princípio do respeito à identidade institucional considera o estágio de desenvolvimento de cada instituição, sua trajetória evolutiva bem como suas características e especificidades.
• O princípio da não premiação ou punição denota o fato de que avaliação institucional deve ser um instrumento de mudanças, de consciência pela administração superior da sua realidade, dos seus aspectos positivos e negativos e nunca um elemento cerceador, punitivo. • O princípio da adesão voluntária expressa o grau de liberdade que têm as instituições para estabelecer a avaliação institucional em seu interior pelo convencimento de seus membros, sem quaisquer imposições.
• O princípio da legitimidade, segundo Schlickmann (2008, p.162), enseja a
[...] adoção de metodologia e construção de indicadores capazes de conferir significado às informações que devem ser fidedignas e que não devem estar limitadas à apresentação de dados quantitativos, mas que tragam dados qualitativos de natureza interpretativa.
• O princípio da continuidade, finalmente, além de afirmar ser a avaliação um processo contínuo permite, por isso mesmo, a comparação de dados em tempos distintos e, paralelamente, torna-se fundamental no acerto dos instrumentos utilizados e dos resultados alcançados.
Em que pese, no entanto, o formato da construção do PAIUB, com ampla participação das IES, tanto que “das 57 universidades/IES públicas brasileiras existentes em 1996, 48 haviam aderido ao PAIUB” (LEITE, 2005, p.52), o Programa não contou com o apoio do governo Fernando Henrique Cardoso, exatamente porque, de acordo com Gomes (2003),
[...] o PAIUB não instrumentalizava o MEC como órgão formulador de políticas para o setor, uma vez que não introduzia na dinâmica do sistema de ensino superior: 1. a real possibilidade de comparar o desempenho das IES (universidades públicas – federais e estaduais -, privadas e comunitárias, cursos por instituição etc) e 2. os mecanismos de monitoramento e punição periódicos das IES. (p.10).
Enfatizando este aspecto, novamente Andriola (2008) afirma que “Por mais que tenha agradado às IES, o PAIUB desagradou a alguns setores encarregados da política educacional, notadamente ao Ministério da Educação (MEC)”.
Continua o autor afirmando que
“No PAIUB a regulação era, em boa dose, da comunidade universitária,
uma vez que se respeitava a autonomia da mesma. No entanto, este modelo de avaliação não atendia aos interesses do Estado que assumiu
papel gerencial, pois se fazia necessário impor maior controle às IES”
(p.135).
O fato é que o novo governo que se instalava no país, dando um forte golpe no processo de construção democrática de um modelo que preservava a autonomia universitária, enviou ao Congresso Nacional e logrou aprovação no seu projeto de avaliação, que redundou na Lei nº 9.131, de 24 de novembro de 1995, criando o Exame Nacional de Cursos (ENC) e assumindo, através do MEC a avaliação da educação superior federal no Brasil.
3.3 Modelo de Avaliação do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras