C. Kuramsal Ayrım
4. Karma Nitelikli Görüş
Enquanto corria o ano de 1867, Alexandre Bertrand (1820-1902) se ocupava da direção do recém-criado Musée des Antiquités Nationales. Victor Duruy (1811-1894), por seu turno, atuava como i ist e de l’i st u tio publique de Napoleão III. Já quanto a Ambroise Firmin Didot (1790-1876), ele administrava uma das mais renomadas e antigas tipografias francesas. Em paralelo às ocupações que os caracterizavam, esses três homens de idade e de interesses distintos congregaram esforços para então fundar, com a concurso de quarenta e sete outros notáveis, a AEEG1.
A princípio, a vocação da nova instituição era pedagógica. Em seu estatuto, logo no primeiro artigo, lê-se o seguinte: a Associação encoraja a propagação dos melhores métodos e a publicação dos livros mais úteis para o estudo da língua e da literatura gregas. Ela concede ua toà aà istoà edalhasà eà e o pe sas .à Estabeleceu-se, para dar conta das tarefas administrativas da instituição, uma direção formada por cinco membros eleitos anualmente para as funções de presidente, vice-presidente, tesoureiro, secretário e arquivista. A única regra a ser observada sobre tal composição dizia respeito ao cargo máximo: o vice-presidente deveria suceder ao presidente, ao passo que este não poderia exercer qualquer atribuição na direção da instituição no período imediatamente posterior ao de seu mandato. Quanto às suas atividades científicas, também ao longo de um ano, um comitê formado por vinte e um membros se responsabilizava por deliberar acerca das edalhasà eà e o pe sas . Várias
1 A lista completa dos fundadores da associação inclui ainda Charles Alexandre, Charles Beulé, Michel
Bréal, Charles Brunet de Presle, Emile Burnouf, Antoine Campaux, Alexis Chassang, Charles Daremberg, o barão Jérôme David, Felix Dehèque, Théodore Delyannis, Frédéric Dübner, Émile Egger, Gustave d Ei hthal,àCha lesàGidel,àJulesàGi a d,à“ai t-Marc Girardin, A. M. Goumy, Joseph-Daniel Guigniaut, Louis Havet, Léon Heuzey, Louis-Henri Hignard, Karl Hillebrand, Charles Jourdain, Gabriel-Marie Legouvé, Charles Lévêque, Adrien de Longpérier, Alfred Maury, Constantin Mélas, Emmanuel Miller, Joseph Naudet, Henri Patin, Georges Perrot, Félix Ravaisson, Ernest Renan, Léon Renier, Léon Thénon, Charles Thurot, J. Valettas, Abel-François Villemain, A. Vincent, Henry Waddington, Henri Weil, Carle Wescher e o barão Jean Joseph Antoine Marie de Witte.
109 modalidades de encorajamentos passaram então a ser distribuídas aos futuros e atuais helenistas, abarcando alunos do secundário (alvos dos prêmios de versão grega e de retórica), professores e eruditos (alvos, entre outros, do prêmio Zographos).
Para sustentar tal aparato científico-burocrático, a AEEG dependia da cotização de seus associados, os quais poderiam ser pessoas físicas ou jurídicas (bancos, editoras e instituições de ensino). O artigo 10 de seu estatuto previa duas modalidades de vínculo: enquanto o membro ordinário deveria pagar a cota mínima estabelecida em assembleia, qualquer um que fornecesse uma quantia no mínimo superior a dez vezes esse valor receberia oàtítuloàdeà e oàdoado .àA AEEG nasceu grande, pois, em 1867, ela contava já com 440 associados, dos quais 12 eram doadores2. Em 1888, quando a REG começou a ser publicada, o número de doadores passou a 213, de um total de 682 membros (REG, 1888: xliv-lxiii). Ao final da Primeira Guerra Mundial, mesmo após enormes perdas em suas fileiras, esses números se mantiveram altos, somando 486 membros e, entre eles, 134 doadores (REG, 1920: xvii-xxxv).
