2.LAGĠNA HEKATE KUTSAL ALANI ALTARI TAVAN KASETLERĠ
3.2 BoĢ Tavan Kaseti Blokları Katalog No :
A dimensão temporal dos operários e das operárias é construída nas suas experiências cotidianas, porque é na vida cotidiana que os efeitos perversos dos modelos de desenvolvimento ganham sentido e geram sofrimento. No cotidiano, é comum as operárias conversarem com as vizinhas, realizarem as atividades de casa, da fábrica, preparar os alimentos, ouvir músicas, assistirem televisão, brincarem e cuidarem dos filhos.
É na vida cotidiana que a exclusão social toma forma como existência humana (HELLER, 2008). O tempo social engloba os diferentes processos dinamizados pelo espaço e pelo tempo de trabalho e pelo tempo livre. Assim, as experiências temporais desses sujeitos não podem ser vistas apenas das estruturas rígidas do mundo da fábrica, uma vez que, as operárias possuem além do tempo da jornada de trabalho, outros tempos sociais que são
organizados de acordo com as circunstâncias de gênero ou de classe, pois para Heller (2008, p.37):
Só quem tem necessidades radicais pode querer e fazer a transformação da vida. Essas necessidades ganham sentido na falta de sentido da vida cotidiana. Só pode desejar o impossível aquele para quem a vida cotidiana se tornou insuportável, justamente porque essa vida já não pode ser manipulada.
É bom ressaltar que nem todo tempo de “não-trabalho” é considerado um tempo de lazer ou livre, porque o tempo de trabalho não é para as operárias, como o tempo aquele contado dentro do local de trabalho. Neste sentido, os fins de semana, especialmente o dia de domingo, representam para as mulheres operárias da Fábrica Iracema um dia para descansar e fazer as mesmas atividades que já fazem durante os outros dias da semana.
Às vezes, as operárias são chamadas para fazer a hora extra, este fato culmina com o fim das oportunidades de aproveitar o dia de domingo para realização de lazer e descanso. O domingo representa o dia de muito trabalho, pois é o dia da faxina geral: lavar, passar, cozinhar e fazer arrumação geral. Na visão das operárias sobralenses o dia de domingo é aquele disponível para o trabalho diário (doméstico) e quando estão realizando as atividades de casa, as operárias têm como alternativas de lazer ouvir música e conversar.
Na representação das operárias, o domingo é considerado dia de folga costumeira, o dia para a distração e lazer, o dia para dormir e repousar, o dia para viver a preguiça longe das ações rotineiras de todos os trabalhos semanais (trabalho fabril e outros tipos de trabalhos e situações em que predominam o trabalho e o cansaço). Porém, mulher operária não aproveita o dia de domingo para realizarem estas atividades, pois é no domingo que ela habitualmente dispende energia com muitos tipos de trabalho, no seu discurso afirma que o domingo é o dia de colocar as coisas em ordem. No domingo acontece o processo de marginalização das oportunidades de lazer na vida das operárias, neste dia algumas mulheres arriscam brincar, muitas delas lutam contra a maré da hora extra e dos trabalhos do lar e desse modo, o lazer é negligenciado.
