Os depósitos terciários e quaternários do Quadrilátero Ferrífero são representados principalmente pelas bacias do Fonseca, Gandarela, Rio do Peixe (ROCHA, 1998) e Congo Soco (MAIZATTO, 1997). Além desses, têm-se aluviões, colúvios com matacões de minério de ferro, canga, argila e arenito que podem estar associados a materiais de valor econômico tais como a bauxita e caulinita.
Coberturas detrito-lateríticas e depósitos de bauxita
O termo laterita é usado por Dorr (1969) para designar materiais destituídos de estruturas, altamente aluminosos e muitas vezes ferruginosos, que são formados pelo intemperismo residual das rochas. O mesmo autor descreve os depósitos de bauxita como resultantes do processo de laterização nos locais onde a remoção do produto do intemperismo
foi impedida, seja por sua posição no relevo, ou pelo desenvolvimento de uma crosta alumino-ferruginosa. Varajão (1988) mostra que vários autores associam a bauxitização à alteração in situ de rochas sobre as quais se encontram assentadas, dentre essas os filitos dolomíticos, filitos sericíticos, vulcânicas ácidas e rochas ultramáficas.
Estudos mais recentes efetuados por Varajão (1988) e Rocha (1998) revelaram que a laterização apresenta-se de duas formas: material transportado e in situ. Varajão (1988) mostra que os depósitos de bauxita encontram-se em diferentes níveis batimétricos com nítido controle estrutural o que os dissocia das superfícies de aplainamento. A maioria dos depósitos está associada ao Grupo Itabira e para estes foi atribuída uma gênese a partir de filitos dolomíticos. Atribuiu-se uma idade máxima eocênica para os depósitos. Em trabalho posterior Varajão et al. (1990) mostra a existência de superposição de duas unidades argilosas de origem diferentes: uma unidade inferior, produto de uma evolução “in situ” e uma unidade superior alóctone, gerada a partir de perfis lateríticos situados nas vertentes. Conclusão semelhante foi obtida por Rocha (1998) ao estudar as coberturas superficiais da Mina de Capão Xavier. A autora identificou dois conjuntos distintos de material, um argiloso (in situ) e outro ferruginoso (alóctone), cuja formação foi controlada pela erosão diferencial (química e mecânica) das rochas subjacentes pertencentes ao Grupo Itabira. Estes materiais podem atingir, em conjunto, espessuras de até 92 m.
Vale ressaltar ainda a ocorrência dos chamados “mudstones”, designação dada por Dorr (1969) à argila laterítica, não estratificada, com alto teor de alumínio e titânio, contendo grãos arredondados de quartzo com diâmetro de 1 a 3 mm homogeneamente disseminados. Gêneses diversas são propostas para este material, a partir de estudos efetuados por vários autores em regiões diferentes, o que levou Varajão (1988) e Rocha (1998) a suspeitarem da análise de materiais distintos.
Depósitos elúvio-coluviais (cangas)
A canga é um produto de alteração, de espessura variável de 2 a 10 m, consistindo de fragmentos de formação ferrífera, hematita compacta e minoritariamente outros minerais, cimentados por óxido de ferro hidratado. Seu conteúdo de ferro varia em média de 40 a 60%. Dorr (1969) revela que a porosidade varia de muito baixa a valores acima de 50%. No entanto, considera a permeabilidade, de modo geral, baixa.
Ocorre, recobrindo os topos das serras e as encostas associadas principalmente ao Itabirito Cauê e à Formação Gandarela, mas pode estender-se por vários quilômetros sobre formações não ferruginosas, incluindo Complexos Ortognáissicos. As cangas podem ser sobrepostas por solo altamente poroso com fragmentos ferruginosos e demais sedimentos terciários e quaternários como lateritas e mudstone. Foi classificada por Dorr (1969) em três tipos:
1) canga rica – é uma brecha ou conglomerado de hematita compacta cimentada por pouca limonita, com teor de ferro superior a 66%. O cimento preenche total ou parcialmente os interstícios dos grãos, no entanto, a maior parte dos poros encontra-se vazia;
2) canga comum – é constituída por lascas de hematita e fragmentos de itabirito em proporção de 20 a 80% da rocha, cimentados por limonita; e
3) canga química – consiste, principalmente, de limonita cimentando argila e solo ferruginoso. Exibe baixa porosidade e permeabilidade.
A origem da canga é associada por Dorr (1969) ao ferro dissolvido no processo de intemperismo e depositado pela evaporação da água subterrânea, durante as estações secas, que cimentou os detritos provenientes da desagregação das rochas da Formação Cauê.
Como apontado por Varajão (1988) a questão da idade da canga é polêmica e historicamente sempre foi relacionada à idade dos sedimentos terciários Gandarela e Fonseca e, principalmente às interpretações morfogenéticas fornecidas para o Quadrilátero Ferrífero (HARDER e CHAMBERLIN, 1915, GORCEIX, 1876, TRICART, 1961 e BARBOSA, 1960,
apud VARAJÃO, 1988).
Dois tipos de couraça - de platô e de vertente - foram identificados no Sinclinal do Gandarela por Tricart (1961, apud Varajão 1988). O primeiro tipo que recobre a superfície cimeira foi relacionado à idade cretácea, e o segundo, assentado sobre colinas internas do Sinclinal, ao plioceno evidenciando longo período erosivo. Em termos gerais, estas conclusões foram corroboradas por estudos posteriores (LIMA e SALARD-CHEBOLDAEFF, 1981; BARBOSA e RODRIGUES 1965, 1967; apud VARAJÃO, 1988). Entretanto, Varajão (1988) questiona que o posicionamento distinto dos tipos de couraças, em termos de morfologia de relevo e de substrato, poderia ser explicado por uma erosão diferencial e não apenas por ciclos erosivos distintos.
Depósitos lacustrinos
Depósitos sedimentares lacustrinos de idade cenozóica são encontrados distribuídos nas bacias do Gandarela, rio do Peixe, Fonseca e Gongo Soco (MAIZATTO, 2001). Na área específica da pesquisa são descritos por Pomerene (1964) na bacia do rio do Peixe, próximo à Lagoa do Miguelão, depósitos pouco espessos argilosos, contendo níveis fossilíferos.
Estudo efetuado por Maizatto (2001) nas bacias do Gandarela e Fonseca demonstrou que a sedimentação iniciou-se no Neoceno e estendeu-se até o Mioceno.
Depósitos coluviais e de tálus
Correspondem a depósitos compostos por matacões e calhaus arredondados de hematita compacta de alto teor acumulados nas regiões mais baixas das encostas das serras. Espessuras de até 30 m e extensão superficial superior a centenas de metros são relatadas por Dorr (1969).
Depósitos aluviais antigos
Os terraços fluviais, ou depósitos aluviais antigos ocorrem em vários níveis e devem representar sedimentos terciários e quaternários (POMERENE, 1964). Aqueles situados em posição topográfica mais elevada, a cerca de 100 m do nível de base, são formados, de modo geral, por seixos, calhaus e matacões bem arredondados predominantemente de quartzo de veio. Por outro lado, os depósitos localizados 30 a 40 m abaixo são compostos por calhaus de hematita compacta, muito bem arredondados.
Depósitos de enchimento de vales
Correspondem a sedimentos heterogêneos compostos por argila, grãos de quartzo, hematita e limonita com teores de ferro de até 30 a 40%. São pobremente estratificados e podem estar sobrepostos tanto aos depósitos de canga quanto às rochas pré-cambrianas. Sua espessura pode chegar a 100 m.
Ribeiro (2003) aponta a ocorrência de dois depósitos cenozóicos na Mina do Pico controlados, respectivamente, pela direção das camadas e por um dique de rocha metabásica. São formados por blocos rolados de minério compacto, itabiritos, cangas e argilas que gradam para frações mais finas em direção ao topo. A gênese desses depósitos é relacionada pelo autor como decorrente de colapsos e subsidências advindos da redução do volume dos itabiritos sotopostos no processo de alteração supergênica.
Depósitos aluviais recentes
Os depósitos aluvionares não são muito comuns no Quadrilátero Ferrifero em virtude dos cursos d´água encontrarem-se acima do nível de base regional e da intensidade do intemperismo que reduziu as rochas às frações de silte e argila. As acumulações mais expressivas ocorrem a montante de cânions onde rios de primeira ordem atravessam rochas mais resistentes, como acontece próximo a Honório Bicalho, no rio das Velhas, em que há diminuição abrupta do gradiente (Dorr, 1969). As drenagens de menor expressão apresentam depósitos aluvionares de pequeno porte e descontínuos.
Depósitos eluviais
Consistem de fragmentos de itabirito misturados com solo ferruginoso, podendo apresentar até 4 m de espessura e teor de ferro acima de 60%. Foram identificados por Pomerene (1964) na quadrícula de Ibirité, que os nomeou de “rubble ore”, termo que foi traduzido como eluvião no mapa geológico elaborado para o Projeto APA Sul RMBH (SILVA e MONTEIRO, 2005).