Conforme explica Baertsch (op. cit., p. 6), a consideração de que a sonoridade relativa de um elemento determina a sua habilidade de preencher as várias posições disponíveis dentro da sílaba, consideração essa que se mostrava central às abordagens seriais, “não muda aos nos voltarmos a uma abordagem teórica otimalista”. Com a Teoria da Otimidade, a sonoridade recebe, também, lugar de destaque, desde o primeiro texto fundador da teoria, em que Prince
& Smolensky (1993) apresentam uma escala de harmonia em função da sonoridade e, ao derivar uma hierarquia de restrições a partir dessa escala primitiva, dão conta dos padrões de silabação do Berber.
A escala de sonoridade é um componente essencial para dar conta de padrões intra e intersilábicos. A partir da noção da existência de uma escala de sonoridade, foram propostos princípios que tendem ser respeitados por um considerável número de línguas, tais como o
Princípio de Seqüência de Sonoridade (STERIADE 1982, CLEMENTS 1990), que prevê que
os segmentos mais sonoros se encontram mais próximos do núcleo silábico, bem como a Lei
do Contato Silábico (MURRAY & VENNEMANN, 1983), que, ao se referir a seqüências
consonantais intersilábicas, prevê que o elemento de coda da sílaba precedente deve ter um valor mais alto, na escala de sonoridade, do que o primeiro elemento da sílaba seguinte.
Segundo Morelli (1999), um grande número de abordagens distintas para lidar com a sonoridade reflete-se em uma grande variedade de escalas diferentes, que levam a uma discussão acerca do próprio caráter universal dessas escalas. Há, de um lado, pesquisadores como Clements (1990), que alegam um caráter universal para a escala de sonoridade. Em contrapartida, podemos mencionar o posicionamento de Steriade (1982), segundo o qual as línguas gozam de uma certa liberdade para atribuir valores de sonoridade a seus segmentos. A partir desse pressuposto, a autora (op. cit., p. 98) propõe para o grego, por exemplo, a escala p t k < b d g < s < z < m n < l < r e, para o latim, a escala p k b g < t d < f < s < m < n < l < r.
Seguindo a linha de existência de uma escala universal, encontramos, mesmo assim, diferenças no agrupamento dos segmentos nas classes que compõem as escalas. Segundo Gouskova (2004), a maioria dos pesquisadores tende a adotar uma escala semelhante àquela expressa em Clements (1990): vogais > glides > líquidas > nasais > obstruintes, ainda que haja muita discordância no que diz respeito à sonoridade relativa de laterais/róticas, plosivas surdas/sonoras, plosivas/fricativas/africadas e o local a ser ocupado, na escala, pelos
segmentos glotais. Dentre as diversas propostas de escalas, a autora (2004, p. 208), em sua análise via OT do Contato Silábico, segue a proposta em Jespersen (1904): glides > róticas > laterais > nasais > fricativas sonoras > plosivas sonoras > fricativas surdas > plosivas surdas. Por sua vez, Prince & Smolensky (1993), com base em estudos prévios da silabificação do Berber, seguem a escala vogal baixa > vogal alta > líquida > nasal > fricativa sonora > fricativa surda > plosiva sonora > plosiva surda. Diante dessas diferenças em termos de propostas, acreditamos que cabe ao pesquisador, então, a tarefa de verificar as implicações, em termos de análise, do uso dessas diferentes escalas, ao apontar qual se mostra mais pertinente para o tratamento adequado de seus dados.
Independentemente das diferenças específicas que possa haver entre as diversas propostas de hierarquias universais de sonoridade, é importante considerarmos, conforme nos lembra Morelli (1999), que não são raras nas línguas, por exemplo, as seqüências consonantais que desobedecem ao princípio de Seqüência de Sonoridade. Conforme veremos na seção que descreve os padrões de coda da L2, o inglês é, justamente, uma língua em que as seqüências de coda parecem não obedecer ao princípio em questão.
Segundo Morelli (1999), soluções tradicionais para essa questão se refletem em regras ou representações especiais para os segmentos que tendem a desobedecer esses princípios. Conforme veremos no capítulo seguinte, na Teoria da Otimidade, a escala de sonoridade pode ser expressa em termos de restrições obtidas através do mecanismo de Alinhamento Harmônico (PRINCE & SMOLENSKY, 1993, 2004), a partir do qual podemos obter ou um
ranking fixo, ou restrições de caráter estringente (cf. PRINCE 1997a, 1997b). Assim, a
desobediência a princípios tais como o de Seqüência de Sonoridade e a Lei do Contato Silábico deve advir da própria hierarquia de restrições. Através da OT, a solução deve estar na natureza das restrições a serem empregadas, bem como na interação das restrições de fidelidade com os componentes dessas hierarquias universais. Fica novamente clara a
economia de uma análise de seqüências consonantais via Teoria da Otimidade, o que evidencia a evolução que o tratamento da sílaba vem sofrendo nos estudos lingüísticos, com o surgimento de novas propostas teóricas ao longo dos anos.
Uma vez que essa Tese possui, como um de seus objetivos, verificar o papel da aquisição das seqüências consonantais em função da natureza segmental dos elementos que as compõem, as considerações sobre sonoridade, expressas acima, precisarão ser retomadas tanto no trabalho de descrição dos dados como ao longo da análise. Será necessário, portanto, verificar qual das propostas de escala de sonoridade se mostra pertinente para os dados de aquisição que verificaremos. Nossa análise, de fato, terá como uma de suas bases a proposta de uma hierarquia de marcação que faça referência à sonoridade dos elementos que compõem a estrutura de coda4.