Para Macedo (1986), o cotidiano das famílias operárias (especialmente mulheres operárias) é vivido essencialmente em torno do trabalho e no momento em que tem tempo livre, este tempo é gasto em torno de alternativas reduzidas de lazer, quase sempre repetitivas. Alternativas de lazer realizadas pelas operárias sobralenses de forma esporádica são: passeio com a família, visita aos parentes, assistir televisão, ir ao jogo com o marido, ir para banhos
na Serra da Meruoca15, fazer excursão, passear com os filhos, conversar com as amigas, receber visitas de parentes e amigos, ir às festas das colegas. O tempo de não trabalho é utilizado nas demais obrigações, fora do espaço formal do trabalho, como as obrigações familiares, sociais e culturais. Como narrou Safira:
Depois do meu turno de trabalho eu chego em casa muito cansada. Mas ainda tenho que fazer a comida, lavar a louça, dar atenção ao marido, ensinar as tarefas da escola dos meninos. Sempre tem alguma coisa pra se fazer em casa a gente nunca para de trabalhar. O trabalho em casa é pesado, um pouco menos cansativo do que o da fábrica. O meu divertimento é conversar com as colegas da vizinhança. Também gosto de assistir a novela das oito, mas, nem sempre posso fazer isso, porque fico tão exausta que só quero dormir. E amanhã começa tudo de novo. Acho que as mulheres como eu nunca param de correr. (Safira, 23 anos, casada, mãe de dois filhos)
No que diz respeito à narrativa de Safira o lazer é a forma espontânea de conversar com as colegas da vizinhança. A comunicação, o diálogo, o bate papo ou as conversas informais aparecem como atividades corriqueiras na vida dessa operária. Nesse sentido, percebeu-se que esta forma de lazer acontece em qualquer circunstância, por satisfazer os interesses de todos. Andrade (2001) diz que o lazer espontâneo é aquele que acontece por razões subjetivas, de forma natural, não prevista, de relevante valor e espontaneidade.
Safira afirma que o seu divertimento é conversar com as amigas da vizinhança. Este tipo de lazer é realizado como um meio de coesão social porque cria vínculos de ajuda, de solidariedade e reforças as relações sociais. É através da linguagem, da fala, da fofoca que Safira liberta-se do tédio do trabalho. A importância na linguagem nas esferas do lazer feminino define e demarca as relações sociais em vários contextos. Abrams (2001, p.199) afirma que:
A valorização da conversa feminina é uma forma de valorizar a experiência das mulheres e sua percepção de mundo, pois a linguagem é o meio pelo o qual nosso pensamento e, consequentemente, nosso self se manifestam. O livre brincar com as palavras e pensamentos reforça nosso conhecimento da realidade; é um meio de nos apossarmos do nosso mundo.
Vale à pena destacar que a necessidade de lazer - como uma dimensão do lúdico, busca pessoal de satisfação e divertimento das operárias sobralenses - está cada vez mais ameaçada pelas outras atividades familiares e domésticas, como fazer a comida, lavar os pratos, ensinar as crianças. Aqui se percebeu que as mulheres operárias não se beneficiam com o tempo livre.
15 .Os banhos na Serra da Meruoca são práticas de lazer realizadas pelas famílias populares que residem na cidade de Meruoca e de Sobral. Acontecem nos finais de semanas, como forma de divertimento para as mulheres, homens e crianças. Trata-se de pequenas cachoeiras ou corredeiras naturais que aparecem durante as estações das chuvas.
O trabalho realizado no cotidiano é visto como obrigatório e cansativo. As opções de lazer dizem respeito às possibilidades de acesso e controle do tempo livre.
Para Hirata (2002), no caso das mulheres, diferentemente dos homens, nunca se constituiu uma clara separação entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho dado que os espaços da casa e do trabalho permaneceram misturados. Isto porque, no imaginário social, o lugar da mulher sempre foi em casa. Esta representação reforçou o papel secundário da mulher no mercado de trabalho, no espaço público e nas atividades ligadas ao lazer. Esta forma sistematizadora de como se organizou os respectivos lugares femininos no mundo, possui um sentido imposto pela mentalidade patriarcal e pela cultura da divisão sexual do trabalho.
No que tange às operárias da Fábrica Iracema, é comum a ocupação em outras atividades nos espaços e tempo de não trabalho. Entre as mais jovens, aparece uma jornada de organizar e/ou combinar as atividades da fábrica em um turno (de nove horas corrido) e os estudos em um segundo turno e algumas atividades como os trabalhos domésticos, ou ajudar os pais em um pequeno negócio (terceiro turno). Como foi narrado por Jade:
Meu tempo é muito corrido. De manhã eu vou pra faculdade e saio as 11h00min horas. Volto pra casa, almoço quando dá tempo e depois corro pra fábrica. Meu turno é à tarde. Entro de 14h45min até as 22h45min horas. Quando eu posso ou tenho uma folga vou ajudar a mãe no seu comércio lá no mercado. Eu só paro de madrugada quando vou dormir, pois tenho que estudar e trabalhar o tempo todo. Quase não tenho tempo livre pra me divertir com meu noivo. Acho importante estudar para conseguir um emprego melhor, mas é muito corrido o que eu faço. É por isso que muitas garotas desistem de estudar e trabalhar porque não sobra tempo nem pra piscar os olhos. (Jade, 25 anos, solteira).
