• Sonuç bulunamadı

O conceito de Longa Duração em Braudel parte de todo um questionamento que o autor traz sobre a abordagem do Historiador diante de seu objeto de estudo. Compreende-se que o passado é constituído por uma infinidade de pequenos fatos (batalhas, epidemias, desastres, guerras, alianças, expedições, inventos), mas que estes, tomados individualmente, não constituem a realidade, não abarcam “toda a espessura da história”. Seu método de estudo consiste em decupar o tempo histórico em três diferentes níveis de aproximação. Grosso modo, em sua visão, a ação humana está circunscrita em três esferas, três ritmos distintos. Temos assim, numa primeira aproximação, superficial, a esfera da vida material. Para além desta primeira esfera de aproximação, Braudel cita a conjuntura, ou aquela da nova História Econômica e Social, muito mais ampla, ocupada em ler as oscilações cíclicas dos preços e das atividades econômicas em intervalos de dez, vinte ou cinqüenta anos. A História Quantitativa tem nesta esfera seu campo de estudo. Matematizáveis, as oscilações da economia, no entanto, consistem numa conjuntura que, para serem compreendidas, faz-se necessário um olhar numa escala acima.

Ausentes da análise da História Quantitativa, acima do nível da conjuntura, encontram-se as grandes estruturas, dotadas de amplitude secular. Neste nível estariam as formas mais perenes da sociedade.

Seguindo este enfoque, e fazendo uso dos próprios exemplos de Braudel, as ações cotidianas, como as trocas comerciais ou as aventuras das navegações, compõem a esfera da vida material, de tempo breve, superficial. Estas ações estão inseridas num contexto mais amplo, de expansão ou retração de toda atividade econômica. Perceber as Conjunturas implica em enxergar um horizonte de tempo maior, de algumas décadas. Se aumentarmos a escala ainda mais, olharmos para os séculos, podemos perceber dinâmicas ainda mais profundas – as estruturas, onde ocorre a integração de economias distantes, alinhadas por especulações financeiras, atividades de comércio exterior e bancária, exploração de seres humanos e recursos naturais em terras longínquas129. O Capitalismo insere-se nesta esfera, a qual Braudel chama “Longa Duração”. Olhar esta escala permite ver todo um sistema dinâmico e em lenta transformação.

A influência de Braudel é nitidamente a Geografia. Tal como o espaço Geográfico, o tempo da ação humana, propõe Braudel, é multifacetado, ainda que também haja dialética entre as diferentes esferas, percebidas como distintas quanto ao ritmo. Esta análise da Longa Duração leva o autor a propor seu próprio modelo de Capitalismo.

Já foi citado que o Capitalismo, na visão de Braudel, repousa na esfera das estruturas. Seria algo mais, portanto que as trocas comerciais nos mercados ou nas feiras, ou que a produção dos bens de consumo. O Capitalismo estaria presente no grande especulador, naquele empreendedor que negocia além de suas fronteira, nas relações financeiras que integram regiões com mão de obra escrava como o Brasil e áreas desenvolvidas como o mercado de Amsterdã.

Temos aqui uma primeira característica do Capitalismo braudeliano, ele seria circunscrito a um lugar, e, a partir deste local privilegiado, ele se expandiria para terras distantes.

A visão de Braudel entende o tempo do mundo como espacialmente diverso. Neste aspecto, diferentes complexos de trocas comerciais coabitariam, ao mesmo tempo, a superfície terrestre, isolados, tendo cada qual, sempre uma cidade em seu centro, além de áreas externas de influência. Aquecimento da atividade econômica ou crises, presentes na esfera das conjunturas, ocorreriam simultaneamente no interior de diversos complexos isolados. Operações para além das fronteiras de cada um destes complexos pertencem à esfera das estruturas, da longa duração. Surge, então, uma estrutura macro – o Capitalismo - que

interliga diversas regiões distintas do globo, numa articulação oriunda do centro financeiro dominante.

