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Nada se sabe sobre a vida de Manilius. Nem sobre sua origem é possível afirmar nada certo, mas tende-se a considerá-lo de origem itálica.148

Sua obra, a Astronomica, é um poema latino composto de cinco livros que versa sobre astrologia, mas parece estar incompleto, já que no Livro II Manilius anuncia que apresentará a natureza e influência dos planetas, mas até o final do Livro V não retoma esse assunto.149

Não há consenso entre os estudiosos da Astronomica sobre o período exato em que a obra foi escrita. Se, por um lado, é reconhecido e aceito que Manilius tenha iniciado sua obra em torno do ano 9 d.C., quando Augusto era o imperador, há, por outro, um intenso debate em torno do ano em que ela teria sido terminada – ou, ao menos, em que o Livro V teria sido concluído - se durante o reinado de Augusto, ou já após a morte deste, sob o governo de Tibério.150 O maior problema que se coloca com essa questão é saber a qual

imperador Manilius se refere em diferentes momentos dos Livros I, II e IV.151 A tese de Housman, apresentada em 1903 e adotada por outros estudiosos, é que a Astronomica teria sido escrita entre 9 d.C. e 22 d.C., ou seja, que os três primeiros livros teriam sido escritos sob o governo de Augusto e, os dois últimos, sob o de Tibério. Porém, E. Flores publicou um trabalho em 1961 onde defendeu a tese de que a Astronomica foi escrita inteiramente sob o

148 Cf. F. Calero, “Introducción”, in Manilio, Astrología, p. 9.

149 D. Pingree, “Manilius, Marcus”, in C. C. Gillispie, org., Dictionary of Scientific Biography, vol.

9, p. 79.

governo de Augusto. Tese que Herrmann, em 1962, também defende.152 Goold, por sua vez, afirma que os Livros I e II foram escritos enquanto Augusto reinava; o Livro III, por sua vez, não oferece pistas conclusivas a esse respeito. Já o Livro IV, ao exaltar o signo de Libra, e não mais o de Capricórnio, quando se refere ao imperador, indica que esse Livro foi escrito sob o governo de Tibério, dado que era ao signo de Libra que ele se associava.153 Em nossa análise constatamos que no trecho 770-780 do Livro IV, Manilius realmente exalta as qualidades do signo de Libra, identificando-o como regente de Roma e associando-o ao imperador.154

Segundo E. Romano, a obra se estrutura da seguinte maneira: o Livro I expõe os conhecimentos astronômicos básicos, que remetem à síntese feita por Aratus de Soli (ca. 315-240 a.C)155. Os Livros II, III, IV abordam o poema

astrológico propriamente dito. E o Livro V seria um adicional ao plano inicial do poema, dedicado a paranatellonta.156

Costuma-se afirmar que o conteúdo astrológico do poema é rudimentar e, por isso, ele não se mostra adequado para aquilo a que se propõe: a instrução de estudantes no saber astrológico.157 Segundo Barton, como a

audiência de Manilius era a nobreza, o poema foi escrito em versos e, na realidade, não estava destinado à formação de pupilos – o que se confirma

151 Cf. F. Calero, op. cit., p. 10. 152 Cf. Ibid., pp. 9-19.

153 G. P. Goold, “Introduction”, in Manilius, Astronomica, p. xii.

154 Para maiores detalhes sobre a análise dessa passagem do Livro IV, vide a seção 2.2.6.

“Astrologia: um sistema ordenado”.

155 O poema astronômico de Aratus, o Phaenomena, era considerado, pela maioria dos

romanos, como a principal fonte de conhecimento sobre o céu. Traduzido para o latim por Cícero e outros, foi, certamente, uma das influências que preparou a cultura romana para a assimilação da astrologia. Cf. T. Barton, Ancient Astrology, p. 37.

156 Cf. F. Calero, op. cit., p. 21. Paranatellonta é a relação das constelações extrazodiacais que

ascendem e se põem ao mesmo tempo que as constelações zodiacais. Cf. F. Calero, op. cit., p. 33.

pela ausência de exemplos e horóscopos ilustrativos. Assim, alguns autores tendem a não considerar a Astronomica um manual astrológico, pois não seria possível fazer ou interpretar um horóscopo a partir dela.158 Entretanto, Goold afirma que a produção de um poema didático é uma tarefa complexa e, por isso mesmo, é possível que um texto seja didático mas não contemple tudo a respeito do saber sobre o qual se dedica. Este seria, para Goold, o caso da Astronomica, que se mostra como um manual astrológico, mas não completo.159

O Livro I faz um breve relato das especulações cosmológicas; trata da esfera, das constelações (zodiacais ou não), dos grandes círculos, e termina com uma discussão sobre os cometas. O Livro II trata dos signos do zodíaco e suas características, classificações, relações geométricas e subdivisões; estabelece a relação entre os signos e as partes do corpo humano; apresenta o conceito de dodecatemoria160, zodiacal ou planetária; fala sobre os pontos cardeais e expõe o sistema de doze ou oito casas. O Livro III apresenta as doze sortes161; o cálculo do horóscopo, ou o surgimento dos signos no horizonte; explica o conceito de cronocratoria162; expõe um método para calcular a duração de uma vida, e descreve os signos trópicos (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio). O Livro IV faz uma descrição dos efeitos dos signos zodiacais nos que nascem sob sua influência; apresenta o conceito de

157 Um dos pesquisadores que faz essa afirmação é D. Pingree; para maiores informações,

vide: D. Pingree, “Manilius, Marcus”, in C. C. Gillispie, org., Dictionary of Scientific Biography, vol. 9, p. 79.

158 Cf. T. Barton, Ancient astrology, p. 138. 159 Cf. G. P. Goold, op. cit., p. xiv.

160 Este conceito será explicado na seção 2.2.6. “Astrologia: um sistema ordenado”.

161 As sortes, também denominadas “partes”, “lugares” e “trabalho”, são um sistema de

previsão astrológica, mas o fato de serem de doze tipos não estabelece relação com o sistema das doze casas. Cf. Manilio, Astrología, p. 157.

decano163; identifica os graus malignos de cada signo; trata de astrologia geográfica, apresentando um mapa do mundo com os regentes zodiacais de cada parte, e termina com uma discussão dos efeitos dos eclipses em diferentes signos. O Livro V fala basicamente sobre o tema das paranatellonta, e a influência que a combinação de diferentes constelações exerce no temperamento e na vida das pessoas.

Benzer Belgeler