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Realpolitik

A falha da revolução de 1848 deixou consequências na leitura democrática da identidade nacional alemã. Perseguidos e ameaçados pela política de Restauração nos distintos Estados, ou simplesmente desiludidos quanto aos prospectos de uma unificação democrática da Alemanha, muitos democratas radicais se retiraram de cena, emigrando para os EUA ou simplesmente abandonando o campo da política. O projeto democrático que havia sido o veículo de tantas esperanças perdeu a sua atração, e com ele a direção provida pela França, principal porta-voz da revolução.

Tão grandes haviam sido as esperanças, as tentativas, e a subsequente derrota dos revolucionários que sua falha não poderia mais ser interpretada como preliminar, como uma primeira tentativa de muitas outras a vir. Além disso, tornou-se óbvio que a identidade coletiva dos alemães poderia apenas vagamente ser definida por um conceito de "povo", que em último caso era mais orientado por uma oposição entre os dominantes e os súditos do que por diferenças nacionais.

O substanciamento da identidade coletiva em um sistema filosófico também passou a ser cada vez mais visto com ceticismo. A escola hegeliana, que havia emergido, na

216 KOSELLECK, 1992, p. 361. 217 SOUTHARD, 1995,. p.191. 218

Segundo Southard, apenas após os episódios e reflexões ocasionadas pela revolução de 1848 pode-se falar na formação de uma Escola Histórica Prussiana, com um programa político orientado por uma realidade mais consciente, com foco na força militar e na vontade moral dos sujeitos históricos. In: SOUTHARD, 1995, p. 194.

década posterior à morte de seu mestre, como a filosofia oficial do Estado reformador prussiano, dominando o meio acadêmico assim como a cena supra-acadêmica da filosofia alemã durante o período do Vormärz, caiu em descrédito219. Uma nova geração de intelectuais ganhou destaque precisamente por seu abandono dos antigos projetos de identidade coletiva, focando ao contrário na nova - pelo menos para os Estados alemães - construção de unidade social: o Estado-nação.

A década seguinte à revolução de 1848 tornou-se a fase formativa para o grupo de historiadores da Escola Prussiana. Eles atribuíam a falha do movimento constitucionalista liberal como uma inabilidade no exercício de controle sobre as formas fiscais e militares de poder. Eles já haviam ganhado reconhecimento acadêmico antes de 1848, mas seus trabalhos decisivos foram publicados entre 1848 e a fundação do Império Alemão em 1871.

Apesar de sua orientação nacional e liberal levar a um envolvimento oposicionista e a críticas à Restauração, aos junkers e à tradicional política dos príncipes, uma série de monarcas apoiava seus trabalhos, seguindo suas publicações com empático interesse. Sua atitude não era a de um distanciamento cultural do centro estatal, mas de um envolvimento político cada vez maior nas instituições existentes. Praticamente todos os membros da Escola Prussiana haviam sido delegados dos parlamentos estatais onde eles apaixonadamente defendiam a oposição nacional e liberal.

Eles representavam a Bildungsbürgertum, cuja ascensão estava intimamente ligada àquela do Estado prussiano reformador e seu sistema administrativo e universitário. Assim, apesar de oporem a restauração dos principados e a insistência classista dos junkers, essa oposição advinha do auto-conhecimento de uma classe que havia começado a ganhar acesso ao centro do poder estatal, se tornando reconhecidos aliados da política governamental.

Esses intelectuais com acesso ao poder não poderiam mais estabelecer sua identidade apenas assumindo a distância entre a cultura e a política. Ao contrário, os "mandarins alemães" deveriam levar a identidade coletiva nacional à harmonia com as esferas do Estado e da política, onde qualquer contradição cultural ao mundo do Estado e do poder poderia também por em risco sua própria posição. Eles possuíam prestígio social e

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poder político precisamente porque comandavam a cultura e a educação. Em sua defesa da racionalização da administração estatal, garantiam a manutenção de um processo burocrático de ingresso no serviço público e na academia que preservava sua posição e status social. 220

A mera defesa da cultura alemã não mais convinha a uma identidade particular, tanto em termos sociais quanto temporais: ela também não descrevia uma margem social que os intelectuais pudessem ocupar, nem uma tarefa extraordinária que os diferisse da geração anterior. Com os grupos restauradores e reacionários que se apegavam veementemente ao passado, por um lado, e as massas não educadas desesperadas por uma liderança e já apegada a tendências radicais, por outro, a Bildungsbürgertum, e especialmente os "intelectuais mandarins", se enxergavam como ocupantes de uma posição central, responsável pelo todo e destinada à liderança.