Braudel também propõe uma dinâmica interna da expansão capitalista particular. Segundo ele como já adiantamos na seção 1.3, o Capitalismo não está preso a um lugar em especial, podendo ter seu centro dinâmico mutável com o tempo. Em sua percepção, o centro do sistema capitalista teria, ao longo dos séculos, migrado em ciclos das cidades italianas nos séculos XIV e XV para a Holanda no século XVI. O ciclo do Capitalismo industrial foi ligado diretamente à Inglaterra ao longo de todo o século XIX, mas mudou seu eixo para os EUA no século XX. Para demonstrar a evolução sistêmica esboçada por Braudel em “A dinâmica do Capitalismo”, faremos uso, além de seu texto direto, da obra de Giovanni Arrighi.

Fiel às idéias de Braudel, Arrighi traz, em seu livro “O Longo Século XX”, de 1994 a percepção de que a Economia Mundo apresenta movimentos cíclicos de longo prazo. Seguindo a datação criada por Braudel 130, ao longo dos últimos cinco séculos, teria havido quatro ciclos sistêmicos de acumulação sobrepostos. Um ciclo genovês entre os séculos XV a XVII, um ciclo holandês, entre os séculos XVI a XVIII, um ciclo inglês, entre os séculos XVIII a XX e um último ciclo americano, nos séculos XIX e XX.

De particular, podemos citar que Arrighi procura conciliar este conceito de ciclos sistêmicos, esfera das estruturas, ao conceito de “Ondas Longas” do Capitalismo, percepção esta que teria norteado também as idéias de Kondratiev e Schumpeter, na escala das conjunturas.

Para explicar a evolução destes ciclos sistêmicos, Arrighi faz uso do arcabouço marxista sobre as fases do Capitalismo. Para Marx, haveria um movimento onde, num primeiro momento, as mercadorias (M) são convertidas em capital, dinheiro (D). Neste momento, ocorre a acumulação de capital. Num momento seguinte, o capital é convertido em mercadorias (fase D-M), é a fase da produção. Os ciclos sistêmicos, no constructo de Arrighi, respeitariam, em grande escala, esta determinação. Numa fase inicial, as nações aspirantes à posição de potência hegemônica, acumulam capital (reverte mercadorias em capital - fase M-D). Num segundo momento, munidas de capital, os revertem e mercadorias, é a fase de produção (momento D-M). A primeira fase (M- D) é a fase da ascensão da nova potência. Neste momento, ela trata de acumular o capital que financiará sua fase produtiva (D-M).

Para Arrighi, em consonância com idéias marxistas, haveria uma tendência natural do Capitalismo à decadência (taxas de lucros decrescentes). Porém, conforme proporia Braudel, num dado momento, um novo arranjo produtivo deformaria esta tendência natural e proporcionaria lucros crescentes a uma nova potência131. Teria início, então a fase produtiva (D-M) e seu período de hegemonia. Tão logo este arranjo organizacional se dissemine, os lucros tendem a se reduzir até uma eminente e inevitável crise econômica. Neste momento, a nova potência hegemônica abandona sua fase produtiva e retoma a uma fase de acumulação (D-M). Esta fase fortemente centrada na acumulação financeira, dá sobrevida à potência do período, mas possibilita a uma nova nação, aspirante a posição de potência hegemônica, a acumulação inicial de capital.

Novamente, uma nova crise ocorre, desta vez provocada pelo acúmulo excessivo de capital (o que pode se reverter em superprodução, ou num excesso de especulação e consequente quebra do mercado financeiro). Neste momento, a potência hegemônica, já há tempos enfraquecida no setor produtivo, vê a nova potência que acumulou capital na fase M-D, dar início a sua fase produtiva (D-M), e , assim assumir a posição de nova potência hegemônica.

Tendo completado um ciclo completo, inicia-se um novo ciclo sistêmico, renovando-se a Economia Mundo.

Tais crises obedeceriam aquilo que Kondratiev descreveu como “Ondas Longas do Capitalismo”, com um ritmo de cinqüenta anos. Em consonância com o pensamento de Braudel, Arrighi vê as crises, esfera da conjuntura, como comuns ao sistema, esfera das estruturas, parte inevitável do Capitalismo e necessárias à renovação deste. Tais crises, cíclicas, pois motivadas pelos movimentos do capital, teriam o poder de demarcar os ciclos sistêmicos, determinando o momento de ascensão e queda de potências hegemônicas. Dependendo do momento em que ocorram, porém suas consequências seriam diversas. Assim, Arrighi classifica as crises em "sinalizadora", quando marca o fim da fase produtiva (D-M) e "terminal", quando marca o fim da fase financeira (M-D) e assinala o surgimento de uma nova potência hegemônica.

Não cabe aqui uma explicação mais alongada de cada ciclo sistêmico de Longa Duração identificado por Braudel e pormenorizado por Arrighi. Podemos, para fins desta dissertação, explicar que, entre crises sinalizadoras e crises terminais, o sistema Capitalista teria migrado seu núcleo de Gênova, fortemente centrada em seu comércio no Mediterrâneo, para Amsterdã, notadamente uma cidade maior e dotada de uma área de influência mais ampla (todo o Atlântico) no

século XVII. A expansão do sistema continua com a migração do centro sistêmico de uma cidade para todo um país. A Inglaterra ascende à condição de núcleo do sistema com a Revolução Industrial a partir do século XVIII. Seu gigantesco império estendia-se numa proporção rara na história. Apesar desta hegemonia inconteste, também a Inglaterra teria experimentado a crise sinalizadora e, por fim, a terminal, momento que o núcleo migrou para os Estados Unidos, uma país de território e população imensamente superior à Inglaterra, e cuja área de influência abrange todo o mundo.

Na Inglaterra, a Revolução Industrial transformaria para sempre a produção e as relações sociais. Estava dado o impulso para que a Inglaterra, que ficara desde a metade do século XVIII acumulando capital com suas atividades manufatureiras e mercantis, abandonasse a fase M-D e desse início a sua fase produtiva (D-M). Este momento de crise, para Arrighi, representa o término da hegemonia holandesa. O mundo via nascer uma nova potência hegemônica, escorada num Estado favorável à burguesia.

A fase produtiva inglesa (D-M) perdurou até a década de 1870. Suas indústrias têxteis asseguraram as mais altas taxas de crescimento econômico do mundo e uma posição de centro produtor que a Holanda jamais desfrutou. Durante todo este período, os lucros foram decrescentes, mas inovações tecnológicas postergaram a crise sinalizadora fim do período, dando novos impulsos lucrativos. Finalmente, em 1873 deflagrava-se uma grave crise econômica. Tem início a grande depressão de 1873 a 1896. Arrighi aponta como causa para esta crise a expansão absurda do capital, do investimento e da produção. Teria havido, assim, uma crise de superprodução. Neste período, a economia européia apresentou deflação e juros baixos. Foi um período de depressão numa época de contínua expansão da economia mundial. Arrighi pontua esta crise como a crise sinalizadora Inglesa. Marca o momento em que a Inglaterra abandona sua fase D-M e concentra-se em atividades financeiras (M-D). Não por acaso, esta é a fase de consolidação do Padrão-Ouro, o que organizava as trocas internacionais e o sistema financeiro da época.

A superprodução levou as nações industriais européias a dependerem de um sistema imperialista para escoar a produção excessiva, e de um sistema financeiro que garanti estabilidade à economia mundial. Corresponde a este período, o impulso imperialista da Inglaterra. Para abrandar a crise de superprodução, o Império Britânico parte em busca de novos mercados consumidores. Nasce um Imperialismo escorado no livre comércio. Apesar

do impulso imperialista, a produção industrial inglesa não se mostrava maior que a de outras nações recém industrializadas (caso dos Estados Unidos e da Alemanha).

Neste momento, para Arrighi, estaríamos presenciando o momento de acumulação inicial (M- D) de duas candidatas ao cargo de potência hegemônica mundial, justamente as duas nações fundamentais para a consolidação do Padrão-Ouro como referência internacional: os Estados Unidos e a Alemanha. À antiga potência, o Império Britânico em sua fase derradeira como país líder, só lhe restaria a espera da crise terminal.

