Há 25 anos, o Governo do Estado do Ceará, em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), aplica, nas turmas de Fundamental e Médio, o Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE). A partir dessa avaliação, com a geração de dados sociais e demográficos, bem como o resultado das provas, é possível avaliar o estágio de conhecimento dos alunos e analisar a evolução dos mesmos.
O objetivo central da avaliação é construir políticas públicas que melhorem significativamente o ensino cearense, possibilitando que os órgãos vinculados à Secretaria de Educação do Ceará (SEDUC-CE) formulem e reformulem projetos, monitorem-nos e reflitam sobre os resultados, prestando contas à sociedade. Além da SEDUC-CE, as escolas estaduais e municipais, de posse dos cadernos com os gráficos comparativos entre as médias de cada instituição, as escolas da prefeitura e as do estado, podem diagnosticar como está o rendimento de seus estudantes e, por conseguinte,
reorganizar o planejamento pedagógico, buscando ultrapassar os obstáculos identificados pelos discentes. Para tanto, é interessante saber como funciona a prova do SPAECE, quais conteúdos ela abrange e, nesse prisma, qual o papel da leitura e da Literatura nos exames.
No próprio Plano Estadual de Educação há várias referências aos dados gerados pelo Sistema de Avaliação, liberados a todos através de uma plataforma virtual e de forma impressa (livreto confeccionado pelo Caed e direcionado às escolas públicas). A partir desses dados, é proposta a equidade entre as escolas, são analisados os pontos de convergência entre elas e formulados projetos e programas que atuem nas instituições com maior vulnerabilidade social (notadamente as que apresentam os resultados mais baixos na avaliação), a fim de que estas apresentem significativas melhoras, bem como projetos e programas que busquem o avanço das que já apresentam bons resultados, instigando os professores a compartilharem de boas experiências com seus pares (a exemplo do Programa Professor Aprendiz).
Ao longo de, normalmente, vinte questões, todas de múltipla escolha, os alunos são avaliados com base em uma Matriz de Referência. São elementos da matriz: os tópicos (subdivididos em conteúdos, competências e habilidades) e os descritores (habilidades esperadas pelos alunos). Cada questão da prova avalia apenas uma habilidade do aluno, ou seja, é um item unidimensional.
Focalizando a Matriz de Referência de Língua portuguesa, percebe-se a intrínseca necessidade de detectar o nível de relação entre leitores (alunos) e textos. Essa relação, esmiuçada através dos tópicos, é analisada tanto de maneira macrotextual, no que se refere às tipologias e gêneros discursivos, quanto de maneira microtextual, no que diz respeito às relações entre termos e períodos oracionais. Desse modo, desde habilidades como “Localizar informações explícitas” em um texto (exigida no descritor 01 - D1) a “Reconhecer o efeito de sentido decorrente da escolha de palavras, frases ou expressões” (D19), perpassando pelas variações linguísticas e textos verbais e não verbais ou implicações de suporte, são consideradas nas respostas dos estudantes.
Durante toda a Matriz de Referência, o aluno é analisado em dois grandes eixos: o do conteúdo programático e o do nível de operação mental, ambos relativos à série em que se encontra. São, então formulados em formato de tabela, 6 tópicos e 23 descritores. Todos eles investigando a situação leitor - texto. Não há especificidade para textos literários, mas é possível perceber a preocupação com a expressividade em um
dos tópicos (5), o que pode configurar como a possibilidade de se trabalhar com esse material.
Vale ressaltar que a Matriz de referência do SPAECE surge a partir de dois outros documentos estaduais também norteadores para o currículo nas escolas, são eles as Matrizes Curriculares (parte integrante da Coleção Escola Aprendente) e os Referenciais Curriculares Básicos (RCB)10. Tanto as Matrizes quanto os Referenciais são bem mais amplos e, baseados nos PCN e nas Diretrizes, trazem princípios e valores sobre os quais devem se respaldar as instituições educacionais do Ceará. Como afirmam as Matrizes Curriculares, o “desenvolvimento destas, segundo as DCNEM, além de servir de parâmetro para avaliação da educação básica, deve também promover a preparação do educando, tanto para o prosseguimento de seus estudos quanto para sua inserção no mundo do trabalho” (BRASIL, 2009).
