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(1994)

Casanova (1994) classifica os anos 80 como marco para analisar o significado da presença pública das religiões. Considera que o novo e inesperado nos anos 80 não foi o aparecimento de novos movimentos religiosos, mas a revitalização e a participação pública das religiões, contradizendo os prognósticos da teoria da secularização, segundo a qual as religiões se tornariam marginais e irrelevantes no mundo moderno.

Para ele, a afirmação de que a religião é assunto privado é declaração constitutiva da modernidade ocidental. Primeiro porque assinala o fato de que a liberdade religiosa, no sentido de liberdade de consciência é, cronologicamente, a primeira liberdade e a condição prévia de todas as liberdades modernas. E segundo, como a liberdade de consciência está relacionada ao direito à privacidade, que é um dos fundamentos do espírito moderno, então a privatização da religião é essencial à modernidade. Outro aspecto de que a afirmação da religião como assunto privado tem a ver com a modernidade se relaciona com o processo de diferenciação das esferas, ou seja, o processo por meio do qual as esferas seculares se emancipariam do controle eclesial e das normas religiosas.

Retoma a crítica feminista sobre a separação público/privado, em que o feminino estaria localizado na esfera privada e o masculino na esfera pública, para dizer que talvez essa dicotomia representa melhor o significado da privatização moderna da religião, pois classifica a vida social como lugar mais adequado para a religião.”El lugar que la modernidad asigna a la religión es el “hogar”, entendido no como el espacio físico de la casa, sino como “el lugar

permanente de los afectos de la persona”. O lar, segundo o autor, entendido como a esfera feminina por excelência: lugar do amor, expressão, intimidade, subjetividade, sentimentos, emoções, irracionalidade, moralidade, espiritualidade e religião. Compreendido dessa maneira, afirma que a privatização da religião é processo de feminização.

Apoiando-se em algumas críticas feministas13, diz que a feminização da religião teve efeitos empobrecedores sobre os âmbitos privado e público. A religião entendida sob o ponto de vista moral se tornou sentimental, subjetiva e privatizada, perdeu importância pública e se converteu em matéria de gosto individual e privado. Apoiando-se em Benhabib14, mostra limites do modelo liberal com relação ao espaço público: “la necesidad crucial de mantener una clara diferencicación entre las esferas de la legalidad y de la moralidad, a fin de proteger precisamente todas las libertades individuales y el derecho a la privacidad, condujo a una concepción exageradamente jurídica de la división entre lo público y lo privado. (Casanovas, P. 97, 1994). Afirma que está em discussão é a necessidade de reconhecer que os mesmos limites devem estar abertos às controvérsias, às redefinições e às negociações.

Considera que atualmente se assiste à desprivatização da religião no mundo moderno. Por desprivatização entendam-se as novas evoluções históricas que contradizem as tendências seculares, e o fato de que as religiões se negam a aceitar o papel marginal e privado que as teorias da modernidade e da secularização lhes tinham reservado. Negam-se a ficar somente no cuidado pastoral, e não deixam de suscitar questões relativas à

13 Referências do autor: Ann Douglas, The feminization of American Culture, Nueva York, Alfred

A. Kopf, 1977 e Nancy Coot, The Bonds of Womanhood: Woman´Sphere´in new England, 1780- 1835, New Haven, Yale University, Press, 1997.

moralidade pública e privada e discutir assuntos relacionados às demandas do Estado e do mercado.

Isto se expressa no surgimento de movimentos sociais que são de natureza religiosa ou desafiam, em nome da religião, a legitimidade e a autonomia das esferas seculares do Estado e a economia de mercado.

Especialmente o segundo ensinamento diz que leva a repensar as relações entre modernidade e religiões, e especialmente os possíveis papéis que as religiões podem desempenhar na esfera pública das sociedades modernas.

Entende que a tese da secularização não consegue responder às críticas sobre a interpenetração mútua, entre a esfera religiosa e o Estado, mostrando, desta maneira, que as religiões se recusam a aceitar a esfera privada como seu lugar apropriado. Ao contrário, atualmente há a presença destacada da religião no espaço público.

Para ele, o impacto público das críticas religiosas não deveria medir-se unicamente pela capacidade de qualquer religião impor seu programa à sociedade ou suas exigências normativas globais sobre as esferas autônomas.

“En las sociedades modernas diferenciadas es a la vez improbable e indeseable que la religión vuelva a desempeñar una función de integración normativa sistemática. Pero traspasando limites, suscitando preguntas públicamente acerca de las pretensiones autónomas de las esferas diferenciadas de funcionar sin considerar las normas morales o las consideraciones humanas, las religiones publicas pueden ayudar a movílizar a las personas contra tales pretensiones, pueden contribuir al nuevo trazado de las fronteras o, como mínimo, pueden forzar o contribuir a un debate público sobre tales cuestiones. Independientemente del resultado o del

impacto histórico de tal debate, las religiones habrán desempenado un papel público importante”. (Casanovas p. 68, 1994).