Dentro desse ponto de vista, os Estados Unidos estavam numa posição muito melhor do que a Alemanha. Suas dimensões continentais, sua insularidade e sua dotação extremamente favorável de recursos naturais, bem como a política sistematicamente seguida por seu governo, de manter as portas do mercado interno fechadas aos mercados estrangeiros, mas abertas ao capital, à mão de obra e à iniciativa do exterior, haviam transformado o país no maior beneficiário do imperialismo britânico de livre comércio.132

Feita esta breve explicação teórica, chegamos, finalmente ao propósito desta seção. O início do século XX é novamente, um momento de caos sistêmico. Choque de Imperialismos levam o mundo a uma corrida armamentista, seguida por duas guerras mundiais, regimes totalitaristas e uma crise econômica sem precedentes – a Era da Catástrofe, nas palavras de Hobsbawm133. Assim como fora no início do século XVII, momento em que o sistema necessitava expurgar a velha ordem medieval para se expandir, e demarcar a ascensão de uma nova potência hegemônica, a Holanda. E fora do final do século XVIII, momento em que o sistema precisava expurgar as amarras absolutistas e mercantis, para o surgimento de um novo ciclo de produção industrial e a emergência de outra potência hegemônica, a Inglaterra. Agora o sistema parecia querer expurgar os impérios coloniais e expandir o mercado livremente, além de demarcar a ascensão de uma nova potência hegemônica, os Estados Unidos.

A Inglaterra, já em sua fase M-D final, tem sua crise terminal, e assiste aos Estados Unidos emergirem como nova nação líder, num novo momento D-M. Também emerge desta crise um novo sistema baseado ainda no Estado soberano, mas agora levado ao limite, com o mercado unindo todo o mundo. A nova potência puxou a recuperação econômica mundial nos anos pós Segunda Guerra num ritmo de crescimento nunca antes visto que, merecidamente, levou o título de Era de Ouro do Capital.

No entanto, a reversão na tendência de queda da taxa de lucros seria temporária mais uma vez. Já na década de 1960, as taxas de lucros estariam baixas. A fase D-M já não conseguia

132 ARRIGHI, O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo, 1996, p. 61. 133 Ver HOBSBAWM, A era dos extremos, 1995.

manter o nível de investimento. A crise de 1973 viria a sinalizar a virada na economia americana para a fase M-D final. Arrighi é categórico, a crise de 1973 foi a crise sinalizadora dos Estados Unidos. Esta economia hoje, já estaria em sua fase de acumulação financeira, e assistiria a outras nações passarem por suas fases de acumulação (D-M) inicial.

Arrighi chega a apontar que alguma das economias do Leste Asiático será a nova potência hegemônica a emergir após uma breve crise terminal da Economia dos Estados Unidos. O livro foi concluído em 1996. De todo modo, os ciclos sistêmicos se reproduziriam. Por mais que ocorram crises, o Capitalismo migrará seu centro nervoso e continua a se reproduzir, sempre em busca de um novo patamar.

Dois pontos há que se destacar aqui. Primeiro, merece atenção o fato de que, para Arrighi, a duração dos ciclos é progressivamente mais curta. Assim, o Longo Século XV, Genovês, teria durado 220 anos. O Longo Século XVII, Holandês, teria durado 180 anos, o Longo Século XIX, Britânico, durou 130 anos e o Longo Século XX, Americano, durou apenas 100 anos. Um segundo ponto a se destacar é que Arrighi apresenta um forte diferencial quando comparado a demais autores marxistas que pregam que a tendência de queda da taxa de lucros levaria à decadência perpétua do Capitalismo. Também se diferencia fortemente de Wallerstein, que vê como plausível o a Economia Mundo exaurir todas as periferias até não restar áreas a serem exploradas, o que resultaria no colapso do sistema Capitalista. Assim como os Braudel, Arrighi propõe que o Capitalismo, dotado de um arcabouço de situações, garantiria a renovação do sistema, a perpetuidade e expansão da Economia Mundo e novos impulsos de crescimento sempre.

Benzer Belgeler