Buscando criar mecanismos que assegurassem a estabilidade do sistema financeiro em âmbito mundial, sobretudo após o período de incerteza financeira verificado com o abandono do sistema de Bretton Woods na década de 1970, e como uma exigência natural do processo de internacionalização da economia mundial, fez-se necessária a uniformização das normas aplicáveis às instituições financeiras ao redor do mundo, de modo a facilitar cada vez mais os fluxos financeiros entre os países, com o macro-objetivo de adequar o mercado financeiro de cada país aos padrões de solvência e liquidez internacionais, buscando-se com isso o fortalecimento dos bancos em geral e a proteção de seus depositantes.
Nesse sentido, os princípios, normas e regras para tal foram definidos em julho de 1988, em acordo assinado pelos bancos centrais dos países que compõem o Grupo dos Dez, na Basiléia, Suíça, sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), uma espécie de banco central dos bancos centrais. Esse entendimento ficou conhecido como Acordo de Basiléia.
Nessa época, o Brasil, assolado por um crônico processo inflacionário, não reunia condições técnicas nem vontade política e econômica para a adesão ao acordo. Tais condições surgiram somente após a instituição do Plano Real, levando o CMN a regulamentar a adesão do Brasil ao Acordo de Basiléia em 17/08/1994, por meio da Resolução n. 2.099.
À época, a Resolução, em seus quatro anexos, consolidou a mais importante mudança realizada no mercado financeiro nacional nos últimos quarenta anos, quais sejam:
• Anexo I: apresentou as regras para o funcionamento, a transferência e a reorganização das instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo Banco Central;
• Anexo II: especificou os seus novos limites mínimos de capital e patrimônio líquido;
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• Anexo IV: fixou as novas regras de determinação do patrimônio líquido exigido (PLE), como garantia de suas operações, que passou a ser calculado proporcionalmente ao grau de risco da estrutura dos seus ativos.
Criou-se, assim, a obrigatoriedade de manutenção, pelas instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, de um valor de patrimônio líquido compatível com o grau de risco de crédito dos ativos nos quais foram aplicados os seus recursos.
O cálculo do valor do PLE da instituição para o seu enquadramento nas novas regras do Acordo de Basiléia representava, quando da adesão, a aplicação de 8% sobre o valor total dos ativos, cada um deles já ponderado pelos seus específicos índices de risco. As crises econômicas internacionais que se seguiram levaram o Banco Central a, prudencialmente, elevar esse índice para os atuais 11%. Para a determinação desse PLE, o Bacen estabelece o fator de risco de crédito que está associado a cada ativo em que a instituição aplica seus recursos, como por exemplo: os recursos em caixa e/ou as aplicações em títulos públicos federais têm fator de risco de 0%. As operações de empréstimo têm, na sua maior parte, fator de risco de 100%.
Assim, para compor o ativo ponderado pelo risco de crédito, para efeito do cálculo do valor do PLE, os valores em caixa e/ou aplicados em títulos públicos federais não contam, enquanto as operações de empréstimo entram pelo seu valor integral.
É inegável a contribuição positiva do Acordo de 1988 para a estabilidade financeira, e um de seus méritos é a sua ampla adoção no âmbito internacional, tornando-se durante a década de 1990 a estrutura-padrão aceita pelo sistema financeiro mundial, com mais de cem países aplicando sua estrutura nos respectivos sistemas bancários (BIS, 2001). Além de possuir uma estrutura relativamente simples de aplicação, o Acordo também possibilitou um incremento na solidez e estabilidade do sistema bancário internacional.
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Vale registrar, no entanto, que o Acordo de Basiléia apresenta a desvantagem de não avaliar adequadamente a conformação do capital de cada banco em relação aos respectivos perfis de riscos assumidos, além de oferecer uma estrutura genérica de ponderação de risco e entrar em conflito com o surgimento das sofisticadas medidas internas do capital econômico. Nesse contexto, o Bank for International Settlements-BIS formulou uma proposta para definir um acordo de capitais apoiado em bases que possibilitassem a bancos e supervisores avaliar corretamente os vários riscos enfrentados (BIS, 2001).
Além de objetivar uma melhor avaliação do risco, o novo Acordo procura estimular a utilização de ferramentas mais sofisticadas na gestão de riscos de instituições financeiras, além de possibilitar a convergência entre capital econômico e capital regulamentar e a promoção da segurança e solidez do sistema financeiro. Cabe ressaltar, no entanto, que o novo Acordo é menos prescritivo do que o atual, tornando-o muitas vezes mais complexo do que o Acordo de 1988.
Desse modo, o novo acordo de capitais foi estruturado para apoiar-se em três pilares: o primeiro pilar refere-se ao requisito mínimo de capital dos bancos para a cobertura dos riscos de crédito e dos outros riscos (operacionais e de mercado); o segundo pilar trata do processo de exame e supervisão bancária; e o terceiro pilar trata da disciplina de mercado através da prestação de informações aos mercados e ao público em geral, de modo a assegurar maior transparência sobre a situação financeira e de solvência das instituições (BIS, 2001).
Na definição do requisito mínimo de capital previsto no primeiro pilar, foi mantido o índice de 8% do capital para ativos de risco ponderado (BIS, 2001), calculado de acordo com a seguinte fórmula:
Capital total
---
≥
0,08 ou 8%. (Risco de Crédito + Risco de Mercado + Risco Operacional)76
Quanto ao segundo pilar, será responsabilidade do órgão regulador garantir que cada banco tenha processos internos sólidos para avaliar a adequação de seu capital com base em uma avaliação completa de seus riscos, processos esses sujeitos a revisão e a intervenção pelo órgão regulador.
O terceiro pilar considera que a eficaz divulgação é essencial para assegurar que os participantes do mercado possam entender melhor os perfis de risco do banco e a adequação de suas posições de capital. São estabelecidos recomendações e requisitos de divulgação em várias áreas, incluindo a forma como um banco calcula sua adequação de capital e seus métodos de avaliação de risco.