Se o tamanho da AEEG, por si só, impressiona, não menos excepcional era a qualidade de seus membros. Entre os pesquisadores franceses, além de praticamente todos os helenistas, aderiram a ela latinistas (René Cagnat, Gustave Bloch), filósofos (Ernst Renan), orientalistas (Gaston Maspero, Émile Sénart), antropólogos (Émile Boutmy), geógrafos (Paul Vidal de Lablache) e, inclusive, pesquisadores ligados a L’Année Sociologique (Antoine Meillet, Henri Hubert, Pierre Roussel, Louis Gernet e Isidore Lévy). Também se fizeram aí representar a École Normale Supérieure, a École des Langues Orientales Vivantes e uma série de agremiações estudantis de liceus e de colégios particulares. Algo similar se deu no plano internacional: Alphonse Willems e Franz Cumont na Bélgica; Jules Nicole e Waldemar Deonna na Suíça; Henry Sayce na Inglaterra; Heinrich Schliemann, Gustave Hirschfeld e Karl Krumbacher na Alemanha; Demétrius Bikelas, Panagiotis Cavvadias e Andréas Andréadès na Grécia. A filiação desses e de outros estrangeiros de maior ou menor renome permitiu que a associação se tornasse um espaço verdadeiramente europeu de discussão e de circulação de ideias.
Mas nem só de uma agenda universitária vivia a AEEG. Parte considerável de sua força provinha mesmo da capacidade de mobilizar contatos e recursos outros. Devido ao prestígio das antigas língua e literatura gregas em fins do século XIX e inícios do XX, não era raro que letrados não universitários, mundanos abastados e políticos se interessassem em ver seus nomes atrelados a ela. Até 1920, a AEEG contou entre seus associados com dois presidentes, Armand Fallières e Raymond Poincaré, bem como com ministros, senadores e deputados, dentre os quais se destacam Victor Duruy, Louis Liard, Théodore Reinach, Victor Bérard e Louis
110 Passy. No mais, dotando a AEEG de ares proustianos, estiveram ligados a ela membros das famílias Rothschild e Bilbesco, um escritor como Anatole France, um crítico literário como Charles Sainte-Beuve, bem como diversos magistrados e comerciantes.
Outra marca indelével da AEEG, esta com duradouras consequências para sua morfologia, foi o lobby favorável ao moderno estado grego que ela exerceu dentro e fora da França. Desde inícios da década de 1820, quando teve início a longa guerra de independência grega contra o domínio otomano, muitos franceses de formação humanística uniram-se para defender o renascimento da nação que, acreditavam eles, havia legado ao Ocidente suas inclinações filosóficas, políticas e espirituais. Alguns dos futuros fundadores da AEEG atuaram nesse sentido já em 1824, por ocasião do estabelecimento do Comité Philellène de Paris. Outros foram decisivos para a fundação da É ole F a çaise d’Ath es um pouco mais tarde, em 1846. A experiência acumulada no contato constante e direto com as elites gregas rendeu frutos para a AEEG. De fato, instituições e professores universitários da nova nação ingressaram nela com entusiasmo. Ainda assim, tal como no caso francês, a adesão da sociedade grega foi além do terreno puramente científico. Um exame das listas de seus membros entre 1867 e 1920 revela que ela contou com o apoio de um rei grego (George I), do Banco Nacional da Grécia, bem como de personagens influentes nos cenários político, econômico e letrado locais (ministros, senadores, deputados, comerciantes, escritores, entre outros).
Para atender um público tão heterogêneo, a AEEG não só promoveu encontros periódicos, como também desenvolveu uma eficiente rede de comunicação interna. Como previsto no artigo dezenove de seu estatuto, uma vez por ano, a princípio na primeira sexta- feira após a Páscoa, os membros afiliados recebiam por correio o convite e os informes relativos à assembleia geral da associação, durante a qual seriam eleitos os novos integrantes de seu comitê científico e de sua direção. Nesses encontros, realizados na sede da instituição em Paris, as contas da entidade eram tornadas públicas, bem como se escutava o discurso do presidente e as divulgações dos trabalhos premiados. Outra modalidade de reunião, esta mensal e ocorrida em uma sala cedida pela École des Beaux-Arts, era voltada à discussão de trabalhos científicos e à apresentação de novos membros. Não menos importantes eram as políticas de comunicação da instituição: desde sua fundação, a AEEG dispunha de um invejável caderno de endereços, disponibilizado aos seus por meio de um anuário impresso, no qual igualmente se encontravam artigos, ensaios, traduções e os resumos de todas as atividades da instituição. Esse formato de publicação subsistiu até fins de 1888, quando foi modernizado e adaptado a um público mais amplo. É a passagem de tal anuário à REG que será discutida a seguir.
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