Nem o curso da Revolução Francesa e as tendências democráticas que dela surgiram, nem a rigidez cega da Restauração, poderiam sobreviver a essa responsabilidade para com o todo - apenas o julgamento moderado e realista, possível a partir de uma posição que pudesse mediar tradição e emancipação, possuía alguma chance.

Após 1850 a busca por um Estado liberal continuou a ser acompanhada pela procura por um Volk liberal. Como no Vormärz, os valores, expectativas, ideologias e táticas liberais continuavam a depender desses dois elementos chave em sua equação política221. Essa foi a lição que Friedrich Dahlmann, por exemplo, aprendeu após a revolução, algo alinhado com suas ideias anteriores a 1848: "se a autoridade do Estado e a liberdade popular não podem existir simultaneamente, então a autoridade do Estado toma proeminência em todos os sentidos". 222

Enquanto o liberalismo pré-1848 havia se caracterizado pelas demandas de um ideal politizado por trás do poder executável de um fundo econômico e social repressor, o movimento pós-1850 se caracterizou por uma sociedade fortemente individualizada sem a anterior forma de princípios políticos absolutos para organizar. Os efeitos combinados da derrota revolucionária, da reação política, e do crescimento capitalista durante os

anos cinquenta levaram ao que Leonard Krieger denomina “declínio no pensamento 220 RINGER, 2000, p. 24. 221 SHEEHAN, 1978, p. 108. 222

liberal” entre 1850 e 1870223

. Tal decréscimo intelectual das ideias liberais alemãs teria diminuído a força de assalto da oposição levando a associação da liberdade possível ao Estado autoritário de Bismarck.

A tendência que o ambiente político e econômico dos anos 1850 forneceu à concretização do pensamento liberal foi instigada pela mudança no clima intelectual que afetou toda a Europa após o meio-século. Os grandes sistemas metafísicos perderam o seu apelo, e as disciplinas específicas que amadureciam sob sua cobertura floresciam como ciências empíricas independentes. Nos Estados alemães não apenas a História e as ciências naturais se desvencilhavam das filosofias de Hegel, Schelling e da lei natural, mas os campos indutivos especializados da ciência social, da economia histórica e social, além da ciência administrativa, passaram a se separar da original ciência e economia políticas224. O impacto do mundo pós-revolucionário sobre os intelectuais liberais e estudantes que haviam experimentado os levantes de 1848 não foi, contudo, uma simples conversão ao realismo político. Sua recepção às novas influências era contida por seu desesperado apego aos sistemas ideais nos quais haviam sido criados.225 Esse encontro causou uma profunda crise de consciência de onde emergiu todo um espectro de combinações adicionando as divisões materiais do futuro às divisões doutrinárias do passado. O liberalismo emergiu dessa crise interna para atingir o renovado conflito político dos anos 1860 com o mesmo tipo de notáveis intelectuais de classe média dos períodos pré-revolucionários do Vormärz, mas a situação política desses personagens era agora diferente, por um lado porque eles haviam mudado sua aproximação com a política e por outro porque sua antiga concepção possuiria um efeito de mudança sob as novas condições.226

É nesse momento que surge na ala dos chamados “novos moderados”, a obra Princípios da Política Prática (Grundsätze der Realpolitik) de August Ludwig von Rochau227 223 KRIEGER, 1957, p. 341. 224 KRIEGER, 1957, p. 347. 225 KRIEGER, 1957, p. 347. 226 KRIEGER, 1957, p. 347. 227

Ludwig August von Rochau (1810-1873) foi um jornalista e político nascido em Wolfenbüttel (Baixa-Saxônia). Primeiramente engajado com o periódico Frankfurter

Wachensturm de 1833, permaneceu alguns anos exilado na França. Após a publicação de seu

famoso Grundsätze der Realpolitik (1853), Klemens von Metternich cunhou o termo "Realpolitik" (Política real), a filosofia política baseada em uma abordagem pragmática sobre questões relacionadas à disputada por poder e relações de força em geral.

escrita em 1853. Concedendo mais valor ao poder bruto do que seus companheiros políticos poderiam admitir, o trabalho foi bem recebido e indiretamente endossado com o apontamento de Rochau para a direção do órgão liberal Deutscher Nationalverein228 (Associação Nacional Alemã) em 1859.