Como já dito, as Matrizes Curriculares são mais completas, logo trazem competências e habilidades que abrangem especificamente o texto literário, como
Ler, interpretar e reconhecer diferentes gêneros textuais (literários, jornalísticos, técnico-científicos, instrucionais, epistolares, humorísticos, publicitários, digitais, etc.) associando-se às sequências discursivas básicas (narração, exposição, argumentação, descrição e injunção); [...] Reconhecer a língua materna como veículo de participação social e geradora de significação que contribui para documentação e legitimação da cultura através dos tempos [...] (BRASIL, 2009, p. 7)
No fragmento acima, é notório que além de estabelecer o reconhecimento, a leitura e a interpretação, em todos os documentos, neste, de forma enfática, há o cuidado em perceber a leitura como promotora da cidadania, a partir dos meios expressivos que a compõem.
Desse modo, a Matriz de Referência é o ponto de partida para muitas escolas, principalmente as que ainda não atingiram o nível intermediário de proficiência. Quanto a isso, cabe aqui uma explicação. O SPAECE, a partir dos dados coletados, formula uma escala de proficiência leitora, ou seja, uma escala numérica que indica a média geral do aluno (da escola, do município e do estado). A partir dessa escala, o sistema subdivide os alunos em categorias, que são conhecidas como padrão
10
O documento não se encontra mais disponível para consulta. Até a data desta pesquisa, as escolas recebiam como suporte para o planejamento pedagógico apenas as Matrizes
Curriculares e a Matriz de Referência do SPAECE, ambas possíveis de serem encontradas no site oficial do SPAECE (http://www.spaece.caedufjf.net/matrizes/matriz-curricular/).
de desempenho. É este padrão de cada turma e escola que orienta os professores a elaborarem projetos, com a finalidade de ajudar os alunos a preencherem lacunas na formação do Ensino Fundamental.
Nesse sentido, os alunos que apresentam um menor domínio de textos (mesmo que familiares), interagindo com gêneros do cotidiano e de temática simples, encontram-se no início dessa escala de proficiência, dentro da categoria “Muito Crítico” (atingem até 200 pontos na avaliação). Em seguida, os alunos que, embora tenham avançado, distinguindo fato de opinião e estabelecendo relações lógico-discursivas nos textos, mas que ainda possuem deficiências graves, estão na categoria de “Críticos” (de 200 a 250 pontos na avaliação), merecendo bastante atenção e trabalhos diversificados.
A categoria “Intermediários” (de 250 a 300 pontos na avaliação) já comporta alunos com habilidade mais avançadas em leitura, recuperando informações através de pronomes relativos, identificando regionalismos, diferenciando informações e argumentos num mesmo texto, além de maior proximidade com variados textos (em temáticas e gêneros). Na ponta da escala de proficiência (acima de 300 pontos na avaliação), há os alunos que apresentam o nível “Adequado” em sua relação leitor-texto, ou seja, conseguem, de forma autônoma, criar estratégias de leitura que possibilitem a eles maior compreensão de diversos textos.
É preciso que, não somente os professores, mas principalmente eles, tenham em mente os resultados de sua escola. Assim, poderão agir de maneira consciente sobre os obstáculos de cada série, estabelecendo um planejamento estratégico, a fim de ultrapassar tais barreiras. Neste capítulo, tratamos dos elementos que fundamentam a base legal de qualquer trabalho no âmbito do ensino e da aprendizagem com vistas à leitura. Reiteramos, portanto, que o tema de nossa pesquisa corresponde a uma real necessidade, evidenciada por meio de avaliações externas, ademais propicia o alargamento da cultura leitora dos estudantes, baseada em documentos de caráter nacional e estadual, no que tange ao ensino de leitura de textos literários.