A habilitação das mães consistiu de três aulas, com duração média de uma hora/cada, realizadas em um ginásio que apresentava uma piscina aquecida. As aulas para as mães dos alunos Jefer e Tetê foram aplicadas conjuntamente, enquanto a habilitação da mãe da aluna Tetê foi individualizada, pelo fato da mãe ser residente em outra cidade.
O conteúdo programático foi composto por atividades de ambientação ao meio líquido, orientação sobre noções de segurança da mãe e da criança no meio líquido, além de instruções relativas à saída da piscina.
No quadro 12, a primeira coluna da esquerda para a direita corresponde ao número de aulas realizadas, ao passo que as demais colunas correspondem aos conteúdos ministrados. Nesta tabela, as atividades relativas a cada conteúdo estão representadas por meio de códigos (letra e número), os quais foram os mesmo códigos utilizados na descrição completa do programa para as mães (quadro 03 - Habilitação das mães no meio líquido e aos materiais utilizados no PEPA, p. 86).
A habilitação das mães no meio líquido teve como intuito promover a familiarização e a segurança das díades no ambiente, pois partiu-se do princípio de que duas participantes não estavam familiarizadas com o meio líquido (mãe da aluno Jefer e mãe da aluna Tetê).
Durante o processo da habilitação, as mães contaram com o acompanhamento integral da pesquisadora e de monitores. Nesta etapa, coube a pesquisadora a função de repassar e exemplificar ou as atividades propostas no conteúdo programático, além de auxiliá- las em suas dificuldades e necessidades.
As aulas foram formuladas pela pesquisadora seguindo uma sequência lógica de atividades com uma progressão gradativa de conteúdos, priorizando inicialmente por atividades mais fáceis e de maior dependência (mãe realizava a atividade separadamente com a pesquisadora ou então a mãe apoiava-se na parede / borda / escada da piscina), para atividades com um maior grau de complexidade e mais independentes (sem auxílio da pesquisadora e/ou de apoios corporais).
Após constatar-se que as mães já apresentavam maior segurança no meio líquido, foram acrescidas as atividades e os materiais que seriam posteriormente utilizados durante a intervenção com as crianças, a fim de que as mães compreendessem as técnicas e o uso dos materiais para aplicação dos elementos psicomotores em seus filhos.
Quadro 12 – Constituição do programa para habilitação das mães
Fonte: Dados da pesquisadora (2013)
Conteúdo Aula
Entrada na
piscina (A) Deslocamento na piscina (B) corporal para repasse das Base de sustentação atividades(C) Pegadas ou empunhaduras em DD* (D) e DV** (D) Saída da piscina (E)
1ª aula A1 B1, B2, B3 C1 D1; D2; D3; D4; E1; E2;
E3 E1
2ª aula A1 B2, B3, B4, B5 C1 D1; D2; D3; D4; D5; E1;
E2; E3; E4; E5 E1
3ª aula A1 B3, B4, B5 C1 D1; D2; D3; D4; D5; D6;
D7; D8; E1; E2; E3; E4; E5; E6
Em relação a evolução das mães para habilitação do PEPA, foram trazidos alguns trechos das falas contidos no diários de campo (apêndice 05), referentes a primeira aula e a terceira (última) aula. As mães foram questionadas em relação a sensação de entrar na piscina, as principais dificuldades no meio líquido e a importância desta etapa para o prosseguimento das atividades com os alunos:
- Transcrição da fala da mãe do aluno Jefer (caso 01), referente a primeira aula: [...]sinto medo, porque só entrei em piscina quando era mais nova [...]
[...]eu não sei nadar[...]
[...]eu sou baixinha para entrar na parte funda da piscina[...]
[...] acho que o meu filho vai ter menos medo de água (piscina) do que eu[...]
[...] acho que é importante esse trabalho pra gente se sentir seguro e pra conseguir fazer o que você propõe para os nossos filhos[...]
- Transcrição da fala da mãe da aluna Tetê (caso 02), referente a primeira aula:
[...]ah..eu tenho medo [...]
[...]eu nunca entrei em piscina [...] [...]eu não sei nadar[...]
[...] ah, eu não sei se vou conseguir fazer as coisas da aula [...] [...] a minha filha é muito agitada...não sei se consigo [...] [...]acho que as aulinhas vão fazer bem pra ela [...]
- Transcrição da fala da mãe da aluna Lulu (caso 03), referente a primeira aula:
[...]eu não tenho medo, sempre entrei em piscina [...] [...] já fiz aula de natação há um tempo atrás [...]
[...]a piscina é muito funda? Não vou precisar ir no fundo com a menina né? Vai ser difícil de equilibrar ela lá no fundo[...]
[...] tudo que estiver ao meu alcance pra ajudar a menina eu vou fazer [...] [...] acho que ela vai gostar da piscina e dos brinquedos [...]
Diante das falas, foi possível averiguar que as mães dos alunos Jefer e Tetê tiveram receio de realizar atividades no meio líquido, devido ao medo do desconhecido, por não terem vivências neste meio ou por terem experiências muito vagas. Além disto, outros motivos que também causaram receio foram baixa estatura, o medo de não saber nadar e o receio de seu
filho(a) ser muito agitado(a) neste meio. De diferente modo, a mãe da aluna Lulu não demonstrou-se receosa em participar das atividades na piscina, pois revelou que possuía vivências neste meio e que inclusive sabia nadar. Apenas enfatizou que não gostaria de realizar as atividades em sua filha numa profundidade maior devido a instabilidade proporcionada pelo movimento da água.