Assim o termo Realpolitik circulou primeiramente em uma corrente política geral por um liberal e com um valor apropriado ao seu uso posterior. A asserção de Rochau quanto à classe média como base para o poder econômico, na esfera do Estado existente, e sob o critério da força desse Estado, seria a tendência dominante do liberalismo moderado naquele momento.229

Droysen que anteriormente idealizava o Rechtstaat (Estado de direito) em oposição ao Machtstaat (Estado forte) rejeitando o poder como a base da política, agora passava a reconhecer francamente o triunfo da realidade sobre as ideias, dos interesses sobre as doutrinas e da política externa sobre as demandas internas, como caráter fundamental não apenas de eventos recentes, mas de toda a História Moderna.230

Sybel por sua vez, também incluiria em seus Discursos sobre a política a importância do uso da força pelo Estado. Se necessário, o historiador enfatizava, as garantias dos direitos, assim como das liberdades civis, deveriam ser sacrificadas aos interesses estatais. Assim, a própria limitação formal dos poderes do Estado passava a ser vista como nociva. 231

Mas para a maior parte desse grupo de historiadores liberais moderados a adaptação ao ideal político do realismo pós-revolucionário se deu em um processo gradual que não havia sido concluído até 1866. A principal articulação dessa transição estava a cargo dos

228

A Deutsche Nationalverein foi uma organização política semi-partidária, organizada por liberais e democratas moderados, atuante de 1859 até a sua extinção em 1867. O objetivo da associação era a conquista de um Estado Alemão pequeno (kleindeutschen Staates) sob a égide da Prússia e de um parlamento nacional. Em todo caso seus membros se diziam dispostos a aceitar uma ditadura prussiana temporária, caso esta tivesse por intuito a formação de um Estado Nacional alemão.

229 DOLL, Natascha. Recht, Politik und 'Realpolitik' bei August Ludwig von Rochau (1810–

1873): ein wissenschaftsgeschichtlicher Beitrag zum Verhältnis von Politik und Recht im 19.

Jahrhundert. Studien zur Europäischen Rechtsgeschichte, v. 189, Klostermann, Frankfurt a.M. 2005, p. 31.

230

GILBERT, Felix. Johann Gustav Droysen und preussisch-deutsche Frage. Oldenbourg, München und Berlin, 1931, p. 121-131.

231

organizadores do Preussische Jahrbücher232 (Anais Prussianos), fundado em 1857 pelos principais acadêmicos do chamado Partido Gotha.233

Mas, é sobretudo na obra do mais jovem desses intelectuais que pode-se encontrar o insumo e a expressão das ideias liberais moderadas antes e posteriormente ao processo de unificação alemã. No trabalho de Heinrich von Treitschke o nacionalismo se tornara a fonte e não mais o fim dos valores políticos liberais. As experiências traumáticas que haviam chocado os mais velhos os impulsionando a uma elaboração teórica realista, haviam sido o berço e principal impulso político de Treitschke. O preceito da nacionalidade conferia ao jovem historiador a confiança de que seu engajamento pró- prussiano não abalaria os princípios de objetividade e cientificidade em sua pesquisa.234 A profunda disjunção entre o requerido por sistemas absolutos e a força dos fatos concretos - uma contradição que permaneceu um problema crítico para as gerações mais velhas - estava presente desde tão cedo no pensamento de Treitschke que ele nem ao menos a percebia, se baseando nela ao invés de tentar resolvê-la. Em suas formulações

não havia lugar para “sonhos políticos” (Idealpolitik), proposições baseadas em utopias,

ou a idealização do Estado. Também não havia espaço para a estagnação política, ao contrário, far-se-ia necessária um tipo de política que se movesse entre os extremos: “a

política real” (Realpolitik) buscando um ideal com o senso de compromisso. 235

Contra o princípio da liberdade individual pura Treitschke insistia que "o Estado é uma instituição que se encontra enraizada diretamente na natureza de cada homem"236. Entretanto isso não significava que instituição estatal simplesmente absorvia o indivíduo, mas ela tampouco deveria ser vista como um fardo à liberdade. E se o Estado era uma construção natural necessária que influenciava os indivíduos à liberdade e à

232

O Preußische Jahrbücher (Anais Prussianos) foi um periódico político de tendências nacionalistas liberais editado em Berlim a partir de 1858 por de Rudolf Haym (1858-66), Heinrich von Treitschke (1866-83) e Hans Delbrück (1883-89).

