Considerando a pesquisa científica como uma forma de organizar o conhecimento sobre as problemáticas sociais, esta dissertação tem caráter qualitativo, na medida em que buscou, por meio do contato direto e interativo entre os colaboradores e a pesquisadora, descrever e compreender as práticas educativas e a construção de sujeitos de direitos a partir da perspectiva dos jovens egressos que foram desligados por maioridade. Para Godoy (1995), é importante que o pesquisador vá a campo captar o fenômeno onde ele ocorre e que considere todos os pontos de vista relevantes, pois os vários tipos de dados coletados e analisados contribuem para o entendimento da dinâmica do objeto ou do fenômeno estudado.
Trabalhamos, nesta pesquisa, com dois tipos de fontes: as escritas (documentais, bibliográficas e legais) e as orais, que consistem nos testemunhos e narrativas colhidos em
entrevistas semiestruturadas e organizadas com base nos procedimentos da História Oral. Quanto ao uso de mais de uma fonte histórica, Lombardi (2004, p. 156) assevera que
É importante não recorrer a uma única fonte, mas sim confrontar várias fontes que dialoguem com o problema de investigação e que possibilitem (ou não) que se dê conta de explicar e analisar o objeto investigado. Considerando-se que as fontes são testemunhos que possibilitam entender o mundo e a vida dos homens, todos os tipos de fontes são válidas.
A pesquisa documental constitui uma rica fonte de dados, uma vez que se configura como “[...] o exame de materiais de natureza diversa, que ainda não receberam um tratamento analítico, ou que podem ser reexaminados, buscando-se novas e/ou interpretações complementares” (GODOY, 1995, p. 21). Assim, a pesquisa documental enriquece as discussões, visto que pode revelar contradições entre o discurso registrado pelos profissionais das instituições de acolhimento e as narrativas dos jovens egressos.
Em um levantamento preliminar realizado junto à equipe do Setor de Acolhimento da 1ª Vara da Infância e Juventude da Capital, no dia 03 de Julho de 2015, constatou-se o desligamento por maioridade de 17 jovens: um em 2010; seis em 2011; dois em 2012; quatro em 2013; três em 2014; e um em 2015, até a data do levantamento. Esses dados revelam, além da existência de uma demanda por orientação para os jovens egressos, a sua distribuição temporal.
Os processos de acolhimento institucional, que ficam arquivados nos cartórios na 1ª Vara da Infância e Juventude de João Pessoa/PB, foram as fontes escritas das quais fizemos uso. Inicialmente, abrimos, nessa mesma vara, um processo formal, no dia 04 de setembro de 2015, sob o N°0001786-68.2015.815.2004, e obtivemos autorização do juiz titular para consultar os processos dos jovens desligados por maioridade entre os anos de 2010 e 2015. O recorte temporal pretendeu contemplar os indivíduos desligados desde a implantação das Guias de Acolhimento e de Desligamento, emitidas pelo site do Conselho Nacional de Justiça; posto que, com a inauguração desse sistema, ficaram mais organizados o fluxo, a formalização e o controle da entrada e saída de crianças e adolescentes das instituições de acolhimento.
Antes de 2010, o controle dos acolhimentos e desligamentos era feito por meio de ofícios enviados pelo juizado da infância para as casas de acolhimento, os quais eram, então, juntados aos processos de cada criança e adolescente. Não havia, portanto, um registro específico desse fluxo, de modo que a identificação dos casos de desligamento por maioridade era intrincada, dado o grande número de processos arquivados.
A implantação do ECA (BRASIL, 1990, art. 101 §3°) se dá, pois, a passos lentos, porquanto foi somente 20 anos depois de sua promulgação que o juizado de João Pessoa/PB conseguiu formalizar e ter mais controle sobre a emissão e guarda das Guias de Acolhimento e Desligamento. Ainda assim, notam-se inconsistências no arquivamento das guias, entre as quais não se acharam as de quatro dos jovens entrevistados.
Participaram da pesquisa jovens que, entre os anos de 2010 a 2015, foram desligados de instituições de acolhimento de João Pessoa/PB pelo critério da maioridade, que residiam na própria capital, não apresentavam distúrbios mentais ou cognitivos que inviabilizassem a realização da entrevista e que, aceitando participar voluntariamente da pesquisa, permitissem a gravação da entrevista em áudio.