Com relação ao catolicismo considera que o Concilio Vaticano 2º trouxe o reconhecimento oficial, tardio, de legitimidade do mundo moderno. “O catolicismo moderno quer ser uma religião intramundana e pública (Casanova, p. 79,1994)”.

Explanando as discussões sobre a separação Igreja/Estado, afirma que o princípio dessa separação pode ser interpretado de várias maneiras. Separação entendida como “separatismo estrito”, que recusa toda e qualquer intromissão governamental, e também qualquer regulação da religião por parte do Estado. O “separatismo benevolente”, que recusa a regulação do governo, mas exige apoio governamental à religião. No lado oposto, se encontra a interpretação “secularista” que, desconfiando das funções negativas da religião, defende a regulação da religião por parte do governo, mas exclui qualquer apoio do governo à religião. A separação “estatal” favorece tanto o apoio do governo como o controle absoluto do governo sobre a religião.

O autor leva em consideração que a necessária separação entre Igreja e Estado é um princípio fundamental dos Estados modernos. E essa separação tem dependido historicamente dos contextos, realidades e como essas relações se têm articulado historicamente em cada lugar. Separação completa, como pensada, não se tem concretizado historicamente, conforme mostra Casanova. Existem diferentes modelos históricos dessa separação. No caso do Brasil, apesar do príncipio da laicidade, a articulação entre Igreja e Estado tem sido caracterizada pela interpenetração.

Para Casanova, ainda que a não-estatização e a separação são necessárias para garantir a liberdade religiosa com relação ao Estado, a liberdade do Estado com relação à religião e a liberdade da consciência individual com relação ao estado e à religião, isto não significa que a privatização seja garantia para estas liberdades.

O reconhecimento por parte do catolicismo do princípio moderno de liberdade de consciência15 foi acompanhado pelo abandono da sua identidade como instituição obrigatória. E a partir do Concílio Vaticano 2º a Igreja Católica, ao assumir o princípio de liberdade religiosa, deixou de ser “a Igreja”. Mesmo assim, ainda se recusa a aceitar o princípio de privatização absoluta da religião e da moral.

Segundo Casanova, na medida em que o princípio legal de separação está fundamentado no princípio moderno de liberdade de consciência, fundamento do direito inviolável à privacidade, sem o qual não pode existir nem um Estado democrático moderno nem uma sociedade civil moderna, então a desprivatização da religião pressupõe a privacidade da religião. E só pode justificar-se se o direito à privacidade e à liberdade de consciência está protegido legalmente da religião. Ou seja, a religião só pode entrar na esfera pública e assumir um papel se aceita e respeita o direito inviolável à privacidade e à inviolabilidade da liberdade de consciência.

Por isso, apresenta três condições que poderiam justificar a presença pública da religião. (Casanova p. 87, 1994).

a) Cuando la religión entra en la esfera pública para proteger no sólo su propia libertad de religión sino todas las

15 A doutrina católica reconhece esse princípio como originado da dignidade sagrada da

libertades y derechos modernos, y el mismo derecho de una sociedad civil democrática a existir contra un Estado absolutista, autoritario. El papel activo de la Iiglesia católica en los procesos de democratización en España, Polonia y Brasil pueden servir para ilustrar este caso.

b) Cuando la religión entra en la esfera pública para cuestionar y rebatir la autonomía legal absoluta de las esferas seculares y sus exigencias de organizarse según los principios de la diferenciación funcional sin tener en cuenta consideraciones éticas o morales foráneas. Las cartas pastorales de los obispos católicos americanos en las que se pone en tela de juicio la “moralidad” de la carrera de armamentos y la política nuclear del Estado, como también la “justicia” y las consecuencias inhumanas del sistema económico capitalista, que tiende a hacer del derecho a la pro- piedad privada un valor absoluto y exige la autorregulación por medio de leyes mercantiles exentas de control, ejemplifican este segundo caso.

c) Cuando la religión entra en la esfera pública para proteger la forma de vida tradicional de la injerencia administrativa o jurídica, y durante el proceso expone cuestiones relativas a la creación de normas y formación de la voluntad a la reflexión colectiva y pública de la ética discursiva moderna. La movilización pública de la llamada «mayoría mo- ral» y la postura pública católica respecto al aborto en apoyo del «derecho a la vida» son ejemplos de este tercer caso.