O tempo de não-trabalho é contado como a existência do tempo de folga, aquele em que os indivíduos se abstêm das demais obrigações de produzirem e sustentarem-se. É nesse tempo que a canalização da energia humana é projetada para todas as suas experiências lúdicas, seus momentos de distrações, conversas, de férias, festas, comemorações, casamentos, aniversários rituais que promovem, em certo sentido, uma enorme satisfação no horizonte da vida humana. Infelizmente isto raramente tem acontecido, pois conforme analisa De Masi (2001, p.299) isto ocorre:
Porque, infelizmente, todas as instituições que cuidaram da gente – a família, a escola e as instituições religiosas – nos prepararam, de uma forma obsessiva para trabalhar, negligenciando a educação para o lazer identificado só como consumo exibicionista, caro e perigoso.
Dessa perspectiva, a questão complica-se ainda mais quando se trata de aproveitar o tempo livre ou quando as operárias sobralenses têm hora de folga. Na maioria das vezes, estas operárias da Fábrica Iracema utilizam o tempo livre (folga) para o exercício de outras ocupações16. Aqui o estado civil e a quantidade de filhos contribuem diretamente para limitar e diminuir o uso do tempo livre. Com efeito, as mulheres operárias sobralenses que não tem filhos conseguem, às vezes, aproveitar as chamadas horas de folgas e usufruírem dos benefícios do lazer, apreciando mais as atividades de divertimentos, por terem mais tempo. Isto se percebeu através das narrativas. Observe a narrativa de Esmeralda:
A gente sai da fábrica só os trapos. E quando chegam as folgas e férias eu me solto. Vou me divertir com as minhas amigas. Gosto muito de curtir, acho que vale a pena fazer tudo de bom: namorar, passear, tomar uns goles, rir e de soltar as frangas. Fora do horário de trabalho eu faço o que quero, e acho que ninguém pode impedir ou falar, se falam de mim eu nem ligo. O que vale é ser feliz enquanto estou jovem. (Esmeralda, 24 anos, solteira)
Em relação à fala de Esmeralda, percebe-se que se destacam várias formas de viver e curtir a vida ou “soltar as frangas”, pois se percebe que, apesar de trabalhar muito na fábrica, mesmo “saindo aos trapos”, ela consegue aproveitar o tempo livre, as folgas e as férias para o lazer. Assim, é importante ressaltar que o caso de Esmeralda se difere dos demais casos narrados em função de ser solteira ou de não ter filhos. Este fato contribui para que ela possa vivenciar com mais intensidade suas dimensões lúdicas.
16 . Durante a pesquisa se observou que as operárias tinham outras ocupações do tipo vendedora, massagista, diarista, manicure, merendeira e costureira. É cada vez mais comum encontrar mulheres trabalhadoras que executam várias atividades para complementar a renda familiar.
Domingo de lazer no Barzinho no Clube (Foto: Márton Gémes)
Por outro lado, as operárias que possuem filhos, sobretudo, aquelas que têm filhos ainda crianças, precisam de mais tempo para se dedicar a eles. Por isso, quase não usufruem o chamado tempo livre, mesmo que o apreciem, não conseguem aproveitar com os próprios prazeres. Elas vivenciam o chamado “tempo de família” e negam ou perdem o tempo pessoal. O conceito de “tempo de família” foi assim descrito por Harvey (2008, p, 188).
O que Hareven (1982) chama de “tempo de família” é o tempo implícito de criar filhos e transferir conhecimentos e bens entre gerações por meio de redes de parentesco pode ser mobilizado para atender às exigências do “tempo industrial”, que aloca e realoca trabalho para tarefas, segundo vigorosos ritmos de mudanças tecnológicas e locacional forjados pela busca incessante de acumulação do capital.