Mediante o aval prévio dos colaboradores, a consulta aos seus processos se seguiu ao primeiro encontro, em que os jovens foram informados da importância de se verificarem as informações registradas nos processos, as quais contribuiriam para a compreensão do fenômeno estudado e enriqueceriam a entrevista devolutiva, solucionando dúvidas e confirmando datas, por exemplo. Nos processos, averiguaram-se os registros dos motivos do acolhimento institucional e sua relação com a permanência dos adolescentes no serviço; o trabalho educativo desenvolvido pelos profissionais durante a permanência dos acolhidos na instituição; os encaminhamentos que lhes foram dados na ocasião de seu desligamento e o acompanhamento dispensado a eles nos meses sequentes ao desligamento.
A partir do levantamento preliminar realizado em 03 de Julho de 2015, localizamos e contatamos, por telefone, apenas quatro jovens, três dos quais participaram da pesquisa. O outro jovem com quem entramos em contato, apesar de ter aceitado colaborar com a pesquisa, não conseguiu disponibilizar uma data para o encontro. Foram localizados ainda dois jovens cujas guias não tinham sido identificadas, porém, por terem transtorno mental e déficit cognitivo, não atenderam os critérios para participação na pesquisa.
Os outros 13 jovens que, inicialmente, identificáramos no levantamento não foram localizados, pois os números dos telefones deles ou de seus familiares não mais existiam ou estavam desatualizados. Nem mesmo a equipe das últimas instituições por onde eles haviam passado mantinha contato com eles, de maneira que não puderam participar da pesquisa. Segundo os procedimentos da História Oral, a rede de contatos funciona como um indicativo do modo de se articularem as entrevistas e de se estabelecerem os parâmetros para que o pesquisador defina quem participará da pesquisa. Meihy (1996) destaca que, ainda que seja eleita a maneira de se lidar com a rede de contatos, outras redes poderão ser formadas no
andamento da pesquisa, contanto que sejam observados os critérios estabelecidos no projeto inicial.
Assim, a princípio, definimos que a primeira entrevista ocorreria mediante a indicação, por parte da equipe de um Serviço de Acolhimento Institucional (SAI), de um jovem desligado por maioridade que aceitasse, voluntariamente, participar da pesquisa e autorizasse que seu contato telefônico nos fosse informado. Esperava-se, então, que o jovem indicado nos recomendasse outro. No entanto, a rede de contatos não se desenvolveu como desejávamos. Entramos em contato, em seguida, com outros dois SAIs, para que obtivéssemos indicações de mais jovens desligados por maioridade, como pode ser observado na Quadro 1:
QUADRO 1: REDE DE CONTATOS
REDE DE CONTATOS
1ª TENTATIVA 2ª TENTATIVA 3ª TENTATIVA
Contato da pesquisadora primeiro SAI COLABORADORAS 1 e 4 COLABORADORA 2 Outro SAI COLABORADORA 5 Contato da pesquisadora com segundo SAI COLABORADOR 3 COLABORADORES 6 e
7
Contato da pesquisadora com terceiro SAI COLABORADOR 8
Definido o recorte temporal, colaboraram para esta pesquisa oito jovens egressos, quatro dos quais foram desligados no ano de 2013, três, em 2014, e um, em 2015. Quatro eram do sexo feminino, e quatro, do sexo masculino. Três tinham 19 anos de idade, quatro tinham 20 anos, e um tinha 21 anos. A enumeração dos colaboradores foi feita conforme a sequência da primeira entrevista e de acordo com os colaboradores. Suas identidades foram mantidas em sigilo, para que se sentissem à vontade para compartilhar as memórias e experiências vivenciadas nas instituições de acolhimento. Em virtude da possível repercussão que a presente pesquisa terá nos órgãos do Sistema de Garantia de Direitos da cidade de João Pessoa/PB e do vínculo que alguns dos jovens mantêm com os profissionais das instituições, não se deseja expô-los a situações possivelmente constrangedoras.
Optou-se, ainda, por não identificar nominalmente os SAIs aos quais os jovens se referiram, a fim de se preservarem suas identidades. Os nomes das pessoas mencionadas nas entrevistas foram substituídos pelos nomes dos cargos que elas ocupavam nos SAIs e destacados em negrito. Quanto ao tipo de SAI, os nomes das instituições governamentais foram substituídos pelo termo “abrigo”4, e indicou-se, entre parênteses, se remontávamos a
uma ONG ou unidade governamental (gov).
A rede de contatos foi interrompida pela saturação dos dados, que, para Marre (1991), é indicada pelo esgotamento de informações relevantes para a pesquisa, ou seja, quando elas começam a se tornar repetitivas. No total, sete processos foram consultados, pois o acesso a um deles não foi possível, já que, após o desligamento de um dos jovens, seu processo foi devolvido, como carta precatória, para a comarca de origem.
Para a realização das entrevistas, foram observados todos os critérios éticos da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Além disso, apresentou-se aos entrevistados o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice C), que expõe os benefícios esperados e os riscos previsíveis, e a Carta de Cessão Sobre Depoimentos Orais (Apêndice D). O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética da UFPB – a fim de se resguardarem todos os procedimentos éticos e formais exigidos das pesquisas com seres humanos – e aprovado no dia 24 de setembro de 2015.
Deferidas as necessárias aprovações, fizemos contato telefônico com a primeira colaboradora, explicando-lhe os objetivos da pesquisa e a maneira de participação. Propusemos, então, que os encontros se dessem em locais neutros, reservados e que reunissem boas condições para a realização da entrevista e sua gravação em áudio. Os colaboradores escolheram locais como o do seu trabalho, a sua própria residência ou shopping centers.
Quatro dos jovens entrevistados, interessantemente, manifestaram o desejo de ser entrevistados nos SAIs de onde saíram após atingirem a maioridade. Com a devida autorização dos coordenadores dessas casas, as entrevistas foram realizadas em salas fechadas, sem a presença de outras pessoas. Garantimos aos jovens, não obstante o local elegido para a entrevista, que ela não seria diretamente divulgada para os SAIs, assim como a sua identidade ou as equipes e colegas mencionados; de modo que poderiam se sentir à vontade para relatar o que desejassem.
4 Na discussão dos resultados desta pesquisa, o termo “abrigo” será utilizado com o sentido de modalidade institucional, segundo a definição que se acha nas Orientações Técnicas de Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (BRASIL, 2009, p. 63).
Interessante observar o lugar simbólico das instituições e a multiplicidade de representações que podem assumir para os jovens que a escolheram como lugar de encontro para as entrevistas. Ao retornar para o SAI, o jovem pode estar comunicando que lá se sente seguro para falar; que o próprio processo de voltar e relembrar já remete ao empoderamento ou ganho de autonomia ou mesmo que há ainda uma necessidade de se adaptar, de um modo que talvez ainda não sinta que conseguiu fora desses espaços. Sendo rica e inalcançável essa significação, o método de relembrar apresenta-se como proposta pedagógica, de modo que oportuniza a percepção do que ficou para trás, das continuidades e das projeções para o futuro, convidando o jovem a refletir sobre vivências e aprendizagens, o que poderá remeter à compreensão do sujeito de direitos ou a sua negação.
A Quadro 3 demonstra as datas dos encontros para realização das primeiras entrevistas e as datas das entrevistas devolutivas. Não foi possível que estas acontecessem depois de transcorrido, no máximo, um mês desde o primeiro encontro, devido à indisponibilidade dos jovens entrevistados. Na maioria dos casos, diversas datas foram agendadas para que a entrevista devolutiva ocorresse, mas os próprios jovens, por questões pessoais, desmarcaram- nas, e novas datas foram, assim, agendadas.
A entrevista devolutiva com a colaboradora 1, outrossim, não foi realizada, pois os dois contatos telefônicos que ela nos havia fornecido foram desabilitados, e, até a data de entrega da pesquisa, não se conseguiu contatá-la nem mesmo através das redes sociais. Ela, no entanto, já assinara documentos que autorizavam a utilização dos dados coletados em sua entrevista.
QUADRO 2: DATAS DAS ENTREVISTAS
COLABORADORES PRIMEIRA ENTREVISTA ENTREVISTA DEVOLUTIVA 1 10/nov/2015 - 2 10/nov/2015 27/jan/2016 3 04/dez/2015 22/jan/2016 4 17/dez/2015 29/jan/2016 5 19/jan/2016 24/mar/2016 6 22/jan/2016 27/abr/2016 7 29/jan/2016 06/abr/2016 8 22/fev/2016 16/abr/2016
As memórias foram dialogadas, de modo que o roteiro de entrevista contribuiu para direcionar a temática investigada, não se constituindo em uma estrutura rígida a ser seguida.
