3.2. AMPĠRĠK SONUÇLAR
3.2.1. Katılım Bankaları’nın Kullandırdıkları Kredilerin Milli Gelire Etkisi
Não há dúvida de que tem sido a partir das propostas críticas que o estudo geográfico da cidade vem alcançando níveis de teorização e de análise bastante elevados. Todavia, isso não ocor- reu sem crises. Houve um momento, em meados da década de 1980, em que uma verdadeira crise de relevância, semelhante à que atingiu a geografia neopositivista no Primeiro Mundo, ao final da década de 60, pareceu querer se instalar na geografia brasileira. Ela foi, entretanto, superada.
A crise do neopositivismo surgiu quando ficou patente que, apesar dos avanços teóricos, a geografia não era capaz de dar resposta às bruscas transformações que ocorriam no mundo. Isso se dava porque, nos esforços de teorização que realizou, a geografia neopositivista privilegiou a cons- trução de um arcabouço normativo do mundo que estudava, e não de teorias explicativas da rea- lidade. Esse foi o erro fundamental. Sendo normativos, os modelos e teorias não tinham qualquer compromisso com a explicação da realidade, razão pela qual, quando a “crise urbana” chegou, não puderam dar conta do que realmente estava acontecendo no espaço real. Em outras palavras, os modelos normativos não pretendiam explicar a realidade, mas, sim, indicar o quanto o mundo real estava distante de uma situação ideal, que, esta sim, era explicada e teorizada.
O mesmo processo quase praguejou a “geografia crítica” brasileira. O ataque que esta última fez ao empirismo da geografia tradicional e ao “fetichismo espacial” da geografia neopositi- vista centrou-se, basicamente, na oposição entre aparência e essência. Por privilegiar a análise daquilo que era visível, do que se evidenciava fenomenicamente, a geografia tradicional teria ocultado as ver- dadeiras determinações que estariam por trás da paisagem e que eram eminentemente sociais, pre- nhes de conflitos de classe, e comandadas pelas relações de produção que se estabelecem entre os homens a cada momento histórico. Por sua vez, o neopositivismo teria feito o mesmo trabalho de escamoteação, ao transformar a paisagem numa rede de fixos e fluxos, ainda que lograsse, com isso, obter foros de pseudoneutralidade e de maior cientificidade.
Não discordamos totalmente dessas interpretações. É preciso reconhecer, entretanto, que a ênfase nas determinações sociais descambou, muitas vezes, para o determinismo economicista e que, no esforço de se fazer a “teoria correta”, de se buscar a “essência”, perdeu-se, muitas vezes, o caminho de volta à aparência, negando-se então a relação dialética entre ambas. Assim, a paisagem, a variabilidade das formas, as questões culturais, as especificidades do lugar — preocupações ine- gavelmente importantes da análise geográfica — foram amplamente desprestigiadas, ou então expli- cadas segundo um viés determinista e, portanto, reducionista. A cidade, por exemplo, não raro foi vista como mero locus de reprodução da força de trabalho, e sua estrutura interna explicada apenas pelas teorias da renda da terra. Já os aspectos ligados à cultura foram geralmente reduzidos a expres- sões ideológicas menores, não muito dignas de atenção, posto que “determinados e não determi-
nantes”. Uma das graves conseqüências dessas posturas foi a produção de estudos que conseguiam trabalhar bem o movimento das estruturas teóricas, que se apresentavam como politicamente enga- jados, mas que não conseguiam resolver de forma satisfatória (isto é, geograficamente), o rebatimento de tudo isso no espaço, a não ser segundo a forma mais simples: afinal, todo processo social ocorre, obrigatoriamente, no espaço.
A superação se deu a partir do amadurecimento teórico da comunidade acadêmica. Nesse processo, Milton Santos teve, novamente, um papel fundamental, seja pelas reflexões que produziu sobre a cidade e sobre o espaço geográfico, seja pela oportunidade que ofereceu aos geógrafos de debater (e também de rebater) suas idéias, seja, finalmente, pela crescente auto-estima que incutiu na geografia brasileira (Abreu, 1996). O ganho de qualidade foi notável. A “geografia crítica”, no rastro de suas con- tradições e da propalada “crise do marxismo” dos anos 90, deixou de ser uma frente e deu lugar a uma série de propostas críticas mais sólidas e coerentes, dentre as quais avultam, hoje, aquelas que se ori- entam, por exemplo, pelo pensamento de Henri Lefebvre (Carlos, 2001) e de Cornelius Castoriadis (Souza, 2002). A busca de “essências” não mais se faz em detrimento do estudo das paisagens, das for- mas. As escalas da região e do lugar, prenhes de particularidades e de singularidades, voltaram ao temá- rio geográfico, agora acopladas a uma preocupação maior com o movimento do geral, da totalidade social. Razão e emoção deixaram de ser dimensões de análise mutuamente exclusivas.
É reconfortante constatar que a “era das revoluções” está, hoje, definitivamente encerrada na geografia brasileira, que as diferentes matrizes epistemológicas convivem civilizadamente no inte- rior da disciplina, e que a reflexão teórica avança a passos largos na tentativa de preencher o vácuo deixado por décadas de empirismo, por tentativas apressadas de teorização neopositivista, pelos exces- sos do materialismo histórico, ou pelo dispêndio exagerado de energia na tentativa de impor um paradigma sobre os demais. Temos hoje, portanto, uma geografia mais diversificada e não menos polêmica. Por isso mesmo, mais rica.
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