Após o final da terceira aula, novos relatos foram coletados a partir da fala das mães, a fim de verificar a percepção após o processo de habilitação no meio líquido:
- Transcrição da fala da mãe do aluno Jefer (caso 01), referente a última aula:
[...] nem deu tanto medo assim, porque achei que era mais arriscado [...]
[...]do jeito que a gente fez, primeiro com você me segurando e ajudando, deu pra ficar com menos medo [...]
[...] a piscina é rasa, acho que não vai ter problema. Um filho vai gostar e eu também[...] [...] dá pra repassar as aulas nele sim [...]
- Transcrição da fala da mãe da aluna Tetê (caso 02), referente a última aula:
[...] *medo eu ainda tenho [...]
[...] acho que não vai ter problema [...]
[...] você (professora) vai sempre ficar sempre com a gente na piscina *? Porque sozinha com a minha filha eu tenho medo, ela não para quieta [...]
[...] vou tentar passar as aulas, fazendo sem a Tetê deu certo, mas na hora quando eu tiver ela você tem que me ajudar [...]
- Transcrição da fala da mãe da aluna Lulu (caso 03), referente a última aula: [...] nossa...foi super tranquilo, a piscina aqui é boa. É rasa [...]
[...] a Lulu adora água, gosta de brincar na banheirinha durante o banho. Ela vai gostar [...] [...] passar as atividades eu consigo, o problema vai ser ela querer fazer. Tem um monte de coisas que ela não se interessa em fazer [...]
Segundo as falas coletadas ao término do processo de habilitação no meio líquido, percebeu-se que as mães sentiram-se mais seguras em participar do programa e aplicar os planos de aula em seus respectivos filhos(as).
Pode-se verificar que a mãe do aluno Jefer (caso o1) superou parcialmente seu medo, relatando as formas em que melhor se adaptou nas atividades (com auxílio da pesquisadora).
Já a mãe da aluna Tetê (caso o2) ainda demonstrou insegurança e revelou a necessidade de ter o acompanhamento da professora para execução das atividades. De diferente modo, a mãe da aluna Lulu (caso o3) esteve segura e confiante, frizando que sua filha gosta de realizar atividades no meio líquido quando está imersa na banheira de tomar banho; contudo, a mãe inteira que a maior dificuldade seria a sua filha se interessar pelas atividades.
Remetendo-se a discussão dos dados com a literatura, Maureberg-deCastro (2005) discorre que um programa de estimulação psicomotora aquática alicerçado no modelo educacional deve seguir como parâmetro inicial a avaliação do nível presente de desenvolvimento motor do participante com deficiência, o qual fundamentará posteriormente a conduta preconizada para o desenvolvimento das potencialidades da criança, a fim de facilitar a sua independência no meio líquido e no ambiente que o circunda.
Contudo, a autora salienta que um programa não deve estar baseado apenas na avaliação em si do participante deficiente, mas deve “somar-se aos objetivos da família, pois de certa forma, um programa que envolva a interação dos pais ou de responsáveis com o participante deficiente, pode servir como ponte que ligará muitas outras atividades em âmbito comum na vivência familiar e social” (MAUERBERG-deCASTRO, 2005, p.331). Por meio desta constatação, foi relevante considerar a participação da figura materna como parte integrante do programa, a fim de otimizar os resultados em seu filho(a) com DV.
Sigolo (2001) destaca que a mãe é responsável pela dedicação, cuidado e educação do filho, respondendo pela tarefa de promover a autonomia infantil. Neste sentido, acreditou- se que a participação ativa das mães no programa aquático colaborou e facilitou o processo de aprendizagem motora da criança, a fim de fomentar o entendimento acerca da importância de experiências sensório-motoras precoces que servirão como forma de auto-ajuda para aprimorar o desenvolvimento motor da criança com deficiência visual no lar, na vida diária e no meio social.
Neste ínterim, pesquisas têm apontado que a intervenção envolvendo pais de crianças com deficiência pode contribuir significativamente para a compreensão do desenvolvimento humano, oportunizando-lhes novos entendimentos que sejam úteis para a estimulação e para otimizar a aprendizagem e desenvolvimento da criança (ZAMBERLAN e BIASOLI-ALVES, 1996; CAMPBELL e PALM, 2004; MOTTI, 2005; MEDEIROS e SALOMÃO, 2012).
Motti (2005) presenciou em sua intervenção que a participação conjunta dos pais e filhos nas atividades fez com que eles se surpreendessem com os resultados das habilidades motoras de seus filhos, e de modo geral, as atividades sugeridas permitiram que os pais assumissem um papel ativo na interação com seu filho com deficiência, criando oportunidades
para estar com o filho, de brincar, conversar, estimular e ao mesmo tempo de explorar o ambiente, favorecendo assim, seu desenvolvimento.
Segundo Zamberlan e Biasoli-Alves (1996); Campbell e Palm (2004), Medeiros e Salomão (2012), a orientação aos pais deve fazer parte do planejamento e condução dos programas de intervenção, sendo fundamental a continuidade aos procedimentos nas atividades de vida diária da criança em seu meio natural, de forma a contribuir com o desenvolvimento e impedindo, dentro das possibilidades, possíveis alterações ou desvios atípicos no comportamento da criança com deficiência.
A seguir, será detalhada a constituição das aulas referente a aplicação do PEPA para as crianças com deficiência visual participantes do estudo: