1. KAT MÜLKĠYETĠ KANUNU
1.2. Kat Mülkiyetinin Ve Kat Ġrtifakının Kurulması
1.2.6. Kat Maliklerinin ve Kat Ġrtifakı Sahiplerinin Borçları
Nervoso mesmo, muito nervoso mesmo porque você chegar numa multidão de gente daquele sem saber de nada e os outros sabendo e você tipo papagaio fazendo o que os outros manda, porque tá certo, dever você faz todo mundo copiando, mas cego, cego, cego mesmo, cego na gíria de quem não sabe ler é cego [...] (P2.11.1-5)
P. no início do processo de alfabetização assumiu o personagem de alfabetizando- nervoso-com-medo, que ainda tinha muito preconceito com o fato de não saber de nada e estar entre tantas pessoas em uma sala de aula. Sentia-se um alfabetizando-cego-papagaio, cego porque não conseguia ler nada, olhava as letras, as palavras e não compreendia a linguagem escrita e papagaio porque ficava só repetindo o que os outros diziam, sem conhecimento e segurança para ousar construir. Mesmo assim, era um alfabetizando-muito- satisfeito, um alfabetizando-que-nunca-pensou-em-ter-essa-oportunidade. A sua satisfação em estar realizando um projeto de vida, que para ele era um sonho, foi um dos motivadores para que abandonasse os personagens que assumiu inicialmente e se dedicasse aos estudos, investindo tempo e determinação.
O alfabetizando-interessado logo se transformou em um alfabetizando-que-se- garante, que lê as lições em público, afirmando aspectos do seu Valor Pessoal e Poder Pessoal (Góis, 1994; 2003). Seu destaque na capacidade de se expressar em público e de desenvolver habilidades de leitura, escrita, produção textual, expressão de idéias faz com que ele seja reconhecido pelos colegas e professores, assume então a personagem alfabetizando- inteligente-reconhecido-promovido, passando para o nível superior ao seu, legitimando o seu avanço pelos professores.
[...] Você chega num canto e falar uma coisa, né? Se garante, né? Que quando a gente não se garante, a gente fica se escondendo pra ninguém chamar a gente, né? Assim, né? A gente fica com medo de não dar certo, eu não, eu vou logo ali, se eu não souber direito, tudo bem, eu aprendo, me ensinam que eu não nasci aprendido, eu tenho que aprender, eu vou mesmo, eu tenho essa coragem, eu aprendi a desenvolver, a perder o medo, eu no passado eu não fazia isso [...] (P2.13.6-12)
Este reconhecimento pelos outros o tornou um alfabetizando-vaidoso-garotão, que tem prazer de assumir o seu papel de alfabetizando ao usar a sua carteira de estudante no ônibus, ao se vestir para ir à escola e ao usar uma bolsa da moda jovem, sendo elogiado pelos vizinhos e sentindo-se admirado pela sociedade.
[...] eu vinha ali e o cara disse assim “olha aí, rapaz! O cara parece um garotão!” Sempre porque eu vinha com estas bolsa assim de lado, né, porque eu me cuido, porque eu sou velho eu tenho que me cuidar pra acompanhar a turma né, porque eu sou estudante, eu tenho o maior prazer do mundo [...] (P3.1.57-61)
Para Luria (1990), a autoconsciência é construída socialmente, pois o julgamento que o sujeito faz de si mesmo é influenciado pelo julgamento que os outros fazem a respeito dele e estão relacionados aos valores de seu contexto e à demanda social. P. construiu sua identidade de alfabetizando a partir de julgamentos positivos e negativos das outras pessoas acerca do que representa para a sociedade um adulto decidir começar a estudar, mesmo sem perspectiva de melhorar a sua vida profissional, o que é uma demanda da sociedade moderna, mas apoiado em uma outra demanda: a demanda do conhecer, que o fez superar a vergonha de ser um adulto que não sabe de nada em um colégio, sem perspectiva futura de investir em carreira profissional por estar em uma fase da vida socialmente inadequada para tanto. A demanda na qual se apóia é o desejo de conhecer, elaborando uma cerca de sentimentos positivos acerca de si mesmo como adulto em processo de alfabetização. Em cima desses sentimentos, constrói a consciência de si mesmo acerca da nova identidade que assume.