No primeiro caso, a religião, segundo o autor, contribuiria na constituição de uma ordem política e social liberal. Nos seguintes exemplos a religião poderia apontar, questionar e discutir os mesmos “limites” da ordem política e social liberal. A desprivatização da religião contribuiria para questionar a validade dos princípios e fundamentos normativos no modelo liberal da esfera pública.

Por isso afirma que a desprivatização da religião seria o processo por meio do qual a religião abandonaria a esfera privada para tomar parte nos debates em curso, na esfera pública indiferenciada da sociedade civil. Para ele, a questão não é se a religião é boa ou má para a política, funcional ou disfuncional para o sistema social, o desafio seria trazer critérios analíticos e normativos para diferenciar as diferentes formas de religião pública e suas possíveis conseqüências sociais e históricas.

Para o autor, o fator religioso é um dos que mais dinamizam a interação entre os diferentes âmbitos da sociedade civil e o Estado, pois poderiam levar à esfera pública assuntos que a modernidade tinha relegado à esfera privada. Por isso considera que a religião favorece o desenvolvimento da dimensão critica e normativa da sociedade civil e contribui para manter a distância saudável desta com o Estado.

A partir do seu estudo afirma que a religião tem contribuição positiva para a sociedade, com capacidade de fortalecer e enriquecer a democracia, a defesa dos direitos humanos, as virtudes públicas e a participação política. A religião contribuiria para que assuntos como a bioética e a família possam tomar parte de uma moral pública e não fiquem relegadas ao âmbito de uma ética privada.

Podemos dizer que Casanova torna mais complexo o problema da presença pública das religiões, aprofunda as possibilidades em que esta pode se dar, como também os limites das próprias religiões.

Mas as reações ao texto do autor estão direcionadas às propostas das possibilidades do papel desenvolvido pela Igreja no cenário público.

Há que se ter em conta que a Igreja, como qualquer instituição social, tem interesses a defender. Nos casos estudados, AIDS, células-tronco e homossexualidade, constata-se que a idéia é converter-se em uma referência internacional legitimada na defesa da vida e da moral. Deve-se insistir que a análise não está em questionar a legitimidade da sua participação na esfera pública. O problema surge quando suas posições entram em choque com as determinações do Estado e da sociedade. Seu conteúdo está permeado de visões de mundo contrárias às conquistas modernas. A forma como entende as relações homossexuais e se posiciona com relação a estes, são totalmente contrárias à liberdade individual, como também às visões de mundo e princípios adotados pelo Estado. A defesa da vida conforme abordado pela Igreja Católica é outro assunto que precisa ser levado em conta. Conforme demonstrado na análise do campo empírico com células-tronco, as pesquisas e os estudos revelam novas concepções e compreensões sobre a vida, que se distanciam da adotada pela Igreja Católica. O grave problema é a impossibilidade de diálogo com a Igreja. As discussões sobre a vida devem nortear-se segundo a sua definição, que emana de princípios absolutos e transcendentes.

Há o impasse, portanto. Um mesmo assunto é tratado a partir de fontes diferentes. A Igreja parte de um absoluto: Deus fonte última da vida. Essa perspectiva não possibilita perguntas nem mudanças. Mas quando se toma como referência as descobertas da ciência, instala-se a tensão. Pois a partir das pesquisas novas interrogações aparecem e novas interpretações surgem sobre a vida. Mas conforme Casanova, frente a essa tensão cabe ao

Estado reafirmar o respeito ao direito inviolável à privacidade e à inviolabilidade da liberdade de consciência.

Com relação às discussões em torno do modelo de família, a capacidade de contribuir para o diálogo público sobre assuntos de caráter moral também se encontra limitada. Sua concepção de família tem como base princípios absolutos e fixos, ou seja, a família originada a partir do sacramento do matrimônio, entre casais heterossexuais, com a principal finalidade da procriação. Portanto, considera as relações afetivas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo “anormais”, “patológicas”, “antinaturais”, sem nenhuma possibilidade de serem reconhecidas como modelo familiar. A posição fixa não se deixa interpelar por outras formas de relacionamentos, o que impossibilita o diálogo e a aceitação da sua contribuição.

O modo de interpretar e posicionar-se sobre os direitos dos homossexuais, dos problemas ocasionados pela infecção pelo HIV e pesquisas com células-tronco mostra os limites de uma instituição que parece entender os direitos humanos de maneira limitada e dicotômica: defende com veemência os pobres, a vida embrionária, denuncia as guerras, mas abdica de colocar rosto, gênero e sexo. Sua concepção de direitos humanos não entende os problemas, os direitos, as novas exigências e as propostas surgidas dessas realidades.

Pergunta emblemática: dentro de um Estado democrático é possível tomar como referência ética uma instituição religiosa que abertamente nega princípios fundamentais, como a liberdade de consciência e de escolha, e a autonomia?

Benzer Belgeler