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O Gothaer Partei (como seus membros posteriormente ficaram conhecidos) ou Gothaer

Nachparlament é a denominação do encontro de 148 membros do antigo Parlamento de

Frankfurt, ocorrido na cidade de Gotha de 26 a 28 de Junho de 1849. Após a falha da Assembleia Nacional os políticos ali reunidos almejavam conquistar ao menos a unidade da Alemanha sob a liderança da monarquia constitucional prussiana.

234

MATA, Sérgio da . Anos de aprendizagem de um jurista formado numa perspectiva histórica : Max Weber e o historicismo. História da Historiografia, v. 6, 2011, p.74.

235

METZ, Karl H. Historiography as political activity: Heinrich von Treitschke and the political reconstruction of politics. In: KOSLOWSKI, Peter (ed.) The discovery of historicity in german

idealism and historism. Berlin: Springer, 2005, p. 100.

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moralidade, seu encaminhamento a essa direção se daria pelo princípio de nacionalidade, que para Treitschke habitava um âmbito ideal incondicional237. Ao juntar as noções de nação e Estado o historiador poderia ser categórico em sua problematização da questão da liberdade:

Eu sou um unitarista radical (por uma Alemanha unificada). Concebo a liberdade, como uma mera expressão, caso a nação não exista, pois esta é a única base para qualquer desenvolvimento do Estado. O caminho que leva mais rapidamente a essa unidade nacional é o mais apreciado por mim, mesmo que ele se desse na forma do despotismo.238

A lei histórica e o imperativo moral que o autor liberal encontrava era essencialmente o de que o Estado em si mesmo é uma força moral, de modo que os cidadãos são responsáveis diretos por eventuais erros estatais. Essas elaborações políticas de Treitschke são marcas da transição do nacionalismo reformador da época de fundação do Reich ao nacionalismo integral de culto ao Estado típico da virada do século.239 Portanto, nos termos de Treitschke e de toda a escola de historiadores liberais moderados, o papel do Estado na perpetração dos direitos individuais em muito divergia de concepções do pensamento liberal ocidental contemporâneo240. Foi justamente essa distância de franceses, ingleses e americanos que passou a suscitar o debate na historiografia do século vinte sobre a existência de uma especificidade do percurso histórico alemão (Sonderweg).241

Do mesmo modo, as bases liberais moderadas haviam moldado o conceito de nação aos usos pragmáticos característicos dos anos do Nachmärz. O grupo representado pelo Preussische Jahrbücher – não coincidentemente composto em sua maioria por historiadores – havia associado a ideia de nação ao poder do Estado em sua inexorável dependência do jugo prussiano.

O fim da década de cinquenta aceleraria ainda mais essa luta por legitimação conceitual nos Estados alemães, após a ascensão de Guilherme Frederico como regente

237

TREITSCHKE, apud KRIEGER, 1957, p. 366.

238

TREITSCHKE, apud KRIEGER, 1957, p. 367.

239

HÚBINGER, 2000, p. 206.

240

O artigo Freiheit (Liberdade) escrito por Treitschke em 1861 seria a expressão máxima dessa distinção, principalmente pelo fato do autor alemão se basear em uma crítica aos trabalhos de pensadores liberais ocidentais consagrados como John Stuart Mill e Edouard Laboulaye. In: KRIEGER, 1957, p. 367.

241

BLACKBOURN, David; ELEY, Geoff. The Peculiarities of German History: bourgeois society and politics in nineteenth-century Germany. Oxford: Oxford University Press, 1984.

prussiano242. O novo príncipe, de personalidade menos autoritária, havia prometido governar constitucionalmente, permitindo também a formação de associações243 e partidos244 que logo passariam a se proliferar naquele cenário político favorável. Possibilitados a participar ativamente da política como delegados da Câmara Representativa Prussiana (Preußischer Landtag), os liberais moderados finalmente viam abertas as possibilidades de realização de suas demandas nacionais245. Mas para a surpresa desagradável daqueles intelectuais progressistas, Guilherme I havia optado pela mais conservadora das formas de solução à crise constitucional prussiana que se alastrava nos primeiros anos daquela década246. Apontando o junker reacionário Otto von Bismarck como primeiro-ministro (Ministerpräsident) o monarca despertara a ira dos liberais nacionalistas em torno do Partido Progressista.247

De repente, o que havia sido um breve período de abertura política se convertia novamente na dura realidade da máquina repressiva prussiana. A Câmara Representativa demonstrara toda a sua impotência quando em 1862, Bismarck colocara fim ao impasse parlamentar, adotando reformas orçamentárias sem a aprovação do parlamento. Alguns meses mais tarde Guilherme I dissolveria o legislativo,

242

Por atestada deficiência mental após seguidos problemas de saúde, Frederico Guilherme IV havia abdicado temporariamente de suas funções executivas em favor de seu irmão Guilherme. Apenas em 1861, com a morte de Frederico Guilherme IV, Guilherme I seria nomeado monarca prussiano.