Atualmente, avalia o seu processo de alfabetização como satisfatório e manifesta a preocupação de não ser mais um analfabeto funcional, se esforça para uma compreensão profunda do que estuda, almejando sempre uma aprendizagem significativa.
O seu processo de alfabetização é satisfatório e dinâmico. No entanto, em alguns momentos, a fragilidade e a insegurança inicial o atingem, principalmente agora, que está iniciando o ano em uma nova turma, de pessoas jovens e conhecimentos mais amplos, os preconceitos retornam e ele sente-se incomodado. Porém, a capacidade de superação é evidente, o seu entusiasmo e determinação nos indicam que essa é mais uma fase de enfrentamento das dificuldades para uma constante reafirmação das suas capacidades.
Já F., não tinha mais a pretensão de ser alfabetizada, achava que depois de adulta não conseguiria mais aprender. Foi a professora do Brasil Alfabetizado que facilitou a sua decisão e a convenceu de que era possível ser alfabetizada na vida adulta.
A professora passou aqui, tava passando nas casa, aí ela vei aqui e eu disse que não ia, eu tinha muito revolta de não ter aprendido quando eu era pequena, sabe? Porque eu achava que se a gente não aprendia quando era pequena, porque o pessoal dizia que depois que crescesse, não aprendia mais nada. Se não aprendesse quando era pequena, grande é que não aprendia. (F1.8.1-5)
O desejo de ser alfabetizada sempre coexistiu com a revolta de ter sido uma menina-que-nunca-pôde-estudar. Essa revolta era alimentada pela idéia de que nunca mais iria aprender a ler e escrever, porque não era mais uma criança e de que, enquanto adulta, não seria mais capaz. A idéia era que a chance de ser alfabetizado estava restrita à infância e uma vez perdida, não mais a teria novamente. A menina-que-nunca-pôde-estudar manteve essa idéia cristalizando a personagem adulto-que-nunca-mais-vai-aprender.
Mesmo assim, F. continua se deparando com as impossibilidades de ser alfabetizanda na vida adulta, apesar de se reconhecer como capaz de aprender, atentando para as diferenças de ser alfabetizanda-criança e alfabetizanda-adulta.
Eu acho assim, que quando a gente é pequena, a gente tem mais interesse, aí? Mas pra começar mesmo, como a gente começou do zero, eu acho assim porque no começo, eu tinha muito interesse, sabe? Mas eu acho assim que é uma coisa que você peleja, peleja e não consegue. Eu acho que a gente por tá com tanto problema na cabeça, não consegue! Por mais que você queira, não consegue de jeito nenhum! (F3.15.1-6)
A conclusão em relação às possibilidades e impossibilidades de ser alfabetizanda na vida adulta leva F. a pensar que é possível sim ser alfabetizada, mas que há problemas que dificultam o andamento dos estudos, como trabalho, filhos, preocupações financeiras.
O caminho e os descaminhos no acesso à escola fizeram com que ela assumisse várias personagens: de menina-que-nunca-pôde-estudar e adulto-que-nunca-mais-vai- aprender, transformou-se em adulto-alfabetizanda-que-pode-aprender.
[...] quando foi no começo, começo que eu comecei, né. Era assim uma vontade tão grande de estudar, era uma força de vontade medonha, eu não faltava nem um dia, fazia meu dever. Aí neste ano, eu tava indo duas, três vezes só na semana, com estes problema na cabeça pra resolver, atrapalhou tudo. Mas esse ano, eu vou continuar. (F1.19.22-26)
Vencendo os preconceitos, chegou na escola e enfrentou as dificuldades do início, com garra e determinação, sempre dando força para que os colegas continuassem e não desistissem.
Essa mesma alfabetizanda, que dava força aos colegas de turma, enfrenta uma série de dificuldades familiares e profissionais que a fazem com que deixe de vivenciar as personagens alfabetizanda-determinada-que-tem-força-de-vontade e assumir as de mãe- preocupada-depressiva-que-não-tem-paz-de-espírito e alfabetizanda-faltosa-desgostosa que chega a desistir de estudar.
Mesmo assim, ela tenta construir um projeto de vida que concilie trabalho e estudo, para realizar um sonho que considera distante, mas mesmo assim a mobiliza, o sonho de ser professora. Ou, pelo menos, conseguir um emprego melhor.