Assim como o tempo de família é aquele em que a mulher vive o abandono do seu ócio para cuidar dos outros, a mulher operária vai transferir boa parte de seu tempo livre para a devoção altruísta aos filhos e maridos. Por outro lado, a operária busca a satisfação de suas pulsões, fantasias e desejos, em um lócus de relações dinâmicas produzidas e incorporadas por meio dos seus ideais de liberdade e gratuidade. No entanto, devido à organização do seu tempo cotidiano imposto pelo trabalho, entrecortado também por um conjunto de obrigações, as mulheres operárias foram forçadas a subtraírem o lazer e sua dimensão subjetiva de suas vidas.
A operária é educada por uma família que vem de um contexto social de baixa renda e ela começa a participar da vida dentro de um processo social que, dificilmente, é diferente do que ela viveu anteriormente. O modo como elas vivenciam e reproduzem a educação na vida familiar, este processo é importante, visto que afeta a sua maneira de viver e de relacionar-se com o mundo. A maneira de se comportar é obtida por meio do aprendizado das tarefas domésticas.
Na visão de McClintock (2003), o trabalho doméstico estava ligado ao desempenho das tarefas domésticas pelas mulheres comuns, ele era realizado pelo esforço de muitas mulheres. Para essa autora, o trabalho doméstico foi a categoria que mais agrupava as mulheres:
A limpeza e o gerenciamento de suas casas exigiam uma imensa quantidade de trabalho e energia das mulheres comuns. Mas a vocação de dona-de-casa era precisamente ocultar esse trabalho. A posição de dona-de-casa se tornou uma carreira em atos invisíveis. A vocação de uma esposa era não só criar uma família limpa e produtiva, mas também assegurar o habilidoso ocultamento de cada sinal desse seu trabalho. Sua vida se desenvolvia em torno do imperativo contraditório de trabalhar e torna invisível esse trabalho. (McCLINTOCK, 2003, p.55).
Na cultura ocidental, a menina é educada para tarefas domésticas, como costurar, cuidar da casa, cuidar dos irmãos mais jovens, cozinhar. Ao receber esse aprendizado, que é uma parte integrante do processo social repassado na formação das mulheres das camadas pobres da população, elas repetem os gestos do trabalho doméstico no trabalho operário. As mulheres se adaptam ao ciclo de vida reprodutiva em uma sociedade em que o seu tempo fora do horário da fábrica ou o tempo de não trabalho (formal) foi transferido para outros setores da sociedade, principalmente esse tempo foi transferido para as atividades e para as obrigações domésticas. Como narrou Diamante:
Eu acordo 05h00min da manhã, faço o mingau para o bebe de sete meses, tomo banho, tomo café. Saio de casa quinze para as seis para o trabalho e volto as 11h00min. Chego a casa e vou ajeitar o almoço do meu marido e dos meus filhos. Ajeito a menina para ela ir para escola e às 13h30min eu volto para a correria do emprego novamente. Eu saio da fábrica as 17h48min, chego em casa faço a janta, faço os serviços de casa, até a noite eu lavo roupa porque durante o dia não tenho tempo. O meu horário é muito corrido, o trabalho é bom, mas muito cansativo e toma muito tempo. E o tempo de folga eu trabalho dentro de casa, penso que tem mais trabalho em casa do que lá na fábrica. (Diamante, 23 anos, casada, mãe de duas filhas).
Nesta narrativa, observa-se que o tempo de lazer de Diamante depende das atividades que ela desempenha ao longo de sua jornada de trabalho. Diamante atribui ao tempo de trabalho a negação do seu lazer. O desconforto do ritmo de trabalho dentro e fora de casa ajusta-se com eficiência de falta de tempo e desequilibra e desorganiza o tempo de lazer e a qualidade de vida da mulher operária.
As trajetórias de vida das operárias, sujeitos dessa pesquisa, estão circunscritas em uma rede de relações sociais tanto dentro do mundo da fábrica como fora dele. A responsabilidade do lar e da educação dos filhos está sob a incumbência das mulheres. Existe uma correlação entre as esferas da divisão sexual do trabalho e da articulação entre o trabalho produtivo na fábrica e o trabalho reprodutivo na família e na sociedade.