243

Exemplos de associações liberais que se formaram naquele período são a Kongress deutscher

Volkswirte (Congresso de Economistas Alemães) e a Deutscher Nationalverein (União

Nacional).

244

Como resultado de um maior desenvolvimento das associações, da conquista de confiança e espaço para atuação, o primeiro partido político, denominado Deutsche Fortschrittspartei (Partido Progressista Alemão) surgiria na Prússia apenas em 1861.

245

Entre os historiadores liberais eleitos naquele período para a Câmara Baixa do Parlamento Prussiano estavam Heinrich von Sybel (1862-64/1674/80), Theodor Mommsen (1863- 66/1863/79) e Max Duncker (1860-61).

246

A mais importante instância de antagonismo liberal ao Estado após 1858 foi o conflito constitucional na Prússia, iniciado quando os parlamentares liberais se recusaram a aceitar os planos governamentais de reforma militar. O exército era uma questão sensitiva para os liberais prussianos: politicamente, ele era o instrumento tradicional de reação cujo papel repressivo em 1848-9 não havia sido esquecido; socialmente, ele representava a continuidade do prestígio e poder da nobreza prussiana, podendo assim servir como um foco ao profundo antagonismo a esse grupo social; economicamente, o exército parecia uma exploração abusiva àqueles que eram taxados, como uma forma de imposição do Estado aos setores "produtivos" da sociedade. In: SHEEHAN, 1978 p. 109.

247

implementando logo em seguida medidas restritivas à ação de opositores e da própria imprensa. 248

Sybel, à época porta-voz da Câmara Baixa dos Deputados, expressava o descontentamento dos liberais quanto ao caráter intransigente dos ministros e do próprio

governo: “os ministros e a maioria na Câmara falam línguas diferentes; seus

pensamentos são organizados por uma lógica diferente e suas ações por leis morais

distintas”.249

A política de “sangue e ferro” (Blut und Eisen) do primeiro-ministro prussiano parecia

contradizer todas as expectativas do movimento liberal moderado, que embora prezasse por efetividade na esfera da política, via sua ânsia por unidade nacional se esvair com a conduta reacionária dos ministros guilherminos. As premissas do Rechtstaat (Estado de direito) liberal haviam sido burladas. Seria necessária a continuidade do percurso histórico, e a efetividade irreparável de suas leis, para que aqueles intelectuais mudassem drasticamente os rumos de suas criticas.

Mas após quatro anos de governo autoritário e a vitória em duas guerras de grandes dimensões250, Bismarck parecia finalmente ter conquistado o apoio popular. Não diferente havia sido a recepção desses episódios pelos liberais prussianos que haviam se dividido institucional e ideologicamente com a criação do Partido Nacional Liberal em 1867.

O surgimento da nova agremiação liberal havia resultado da secessão da ala moderada do Partido Progressista, que via suas bases discordarem internamente quanto a política governamental e o posicionamento aliado.O novo partido foi organizado pela união dos principais grupos da ala liberal prussiana: os antigos moderados que haviam feito as pazes com Bismarck pelo simples anúncio de uma política unitarista alemã, e os novos

248

KENT, George O. Bismarck e seu tempo. Brasília, Editora da UnB, 1982, p. 43.

249

SYBEL apud EYCK, 1964,. p. 61.

250

Os conflitos pela sucessão ao trono em Schleswig-Holstein haviam provocado uma guerra contra a Dinamarca, vencida pela coligação Austro-prussiana em 1864. Os impasses diplomáticos desse litígio resultaram no conflito entre os antigos aliados e em 1866 era dado início à guerra entre a Áustria e Prússia, vencido pelas tropas de Bismarck em Julho do mesmo ano.

moderados que passaram de uma oposição relutante à plena colaboração após as vitórias

Benzer Belgeler