As entrevistas foram gravadas com equipamento de áudio, de acordo com a técnica da História Oral, e, posteriormente, transcritas e textualizadas5. Em seguida, foi agendado o segundo encontro com o entrevistado, para que ele avaliasse o conteúdo, fizesse os ajustes e os aprovasse, mediante a assinatura da Carta de Cessão Sobre Depoimentos Orais, documento devidamente arquivado pela pesquisadora.
Ainda que a metodologia principal deste estudo, utilizando-se das memórias dos jovens egressos, seja a História Oral, é importante conhecer, com certa profundidade, o estado dos estudos relativos à temática que pesquisamos, a fim de melhor conduzirmos as entrevistas. Assim, desenvolvemos estudos bibliográficos acerca dos direitos humanos; políticas públicas em educação em direitos humanos; memórias; políticas de acolhimento institucional e desligamento de jovens; jovens egressos dos sistemas de acolhimento institucional; emancipação e formação para a cidadania; construção de sujeitos de direitos etc. As fontes orais têm sido amplamente utilizadas por pesquisadores que se dedicam a investigar processos históricos recentes ou a resgatar acontecimentos que têm sido esquecidos. Intimamente vinculada à história do tempo presente, a História Oral, empreendendo estudos sobre memórias e o seu potencial como testemunhos, é peculiarmente afeita à verdade, pois se baseia no discurso daqueles que viveram os episódios estudados, inscrevendo, no relato historiográfico, vozes múltiplas e silenciadas (FICO, 2012; ROVAI, 2013).
O estudo das memórias dos jovens egressos, ao se lhes permitir revisitar os processos educativos que vivenciaram nos anos de acolhimento e as experiências que antecederam e sucederam o seu desligamento por maioridade, concede-lhes o empoderamento de sua própria história, a qual, embora se desenrole já sem a guarda dos serviços de acolhimento, traz as marcas do período de institucionalização, assim como as escolhas que eles passaram a fazer quando atingiram a maioridade.
As entrevistas foram direcionadas segundo os objetivos da pesquisa e orientadas pelas leituras que fizemos. A História Oral produzida pelos participantes foi construída a partir de entrevistas semiestruturadas, cujo roteiro temático direcionou as narrativas e reconstituição das memórias, embora toda a riqueza de narrativas e silêncios não se tenham limitado a uma estrutura rígida.
5 A textualização é uma etapa da transcrição em que as perguntas são suprimidas e o texto passa a ser predominantemente do narrador, havendo também, a supressão de partículas repetitivas, sem valor analítico, com fins de possibilitar uma melhor compreensão da narrativa (MEIHY, 1996; SILVA; BARROS, 2010).
De posse dos testemunhos orais e das memórias dos participantes, procedemos, amparados pela fundamentação teórica, à análise do material coletado, discutindo se o papel educacional desempenhado pelas instituições de acolhimento está de acordo com as prerrogativas legais, segundo as quais é necessário que esses espaços contribuam para a formação de sujeitos de direitos, cidadãos emancipados e detentores de posturas críticas na sociedade. Em vista da riqueza das falas dos jovens egressos, as categorias por meio das quais lidamos com os dados, foram orientadas pela análise do discurso de Foucault (2012), para quem o discurso não apenas traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas diz respeito àquilo pelo que se luta, apontando para o poder a que aspiramos.
Com essa afirmação, o autor tinha em mente a supressão do direito à fala e ao discurso da qual são vítimas alguns sujeitos, que, quando autorizados a romper o silêncio, ainda o fazem dentro dos limites da censura e sob a interdição de determinados temas, como se suas falas ameaçassem a ordem imposta e devessem, pois, ser silenciadas. Não pretendemos buscar um sentido oculto nas narrativas dos jovens egressos, mas, sim, tentar compreender o fenômeno estudado a partir das palavras, do próprio discurso.
Analisar as memórias e discursos dos jovens egressos com base em Foucault amplia a compreensão de como as relações de poder se estabelecem na cultura institucional. Visto que o próprio discurso está subordinado a relações de poder, a História Oral visa a assegurar a sujeitos invisibilizados o direito de participação na produção, registro e compreensão da história.
Como afirma Foucault (2012, p. 25), “o novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta”. Os sujeitos podem, então, ser compreendidos como estando em constante movimento, como um vir a ser permanente, de forma que os sentidos por eles produzidos são únicos. Discurso, memórias e produção de sentidos são tratados, nesta pesquisa, como construções contínuas, e não experiências estereotipadas e rotuladas.